  Fernando Sabino
O encontro marcado


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 FERNANDO SABINO




0 ENCONTRO
   MARCADO
        32 EDIO
Capa:
GIAN CALVI

Diagramao:
ANTNIO HERRANZ




                       FICHA CATALOGRFICA

            (Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte do
         SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ)

 .         Sabino, Fernando Tavares. 1923-
 S121e        O Encontro marcado, 32a, 33a, 34a ed. Rio de Janeiro,
           Record, 1981.
              285p.          21cm.

               1. Romance brasileiro. I. Ttulo.
 75-0504                                              CDD - 869.93
                                                   CDU-869.0(81)-31




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outra forma de publicao sem autorizao expressa do autor.


Copyright (C) 1956 by Fernando Sabino
"O homem, quando jovem,  s, apesar de suas
mltiplas experincias. Ele pretende, nessa
poca, conformar a realidade com suas mos,
servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o
mundo, conseguir ganhar-se a si prprio.
Acontece, entretanto, que nascemos para o
encontro com o outro, e no o seu domnio.
Encontr-lo  perd-lo,  contempl-lo na sua
librrima existncia,  respeit-lo e am-lo na
sua total e gratuita inutilidade. O comeo da
sabedoria consiste em perceber que temos e
teremos as mos vazias, na medida em que
tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o
mundo.   Neste    momento,    a   solido   nos
atravessa como um dardo.  meio-dia em nossa
vida, e a face do outro nos contempla como um
enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se
percebe em plena treva, pobre e nu. Este  o
preo do encontro, do possvel encontro com o
outro. A construo de tal possibilidade passa
a ser, desde ento, o trabalho do homem que
merece o seu nome."

            (De uma carta de Hlio Pellegrino.)
                                                                      PRIMEIRA PARTE


                                                                      A      PROCURA




                                                                                                    1




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  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes
Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer
receb-lo em nosso grupo.
                                           I -- O PONTO DE PARTIDA




A   CASA   tinha trs quartos, duas salas, banheiro, copa, cozinha, quarto
de empregada, poro, varanda e quintal.
       Que significava o quintal para Eduardo?
       Significava    cho   remexido   com   pauzinho,   caco   de   vidro
desenterrado, de onde teria vindo? minhoca partida em duas ainda
mexendo, a existncia sempre possvel de um tesouro, poas dgua
barrenta na poca das chuvas, barquinho de papel, uma formiga
dentro, a fila de formigas que ele seguia para ver onde elas iam. Iam ao
formigueiro. Um p de manga-sapatinho, p de manga-corao-de-boi.
Fruta-de-conde, goiaba, gabiroba. Galinheiro. A galinha branca era sua,
atendia pelo nome:
       -- Eduarda!
       Ela se abaixava, deixava-se pegar. s vezes punha um ovo.
Quando Eduardo ia para o Grupo, deixava-a debaixo da bacia. Um dia o
pai lhe disse que aquilo era maldade: gostaria que fizessem o mesmo
com voc? As galinhas tambm sofrem. Um domingo encontrou
Eduarda na mesa do almoo, pernas para o ar, assada. Eduarda foi
comida entre lgrimas. , sofrem, mas todo mundo come e ainda acha
bom.
       Desgostou-se, jurou nunca mais ter galinha na sua vida.
       O poro -- trastes e mveis velhos, objetos de outro tempo, uma
mquina de fazer sorvete que nunca funcionou, livros rodos de traa. A
arca cheia de mistrios que mos de criana violavam. Esconderijo de
bandidos. Caverna de piratas. Almas penadas durante a noite. De
repente um escorpio debaixo do tijolo.
       A varanda. De noite, o pai e a me, sentados nas cadeiras de
vime, depois de jantar, conversando. Que conversavam? Eduardo
chegava, mudavam de assunto. Um dia se esgueirou de mansinho at
bem perto, para ouvir. Conversavam sobre ele, Eduardo! Ento j era
assunto de gente grande.
     -- Tambm no  tanto assim -- dizia seu Marciano.
     -- No sei -- dizia dona Estefnia: -- s vezes fico pensando em
lev-lo a um mdico.
     -- Por qu? O menino no  doente nem nada.
     -- Muito nervoso. Fico impressionada.
     -- Luxos.
     Luxos? Eduardo no via luxo nenhum. Era uma coisa dentro de
casa, como outra qualquer: menino acaba tendo de ir para a cama,
galinha acaba sendo comida no almoo.
     -- Rabatacha niquenique babarucha! -- saltou ele, caindo no colo
do pai. Ambos se assustaram:
     -- Que  isso, menino? Coisa feia, escutando conversa dos outros.
No faa mais isso.
     -- Babarucha! -- repetiu.
     -- Que bobagem  essa?
     --  turco.
     -- Quem te ensinou?
     -- Miguel, l no Grupo. Quer dizer nome feio.
     E riu. Os pais riram tambm. Qual, no havia jeito. Filho nico
era assim mesmo.
     -- Aprendeu a ler sozinho.
     -- J sabe uma poro de coisas,
     -- Ontem me perguntou o que quer dizer meretriz!
     -- Leu no jornal.
     -- Precisamos tomar cuidado.
     -- Faz um discurso a, Eduardo.
     Inflamado, o menino soltava a lngua horas seguidas. Quando era
levado para a cama, ainda estava falando sem parar: vermelho, suado,
alinhando palavras sem sentido. A me achava graa, seu Marciano
ficava apreensivo:
      -- Voc mesma  culpada. Ainda incentiva.
      -- To inteligente que ele  -- dona Estefnia sacudia a cabea.
      Seu Marciano punha o palet, pegava a bengala e saa.
      Floripes era a ama. Dava banho em Eduardo, vestia-lhe o
uniforme do Grupo. Um dia Eduardo gritou-lhe de dentro da banheira:
      -- Floripes! Tem um osso no meu pipiu!
      Desse dia em diante a preta decidiu que ele j podia tomar banho
sozinho. Quase sete anos.
      -- No quero. Quero voc.
      -- Est na hora de ir para o Grupo.
      -- Hoje eu no vou.
      -- Vai.
      -- No vou.
      Era agarrado  fora, carregado ao colo. Esperneava:
      -- Voc mesma disse que no me carregava mais. Que eu j sou
homem. No preciso de mulher para nada.
      E arranhava o rosto da ama, desgrenhava-lhe os cabelos. Era
largado no cho, chorando, Floripes ia cuidar da vida. Ficava estudando
a simetria dos ladrilhos do banheiro, preto e branco, preto e branco, o
pai chegava para fazer a barba. Recomeava a chorar.
      -- Por que est chorando, menino?
      -- Porque j sou homem, no quero que ningum me mande.
      -- Homem no chora.
      -- Eu choro.
      E punha a boca no mundo. O pai no se importava, comeava a
rir. Em protesto, Eduardo se despia, ficava nu, saa correndo pela casa.
O pai apanhava a kodak, fingia que ia tirar uma fotografia.
      -- Vou mostrar a todo mundo, voc pelado dessa maneira.
      Ele corria as unhas pelo rosto, arranhava-se at sangrar.
      -- Tira o retrato agora, tira.
      Seu Marciano estacava, impressionado. A me acorrendo, aflita:
      -- No disse?  lev-lo a um mdico. Onde j se viu isso, Nossa
Senhora. Machucar assim dessa maneira.
      No foi ao Grupo, ficou em casa, fez o que bem quis.
      Ento quando no lhe faziam a vontade, era assim: abria a boca e
arranhava o rosto at tirar sangue. Aquilo no podia continuar! Um dia
seu Marciano perdeu a pacincia, deu-lhe umas correadas. Depois foi
sentar-se na varanda, ofegante, aniquilado. Nunca tinha feito aquilo,
seu prprio filho! No adiantou: Eduardo arranhou-se mais ainda e, no
satisfeito, apanhou a lmina de barbear do pai:
      -- Vou cortar os pulsos.
      -- No corta! Me d isso.
      -- Estou desiludido da vida.
      -- Meu Deus! Esse menino anda lendo jornal.
      Seu Marciano passou a guardar as lminas em lugar seguro. Mas
o menino sempre arranhando o rosto. Dona Estefnia era mais prtica:
mandou a Adelaide costureira fazer uns saquinhos de pano, com
cordo. Era s o menino comear e lhe metiam  fora os saquinhos nas
mos, atados pelo pulso. Arranhe agora, se voc puder! Ele no podia,
ficava olhando espantado, nem chorava mais. Um dia saiu correndo e
deu com a cabea na parede. Um galo surgiu na sua testa, a me veio
com a faca, encostou o frio do ao na cabea do menino.
      -- Esse menino, Deus meu.
      Os saquinhos foram abolidos. Eduardo j no se arranhava mais,
bastava ameaar.
      -- Fao uma camisa de fora para ele -- dizia a Adelaide
costureira: -- Uma boa surra dava jeito nisso.
      Eduardo se vingava: a costureira costurando na mquina de
costura sentada na ponta da cadeira, ele passava e com o p puxava o
p da cadeira. Adelaide se estatelava no cho, com um grito de susto:
      -- Ai, meu santo!
      E arrebanhava as suas coisas, a fita mtrica, fechava a mquina,
ia embora.
      -- No volto mais aqui.
      Eduardo imperando dentro de casa, ditando normas: hoje eu vou
ao Grupo! ele dizia! e a me sorria satisfeita: a professora j havia
reclamado. Ah, ? Pois ento po vou.
     -- Sei escrever melhor do que ela.
     Tudo era pretexto: Maria fritou um ovo para mim, no saiu
redondo como eu gosto: no vou. Mame chamou minha merendeira de
latinha: no vou. Qude meu Caderno? Qude minha borracha? Tem
ladro nesta casa.
     Seu Marciano pensava em qu? Seu Marciano fazendo a barba, o
menino sentado no cho, olhando, depois de uma cena: o menino no
queria comer, Floripes queria que o menino comesse  fora, o menino
mordeu a mo de Floripes. Depois veio a me:
     -- Se voc no comer, fica de castigo.
     -- Toma aqui, castigo.
     E o menino fez um gesto. Onde aprendeu isso, menino! Que coisa
feia! No sabe que isso  uma coisa muito feia? No, o menino no
sabia, vira apenas os outros meninos fazerem, estava sabendo agora.
Pois ento, toma! Outro gesto. Uma palmada. O menino foi chorar no
banheiro. O pai, a barba. Choro manso, o pai pouco est se
incomodando.    A    bacia   com   gua   morna;   o   pincel,   o   sabo
cuidadosamente espalhado na face; o aparelho abrindo estradas
caprichosas na espuma. Por que ele insistia tanto em repassar a pele
exatamente onde no tinha mais espuma? Por que fazia primeiro para
baixo e depois para cima? Por que tanta careta? Por que a espuma?
Choro esquecido, o menino ficava olhando:
     -- Se o senhor no fizer todo dia, quanto tempo leva para chegar
at aqui?
     O pai no responde: passa a mo no rosto escanhoado, suspira e
comenta: "Uma de menos". Um dia Eduardo se ver no espelho fazendo
a barba e vai se lembrar disso. O pai estar morto. Seu Marciano morto!
No, seu Marciano ainda no parece que vai morrer. Est vivo, se
preocupa:
     -- Estefnia, esse menino. Voc sabe aquela coisa de nique-nique
babarucha que ele vive falando? Sabe que  turco mesmo, e quer dizer
nome feio?
         -- Quer dizer o qu?
         -- Quer dizer o nome da me. Nassif me contou.
         Nassif  um turco de armazm. Amigo de seu Marciano.
         -- Eduardo  um portento. A professora dele me chamou l, disse
que  para a gente tomar cuidado com ele.  um portento!
         Eduardo ri, sai correndo para a cozinha:
         -- Maria! Eu sou um portento!
         E saracoteia ao redor da cozinheira, levanta-lhe a saia. A
cozinheira no acha graa:
         -- Sai pra l, coisa ruim.
         Eduardo se crispa de raiva:
         -- Maria peituda! Maria peituda!
         Depois vai para o quarto, v o uniforme preparado sobre a cama,
resolve vesti-lo sem tomar banho.
         -- Sabem de uma coisa? -- e experimenta mostrar os dentes no
espelho: -- Hoje eu estou com vontade de ir ao Grupo.




O   GRUPO    era dona Amlia, a professora. A mulher mais bonita do
mundo.
         -- Dona Amlia, eu quero casar com a senhora.
         Declarao a srio, longamente preparada. Na hora do recreio,
todos l fora brincando, dona Amlia sozinha na sala de aula.
         -- Comigo? -- disse ela rindo: -- Voc podia ser meu filho.
         -- A senhora no  virgem?
         Dona Amlia no resistiu, ps Eduardo no colo. Que menino, meu
Deus. Eduardo relutou, quis descer: homem no sentava no colo de
ningum. Ficou excitado com o cheiro de dona Amlia. Milton vinha
entrando e viu:
         -- Dona Amlia beijando Eduardo l na sala, na hora do recreio!
Eu vi.
         Malcia, aprendizado, primeiros desejos:
         -- Passei a mo nas coxas dela.
         As coxas de dona Amlia. Vinha dar a lio, de carteira em
carteira, apoiava o joelho no assento, encostava a perna no menino.
Quando se inclinava para apanhar o lpis no cho todos olhavam para
a linha da cala em V, sob o vestido fino. No recreio as conversas
fervilhavam.
         -- Abriu as pernas.
         -- Ela tem noivo.
         -- Ser que ele enfia nela?
         Milton, mais alto, vesgo, sabido, egresso de outras escolas, j
tinha penugem no sexo, mostrava para todo mundo:
         -- Cuidado, gente, olha o Eduardo: ele  inocente.
         Ofendia-se: inocente uma ova! J sabia tudo. S no podia ainda
admitir que sua me fizesse aquilo com seu pai.
         -- Eduardo, filho de uma pu...
         -- Cachorro! Eu te...
         -- ... rssima donzela.
         Risos. Eduardo reagia, caindo sobre o engraado aos socos. Logo
se organizava a hierarquia das brigas:
         -- Milton ganha do Miguel. Miguel ganha do Paulista. Paulista
ganha do Tartaruga. Tartaruga vai brigar com Eduardo! depois da aula.
         Depois da aula saam em bando. Vai haver briga hoje! Tartaruga
com Eduardo. Corria a palavra de ordem, todos a postos! Iam seguindo
pela rua. Aonde? No, aqui est muito perto. Mais para l. Eduardo
insistia em afastar-se mais. Est com medo? perguntava o Tartaruga.
Medo, eu? e ia descendo a rua, seguido pelo resto. Ao fim de alguns
quarteires o entusiasmo ia passando: vamos voltar, pessoal, eles no
vo brigar nem nada. Tartaruga tambm desistia, dando as costas ao
adversrio. Covarde! sabia que apanhava. Eduardo sabia. Levaria o
Tartaruga at o fim do mundo, se fosse preciso, mas no brigava assim
 toa.
         -- No brigou.
         -- Maricas!
      Isso tambm era demais: o tapa estalou na cara do Milton,
inesperadamente. E a briga foi ali mesmo, no ptio do recreio. Milton,
com quem ningum podia! Eduardo chegou em casa de olho roxo.
      -- Fui suspenso.
      Suspenso, o Eduardo? Batiam no seu filho, deixavam o olho dele
daquele jeito, e ainda era suspenso? Dona Estefnia foi reclamar da
diretora, dona Salom. Dona Salom ouviu calada.
      -- Ele disse que no volta mais -- queixava-se dona Estefnia,
chorosa.
      -- ... se no foi ele que provocou -- ponderou a diretora.
      No dia seguinte Eduardo se apresentava no gabinete:
      -- S volto se ele me pedir perdo. Me chamou de maricas.
      -- Milton, pede perdo a ele.
      -- No peo.
      -- Pede
      -- No peo.
      -- Voc vai ser expulso. Chamo seu pai aqui.
      Milton s temia o pai, um chofer de caminho. Um dia foi
chamado ao Grupo (Milton escrevera imoralidade na parede) e desceu o
brao no filho, na vista de todo mundo. Milton temia o pai.
      -- Assim no, pede direito,
      -- Perdo -- resmungou ele, de cara amarrada.
      -- Pede direito, menino. D a mo ao seu colega, faam as pazes.
      -- Perdo. Que merda tambm!
      Milton foi suspenso uma semana. Quando voltou, disse que
Eduardo ia aprender. Mauro interveio:
      -- Covarde: bate em mim se voc  homem.
      Milton desbancado, Mauro passou a imperar -- amigo de
Eduardo.
      Um dia Milton props:
      -- Vamos beijar a Valders?
      Valders era uma das gmeas -- Valders e Maria Ins --
iguaizinhas, a diferena estava na fita verde ao. redor da cabea. A de
uma, qual? era um pouco esgarada.
     -- L na sala, na hora do recreio. Ela sempre sai atrasada.
     Arranjou dois cmplices e l se foram os trs. Eduardo foi atrs
para espiar. A menina estava distrada, arrumando as suas coisas. De
repente deu um grito: segura pelos dois braos. Milton chegou
calmamente e beijou. Na boca. Eduardo espiava. Os outros beijaram
tambm, ela gritava. Eduardo no beijou, nem chegou perto. Na mesma
tarde, a professora ordenou:
     -- Milton, Tobias, Miguel, Eduardo: apresentem-se ao gabinete.
     -- Eu tambm?
     No gabinete dona Salom indignada, enquanto Valders, toda
trmula, apontava chorando:
     -- Foram eles. Me agarraram  fora, me beijaram.
     -- Fizeram mais coisas, minha filha? -- dona Salom perguntou
ainda,
     -- Fizeram. Milton fez. Os outros s beijaram.
     Eduardo no protestou. Milton foi expulso no mesmo dia, os
outros trs suspensos. Por qu? pensava ele, a caminho de casa. No
beijei ningum. S espiei. Resolveu voltar, ficou na porta do Grupo
esperando. Escondido atrs de uma rvore. Saram todos, saram as
meninas pelo porto das meninas. Saiu Lda -- Lda, a mais bela. A
melhor da classe. E saiu Valders com a irm. Eduardo se aproximou:
     -- Valders, fui suspenso por sua causa. Mentira sua, eu no te
beijei nem nada.
     -- Beijou.
     -- No beijei. No fiz nada, s fiquei olhando.
     -- Por que voc no falou?
     -- Porque eu devia ter beijado. Agora eu quero meu beijo.
     -- Voc est doido? Eu conto para dona Salom.
     -- Pode contar. J fui suspenso.
     -- Sua alma, sua palma.
     -- Valders -- segurou-lhe o brao com raiva -- me d um beijo.
     -- Voc est doido? -- repetiu ela: -- aqui na rua!
      -- Aqui na rua. Naquele cantinho ali.
      Encostou-a no muro, meio  fora, e ela deixava. Ento tentou
beij-la.
      -- Na boca.
      -- Na boca, no,
      -- Na boca, sim.
      Beijou-a na boca, desajeitadamente, depois lambeu os lbios para
ver que gosto tinha: gosto de cuspe. A menina baixou os olhos:
      -- Agora somos namorados -- sussurrou.
      -- No: eu quero que voc me faz um favor, voc faz?
      -- Fao.
      -- Quero namorar primeiro a Lda. Pergunta a ela se ela quer me
namorar.
      -- Estou de mal com voc para toda a vida -- e a menina saiu
correndo.
      Ficaram de mal para toda a vida.
      Lda. Estavam namorando? Ele no saberia dizer: emprestou-lhe
um livro chamado "Travessuras de Juca e Chico". Muito engraado.
Lda leu, achou muito engraado, devolveu com uma manchinha de
manteiga.
      -- Desculpe.
      -- No tem importncia,  para manchar mesmo.
      -- Por que voc no pe uma capa? Eu encapo todos os meus
livros.
      -- Eu no.
      -- Pois eu sim. Sou a primeira das meninas. Voc no  nem o
quinto ou sexto dos meninos.
      Ser o primeiro. Ficava em casa estudando, fazendo exerccio.
Dona Estefnia, estranhando, maravilhada:
      -- No sei o que deu nesse menino. Agora  isso toda noite. Eu
no dizia? Eu no dizia?
      -- Dizia o qu, mulher? -- resmungava seu Marciano.
      -- Que ele endireitava? Verdadeiro milagre.
      Milagre de amor. Amava Lda, mas no ousava sequer pensar em
beij-la. Beijo no era bom assim feito diziam. Amando em silncio. s
vezes se declarava:
      -- Lda, eu gosto muito da sua letra.
      -- Lda, eu gosto muito do seu estojo.
      -- Lda, eu gosto muito.
      De noite, dormia abraado com ela, era bem melhor. Lda
cariciosa, Lda travesseiro. Iniciava-se naquilo que iria ser, vida afora, o
motivo de suas horas mais alegres e mais miserveis: imaginava tudo --
passeios, conversas, piqueniques, banho na piscina. Um dia salvou-a de
morrer afogada. Lda tinha piscina em casa. Lda era toda queimada de
sol, devia ser branquinha debaixo do vestido -- imaginava tudo. Um dia
imaginou um prespio.
      -- Papai, quero fazer um prespio.
      Era Natal. O pai ajudou Eduardo a fazer o prespio -- seu
Marciano mesmo ajeitou o papel fingindo de montanha, serrou madeira,
colocou o espelho, fingindo de lago, com dois patinhos de celulide,
trouxe da cidade as figuras. Eduardo compareceu com dois soldadinhos
de chumbo, espingarda ao ombro, para montar guarda  manjedoura.
Mas a finalidade ltima -- chamar Lda para vir ver -- no foi atingida.
O menino no teve coragem, e foi melhor assim. Na casa dela havia de
ter um prespio muito mais bonito. E achava a sua casa velha demais
para ela: tinha um vidro partido na janela da sala, a pintura do lado de
fora descascando -- a sala de jantar mesmo era antiquada, mveis
velhos e gastos -- era preciso reformar os mveis, reformar a casa e
reformar o mundo, para merecer a presena de Lda. Foi melhor assim.
      -- Este menino  mesmo esquisito -- convenceu-se seu Marciano.
-- Convm a gente nunca discutir com ele. No v que ele estava
dizendo que ainda ontem, no Grupo...
      ltimo ano, ltimo dia do ano: Lda  a primeira entre as
meninas, Eduardo  o primeiro entre os meninos. Por desfastio, j no
queria impression-la assim:
      -- Juro que no queria ser o primeiro.
      -- O que  que voc queria?
      No sabia o que queria, e vida afora se faria cada vez mais infeliz,
agindo como se soubesse. Naquele dia, por exemplo; houve a
manifestao promovida pela diretora, Lda iria ganhar uma medalha
de ouro por ter sido a primeira da classe. Os meninos protestaram:
      -- No fao manifestao.
      -- Para um pedao de lato.
      Eduardo uniu-se a eles, impensadamente, rompendo com sua
deusa. Ganhou tambm uma medalhinha, mas no ligou: preferiu a
gritaria. Lda, desde esse dia nunca mais viu, ficou por isso mesmo.




-- NA NATUREZA nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
      -- Um corpo mergulhado num lquido recebe um impulso de
baixo para cima igual ao peso do volume do lquido deslocado.
      -- No  fluido, no?
      -- No:  lquido. Lquido e fluido  a mesma coisa.
      -- Olha o bobo. Lquido e fluido a mesma coisa?
      Discutiam:
      -- Manteiga  slido, lquido ou gasoso?
      -- Ento me diga quem foi Laplace.
      -- Laplace foi o da banheira.
      -- Da banheira foi Arquimedes, seu.
      -- E o da ma?
      -- Da ma foi Newton.
      -- Ento quem foi Laplace? Diga voc.
      -- Foi o da gota de azeite.
      Hemisfrios de Magdeburgo, dois cavalos puxando no con-
seguiam separar. Conjuga o verbo pelocupar no condicional. Ilhas do
Japo: Sakalina, Yeso, Nipon, Sikok, Kiusiu, Fujika e Mozaka. Fujika
Mozaka era a japonesinha da turma B, jogava vlei, no era ilha do
Japo. Anos mais tarde seria assassinada pelo marido em Lafaiete:
Mauro e Eduardo, j homens, veriam o retrato no jornal, se lembrariam.
Agora ainda so meninos, esto voltando do Ginsio.
     -- Mauro, ns somos sbios pra burro. Se Plato ressuscitasse,
sabia muito menos coisas que a gente, havia de ficar besta.
     -- Ele no sabia que a terra  redonda, uai.
     Provas da redondeza da terra: um navio se afastando pelo mar, o
mastro sumia por ltimo. Tomemos por exemplo uma laranja. O Golfo
de Biscaia onde fica? La maison du voisin est vaste et commode.
Sujeito, predicado e complemento, H2O. Lenidas nas Termpilas,
melhor! combateremos  sombra. Que  anacoluto?  a soma do
quadrado dos catetos. Qui quae quod, o sertanejo  antes de tudo um
forte. Mauro, herico, trepado no muro do ptio:
     -- "A vem o general Valdez bloquear a cidade de Leide! A vem a
guerra mais desumana, mais carniceira e mais daninha de que h
memria nos sculos dos sculos!"
     E dali de cima cuspiu no Macednia (Alexandre Macedo), que era
menor, no podia com ele. Eduardo tomou as dores do Macednia.
Rolaram na poeira, engalfinhados, trocaram sopapos e pescoes,
durante meia hora. Afinal o Macednia, que era o juiz, decidiu que a
briga terminava empatada, por estar na hora de ir para casa. Suados e
sujos, uniformes em frangalhos, foram para casa, pela mesma rua,
guardando ressentida distncia um do outro, como se no se
conhecessem. Antes de chegarem, porm, o inesperado: instintivamente
se aproximaram, e, de sbito, sem uma palavra, abraaram-se em
silncio. Depois, sentados no meio-fio, sem dizer nada, comearam a
chorar. Um dia, depois de anos e anos de convivncia diria, se
lembrariam daquele momento, e no saberiam sequer que fim levara o
Macednia.
     Jadir morava na casa dos fundos. Com ele Eduardo jogava pio,
bola de gude, empinava papagaios. Esse Jadir no era boa coisa -- a
me dizia. No convinha ficar andando com ele. O pai dele bebe. A me
vive por a. Pois o que dona Estefnia no via que no convinha era
andar com Afonso. Afonso era mais velho, usava cala comprida e,
ainda assim, brincava com os meninos do Grupo, menores do que ele.
Jadir tambm era mais velho, mas s na idade, e, com Afonso, era
diferente.
      Foi ainda no tempo do Grupo: brincavam de esconder, Eduardo
foi se esconder debaixo da escada da cozinha. Jadir era o pegador -- ali
no o descobriria, havia uns caixotes -- Afonso j se escondera atrs
dos caixotes.
      -- Eduardo, vem c, vem. Aqui ele no pode te ver.
      Ficaram juntos, e Afonso quis abusar dele. Cedeu at certo ponto,
depois no deixou mais: no sabia nada, mas era qualquer coisa de
repulsivo.
      -- Deixa -- sussurrava o outro.
      -- No. Depois.
      Afonso passou a persegui-lo. Toda hora aparecia em sua casa.
Eduardo      relutava,   inventava   pretextos   --   e,   enquanto   isso,   ia
aprendendo no Grupo as coisas da vida. A primeira que aprendeu foi
que era uma vergonha fazer aquilo. Digno do maior desprezo, da
zombaria dos colegas. Silvinho era. Viviam bulindo com ele, no
deixavam o pobre em paz. Delicado, todo cheio de coisas. Eduardo era
delicado, mas no era cheio de coisas.
      -- No deixo, j disse.
      -- Se voc no deixar, eu conto.
      -- Conta o qu?
      -- O que voc j deixou.
      Escondia-se atrs do armrio, Afonso procurando-o por toda a
casa. A me o denunciava:
      -- Eduardo, Afonso est a, veio te visitar, voc se escondendo
dessa maneira.
      -- No gosto dele.
      -- Por qu, meu filho? To bom, to educado que ele . Em vez
disso, esse Jadir...
      -- Jadir  meu amigo. Afonso no .
      -- Mas por qu, meu filho?
      -- Porque no sou fresco.
     Dona Estefnia no entendeu bem, contou a seu Marciano. Seu
Marciano, por via das dvidas, cortou aquelas visitas do Afonso --
muito grande para ficar andando com nosso filho. Dona Estefnia no
entendeu bem.
     Afonso fizera alguma coisa com ele? No fizera? O prprio
Eduardo no entendia bem. Trancado no banheiro, excitava-se  idia
do que meninos como Afonso podiam fazer.
     As coisas da vida eram tristes: pecados, misria, doenas,
mulheres da vida. Um dia, algum surgiu no Ginsio com um recorte de
jornal que correu de mo em mo: todos riam, maliciosos, passavam o
anncio para frente: anncio de remdio contra uma doena. O que
vinha a ser aquela doena, Eduardo no sabia: imaginava. Z Gomes
apareceu arrastando a perna no corredor do Ginsio, mas se
perguntavam o que Z Gomes tinha, ningum respondia, limitavam-se a
sorrir, e a se cutucar, apontando: l vai ele. Foi na empregada. Eduardo
tambm sorria, mas no entendia bem: que teria Z Gomes?
     -- Z Gomes, o que  que voc tem? -- perguntou um dia.
     -- Voc  muito criana para saber essas coisas.
     -- Criana nada, tenho onze anos: foi na empregada, no foi?
     Z Gomes sorria, superior, e se afastava, capengando. Todos
acabavam pegando, mais dia, menos dia. Era o que diziam. Eduardo
afetava naturalidade, mas ficou impressionado. Lembrou-se do anncio:
Z Gomes estaria usando aquele remdio? Por causa de um anncio
desses apavorou-se, certa vez, pensando estar com catarro na bexiga.
     -- Mauro, me aconteceu uma coisa horrvel -- confessou ao
amigo: -- Estou com catarro na bexiga.
     Mauro riu. Sabia mais do que ele:
     -- Voc est virando homem. S isso. Olha aqui, j tenho pedra
na maminha.
     Aprendia uma poro de coisas: puberdade, masturbao. Vou
masturbar-me -- disse para si mesmo, compenetrado, no dia que
aprendeu essa palavra, e trancou-se no banheiro. Andava bem vestido,
terninhos elegantes que a me comprava na casa Guanabara, meia
trs-quartos, sapatos de duas cores. Um retrato de Ronald Colman na
"Cena Muda", de sobretudo com gola de veludo, cachecol, cartola e
bengala era ser homem: passou a usar o cachecol do pai -- seu
Marciano no se importava. Ia passear na Praa, lanava olhares para
as meninas. Onze anos? Algumas tinham treze e eram belas, eram
mulheres. Namorar era sair do footing, e ir passear do outro lado,
sozinho com a menina, sentar-se com ela na matin do cinema. Quando
segurasse na mo, estava ganha a batalha, vinha contar para os outros;
j estou segurando na mo.
      Mariinha, irm de Jadir -- o pai bebia, a me vivia por a, no era
companhia para ele. Com Mariinha, dona Estefnia podia ser que
tivesse razo. Dentro da garagem, dentro do carro do pai dela, que vivia
bbado:
      -- Mariinha, deixa pr em voc.
      -- Eu tenho medo, Eduardo.
      -- Ento segura.
      Conheceu Letcia num passeio de bicicleta. Marcou encontro para
de noite. Letcia foi. Perto da casa dela, que era perto da Rdio
Emissora. Passou a encontrar-se toda noite com ela -- dizia, em casa,
que ia  Rdio Emissora.
      -- O que  que esse menino tanto faz na Rdio Emissora? --
inquietava-se a me. Em vez de estudar, toda noite...
      Acabou indo mesmo  Rdio, em companhia de Letcia, para
assistir aos programas. Depois, saa com ela de mos dadas -- beijo,
no, ela no deixava, ele no insistia. Letcia era diferente, Eduardo
amava Letcia.
      -- Eu te amo para o resto da vida.
      -- Eu tambm.
      -- Ento escreve isso aqui, na minha caderneta.
      Letcia escrevia: "eu te amo...
      -- Eternamente.
      -- ... eternamente para o resto da minha vida".
      -- Agora assina.
      Letcia assinou.
      -- Olha minha me na janela.
      Eduardo tinha medo, queria fugir. Mas a me de Letcia acenava
para eles.
      -- No tenha medo.
      A me de Letcia era diferente, falava umas coisas engraadas,
deixava que a filha namorasse. Eduardo fazia planos para o futuro.
      -- Quando eu crescer, vou ser artista.
      -- Artista de qu?
      -- No sei: artista.
      No Ginsio, o professor de portugus dizia que ele era o melhor
em portugus.
      -- Voc tem jeito para redao.
      Comeou a escrever contos policiais, mostrava ao professor.
Passara-se para os romances policiais: gostava de Malpas, o assassino,
que, no fim, era o prprio detetive. De Fu-Mauchu no gostava, tinha
medo. Os contos no eram de fazer medo, eram de fazer chorar o
professor de portugus:
      -- Pode estar muito bom, Eduardo, mas voc precisa aprender
portugus. Olhe aqui: "entre eu e ele..." Entre eu, seu Eduardo!
      "Entre eu e ele se estabeleceu logo uma misteriosa suspeita de
que o fio da meada finalmente se deslindava graas  argcia do
inspetor John, da Scotland Yard..." O inspetor John, ou Jimmy, ou
James, era sempre alto, forte, simptico, de 22 anos de idade. Entrava
pela Baker Street, saa em Trafalgar Square, passava pelo Soho,
acabava no West End.
      -- No posso mais escrever sem uma planta de Londres --
reconheceu, afinal.
      E abandonou a Scotland Yard com seus inspetores, em busca de
novos heris. Seus heris, at ento: aos dez anos, Sherlock Holmes,
Rafles, Tom Mix; aos onze, Tarzan, o Rei das Selvas; aos doze,
Winnetou, Cacique dos Apaches; aos treze, os inspetores da Scotland
Yard. Aos quatorze trocaria todos pelos da vida real: Jack Dempsey,
Friedenreich, Lindbergh. Entre a vida real e a literatura, preocupado em
escrever, aprender portugus -- o professor dissera. O professor era
poeta, tinha noventa sonetos prontos, quando completasse cem
publicaria um livro.
      -- Noventa sonetos? -- os meninos se admiravam.
      Nunca quis ser poeta, nunca escreveu um verso: noventa sonetos
era demais, tudo rimado e metrificado. O professor s queria assim, era
contra os futuristas:
      -- Olhem aqui, vejam se isso  poesia: " preciso fazer um poema
sobre a Bahia... Mas eu nunca fui l". Vejam este outro: "Caf com po,
caf com po, caf com po, caf com po..."
      Os meninos riam.
      -- Agora vejam: "A lua banha a solitria estrada..."
      E, para acabar, "a lua a solitria estrada banha". Reparassem: no
princpio a estrada ainda vazia, eles vinham vindo, os fidalgos, de volta
da caada, as trompas soando, o remanso da noite embalsamada.
Depois, eles passam, alegres, rindo, cantando, e agora j passaram,
foram para o lado de l, portanto a lua no banha a solitria estrada. A
lua a solitria estrada banha... Quer dizer que mudamos de posio, de
pers-pec-ti-va! At isso o soneto tinha. Para tanto era preciso conhecer o
lxico.
      Eduardo resolveu conhecer o lxico. Gramtica Expositiva.
Escrever Certo! Questinculas de Portugus. Escreveu um artigo sobre
colocao de pronomes no jornalzinho do Ginsio, que terminava assim:
"Os pronomes, nunca os pomos onde estamos". O professor achou
original, embora dissesse que o final era um tanto galhofeiro, no
chegava a ser um plgio, era uma pardia.
      Cndido de Figueiredo, Moraes, Aulete, J. J. Nunes eram, agora,
os seus heris. Abriu vo sobre a gramtica histrica, as origens da
lngua portuguesa: " ponto incontroverso e indiscutvel que a lngua
portuguesa se originou do snscrito..." Depois, surgiu o latim: latim
clssico e latim popular. Por exemplo: ctedra e cadeira. Sstoles e
distoles, toda palavra comeada em al vem do rabe -- h excees.
Hirondina deu o qu em portugus? -- perguntaram-lhe na maratona
intelectual, promovida pelo Ministrio da Educao. Tirou o segundo
lugar, empatando com Mauro; um judeuzinho de outro colgio tirou o
primeiro. Tema da dissertao: minhas leituras prediletas. Abro o livro
de minha leituras prediletas, que tem por prefcio a cartilha... Lastimou
no ter usado a palavra prolegmeno. Foram receber o prmio no Rio,
um conto de ris dividido em dois: quinhentos para cada um. Mauro foi
acompanhado de um tio, Eduardo foi s: disse em casa que iria
acompanhado do tio de Mauro. No quis ficar com eles no Hotel
Avenida: no precisava de ningum, ficaria no hotel que bem quisesse.
Quis o Hotel Vitria, no Catete.
      -- Depois seu pai vai dizer -- queixou-se o tio de Mauro.
      -- Meu pai no vai dizer.
      Entrega de prmios no salo nobre do Ministrio. O ministro
chamava um a um pelo nome.
      -- Aluno Eduardo Mariano.
      Eduardo no foi.
      -- Vai, Eduardo -- Mauro o cutucava: --  voc.
      -- No sou eu: meu nome no  Mariano.
      -- Eduardo Mariano!
      -- No vou.
      -- No  voc? -- perguntou o ministro.
      -- No: meu nome  Marciano. No esquea nunca mais.
      Anos mais tarde, Eduardo encontrou o ministro numa livraria. J
se conheciam, o ministro nem era ministro mais. Eduardo lembrou-lhe
o episdio, o ministro havia esquecido. Dante no esqueceria: dizem que
Dante, quando era menino, lhe perguntaram: Dante, qual  o melhor
alimento? para provar sua memria extraordinria. Ovos, respondeu
Dante. Anos depois, Dante j homem, lhe perguntaram apenas: como?
E Dante respondeu: fritos. Gostava dessa anedota, queria ser igual a
Dante.
      Viu o mar, achou muito cinzento e opaco. Andou pelas ruas,
tomou sorvete de pistache, foi ao cinema, comprou um terno de cala
comprida, deixou que Mauro e o tio se fossem, recusou-se a voltar. Para
no ser encontrado, passou-se para o Hotel Elite, onde, em vez de
quinze, pagava treze mil ris por dia. Com refeies. Um dia encontrou
uma formiga no arroz:
      -- Olha aqui, tem uma formiga no arroz.
      -- Por este preo o que  que o senhor queria?
      Em todo caso, gostou de ser chamado de senhor pelo garom, um
japons, gostou da ironia do japons. Por aquele preo, era lgico, era
justo, no podia querer que tivesse outra coisa no arroz, seno
formigas. Riu sozinho, concluiu que na vida  preciso ter ironia.
      Ao fim de quinze dias de vagabundagem, o dinheiro acabou. Saiu
pela rua, mo no bolso, sentindo que naquele momento comeava a
viver. Pobreza, fome, misria -- tudo era preciso, para tornar-se
escritor. Escrevera um conto em que dizia isso, mandara para um
concurso de contos. No Largo do Machado pediu para ver um exemplar
da revista -- pronto, l estava seu conto premiado no concurso. Cem
mil   ris.   Comparea      redao   para    receber...   Compareceria
imediatamente.     E a pobreza, a fome? Na vida tudo seria assim, a
soluo se apresentando imediatamente, mal comeasse a busc-la,
gozando ainda as dificuldades do problema? Na vida tudo lhe seria
assim.
      No tinha dinheiro nem para o bonde, foi a p do Largo do
Machado  Praa Mau.
      -- Voc  muito precoce -- disse o diretor, quando soube que ele
no tinha nem quinze anos.
      No agradeceu, ficou na dvida: no sabia o que queria dizer
precoce.
      Voltou ao hotel com o dinheiro, mas no chegou a entrar: na
porta encontrou seu Marciano.
      -- Voc mata seu pai, menino.
      At  polcia seu Marciano fora, quando soube que o filho se
mudara de hotel.
      -- Que  que voc ficou fazendo aqui?
      -- Eu? Nada. Passeando.
      -- E suas aulas? E sua me? Ento  assim que se faz?
      -- Ganhei cem mil ris, olha aqui. No concurso.
      -- Que concurso?
      Seu Marciano foi com ele  esquina, no queria acreditar.
Comprou a revista, comprou dez exemplares.
      -- Voc pode ser escritor -- disse-lhe  noite (seu Marciano
resolvera ficar no Rio um ou dois dias com o menino) -- mas tem de
estudar primeiro. Ser escritor  muito bom, mas ningum vive disso.
Quero voc formado. Eu no me formei, e me arrependo muito.
      Seu Marciano dormindo na cama ao lado -- usava camisa de
meia debaixo da camisa, tinha plos brancos no peito e nas costas,
tirava a dentadura para dormir. Seu Marciano roncava . Pai da gente 
assim mesmo -- pensava Eduardo.
      Passearam pela cidade, foram ao Po-de-Acar. Seu Marciano
conhecia o Rio mas nunca tinha ido ao Po-de-Acar. Voltaram de
trem para Belo Horizonte.
      -- Voc precisa estudar. Ser alguma coisa na vida.




QUANDO dona Estefnia viu o filho, abraou-o e ps-se a chorar:
      -- Meu filho! Fazer uma coisa dessas com sua me.
      Letcia tambm chorou:
      -- Voc foi para o Rio sem se despedir de mim.
      Letcia mudara-se para o bairro de Santo Antnio. Era de tarde no
bairro de Santo Antnio, passeavam de mos dadas. Ao longe o sol se
escondia no horizonte de Belo Horizonte, cu arroxeado. Aquela hora
deixava Eduardo triste: crepsculo era coisa triste. No respondeu. As
sombras dos dois se alongavam, compridas e finas, como as de duas
rvores. Letcia diferente, seu corpo ia-se transformando, os peitinhos j
sobressaam na blusa de jrsei, modos de mulher.
      -- Letcia -- Eduardo parou, segurou-a nos ombros: -- Estou
triste, eu queria... Eu queria...
      -- Fala -- a menina o olhava com ternura, emocionada,  espera.
      -- No sei -- seus olhos se encheram de lgrimas.
      -- No fica assim, meu bem.
      -- Tudo  to ruim, Letcia. Tudo to triste.
      Abraou-se a ela.
      -- No fique triste. Voc est comigo.
      Beijaram-se pela primeira vez. Eduardo se sentia tonto, alguma
coisa estalava e rompia no seu corao:
      -- Letcia, que ser de mim, Letcia, responde! Que ser de mim.
      Naquela mesma noite dizia a Jadir, seu amigo, que morava na
casa dos fundos:
      -- s vezes tenho vontade de morrer.
      Jadir riu. Jadir agora era mais velho do que ele, andava de terno
e gravata, trabalhava para o pai, j conhecia mulher:
      -- Voc teria coragem de suicidar?
      -- Suicidar? -- e Eduardo se compenetrou: -- O suicdio  uma
covardia. A menos que...
      -- O qu?
      -- A menos que voc faa alguma coisa. Por exemplo: eu, se
tivesse de suicidar, antes havia de fazer uma poro de coisas, um
estrago louco. Matava o presidente da Repblica, qualquer coisa assim.
Morria, mas passava para a Histria.
      Pensou um pouco, seus pensamentos ganharam nobreza.
      -- Ou me oferecia para experincias, piloto de provas, para
mrtir. J que queria morrer mesmo...
      Jadir ficou pensativo:
      -- No adianta...    Quem quer morrer mesmo, no pensa em nada
disso, s pensa em morrer.
      No dia seguinte -- era de tarde -- estava com Letcia na esquina
da casa dela, ainda com uniforme do Ginsio, Mauro apareceu
correndo:
      -- Eduardo! Ainda bem que te encontrei! Passei na sua casa.
      Mauro ofegante, nervoso, excitado. Eduardo sorriu, com o ar de
homem que costumava ostentar ao lado de Letcia:
      -- Que  que aconteceu, rapaz?
      -- Vim te avisar: Jadir suicidou! Passei na sua casa, sua me me
contou.
      -- Minha me? Jadir? Suicidou?
      Letcia comeou a chorar.
      -- Espera a, menina, no chora no. Mas, o Jadir? Que histria
 essa?
      -- Ela estava saindo para l. Me pediu que te chamasse.
      -- Ela quem? Para onde?
      -- Sua me. Para a casa do Jadir.
      Eduardo se despediu de Letcia e se foram os dois, quase
correndo. No caminho Mauro contou, gesticulando:
      -- Diz que deu um tiro no peito com o revlver do pai.
      -- Mas por qu, meu Deus? Ainda ontem... Ns vamos l?
      -- No sei...
      Seguiram para a casa de Eduardo, ficaram na varanda. No
conversavam: a idia da morte os fazia mais velhos. Na hora do jantar,
chegou dona Estefnia -- vinha de vestido preto, estava diferente, muito
sria, cara fechada:
      -- Eduardo, hoje voc no sai.
      -- Mame...
      Ela no lhe deu mais palavra, foi entrando. Eduardo seguiu-a:
      -- Mame, eu tenho de ir l?
      -- Mais tarde. Agora, me ajuda a passar umas cadeiras por cima
do muro. Seu pai est do lado de l para segurar.
      Passaram as cadeiras para o quintal da casa de Jadir.
      -- Agora, vai trocar de roupa. Veste seu terno azul-marinho. Pede
 Maria para lhe dar jantar e, depois, vai se encontrar comigo l.
      Dona Estefnia no disse mais nada: estava enrgica, fria,
decidida, transfigurada. Voltou para a casa de seu Marinho, pai de
Jadir. O que vivia bbado. Mauro se foi.
      Eduardo no esperava encontrar tanta gente. A me de Jadir
chorava, era abraada, todo mundo olhava, ningum dizia nada.
Mariinha, olhos vermelhos, tambm nada dizia, mas no chorava.
Eduardo abraou-a:
      -- Meus psames.
      E ficou junto dela at a hora de ir embora. Num canto, sem entrar
l na sala -- a prpria Mariinha lhe confessou que no tinha coragem
de olhar.
      -- Mas como foi, Mariinha? -- arriscou-se, por fim, tentando
naturalidade.   Decidiu, naquele instante, nunca contar a ningum a
conversa que tivera na vspera com o suicida.
      Mariinha lhe contou a mesma coisa que Mauro j lhe contara,
acrescentando um pormenor:
      -- Encontraram uma carta no bolso dele.      Foi por causa de uma
mulher.
      -- Mulher?
      Tentou assumir o ar compungido dos circunstantes. Chegou a
repetir o que ouvira, havia pouco, algum dizer:
      -- Ele era to moo...
      Arriscou um olhar para a sala de visitas, onde as velas
crepitavam. Muitas senhoras cercavam o caixo, ajeitando flores. Ao
divisar, cauteloso, o rosto do morto, estranhou que estivesse to
amarelo e com um leno amarrado no queixo. Um tiro de revlver no
peito. No, no podia acreditar. Dona Marion, me de Jadir, j no
estava na sala. Seu Marinho, o pai, olhava tudo sem compreender.
      Voltou para casa com os pais -- dona Estefnia s tornou a sair
quando o viu na cama, pronto para dormir. Tomava cuidados especiais
com ele naquela noite. Ouviu o que ela dizia para o marido:
      -- Foram as ms companhias. Culpa dos pais.
      -- No diga isso -- fez o pai.
      Dona Estefnia retornou ao velrio -- seu Marciano no saiu
mais. Ficou andando pela casa, acordado, at altas horas. Eduardo no
conseguia dormir.
      Agora, todas as noites, era aquilo: no conseguia dormir. Um tiro
no peito. No corao, portanto. E o amigo morto, leno amarrado no
queixo. Durante o dia andava triste, abatido, pelos cantos, j pensando
em outras coisas, no pensando em nada -- to diferente daquele
menino que arranhava o rosto, dava gritos, fazia discursos. No sabia o
que se passava consigo; sabia que tudo era triste, o mundo era mau.
Havia mistrio em tudo, a alegria da infncia era apenas lembrana. De
sbito, a morte estava para abater-se sobre ele a qualquer momento.
Morreria cedo, na flor da idade -- mas no daria um tiro no corao.
Dizem que enchendo o quarto de flores, no dia seguinte a gente acorda
morto. H outros meios tambm. Ele morto. Dona Estefnia, seu
Marciano, Letcia chorando, todo mundo. Muito precoce. Menino
prodgio, capaz dos maiores herosmos. Salvar os outros  custa da
prpria vida. s vezes tinha momentos de total arrebatamento. A
imaginao se desgarrava, ganhava foras. s vezes chorava, sem razo,
s vezes sentia desejos violentos -- no sabia bem de que, mas acabava
por entregar-se ao vcio antigo, seguido sempre de remorso. E, sem
estmulo algum, j no imaginava cenas, no pensava em nada. Aquilo
era mais do que pecado, uma aberrao. Ele era um anormal -- por que
Deus fora to ruim com ele, dando-lhe um sexo mais forte do que a
vontade? Vontade de extirp-lo, coisa intil, fonte de angstia. Sentia,
naquelas noites alucinadas, estar perdendo a prpria seiva que o
sustinha. Secava depressa mas deixava mancha no pijama, dona
Estefnia podia ver, que haveria de pensar dele? Continuava a
encontrar-se com Letcia, a me agora lhe policiava os menores passos:
         -- Onde voc vai? J estudou sua lio? No, no pode sair de
noite.
         -- Por qu?
         -- Porque no pode.
         Sabia que os pais conversavam sobre ele mais do que nunca,
depois do jantar, na varanda. J no se escondia para surpreend-los
-- ia passando, a me o chamava:
         -- Onde voc vai?
         -- Na casa do Mauro. Estudar para a prova -- mentia. Ia se
encontrar com a namorada.
        -- No vai, no. Mauro se quiser que venha estudar aqui.
        No ousava protestar. Razo mais forte ditava a atitude da me,
no ousava enfrent-la. Certa noite ouviu, sem querer, o que ela dizia
ao pai:
        -- Eternamente. Escreveu e assinou.
        Eu te amo eternamente... na caderneta! A me j espionava at
suas coisas, mexia na sua caderneta. Tremeu de dio, de vergonha, de
orgulho ferido. Encolheu-se mais, para melhor escutar o que diziam.
        -- Isso no  to grave assim -- dizia o pai. -- Afinal de contas,
quando eu tinha a idade dele...
        -- No  to grave? Olha o que aconteceu com o filho do seu
Marinho.
        -- O que ele est precisando  de se divertir um pouco. Praticar
esporte. Anda muito magro, abatido.  a idade.
        -- Voc devia conversar umas coisas com ele.
        -- Conversar o qu?
        -- Conversar -- insistia a mulher: -- Ensinar umas coisas a ele.
        -- Eu... -- e seu Marciano ergueu os ombros: -- Para mim ele 
que tem coisas para me ensinar. Vive lendo livros. Sabe coisas. Essa
mocidade de hoje  diferente de ns, Estefnia.
        -- Criana ainda.
        -- Quem?
        -- Eduardo, homem de Deus.
        -- Criana, mas ganhou cem mil ris, assim! com um conto que
escreveu. Ele tem talento, seno no ganhava. Tem merecimento.
        -- Isso no estou negando.
        -- Deus sabe o quanto me custou ganhar meus primeiros cem mil
ris.
        Eduardo no ouviu mais -- no dia seguinte Letcia lhe dizia:
        -- Sua me esteve l em casa.
        -- Em sua casa? Quando?
        -- Hoje de manh. Conversou com mame.
      -- Que histria  essa? Elas nem so conhecidas, nem nada.
Conversou o qu?
      -- Sobre ns. Mame quer conversar com voc, disse para voc ir
tomar lanche conosco.
      A me de Letcia no teve meias palavras:
      -- Sua me esteve aqui -- disse, e passava manteiga num
biscoito. Na casa dele no havia biscoito: -- Quer que vocs acabem
com esse namoro.        Eu, por mim, no me importo.  s andar
direitinho, no ficar se escondendo por a.   Sei que no adianta proibir.
Mas, se ela quer acabar, acabou-se. Vocs dois no vo se encontrar
mais, no. Muito crianas para ficar namorando, ela disse.
      Eduardo mal podia de vergonha. Saiu dali, foi direto  me:
      -- Mame, a senhora hoje foi  casa de uma amiga minha.
      -- Eu? -- e dona Estefnia, apanhada de surpresa, nem sabia o
que dizer. Mudou de assunto: -- Meu filho, voc precisa cortar esse
cabelo.
      -- Na casa de Letcia -- continuou ele. -- Dizer  me dela que
no queria mais que a gente se encontrasse. A senhora nem conhecia a
me dela.
      -- Eu? Quem lhe disse isso?
      -- A me dela.
      -- No quero mesmo -- decidiu-se, afinal, dona Estefnia,
formalizando-se: -- Essa menina no serve para ficar andando com
voc. Acabar com isso, esses encontros. Essa menina...
      -- No admito que a senhora fale mal dela.
      -- O qu? Onde j se viu? No admite.        Que petulncia! Falar
assim com sua me. Pois no quero, e acabou-se.
      Eduardo deu-lhe as costas, foi chorar no quarto.
      Chorou a noite toda. Mordia o travesseiro para no soluar alto --
no queria, por nada no mundo, que os pais ouvissem. O mundo era
mesmo sujo. No sabiam respeitar nada. Mexiam na sua caderneta. Os
pais, seus inimigos, inimigos de Letcia, inimigos de seu amor.
Eternamente, para o resto da vida. Violavam seus guardados, seus
segredos, vai ver que mexeram at na fita que Letcia tirara dos cabelos
e lhe dera e que trazia escondida no fundo da gaveta -- "um pedao de
fita sem importncia". No respeitavam nada, procuravam, falavam,
tramavam contra ele. Tinham medo de que desse um tiro no corao. Se
tivesse coragem, dava um tiro no corao, acabava logo com aquilo,
havia de ver como chorariam, como sentiriam pena. To moo. Por
causa de uma mulher.
      Chorou dias seguidos -- o ambiente em casa cada vez mais tenso:
onde voc estava? onde voc vai? A vigilncia cada vez mais cerrada.
Seus encontros com Letcia eram furtivos, difceis. Eduardo perdia o
apetite, emagrecia, os pais cada vez mais preocupados:
      -- Este menino assim no vai -- resolveu, um dia, seu Marciano.
-- Precisa praticar esporte, levar uma vida sadia.




EDUARDO e a vida sadia. Seu Marciano tornou-se scio do clube, o filho
praticava natao.
      -- Por que voc no joga basquete? -- sugeria Letcia -- Natao 
to sem graa...
      -- Porque natao no depende de ningum, s de mim.
      Em seis meses era o melhor nadador de sua categoria, e
ameaava j o rcorde dos adultos. Uma espcie diferente de emoo --
a de poder contar consigo mesmo, e de se saber, numa competio,
antecipadamente      vencedor.   Os   entendidos     sacudiam     a   cabea,
admirados:
      -- Quem diria, esse menino...
      Era uma espcie de xtase: fazer de simples prova de natao, a
que ningum o obrigava, uma disputa em que parecia empenhar o
destino, fazer da arrancada final uma luta contra o cansao, em que a
vida parecia querer prolongar-se alm de si mesma.
      Dia de competio. As luzes da piscina acesas, as arquibancadas
cheias. Ambiente de expectativa, medo, alegria, excitao. Alto-falantes
comandando     ordens,   convocando     nadadores,     apostas,   previses,
torcida, gritaria. Nada da paz quase buclica da piscina nos dias de
treino -- o rigor e a monotonia dos exerccios, de manh e de tarde, o
longo, lento e meticuloso esforo durante meses e meses, para ganhar
dcimos de segundo na luta contra o cronmetro. Refugiado no
vestirio, enrolado em cobertor, Eduardo aguardava o momento de sua
prova, ouvindo, l fora, os aplausos da multido. Logo chegaria a sua
vez. Chico, o roupeiro, aparecia para dar-lhe a notcia da competio.
      -- Estamos ganhando. Daqui a pouco  voc.
      Encolhido num canto, o nadador mal ouvia as palavras do preto.
Sua emoo se traduzia em longos bocejos, o medo era quase nusea, a
expectativa era uma ilusria, persistente e irresistvel vontade de
urinar. A multido voltava a aplaudir l fora. -- "Daqui a pouco  voc".
Nunca saa do vestirio antes da hora de nadar.
      -- Quanto est a gua hoje? -- perguntava ao roupeiro.
      Era o nico nadador que no interrompia os treinos no inverno,
sozinho, a gua gelada, a piscina fechada aos scios. Tudo importava: a
temperatura da gua, a raia que lhe caberia, as condies do
adversrio. J o tinha sob controle, sabia o que deveria fazer desde a
sada -- sabia que deveria esquec-lo to logo comeasse a nadar,
esquecer a assistncia, nadar apenas contra o cronmetro -- a menor
quebra do ritmo necessrio significaria um dcimo de segundo a menos,
talvez -- significaria a derrota. Nadar era difcil, ficava cada vez mais
difcil... Onde quer que surgisse um recordista, logo surgia outro para
abaixar-lhe o recorde. J se fora a poca de Peter Fick, Taris, Arai,
Yusa, campees esquecidos, superados -- o prprio Weissmuller,
absoluto em todas as distncias, ficara para trs... Sozinho no vestirio,
esquecido da competio que arrancava gritos de entusiasmo na assis-
tncia, Eduardo pensava em seus novos heris.
      -- Marciano, a sua vez! -- vinham lhe avisar.
      Nada a fazer. Ali estava ele, pronto para o sacrifcio, convocado
como um condenado para a execuo. Ia seguindo em direo  mesa
dos juizes, para assinar a smula, sem olhar para os lados. Sentia que
todos os olhos o seguiam, ouvia vagamente os aplausos, procurava
ignorar tudo, concentrar-se. Vontade de dormir, de desistir, fugir, sair
correndo, esquecer aquele suplcio. Medo. Os outros tambm se
sentiriam assim, fragilizados pela emoo, sucumbidos pela espera?
Munira-se de alguns minutos de descanso e solido, curtidos em agonia
no vestirio -- era a sua reserva. Ali fora, os nervos se esbandalhariam
ante o que o aguardava -- que viesse imediatamente.
         -- Mostra a essa gente, Eduardo.
         --  pra valer!
         -- Capricha, menino.
         -- Est bem, est bem...
         Deslumbrado pela luz dos refletores, desprotegido e nu, ia
caminhando para o sacrifcio. Era como se o mundo interrompesse o
seu giro e se equilibrasse, oscilante, debaixo dos ps. Nada mais existia
seno a fatalidade, da qual agora no poderia fugir. Os homens se
dividiam em duas espcies: os que nadam e os que vem os outros
nadar; os que j nadaram e os que ainda vo nadar; os que vencem e os
que perdem.
         -- Eduardo Marciano!
         Apresentava-se.
         -- Raia quatro.
         A seu lado, o adversrio mais temido. A assistncia os
identificava,  borda da piscina, prorrompia em gritos. Um fotgrafo se
aproximava, o flash explodia, iluminando por um instante o rosto
juvenil dos nadadores, envelhecidos pela emoo, como num palco.
         -- Concorrentes a postos! -- comandava o alto-falante. -- Para a
sada!
         Mafra, o treinador, ditava-lhe rapidamente as ltimas instrues:
         -- Rodrigo vai forar para voc nos primeiros cinqenta. Deixe ele
ir. Olhe o ritmo. Nade sozinho.
         Subia vagarosamente a banqueta, relaxava o corpo. Curvado,
ficava  espera, sem olhar para os lados. A superfcie da gua ia-se
amansando, depois da agitao da ltima prova. Raios de luz dos
refletores submersos danavam lentos, verberando nos azulejos e dando
uma limpidez fantstica ao verde-azul da piscina.
      -- Ateno!
      O apito do juiz. A multido silenciava, de sbito, e no se ouvia
um s rudo, como se algo de terrvel estivesse para acontecer. Os
nadadores se imobilizavam, crispados nas suas banquetas, aguardando
o tiro de sada. O juiz erguia o revlver, o dedo se contraa no gatilho.
      -- Oh! -- fazia a assistncia.
      Um dos concorrentes armara o salto, mas dera sada em falso.
Um desastre para o nadador, seus nervos no resistiriam.
      -- Ateno!
      Ouvia-se novo apito do juiz. Outra vez a assistncia silenciava, em
suspenso, e os nadadores se enrijeciam como esttuas, curvados e
tensos. Um tiro, e todos se atiravam para a frente, a gua se
estilhaava.
      Quebrou vrios rcordes, foi ao Rio e a So Paulo competir com os
maiores nadadores nacionais. Vivia para a natao: dormia cedo,
alimentava-se bem, fazia ginstica. O pai comeou a preocupar-se:
      -- Voc no est exagerando? De que lhe serve tanto esforo...
      -- Seus estudos -- dizia a me.




NA PRPRIA piscina havia muito que aprender. Os rapazes perdiam horas
e horas conversando, distraindo-se, inventando brincadeiras. Um dia,
invadiram o vestirio das moas, houve pnico, gritaria, suspenses.
Um dia, dois deles foram surpreendidos juntos no vestirio vazio,
acabaram expulsos. Um dia, uma das moas foi deflorada no alto do
ltimo trampolim, teve de casar-se na polcia.
      Seus novos amigos: andava com eles de automvel, ps a primeira
gravata, comeou a freqentar festas. Onde ficava Letcia em tudo isso?
No ficava em parte alguma: tudo se acabara entre os dois, sem que ele
soubesse explicar como nem por qu. No Ginsio j no era dos
melhores alunos; refugiava-se entre os que ignoravam os estudos, s
queria passar de ano. Abandonou Mauro, seu antigo companheiro.
Aspirava apenas a terminar o curso, j no ltimo ano, sair dali o mais
depressa    possvel,   abandonar   o      uniforme     humilhante,    tornar-se
homem. Odiava o Ginsio, o regulamento, a disciplina, a sujeio aos
professores. Prometeu a si mesmo vingar-se daquele lugar -- no sabia
bem de qu -- no ltimo dia em que viesse ali, quebrando o globo de
iluminao    da    entrada.   Sentia-se    diferente    de   todos,   superior,
privilegiado, nico. Olhava com desprezo a massa ignara dos colegas,
seres vulgares, relaxados, no sabiam se vestir, andavam despenteados,
suados, sujos, jogavam bilhar, preocupavam-se com os exames --
passar nos exames era to fcil! Um dia Mauro o provocou, na aula de
Histria Universal:
      -- Como vai essa belezinha? -- e atrapalhou-lhe os cabelos.
      Eduardo sabia-se forte, nadador conhecido, nome nos jornais --
cuidava de si, fazia perfil, e o ar modesto que costumava assumir logo
se turvava ao primeiro desafio:
      --  a me.
      Mauro reagiu e se agarraram ali mesmo, dentro da sala de aula.
Foram expulsos, enviados ao Monsenhor Tavares, diretor do Ginsio.
Magro, esqulido, esguio dentro da batina negra, o padre inspirava
pavor aos alunos: ir  sua presena j significava o pior dos castigos. Os
dois rapazes ouviram calados a reprimenda, inesperadamente branda: o
diretor chegara, certa vez, a esbofetear um aluno que lhe faltara ao
respeito.
      -- O que me admira  que dois moos inteligentes, bem dotados
como vocs.
      -- Vo assumir um compromisso comigo.
      -- Conto com vocs, deviam dar o exemplo.
      -- Prometer nunca mais agir dessa maneira.
      -- Reconhecer que erraram. Mauro?
      Mauro aquiesceu rpido: reconheceu tudo, prometeu tudo, na
nsia de sair logo dali. Eduardo no dizia palavra, no fazia um gesto.
      -- E voc, Eduardo?
      -- No reconheo nada. No prometo nada.
         O padre ficou plido, foi-se erguendo lentamente da cadeira, por
trs da secretria. Mal se fez ouvir a sua voz, quando ciciou para
Mauro:
         -- Voc pode sair.
         Mauro, hesitante, olhou o colega, o diretor, a porta que o brao
estendido indicava. Aturdido, voltou-se e saiu da Diretoria em passos
lentos.
         Eduardo procurava encarar o padre, mas as foras lhe fugiam.
No suportou o silncio por mais tempo:
         -- Porque no fiz nada de mais. No fiz nada de errado. Ele me
insultou, eu reagi...
         -- Cale a boca.
         Seguiu-se uma pausa ainda mais difcil. O padre lhe voltou as
costas e ficou espiando a rua pela janela, como se nada mais tivesse a
dizer. Mas respirava fundo quando perguntou, assim mesmo de costas:
         -- Que voc pretende da vida?
         Assustou-se: ele? pretendia da vida? No respondeu. Chegou,
mesmo, a supor que o diretor se dirigia a algum l fora.
         -- Voc  atrevido, orgulhoso, indcil, malcriado -- desfechou o
padre, voltando-se para ele solenemente, acusando-o com o dedo: --
Que pretende da vida? Acha que com tudo isso estar aparelhado para
viver?
         -- No -- murmurou, sem saber se acertava na resposta. O padre
o segurou inesperadamente -- por um instante pensou que ia ser
sacudido pelos ombros:
         -- Acompanho seus passos desde o dia em que voc entrou nesta
casa. Voc veio muito bem recomendado. Foi o primeiro no exame de
admisso. Sei que voc  persistente, ambicioso, consegue o que quer.
Que voc quer?
         -- Quero ir embora.
         -- Voc vai ser expulso.
         -- No quero ser expulso.
         -- Escute, menino -- e o diretor agora, voltando a sentar-se,
brandia um lpis em sua direo: -- Voc precisa perder esse hbito de
responder. Precisa aprender a ouvir, quando os outros falam.
      -- Mas o senhor estava perguntando -- balbuciou ele, perplexo.
      -- Limite-se a responder o que lhe for perguntado.
      -- Est bem. Mas eu queria...
      -- Cale-se! Voc no tem querer, eu mando aqui dentro: se eu
quiser, voc ser expulso, se no quiser, no ser. Pois agora estou
perguntando: voc acredita em Deus?
      A pergunta o deixou confuso, desconcertado, sem resposta. J se
fizera a mesma pergunta mais de uma vez, mais de uma vez adiara a
resposta. Diante de um padre, porm, dificilmente poderia haver
alternativa: vacilar significava expulso.
      -- Acredito -- respondeu, sem convico.
      Monsenhor Tavares s aguardava a afirmativa para prosseguir:
      -- Ento por que no freqenta as aulas de Apologtica?
      -- As aulas de Apologtica no so facultativas?
      -- Pelo fato de serem facultativas no quer dizer que voc no
precise freqent-las.
      -- Uma vez fiz uma pergunta ao padre Lima, na aula de
Apologtica, e ele no soube me responder.
      -- No soube lhe responder? E posso saber qual foi essa
pergunta?
      -- Por causa dela o padre Lima me expulsou da sala. Nunca mais
voltei l. Prefiro que o senhor pergunte a ele.
      -- Ele me disse que o expulsou da sala porque voc lhe faltou ao
respeito.
      Eduardo se indignou, no pde conter-se:
      -- Mentira do padre Lima. Fiz a ele uma pergunta e ele no soube
responder.
      -- Cale a boca. No se fala assim de um professor. No se fala
assim de um padre. Retire imediatamente o que disse.
      -- Sabe de uma coisa, Monsenhor? -- e fez um gesto de
impacincia: -- O melhor  o senhor me expulsar logo de uma vez.
        O padre o olhou nos olhos, fixamente, procurando intimid-lo.
Desviou o olhar para a janela, ficou  espera. O silncio se prolongou,
insuportvel. J se via expulso, levando a notcia aos pais... ltimo ano,
alguns meses mais e terminaria o curso.
        -- Sente-se aqui, malcriado -- ordenou, sbito, o diretor,
indicando-lhe a cadeira prxima. Obedeceu. O padre tornou a respirar
fundo, a voz se fez deliberadamente branda: -- Me diga o que foi que
voc perguntou ao padre Lima.
        Passara o perigo. Sentado na ponta da cadeira, ganhou confiana:
        -- Perguntei a ele o que seria de Cristo, se Judas no o trasse.
Ele disse que eu estava debochando, que estava querendo fazer graa,
faltar ao respeito, essa coisa toda.
        -- O que seria de Cristo... -- o diretor se inclinou, interessado: --
Explique-me essa histria: se Judas no trasse...
        Eduardo ps-se a falar, veemente:
        -- Porque o grande medo de Cristo era de que Judas falhasse, e
no houvesse a crucificao, nem nada. Isso o mundo deve a ele: Judas
no falhou. Mas como a salvao do mundo s podia vir de Cristo,
Judas condenou o mundo, se suicidando .
        -- Condenou o mundo... se suicidando? -- repetiu o diretor,
lentamente. -- Espere, mais devagar. Explique isso direito.
        -- O senhor est me pedindo exatamente o que eu pedi ao padre
Lima: que me explicasse isso direito.
        Monsenhor Tavares o olhava, estupefato. Sacudiu afinal a cabea,
ergueu-se, batendo a mo na mesa:
        -- Basta.  demais. V-se embora daqui. Volte para a sala de
aula.
        Eduardo ergueu-se a medo, ficou indeciso:
        -- Quer dizer que no vou ser expulso?
        -- Desta vez no. Isto , no sei, ainda no resolvi. O grande
medo de Cristo... Onde j se viu isso? Voc acha possvel Deus ter medo
de alguma coisa? Onde voc anda tirando essas idias? O que voc fica
fazendo em vez de ir  aula de Apologtica?
      -- Fico lendo na biblioteca -- mentiu ele: na verdade ficava pelos
corredores,  toa, se escondendo dos fiscais.
      -- Lendo o qu?
      -- Nada -- confessou: -- Tudo que tem l, que ainda no li, 
proibido aos alunos.
      O diretor se espantou:
      -- Como proibido? Tanto livro bom! Os clssicos...
      -- Os clssicos podem ser bons, mas no agora. A gente l agora,
depois no l mais, no adianta nada. So bons para a gente ler depois
de velho.
      -- Tem Alencar, Coelho Neto, Machado...
      -- Machado o senhor proibiu.
      -- Eu? Proibi Machado?
      -- Proibiu Machado, Ea de Queiroz, os franceses quase todos:
Flaubert, Balzac... -- enumerou, farejando simpatia.
      -- Voc sabe ler francs?
      -- Mais ou menos -- mentiu: s lia tradues.
      O diretor voltava ao tom familiar, conselheiral, andando de um
lado para outro:
      -- Tem Euclides da Cunha...
      -- J li.
      -- J leu? "Os Sertes"?
      -- S "O Homem" -- admitiu ele: -- "A Terra"  muito chato, s
tem descrio...
      -- No diga isso, meu filho, no diga isso -- murmurava o padre,
sem nfase, j pensando em outra coisa. -- Tem Rui Barbosa... Voc
no gosta de Rui?
      -- No.
      -- Por qu?
      -- Acho que eles exageram muito a importncia de Rui Barbosa,
na falta de outro.
      Quando deixou o gabinete do diretor, a aula de Histria Universal
j havia terminado. Encontrou os colegas no corredor e todos o
cercaram -- o prprio Mauro, esquecido da briga, queria saber o que
acontecera. Para eles, Eduardo trazia uma surpresa: no s no fora
expulso, nem sequer suspenso, como Obtivera ordem de ler os livros
proibidos. E ante o pasmo dos colegas, saiu comentando, displicente:
     --  um camarado, o monsenhor.




VOC acredita em Deus? No sabia por que, sentia que deveria decidir-
se, era uma pergunta que ficara sem resposta, queria sempre poder
responder a tudo, estar pronto a ser interrogado, fugir s respostas
dbias, hesitantes, que nada diziam. Olhou pela janela o cu estrelado,
a imensido infinita do cu... No foi preciso muito para concluir que,
sem Deus, jamais chegaria a entender onde o universo comeava e onde
acabava, de onde vinha ele, para onde iria. Concentrou-se, respirou
fundo, e declarou com firmeza:
     -- Acredito.
     Era um ponto de partida. Imediatamente saltou da cama, rezou
um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Depois tornou a deitar-se, sentindo
que um mundo de novas perspectivas se abria para ele -- precisava
estudar Apologtica mesmo, quem sabe? apurar umas tantas coisas, ver
os acontecimentos atravs de nova maneira de pensar -- teria muito em
que pensar no dia seguinte, e nos dias seguintes, em todos os dias
seguintes de sua vida.
     Ao contrrio do que esperava, no fez da descoberta um grande
problema: sim, Deus existia, era claro, evidente, indiscutvel que Deus
existia -- e ento? Era como se sempre tivesse existido para ele. Fizera
a primeira comunho, acostumara-se a ir  missa aos domingos --
hbito imposto pela me desde cedo e que nunca se dispusera a
interromper.
     Por essa poca seu Marciano se aposentou. Comeava a passar
dificuldade, o dinheiro da aposentadoria era curto. Eduardo no tinha
mais coragem de lhe pedir dinheiro:
     -- Voc est precisando, meu filho.
      -- No estou -- e desconversava.
      -- Quando voc sair do Ginsio, lhe arranjo um emprego.
Aprenda datilografia.
      Aprendeu datilografia e, com isso, sua literatura ganhou sopro
novo. Escrevia contos e mais contos -- num deles contava seu namoro
com Letcia, noutro descreveu o prprio pai. Seu Marciano leu, no
gostou.
      -- Voc precisa viajar, ver coisas novas. Vive aqui muito
confinado, vendo s a gente, no tem sobre que escrever.
      Decidiu tornar-se mesmo escritor. Um livro de contos -- os outros
publicavam livros, por que ele prprio no podia publicar? Tinha dois
contos premiados em concursos -- se foram premiados, deviam ser
bons. Consultou seu Marciano -- seu Marciano concordou:
      -- Devem ser bons. No entendo dessas coisas. Talvez se voc
esperasse mais um pouco...
      Mandou que o filho procurasse o Toledo, seu amigo, que era
escritor.
      -- Um moo muito distinto e competente. Era meu colega de
repartio. Hoje acho que est no gabinete.
      Toledo acabara de publicar um romance em editora do Rio, seu
nome era conhecido nos meios literrios.
      -- Toledo, meu menino est querendo mesmo ser escritor. V se
ensina umas coisas a ele.
      Eduardo foi  casa do romancista, levando seus contos numa
pasta, debaixo do brao. Ficou impressionado com a quantidade de
livros que o homem tinha no escritrio:
      -- No vai me dizer que o senhor j leu tudo isso -- comentou,
tentando intimidade.
      A intimidade lhe foi logo concedida:
      -- No me chame de senhor. Ainda vai chegar o dia em que voc
achar graa de me ter chamado de senhor, de ter vindo aqui mostrar
seus contos. Deixe ver.
      Depois de ler, ali mesmo, enquanto Eduardo fingia displicncia
olhando os livros, Toledo separou dois ou trs:
      -- Estes so os melhores. Quanto aos outros...
      -- Um foi premiado -- defendeu-se o jovem.
      -- No quer dizer nada. Falta contedo, falta poesia. Voc no l
poesia?
      -- No -- confessou Eduardo, envergonhado.
      -- Pois precisa ler. Voc acha que poesia  coisa para mulher,
para gente piegas, afeminada, no ? Pois no  nada disso. Escute l.
      Leu-lhe poemas de Omar Khayyam, de Rabindranath Tagore.
Eduardo escutava e assentia com a cabea, quando Toledo interrompia
a leitura para comentar: " uma beleza. Uma maravilha". Na realidade
no achava beleza nenhuma, maravilha nenhuma, nem sequer
conseguia fixar sua ateno, a no ser nos cabelos do escritor, que j
escasseavam -- quantos anos teria?
      -- Escuta -- disse-lhe de sbito o homem, fechando o livro: --
Voc pode ser que v para a frente, eu no fui. Fique sabendo de uma
coisa: eu sou um caso perdido, espero que voc no cometa o erro que
cometi.
      -- Qual o erro que o senhor cometeu? -- perguntou o jovem,
subitamente impressionado, voltando ao tratamento respeitoso. Toledo
comeava a ganhar dimenses diante de seus olhos.
      -- Meu erro foi acreditar que a vida poderia fornecer material para
a minha literatura. Viver escrevendo. No escrevi o que devia -- este foi
o meu erro.
      -- E seu romance, publicado agora?
      --  uma merda.
      -- Ento por que publicou?
      -- Porque no havia outro jeito, j estava escrito. Escrever 
renunciar -- eu no sei renunciar. Gide disse que o diabo desta vida 
que entre cem caminhos, temos de escolher apenas um e viver com a
nostalgia dos outros noventa e nove. Pois bem: a literatura  como se
voc tivesse de renunciar a todos os cem...
      Eduardo nunca ouvira falar em Gide.
      -- Parece preceito evanglico: aquele que perder sua vida, a
salvar. Mas s avessas, procurar Deus onde ele no se encontra. A
atividade literria  exatamente isso. No se deter diante de nada, no
respeitar nada. Valer a pena? Os que tm nojo, fracassam. Que se
faria do lixo, se ningum quisesse ser lixeiro? Mas isso ainda  um
pouco cedo para voc entender.
      -- Eu entendo -- mentiu Eduardo, aturdido.
      -- A arte  uma maneira de ser dentro da vida. H outras... 
uma maneira de se vingar da vida. Assim como se voc procurasse
atingir o bem negativamente, esgotando todos os caminhos do mal. 
preciso ter pulso,  preciso ter estmago.
      -- Mas, se o seu romance -- comeou Eduardo.
      -- Deixe o meu romance. Esquea o que lhe disse. Um dia
conversaremos sobre isso. No d importncia, hoje eu estou chateado,
amargurado, pessimista. Estava esperando um telefonema, ela no me
telefonou. Voc v como so as coisas: por causa de uma namorada a
gente chega a emitir conceitos sobre Deus e o mundo, sobre literatura,
dizer que a vida  uma merda.
      Eduardo o olhava sem compreender. Telefonema? Namorada?
Mas, se ele era casado -- no tinha visto l na sala a mulher, os dois
filhos? Escritor  mesmo gente esquisita -- pensava, confirmando uma
opinio de seu Marciano. Em todo caso, a familiaridade daquele homem
com ele, e com temas to vastos, a coragem de dizer palavres, de
revelar sua vida ntima, seu pessimismo, seu fracasso -- tudo isso
marcava Eduardo fundamente, fazia-o sentir-se homem.
      -- Voc quer ser contista, no ? -- e Toledo o reteve, quando se
despedia: -- Pois ento leia isso... E isso... E isso.
      Emprestou-lhe trs livros de contos em francs: Merime,
Flaubert e Maupassant.




ACOSTUMARA-SE a ler os franceses -- os proibidos -- na biblioteca do
Ginsio, em tradues. Lera Madame Bovary, lera Eugnie Grandet,
lera Gargantua -- pouco lucrou com a leitura. Com este ltimo ficou
impressionado: como um livro podia conter tanta palavra baixa, tanta
cena escabrosa, tanta porcaria. Mas achava engraado, por isso ia
lendo. Comprou um dicionrio, prendeu-se em casa durante muitas
noites, lendo  fora os trs livros de contos que lhe foram emprestados.
No entendeu muito bem, no gostou muito:
         -- Se isso  que  boa literatura, ento meus contos so uma
merda -- concluiu, imitando seu novo amigo.
         ltimos dias de aula. Eduardo, Mauro e Eugnio (um rapaz
franzino, plido e de olhar vivo, que viera transferido de outro colgio)
conversavam no corredor sobre a vida que iam enfrentar l fora, o
destino     que   os   esperava.      Resolveram,   os   trs,   assumir   um
compromisso: qualquer que fosse o caminho que eles tomassem, vinte
anos depois voltariam a reunir-se ali, naquele lugar.
         -- Vinte, no: quinze -- objetou Eduardo: -- Vou morrer antes
disso.
         -- Ento quinze -- concordaram os outros dois, sem se importar
que ele morresse. Onde estivessem, acontecesse o que acontecesse.
         -- Neste mesmo lugar.
         -- Mesmo que tenham derrubado o Ginsio, nos encontraremos
no lugar onde havia o Ginsio.
         Marcaram data certa, dia e hora, cada qual escreveu num
papelzinho.
         -- Quem faltar,  porque morreu.
         -- Ou ento est preso...
         -- S no pode esquecer...
         Calaram-se, e ficaram pensando...
         -- Que ser de ns? -- perguntou um deles, distrado.
         Que seria deles? No sabiam, e no se incomodavam. Eduardo
deixava aquele lugar sem saudade. No chegou a ter outra conversa
com o diretor: pouco tempo depois o padre morria, nem houve
solenidade de formatura por causa disso.
         No ltimo dia no chegou a quebrar o globo de luz da entrada
principal.
                                    II -- A GERAO ESPONTNEA




-- PROCUROU      O   homem? -- perguntou-lhe seu Marciano, a mesa do
jantar.
      -- No.
      Sentou-se, passando a perna por cima da cadeira. Dona Estefnia
limitou-se a levantar os olhos, enquanto lhe servia sopa.
      -- Passei l, ele no estava. Fiquei de voltar depois, quando voltei
ele j tinha sado.
      Procurou o homem? Falou com o homem? Ultimamente o pai j
perguntava por hbito, no esperava mais que ele procurasse o homem.
      --  muito difcil. Gente besta. Pensam que tm o rei na barriga.
Mandam esperar no gabinete -- ainda no chegou, j saiu. No dou
para isso no.
      -- Voc andou bebendo, meu filho -- observou seu Marciano.
      -- Tomei um chope antes de vir.
      -- Fica por a tomando chope, chegando tarde em casa, e a
situao no est para brincadeira. Sabe que seu pai est passando
dificuldade, ele arranja emprego para voc, voc nem se mexe.
      -- Estefnia -- cortou seu Marciano. De novo para o filho: -- Ouvi
no rdio que Paris est por pouco. Que  que voc soube?
      -- Nada. Ainda no passei na redao hoje.
      -- Voc continua com essa histria de jornal? -- interveio a me.
Em vez de cuidar de seus estudos.
      -- Voc mesma no estava dizendo que eu preciso trabalhar?
Agora vem com estudos. Entenda-se.
      Seu Marciano olhou-o, duro:
      -- No fale assim com sua me. Pea desculpas.
       -- Desculpe.
       O pai, de novo sereno:
       -- No tenho nada contra voc trabalhar em jornal. S que no te
pagam, esto te explorando.
       -- Vo comear a pagar no ms que vem.
       Depois do jantar resolveu passar pela redao.  entrada
encontrou o Veiga em conversa com um rapaz magro, alto, rosto
sombrio, uma espinha na testa, cabelos desgrenhados.
       --  o melhor livro dele -- dizia o rapaz.
       -- Prefiro "Fome". Mais autntico, mais humano -- e o Veiga
voltou-se para ele: -- Voc j conhece o Hugo?
       -- Ainda no.
       -- Ele disse que j te conhece.
       -- S de vista -- disse o rapaz. E de ler.
       -- De ler?
       De ler, naturalmente -- seus artigos, os que, atravs do Veiga,
vinha publicando no suplemento de domingo. Dois ou trs artigos de
crtica literria.
       -- O que  que vocs esto conversando?
       -- Knut Hamsun -- respondeu o rapaz. -- J leu?
       -- J -- mentiu Eduardo.
       -- Sou muito amigo de um amigo seu.
       -- Quem?
       -- Mauro Lombardi. Foi seu colega de ginsio.
       -- Ah... No vejo Mauro h muito tempo.
       Veiga os deixou sozinhos:
       -- Mais tarde, ali por volta da meia-noite, a gente pode se
encontrar l na oficina.
       Eduardo queria agradar o rapaz, no sabia como:
       -- Voc vai ficar a?
       -- No, vou sair, dar uma volta.
       -- Ento vamos.
       Saram pela Avenida, quela hora cheia de gente. Moas
passeavam de brao dado, rapazes ao longo da calada espiavam o
movimento.
      -- Tambm escreve? -- perguntou Eduardo.
      -- Quem, eu?
      -- .
      -- Tambm -- confessou o outro. -- Vamos tomar um caf?
      Tomaram um caf em p, e o rapaz lhe ofereceu um cigarro.
      -- Obrigado, no fumo.
      Foram andando. O rapaz procurou puxar conversa:
      -- Voc j leu "O Lobo da Estepe"?
      -- J... -- e, distrado, Eduardo apontou um carro que passava:
-- Olha ali, Buick deste ano,  o primeiro que eu vejo.
      O rapaz se calou, ressentido. Em frente ao cinema Glria
despediu-se:
      -- Vou tomar o bonde ali no abrigo.
      -- Ento at logo. Como  mesmo o seu nome?
      -- Hugo.
      -- Por que voc no aparece mais tarde l na oficina?
      -- Que oficina?
      -- Oficina do jornal, nunca foi l? Tem um botequim onde sempre
se toma qualquer coisa...
      -- No posso beber. Sofro da vescula. Ainda ontem...
      -- Deixa disso, rapaz -- e Eduardo bateu-lhe nas costas
cordialmente: -- Uma cachacinha de vez em quando no faz mal a
ningum. Aparea l. Encontrar o Veiga.
      -- No conheo bem o Veiga... Apenas ligeiramente. Quase tanto
quanto voc.
      -- Eu conheo bem o Veiga.
      -- Quase tanto quanto conheo voc -- esclareceu o outro.
Separaram-se. No seria daquela vez que haveriam de se entender.




VEIGA se empenhava, com outros redatores, numa discusso sobre a
guerra. Bebiam batida apoiados no balco da cantina, e Amorim, o
reprter de polcia, sustentava que em breve a Inglaterra tambm seria
invadida. Eduardo ps-se a beber com eles:
      -- Hitler  capaz de tudo.  um carismtico. Aprendera aquela
palavra e usava-a pela primeira vez.
      Olhou de lado para o Veiga, ele no parecia ter ouvido. Java, um
revisor,  que respondeu:
      -- Capaz de qu? De invadir a Inglaterra? E a Unio Sovitica?
      -- Capaz de tudo -- retrucou com segurana.
      -- Deixa disso, menino, voc no sabe nada. S porque na
Frana...
      -- Na Frana, se o marechal Ptain...
      -- Ptain  um traidor.
      -- Eu sei -- ele no sabia: -- Mas estou querendo dizer... No
sabia tambm o que estava querendo dizer.
      -- ...a burguesia foi responsvel.
      -- A burguesia! -- o outro soltou uma gargalhada. -- Olha s esse
filhinho do papai falando em burguesia. Voc no sabe o que est
dizendo. Um burgus feito voc...
      -- Eu? Burgus? -- e se ergueu, insultado. Um homem que se
encontrava com outros  meia-noite na oficina de um jornal, que bebia
cachaa e escrevia artigos literrios jamais poderia ser burgus.
Burgueses eram os outros.
      -- Vai para a...
      Esboou-se um comeo de briga. Java se enfurecia:
      -- A culpa  sua, Veiga. Traz esses meninos bonitos para aqui,
no sabem beber, d nisso.
      -- Menino bonito  a...
      -- Pra com isso, gente -- interveio o Amorim: -- Voc tambm
no sabe nada, Java. Voc  um mascarado, com essa mania de
comunismo.
      -- Eu sou comunista -- e Java bateu com o punho fechado no
peito magro. -- A Unio Sovitica...
      -- Que Unio Sovitica nada. Por que voc no fala Rssia, como
todo mundo?
      A roda se dissolveu. Alguns voltaram ao servio na oficina, os
outros se dispuseram a sair. Eduardo ficou indeciso.
      -- Vou com vocs -- resolveu, enfim. Veiga o olhou, apreensivo:
      -- Ns vamos dar uma volta l embaixo -- explicou.
      --  capaz de no te deixarem entrar -- gracejou Amorim.
       porta do cabar ele se fez de homem, pediu um cigarro ao Veiga,
acendeu-o e foi entrando. O porteiro estendeu o brao:
      -- Proibido menores.
      -- Menor, eu? -- e, tonto de humilhao, evitou os olhos dos
companheiros. Amorim se ps a rir:
      -- Eu no disse? Volta no ano que vem...
      Veiga parlamentava com o porteiro:
      -- Me responsabilizo por ele.
      Entraram, afinal. Eduardo procurava apoio, correndo os olhos ao
redor, com simulada displicncia. Algumas mesas em torno da pista de
danas, uma orquestra, homens bebendo cerveja, mulheres espalhadas
pela sala. No tinha nada de mais, como numa festa qualquer. Aquelas
eram as mulheres, as famosas mulheres da "zona". Seriam todas
prostitutas? Nenhuma delas estava nua, nem sumariamente vestida.
Procediam   como    qualquer   mulher   procederia.      Apenas,   quando
danavam, requebravam-se, apertando o parceiro, dando passos
ousados. Arranjavam fregueses, certamente -- quanto cobrariam?
Moravam em penses por perto. Talvez algumas estivessem ali s para
se divertir. A semi-escurido do ambiente no permitia ver bem suas
feies, arranjadas de maneira a parecerem belas, atraentes. Fixou-se
numa, sozinha na mesa junto  orquestra: o olhar perdido, as mos
candidamente cruzadas no colo.
      -- Aquela tambm ser? -- no se conteve, perguntou ao Veiga
em voz baixa. Haviam-se sentado em torno a uma mesa, tomavam
cerveja.
      -- Qual? Ser o qu?
      -- Aquela perto da orquestra. To menina ainda.
      Veiga apertou os olhos por detrs dos culos, para enxergar
melhor.
      --  a Jupira, parece. No  m, no.
      -- Menina, a Jupira? -- e um dos rapazes riu, voltando-se para os
outros: -- Ouam esta! Eduardo disse que a Jupira  menina.
      -- Daqui no estou vendo direito...
      Aproveitou-se de um bocejo para assumir uma atitude de adulta
indiferena:
      -- Vocs vo ficar?
      -- Daqui a pouco vamos embora. Tambm estou com sono.
      Veiga, por seu lado, assumia ares discretamente protetores -- seu
pai dentro do mundo. Inquietava, mas era confortante.
      Uma mulher veio sentar-se com eles. Aquelas eram as mulheres.
De onde viriam? Onde teriam nascido, onde brincaram? Algum, ao
microfone, anunciava uma bailarina. A mulher a seu lado disse que se
tratava de uma grande artista. Ps-se a acariciar-lhe a perna, por baixo
da mesa.
      -- Vamos embora -- e o Veiga fez sinal ao garom.
      -- Eu vou ficar.
      -- Ficar?
      Todos o olharam, surpreendidos.
      -- Vou ficar com ela -- e apontou a mulher com naturalidade. No
ntimo preferia a Jupira. -- Onde  que voc mora?
      -- Aqui perto.
      Veiga, de p, hesitante:
      -- Bem... Espero voc no restaurante da esquina.
      J se encaminhava para a porta quando Eduardo o alcanou,
puxou-o de lado:
      -- Voc pode deixar algum dinheiro?
      Um dos rapazes se atrasara:
      -- Cuidado, que essa mulher sofre de estreitamento...
      No sabia o que queria dizer aquilo, a razo do gracejo, temia
pegar    doena.    Devia   ter-se     prevenido   antes,    na     farmcia.   J
arrependido, deixou que os companheiros se afastassem e foi-se com a
mulher na direo oposta.
        Veiga esperava, sozinho, no restaurante.
        -- Onde esto os outros?
        -- Por a. To depressa assim?
        -- . Vamos indo?
        -- Comer alguma coisa...
        -- No, estou sem fome.
        -- Que cara  essa? Aconteceu alguma coisa?
        -- Nada. Vamos embora.
        De repente sentiu vontade de vomitar. A nusea subiu-lhe  boca
num mpeto, mal teve tempo de precipitar-se at a rua, apoiar-se num
automvel. Algum que passava o evitou com um sorriso de nojo.
        Veiga o seguira, preocupado:
        -- Quem sabe se voc...
        -- Nada. Estou melhor. Foi aquela cachaa.
        Em casa, j deitado, recomps a cena: o cabar, a mulher, o
quarto da mulher. Pela janela, o letreiro luminoso. Uma boneca na
cadeira.   Cheiro   enjoativo     de   p-de-arroz,     vaselina.   Retratos    na
penteadeira, uma luz vermelha junto  cabeceira da cama -- a mulher
estendendo o brao e apagando a luz. O corpo da mulher no escuro, o
cheiro do corpo, o sexo mais escondido do que imaginara -- recndito,
inatingvel.   Estreitamento?     Buscava-o,       em   movimentos       bruscos,
desajeitados, incontrolveis, a mulher procurava ajudar, mas era tarde,
j havia acabado.
        -- No tive culpa -- preveniu ela, enquanto se vestia, com medo
de que ele no quisesse pagar.
        Pois agora, sozinho, excitava-se, lembrando detalhes. Agora se
sentia capaz de conter-se o tempo que quisesse, ir at o fim. Prolongou
o prazer de imaginar, reavivou mincias, agora sim, no acabava logo,
era mais fcil, assim devia ser, e mais ainda, agora sim, por que
resistir? se era bom, a mesma coisa, no precisava de mulher, tudo se
completava.
      Logo o remorso se abateu sobre ele -- sentia-se frustrado,
diferente dos outros homens, proscrito, tinha nojo de si mesmo.




TOLEDO continuava a lhe emprestar livros. Leu os romancistas
brasileiros, alguns franceses, esqueceu tudo em favor de Dostoievski.
Sentia-se encarnado em Raskolnikoff, chegou a pensar em cometer o
crime perfeito. Aos poucos se evidenciava para ele a superioridade do
ser perseguido sobre o ser perseguidor. Mauro, com quem voltara a
encontrar-se, partilhava de igual entusiasmo, era seu cmplice na
aventura:
      -- Sem nenhum motivo. Matar algum sem nenhum motivo,
jamais descobriro.
      A noite, juntavam-se aos literatos do jornal. No havia ali quem
no tivesse em casa algo indito que seria o melhor do pas, no dizer
dos demais. O prprio Java era autor de um citadssimo -- por ele
mesmo -- romance proletrio, que descrevia revolues, o rudo da
metralha, toques de corneta, gemidos, exploses:
      --  uma espcie de polifonia literria -- explicava ele, exalando
cachaa. -- O processo, em si, no  novo. Na Unio Sovitica...
      Panait Strati, Gorki, "Jean Cristophe", "Cimento", "A Montanha
Mgica". Tudo mais inteiramente superado. Abaixo a literatura de
gabinete! Abaixo a arte de salo! No era preciso aprender nada, nem
ler, nem estudar. Viver -- eis o que importava:
      -- Veja o exemplo de Van Gogh: largou tudo e foi viver.
      -- Quem largou tudo foi Gauguin, sua besta.
      -- Largou tudo e foi pintar.
      A princpio, Eduardo e Mauro se davam bem com essa gente.
Hugo, o novo amigo, j mais arredio, desconfiado:
      -- So uns morceges. Nunca escreveram nada.
      Acabaram formando um grupo  parte. Os outros se ressentiam:
      -- Os gnios incompreendidos.
      -- Trs cretinos iluminados.
      No ligavam: eram superiores. Juntos, faziam suas descobertas
literrias. Que literatura proletria! Verlaine, isso sim; Rimbaud e
Valry. Juntos, choraram Baudelaire. Neruda, Garcia Lorca, Fernando
Pessoa, soltos pelas ruas:
      -- Sucede que me canso de ser hombre!
      -- La luz del entendimiento me hace ser muy comedido.
      -- O teu silncio  uma nau com todas as velas pandas...
      Veiga os protegia, publicando-lhes os trabalhos no suplemento.
Em paga, faziam de graa a paginao. Mas tambm o Veiga tinha seus
contos, mostrava-os meio ressabiado, os trs eram implacveis;
      -- Isto no  conto nem aqui nem na China.
      -- Corte toda a primeira pgina que talvez melhore.
      -- Daria, quando muito, uma crnica.
      O autor protestava, tirando os culos e citando Mrio de Andrade:
      -- Conto  tudo que chamamos de conto!
      Eduardo renegara os que havia escrito, fizera novos. Preocupava-
se com o fenmeno da criao artstica, a conscincia profissional, a
misso sublime do escritor, o artesanato. Nada de concesses; a arte
pura no devia ser conspurcada, a verdadeira mensagem tinha de ser
transmitida. Pensou mesmo em fundar uma revista de esttica
chamada Mensagem, mas j existia outra, sem mensagem alguma, com
esse nome. Comunicava suas idias aos amigos, que faziam coro:
      -- Salvar o mundo para qu?
      -- A injustia  necessria para que a justia se revele.
      -- O artista  o profeta do passado.
      Estudando juntos, para as provas de Direito. Mauro, aluno de
Medicina, vinha estudar Direito tambm. Logo, uma discusso qualquer
os empolgava, esqueciam tudo para conversar, descobrir o mundo e o
perder, na nsia de sair pela cidade, farrear, beber.
      -- Estou sem dinheiro.
      -- Eu, tambm, para variar.
      Precisavam justificar o estado de embriaguez em que j se
achavam.
        -- O jeito  vender o Yorick.
        Yorick -- o esqueleto -- pertencia ao pai de Mauro, que era
mdico.
        -- Vou fazer prova de anatomia. Tenho vivido noites de Hamlet,
com aquela caveira me espiando. Quem teria sido? Como viveu? Que
pensou? Para quem aqueles dentes se mostraram num sorriso? Que
palavras saram daquela boca?
        -- Voc nunca leu "Hamlet", calabrs.
        -- Fiz um poema chamado "Balada Macabra", vocs querem
ouvir?  uma obra-prima.
        -- Depois, depois. Vamos ao que interessa: quanto vale o
esqueleto?
        -- Tive uma oferta de cem cruzeiros.  pouco.
        -- Pouco? Eu venderia o meu por dez, s para tomar um chope
hoje.
         porta de casa Mauro os deteve:
        -- Vamos com calma. H qualquer coisa de podre no reino da
Dinamarca.
        A luz do gabinete estava acesa.
        -- Vocs sobem e fazem o servio. Eu distraio o velho.
        Enquanto o esqueleto saa pela janela, dependurado num
barbante, Mauro distraa o velho:
        -- Meu filho, voc tem prova amanh?
        -- Tenho.
        -- Estudou?
        -- J.
        -- Ento me fale no aparelho digestivo.
        -- Ora, papai, tem cabimento falar no aparelho digestivo?
"Comigo se hay vuelto loca toda la anatomia. Soy todo corazn!"
        -- Que bobagem  essa?
        --  um verso de Maiakovski, um poeta russo.
        -- Poesia no enche barriga de ningum. E isso no  russo, 
espanhol.
         Agora os trs seguiam pela rua, carregando o esqueleto aos
trambolhes, assustando os transeuntes. No encontraram em casa o
provvel comprador. Foram procur-lo no centro, entraram de supeto
numa confeitaria, houve pnico, um garom chegou a derrubar uma
bandeja de sorvetes. Sentaram-se no bar de costume, o esqueleto
acomodado numa cadeira, pernas cruzadas, cigarro  boca.
         -- Chope para trs. Hoje  ele que paga.
         O dono do Dar no gostou da brincadeira, ameaou chamar a
polcia. J alta noite, acabaram, os trs, num banco da praa,
desanimados e secos, cismando na impassibilidade do esqueleto que
um dia tivera carnes, sentira fome, sede, talvez tomasse chopes.
         -- Coitado, afinal merece respeito.
         -- Seria uma baixeza vend-lo.
         -- No posso voltar com ele. Leve para sua casa.
         -- Eu? Voc quer que eu mate minha me de susto?
         -- E voc, Hugo?
         -- No fico sozinho com ele, de jeito nenhum.
         Eduardo foi  sua casa, em pouco voltava com uma p de jardim.
         -- Depressa, antes que aparea algum.
         Abriram rapidamente uma cova rasa na terra fofa do canteiro.
         -- Assim. Deita ele aqui. Adeus, Yorick! Remember me! Agora joga
terra.
         Se endireitaram, compenetrados, persignaram-se, e sumiram na
noite em disparada.




-- "MUNDO, mundo, vasto mundo"!
         -- "Grito imperioso de brancura em mim"!
         -- "Meu carnaval sem nenhuma alegria"!
         De sbito, um deles sugeriu:
         -- Vamos subir no Viaduto?
         Hugo era o mais gil: galgava o parapeito com presteza, corria
sobre a estreita fita de cimento, a trinta metros do solo, como se
andasse em cima de um muro. Curvado, subia o grande arco que se
elevava, abrupto, sobre a prpria amurada. Eduardo subia do outro
lado. L em cima se encontravam, equilibristas de circo, passavam um
pelo outro, vacilavam, ameaavam cair. Mauro ainda no tivera
coragem; os dois se sentavam na viga de cimento armado suspensa no
espao, balanavam as pernas no ar, gritavam para ele:
      -- Sobe, carcamano!
      -- "Mijemos em comum numa festa de espuma"!
      Naquela noite Mauro se animou a subir. Quando se viu largado
no vazio, tendo sob os ps apenas meio metro de cimento e l embaixo,
muito embaixo, os trilhos da estrada de ferro a brilhar, um trem
passando exatamente naquele instante, no resistiu  vertigem. Deitou-
se de bruos, agarrou-se com fora, dilacerando as unhas na superfcie
spera, ps-se a chorar:
      -- No deso mais. Pelo amor de Deus me tirem daqui. Chamem o
Corpo de Bombeiros!
      Era extraordinrio que a brincadeira imprudente no terminasse
em tragdia. E se repetia porque (rezava a tradio) um poeta (um
grande poeta) havia feito aquilo antes, para se divertir. Anos mais tarde
Eduardo lhe perguntaria se era verdade e o poeta haveria de confirmar:
      -- Parece difcil, mas no  tanto, voc no acha?
      No seu tempo, subia s trs da tarde, depois de tomar apenas um
copo de leite, pour pater les bourgeois. A nova gerao procurava
imit-lo nos versos e nas proezas, mas precisavam beber para criar
coragem.
      Algum soltou um berro. Era Zaratustra:
      -- " preciso um grande caos interior para parir uma estrela
danarina"!
      -- Que Nietzsche, que nada!
      -- E da? S porque voc no leu?
      -- Ento soletra ao menos o nome dele, se voc  capaz.
      -- Nietzsche tambm nunca leu Nietzsche.
      Encharcados de literatura, pelas ruas da cidade.
      -- Eu sou um tmido! -- gritou Mauro para os transeuntes
espantados.
      -- "Vivo em ti minha tmida ternura" -- citou Hugo.
      -- De quem  esse verso?
      -- Meu, uai.
      -- Ti-ti-t? Titica.
      -- Aliterao, seu merda. Voc no entende dessas coisas. J no
se identificavam com o ambiente na oficina do jornal.
      -- Veiga, esta vida est te matando. Voc se mediocriza aqui
dentro, a troco de qu?
      -- Acaba subliterato, feito o Java.
      Java ia passando:
      -- Subliterato  a puta-que-pariu.
      Os trs puseram-se a cantar:
      -- O pau rolooou... caiu!
      -- Vamos pra puta-que-pariu.
      -- No se incomode, Java;  uma espcie de polifonia literria .
      -- Est tudo bbado -- constatou o Veiga, dando de ombros.
      No caminho de volta, sentiram-se mal, resolveram deter-se no
canal do crrego Leito:
      -- Vamos vomitar, minha gente.
      -- Ateno! Vomitar!
      Procederam      meticulosamente   ao   ritual:   tiraram   o   palet,
afrouxaram a gravata, debruaram-se na amurada, meteram o dedo na
garganta. Depois, aliviados, foram subindo a p a rua deserta. Nova
distrao: arrancar placas das paredes, trocar a numerao das casas e
o nome das ruas. Uma noite a placa " Proibido Pisar na Grama" do
jardim da igreja de Lourdes foi parar no jardim da casa do delegado. O
delegado, pequeno e de cavanhaque, costumava aparecer no bar, pela
tarde. Travava com os rapazes longas discusses sobre literatura.
Chamavam-no de Barbusse.
      -- Imagine o que uns moleques me fizeram ontem -- dizia ele.
         Os trs se punham a rir. O delegado no deixava por menos: na
sua primeira noite de planto mandou um guarda percorrer a cidade:
         -- Prenda o primeiro que encontrar, se possvel os trs. J devem
estar bbados.
         Pouco tempo depois, estavam presos. E bbados.
         -- No fizemos nada.
         -- Barbusse, abra essa porta seno vai ter.
         -- Nosso despertar ser terrvel!
         Logo, o delegado comeava a discutir com eles, atravs das
grades:
         -- Superado o parnasianismo? Ora, vamos deixar de bobagem,
meninos! Depois de Bilac o que foi que houve no Brasil, hein? Me
digam! Pois fiquem sabendo que Alberto de Oliveira ...
         Vingaram-se, trancando o porto de sua casa com um rosrio de
cadeados furtados de outros portes. O delegado no pde sair  rua.
         -- Vocs ainda se estrepam comigo -- ameaava, partilhando com
eles uma cerveja.
         Nada mais a fazer -- a cidade dormia e a noite avanava.
Cansados, deixaram-se ficar num dos bancos da praa:
         -- Chegou a hora de puxar angstia.
         Puxar   angstia   era   abordar    um   tema   habitual,   como   el
sentimiento trgico de la vida, le recherche du temps perdu, to be or not
to be:
         -- Voc j pensou que daqui a cem anos estaremos mortos?
         -- O que so cem anos, diante da eternidade?
         -- Esta vida  uma merda.
         Tema habitual de Hugo: o efmero da existncia. Nada valia nada,
tudo precrio, equvoco, contraditrio. Vinha escrevendo um livro, uma
espcie de ensaio potico, em que procurava traduzir este sentimento
da inutilidade das coisas. Era a palavra-chave; bastava dizer, a certa
altura, com um suspiro de desalento: "mas que cooooisa!" e a angstia
baixava logo as negras asas sobre os trs. "Angstia? Mal sabamos com
que estvamos brincando", diria cada um para si mesmo, anos mais
tarde, quando a verdadeira angstia os apanhasse.
      Tema habitual de Mauro: a incidncia no tempo e no espao: a
inexorabilidade do fortuito na vida de cada um. Seu pai jamais se
encontrara com sua me. Ele prprio nascera cem anos atrs. Cada
gesto, cada palavra, cada pensamento seu refletia-se nos outros,
alterava-lhes a vida, comandava-lhes o destino. Ali, sentado no banco
do praa, ele estava, por uma srie de relaes, ou ilaes (gostava
desta palavra) negativas, alterando o curso das coisas, talvez o curso da
guerra.
      -- Vivo em mim a humanidade inteira! -- e se erguia,
entusiasmado .
      Tema habitual de Eduardo: o tempo em face da eternidade.
Caminhamos para a morte. O futuro se converte, a cada instante, em
passado. O presente no existe. Vivemos a morte desde o nascimento.
      -- Nascemos para morrer.
      E ficavam calados, solenizados, angustiados enfim, diante da
gravidade do que Eduardo sentenciara.
      -- Para isso vivemos. E est certo,  a nossa chance, a que todos
tm direito. Matar no  to grave como impedir que algum nasa, tirar
a sua nica oportunidade de ser. O aborto  o mais horrendo e abjeto
dos crimes. Nesse ponto, Job estava completamente enganado: nada
mais terrvel do que no ter nascido.
      Uma noite Eduardo e Hugo foram ao banco da Praa, j de
madrugada, especialmente para chorar. Encontraram-se por acaso
numa festa de carnaval. Em meio  animao reinante, o efmero das
coisas juntou-se ao tempo-versus-eternidade, e no resistiram: foram
chorar na Praa o tempo perdido. Mais tarde viriam a saber que, por
um desses milagres de afinidades eletivas que os unia, Mauro, em casa,
saqueie mesmo instante chorava tambm. A incidncia no tempo e no
espao.
      Mauro    encerrava   a   sesso   de   angstia    propondo    que
alimentassem a besta:
      -- Chega, gente,  demais. Forniquemos.
       Sem dinheiro como viviam, o hbito era percorrer as ruas da
cidade, noite adentro,  cata de mulatas.
       -- Uma grande instituio.
       -- "O ltimo ouro do Brasil".
       Perdiam-se pelo Bairro dos Funcionrios vendo em cada sombra
de rvore ou em cada capote de guarda-noturno uma empregada a
caminho de casa. Certa madrugada, Mauro abordou um vulto de
mulher que seguia apressado, de braos cruzados.
       -- Sozinha, meu bem?
       -- No -- e a mulher lhe brandiu  cara um rosrio: Com Deus.
       Impressionado, desde ento Mauro pontificava:
       -- Nunca abordar mulheres de braos cruzados. Esto indo para
a missa das cinco.
       Eduardo esquivava-se, disfarava: desde a primeira experincia,
no estivera mais com mulher. Nada dissera a ningum, chegara
mesmo a inventar histrias. Em casa, a empregadinha deixava aberta a
porta do quarto, que dava para a cozinha, expondo o corpo seminu aos
seus olhos, quando ia tomar um copo de leite antes de dormir. Mas um
incidente em casa de Mauro pusera gua na fervura, temia que lhe
acontecesse o mesmo, temia que seu Marciano descobrisse. Depois de
vrias incurses furtivas e bem sucedidas at o quarto da empregada de
sua casa, Mauro, pesado que era, quebrara estrepitosamente o catre
onde dormia a mulatinha, acordando toda a famlia.
       -- Um filho meu!
       -- No respeita o prprio lar!
       A me de Mauro chorava, o pai de Mauro bramia:
       -- Vergonha! Nunca, na minha famlia! Amanh voc vai embora
daqui.
       No dia seguinte ia embora a empregada.




O   ANCINHO   do jardineiro desenterrou uma ossada humana no jardim da
Praa. O encontro macabro foi noticiado pelos jornais.
      -- Yorick ressuscitou.
      -- Precisamos celebrar.
      No foram longe, naquela noite: no caminho de um a outro bar,
Hugo comeou a sentir-se mal:
      -- No sei o que estou sentindo... Meu Deus, me segurem!
      E caiu. Eduardo e Mauro se precipitaram, ergueram-no do cho:
      -- Radiguet! Oh Radiguet! O que  que h com voc, rapaz?
      Raymond Radiguet entreabriu os olhos, arfante, apoiado nos
companheiros:
      -- No sei... Estou sentindo... Estou... Me segurem, j vou de
novo. Me segu...
      Tornou a desmaiar. Os dois se entreolharam, apreensivos,
resolveram transport-lo:
      -- Para onde?
      No Pronto-Socorro, foram atendidos por um enfermeiro:
      -- Coma alcolica -- disse. -- Que diabo vocs andaram bebendo?
      -- Cachaa, doutor.
      -- No sou doutor. Me ajudem aqui. Vocs dois tambm no esto
l muito bons.
      Ajudaram-no a descansar o corpo do amigo na mesa e o
enfermeiro aplicou-lhe uma injeo de coramina.
      -- Daqui a pouco comea a espirrar feito um maluco, vocs vo
ver s. Vai dizer que se resfriou.
      Hugo voltava a si, olhava em torno, aparvalhado, dava um
espirro.
      -- Peguei um resfriado.
      Outro espirro. Cambaleou, ao tentar um passo, amparou-se nos
companheiros:
      -- Meu Deus, essa gripe! -- disse, entre dois espirros.
      Na rua, mal podia caminhar. Apoiou-se ao muro, deu cinco
espirros seguidos:
      -- Por favor, estou passando mal. Fico por aqui, vocs podem ir
andando.
      Curvou-se para a frente e emborcou. Contiveram-no a custo.
      -- Me larguem. Bestalhes. Cachorros.
      Tentaram domin-lo, mas ele se espalhava, aos safanes:
      -- Quem me encostar a mo, eu mato.
      Sentou-se no meio-fio, escondeu a cabea nos braos.
      -- Que porre mais esquisito. Est nos desconhecendo.
      -- At que no bebeu tanto assim.
      Sentaram-se ao lado do companheiro, na esperana de conquist-
lo com brandura:
      -- Hugo! Que  isso, rapaz? Somos ns.
      -- No fica assim no, minha flor.
      Ele afundou mais a cabea entre os joelhos: estava vomitando.
Entre seus sapatos, na sarjeta, surgiu uma mancha vermelha.
      No dia seguinte o pai de Hugo telefonava ao pai de Mauro, seu
velho conhecido.
      -- Esses rapazes esto impossveis, Lombardi. O meu, ontem, me
apareceu passando mal, completamente embriagado. Esteve por a, na
pndega, em companhia do seu.
      -- Eu estava mesmo para lhe falar sobre isso! -- explodiu o outro.
-- Esse menino  a tragdia da minha vida. Ontem, por pouco no
botou fogo na casa. Dormiu de cigarro aceso.
      -- O meu me preocupa por causa da sade. No  l muito forte,
e agora deu para isso...
      -- E o meu? No sei como fui ter como filho um banda-lho destes.
      -- Precisamos conversar.
      -- Isso! Conversar.
      Um encontro: tratar do assunto, tomar providncias. Mas era
preciso convocar tambm seu Marciano, pai de Eduardo -- a quem
conheciam apenas de vista:
      -- E aquele  o pior. J proibi meu filho de andar com ele --
afirmou o Dr. Lombardi.
      -- Voc desculpe, meu velho, mas o pior  o seu mesmo.
      Telefonaram para seu Marciano, marcaram uma visita.
         -- Os pais de seus amigos vm aqui -- disse seu Marciano para o
filho. -- Se queixam de que vocs passam a noite na pndega.
         -- Esta palavra no se usa h mais de vinte anos. Na farra, o
senhor quer dizer.
         Seu Marciano olhou para o filho:
         -- Sei l... No entendo a mocidade de hoje.
         -- Estudantadas, papai.
         --  isso mesmo -- admitiu o velho.
         Quando os dois vieram, solenemente, discutir a questo, seu
Marciano procurou liquid-la de sada:
         -- So moos,  preciso a gente compreender. Estudantadas.
         --   Estudantadas?    No   nosso    tempo,     estudante   era   algo
respeitvel...
         -- No nosso tempo... -- comeou o outro, seu Marciano fez um
gesto:
         -- Ah! No fale no nosso tempo, doutor.
         -- O senhor vai me desculpar, mas vou lhe dar um exemplo:
ainda outro dia soube que seu filho ameaou suicidar-se, subindo no
alto do Viaduto...
         -- Suicidar? Meu filho? -- seu Marciano arregalou os olhos,
voltou-se para dentro: -- Eduardo!
         Eduardo veio at a sala.
         -- Esto dizendo que voc ameaou se suicidar, subindo no
Viaduto.
         -- Eu? Suicidar? Quem disse isso?
         -- Meu filho me disse que voc -- comeou o pai de Hugo.
         Eduardo o interrompeu:
         -- No tem perigo nenhum. Estou acostumado a saltar do ltimo
trampolim, l na piscina.
         -- E posso saber que proveito voc tira, arriscando assim a vida?
         -- Posso saber que proveito vocs tiram, no arriscando a sua?
         Seu Marciano mexeu-se na cadeira.
         -- Meu filho anda comprando bebidas na conta do armazm --
denunciou o pai de Hugo.
      -- Isso no  nada! -- e o pai de Mauro brandiu o punho: -- O
que vocs fizeram do meu esqueleto?
      Voltou-se para os outros, desalentado:
      -- Sumiram com o meu esqueleto
      Seu Marciano custava a seguir o curso que a conversa tomava.
Olhou interrogativamente o filho.
      -- Surrealismo, papai.
      -- Surrealismo?
      Os dois visitantes se entreolharam, sem entender. Seu Marciano
suspirou, mais descansado.
      -- Surrealismo: a libertao dos impulsos do subconsciente em
forma de arte. A vitria sobre a censura do consciente. Sonhos, Freud,
psicanlise -- essa histria toda.
      -- E vocs... so surrealistas?
      -- Que pretendem, afinal?
      -- No sabemos ainda. Pretendemos -- e o jovem inclinou-se para
a frente, juntando os dedos, olhar brilhante -- no a libertao do nosso
subconsciente em forma de arte, o que os surrealistas j fizeram e
cansaram de fazer -- vocs nunca ouviram falar em Andr Breton? No,
pelo jeito nunca ouviram. Bem, mas eu dizia: no a libertao dos
impulsos   do   subconsciente     de    cada   um,   compreende?   mas   o
desencadeamento das foras comuns a todo homem, de toda a
humanidade, sabe como ? adormecidas, h sculos, pelas exigncias
da vida em sociedade. Subjugadas pelos preconceitos. A moral
burguesa. As convenes sociais. O lugar-comum. Essa coisa toda. Uma
espcie de subconsciente coletivo, de que Freud no pensou, nem ele,
nem ningum.
      -- Voc pensa que Freud... -- e o Dr. Lombardi pigarreou.
Eduardo no o ouvia:
      -- Estudaram a psicologia das multides mas se esqueceram de
levar o estudo at as profundas do inferno, isto , do subconsciente da
humanidade- Agora, esse subconsciente  que vir  tona, enfim liberto,
e ser belo, ser terrvel! Ser o regime do terror, a prpria loucura.
        -- Com loucura no se brinca! -- advertiu Dr. Lombardi.
        -- Voc precisa descansar, levar uma vida mais regrada -- disse o
outro, persuasivo. -- Est um pouco nervoso, excitado. Quando eu
tinha a sua idade...
        Seu Marciano acompanhou-os at a porta:
        -- No se impressionem com o menino. Ele  assim mesmo. Fala
essas coisas, mas, no fundo,  muito ajuizado.
        -- Cuidem de seus filhos, eu cuido do meu! -- acrescentou, ao v-
los pelas costas. Voltou-se, ao dar com o rapaz:-- Eduardo, escuta aqui
uma coisa: est muito bonito que voc escreva a suas poesias, se
encontre com seus amigos, faam surrealismo, etc.. S lhe peo uma
coisa: termine seu curso de Direito, tire o seu diploma. Para isso, 
preciso que voc cuide de sua sade, no deite to tarde, no beba
demais. Sei que no adianta falar, mas, enfim, estou cumprindo meu
dever! Muito cuidado com a vida que voc leva... Que histria  essa de
Viaduto?
        -- No subo mais, prometo.
        -- Voc subia l em cima? Na parte mais alta?
        -- Naquele arco de cimento, sabe como ? A uns trinta metros do
cho.
        -- Valha-me Deus! Voc est maluco.
        --  uma coisa  toa, papai. Muito mais difcil  saltar de
trampolim.
        -- Voc deixou mesmo a natao?
        -- Deixei: com o estudo, e a vida que eu levo,  difcil treinar. Mas
meus rcordes ainda no foram batidos.
        -- Quer dizer que voc ainda  campeo.
        -- Sou.
        Entreolharam-se, pai e filho. Seu Marciano ps a mo no ombro
do rapaz:
        -- Meu filho, no diga para sua me, ela se preocupa demais com
voc, no quero que comece a se preocupar tambm comigo. Mas voc 
exatamente como eu gostaria de ter sido.




-- HUGO ontem vomitou sangue.
      -- Eu vi. Aquilo era sangue?
      -- S podia ser.
      Calaram-se, impressionados, ficaram pensando.
      -- Voc acha que isso quer dizer...
      -- No quer dizer nada. Isso acontece, o lcool costuma irritar a
mucosa do estmago, pode ferir. Ele bebeu com estmago vazio. No era
hemoptise.
      -- E o doutor acha que devemos dizer a ele?
      -- Doutor  a me. No, no diga nada, para que assustar o
rapaz?
      Em pouco chegava Hugo:
      -- Ento a coisa ontem esteve feia, hein? Dei muito trabalho?
      -- Se deu. Mas o doutor aqui acha que voc est fora de perigo.
Sabia que Bouvard e Pcuchet estiveram l em casa, hoje?
      -- Como foi a reunio dos trs grandes?
      -- Papai chegou falando o diabo de voc.
      -- Foi uma palhaada. Mas no tem importncia. Olhem:
comunico-lhes, solenemente, que est fundado o terrorismo.
      Base do novo movimento: preconizar e difundir o terror, de todas
as maneiras, em todas as suas manifestaes. O Terror nas Letras, cujo
prottipo seria a novela "Metamorfose", de Kafka.
      -- Kafka era um terrorista. Incentivar todas as situaes
terroristas, estabelecer o pnico, lanar o terror.
      -- E a soluo? -- perguntou Mauro.
      -- A soluo  a conduta catlica -- respondeu o amanuense
Belmiro.
      -- A soluo  o prprio problema, sabe como ? No h soluo.
Imagino a seguinte cena: um congresso de sbios, os mais sbios do
mundo, que se reuniram para resolver o problema dos problemas, o
problema transcendental, o Problema, tout-court.
      -- O problema o qu?
      -- Tout-court. V  merda.
      -- Ah, tout-court. Merci.
      -- Pois bem: esto reunidos, os sbios, a postos para comear a
trabalhar, encontrar a soluo do problema, e o Presidente do
Congresso d por iniciada a sesso, anunciando que vai, enfim, dizer
qual  o Problema que os reuniu. Faz uma pausa, e declara
solenemente: "Meus senhores! O problema  o seguinte: No h
problema!"
      -- E da?
      -- Da os sbios terem de resolver o problema da inexistncia do
problema.  o terror.
      -- Confesso que no entendo.
      -- Vocs no entendem porque so burros: no nosso caso,  a
mesma coisa. S que h o problema, o que no h  a soluo. Logo,
est solucionado.
      -- E qual  o problema?
      -- O problema  o terror
      -- Ah!
      Calaram-se, os trs, e riram, deslumbrados  idia de que agora
sim, estavam completamente doidos -- os pais tinham razo.
      -- Es una cosa terrible, la inteligencia!
      -- Unamuno no era terrorista.
      -- D trs exemplos de situao terrorista.
      -- Um grito na igreja, uma gargalhada no velrio, um rabe no
elevador.
      -- Muito brando.  o que se pode chamar, apenas, de "terrorismo
cor-de-rosa". O verdadeiro terrorismo  o absurdo mais terrvel, por
exemplo: o do homem que se apaixona por um fio de cabelo da amada, e
quer viver com ele, dormir com ele, ter filho com ele...
      -- , meus amigos, o inevitvel aconteceu.
      -- Bom lema para o terrorismo: O Inevitvel Aconteceu! Se
considerarmos o aconteceu, a, como substantivo e no como verbo.
      -- Precisvamos  de uma coisa para smbolo.
      -- A coisa -- prosseguiu Eduardo: -- A Coisa  o smbolo.
Ningum sabe o que . Est em toda parte e no est em lugar nenhum.
Assume todas as formas. Pode ser um sentimento, um objeto, uma cor
-- s que tem de ser uma coisa, isto : um substantivo. Por isso
conclumos, h pouco, que aconteceu no era verbo. Onde a Coisa
estiver, a estar o terror.
      Os outros dois ouviam, um tanto apreensivos. Eduardo falava
sem parar:
      -- Me lembrei de uma coisa inventada por Salvador Dali -- A
Coisa era um po. Sairia no jornal com manchete assim: "O Inevitvel
Aconteceu -- A Descoberta do Po". Um po monumental, exatamente
igual a um po-francs comum. A diferena estaria no tamanho:
mediria dois metros de comprimento. O po era encontrado na rua,
levariam para a polcia. Estar envenenado? Conter explosivo?
Propaganda poltica? Os comunistas, o po-para-todos? Anncio de
padaria? Os jornais comentavam e discutiam o que fazer do po. Era s
o, assunto ir esfriando, e um po maior ainda, de cinco metros,
amanhecia atravessado no Viaduto. Toda a cidade empolgada com o
mistrio, a polcia desorientada, o po analisado nos laboratrios. E
continuava o problema: que fazer com ele? Para despistar, um de ns
escrevia um artigo sugerindo que fosse cortado em milhares de pedaos
e doado  Casa do Pequeno Jornaleiro. No Rio, em So Paulo, Recife,
Porto Alegre comeavam a aparecer pes, cada vez maiores, nos lugares
pblicos. Eram os membros de uma sociedade secreta j fundada, a
Sociedade do Po, que comeavam a trabalhar. E um dia surgiria outro
po gigantesco em Roma, outro em Londres, outro em Nova Iorque. A
humanidade deixaria de se preocupar com seus problemas, as guerras
seriam esquecidas, at que resolvessem o mistrio do po. Era a vitria
pelo Terror.
      -- Voc j pensou no tamanho do forno para assar esse po?
      -- Isso no  problema para ns: a idia  de Salvador Dali, que,
alis,  um vigarista.
         --  uma besta.
         -- Falso terrorista.
         -- Abaixo Dali!
         A noite avanava e, de sbito, a Praa ficou inteiramente deserta.
Fora-se o ltimo casal de namorados e s restavam os trs, no banco de
sempre: o coreto vazio, o busto de D. Pedro II entre roseiras, o repuxo
no lago.
         -- Vamos descer, pessoal? -- props Hugo. -- Comer alguma
coisa.
         -- Ou algum -- sugeriu Mauro: -- Meu reino por uma mulata.
         -- Imaginem se o homem tivesse capacidade sexual limitada,
digamos para trinta vezes. Idia terrorista.
         -- Idia cretina. Eu j teria gasto a minha h muito tempo.
         -- Os prdigos: aos vinte anos s teriam uma de reserva.
         -- No, minha nega, tenha pacincia, s me resta uma, no posso
gastar com voc.
         -- E os econmicos? Se continham a vida inteira e, na hora de
morrer, se queixariam: e eu, que ainda tinha vinte e sete!
         Mauro se ergueu, incontido:
         -- Proponho que gastemos imediatamente uma das nossas.
         Foram para a zona bomia. Eduardo j resolvera o seu problema,
exatamente como no sistema terrorista: o problema existia, no existia
era a soluo. Haveria de arrastar, vida afora, o seu dilema, oscilando
entre "as exigncias da vida e sua nsia de pureza" -- como dizia num
verso.
         -- Parece anncio de sabo.
         -- O incorruptvel Marciano.
         -- Eduardo, o Donzel Impenitente.
         Mas Hugo acabava confessando, deprimido:
         -- Tambm no vejo soluo: nos lugares mais puros, numa casa
de famlia, na igreja, tenho os pensamentos mais safados. Ainda ontem,
na missa, me surpreendi olhando as pernas de um menino. Numa casa
de mulheres me sinto puro, tocado pela Graa. E passo a catequizar as
putas, falando de Deus, na salvao eterna.
     -- Pois eu no -- trovejava Mauro: -- Me sinto srdido!
     E citava o poeta:
     "...uma pureza que no tenho, que perdi."
     Continuavam a conversar por citaes, insensivelmente. J
haviam incorporado  sua gria familiar todos os versos do poeta que
mais admiravam:
     -- Perdi o bonde e a esperana, volto plido para casa, cismando
na derrota incomparvel, sem nenhuma inclinao ferica, com a calma
que Bilac no teve para envelhecer, tudo somado devias precipitar-te de
vez nas guas, seria uma rima, no seria uma soluo -- eta vida besta,
meu Deus.
     -- Estive pensando... Por que no fundamos uma revista? Que
fosse representativa de nossa gerao, desse o nosso testemunho...
     -- E nos desse um dinheirinho...
     Eduardo telefonando a Hugo:
     -- Radiguet, sabe de uma coisa? A Besta-Fera est querendo
fundar uma revista.
     Marcaram encontro para fundar a revista: selecionaram os
colaboradores, conversaram horas.
     -- Como vai se chamar?
     -- "Revista" mesmo. No vamos quebrar a cabea com isso no:
acaba no saindo.
     -- Por que no?
     -- Onde arranjar dinheiro?
     -- Se arranjarmos dinheiro no precisamos de revista.
     E a revista morreu ali mesmo, transformada num plano qualquer
de ganhar dinheiro:
     -- Tenho uma idia: vender guarda-chuva em dia de chuva. A
gente compra uma poro de guarda-chuvas baratos, no tempo da seca
(a cigarra e a formiga) e,  primeira chuva que cair, pe dois ou trs
meninos vendendo pela rua, ao dobro do preo. Estou certo de que 
negcio.
         -- Essa sua idia  uma indecncia.  o que os comunistas
chamam de mais-valia.
         Um dia Eduardo chegou em casa com a novidade:
         -- Sabe, papai? Procurei o homem! Estou empregado.
         Seu Marciano no estranhou. Acostumara-se aos repentes do
filho.
         -- O diabo  ter de ficar l, das onze s cinco.
         Informava processos e lia escondido do chefe, o livro dentro da
gaveta. Leu Machado de Assis, desistiu de ser romancista. Leu "Dom
Quixote", decidiu tornar-se picaresco. Toledo lhe emprestava livros de
Azorin, Menendez y Pelayo, Ortega y Gasset. Que pretendia Toledo? Que
ele se especializasse em literatura espanhola? Comeou a ler Proust
com dificuldade.
         -- Sabem de uma coisa? No vai no.
         Hugo protestou: seu autor de cabeceira.
         -- Voc no tem sensibilidade para esse tipo de leitura.
         -- Pois um dia hei de ter: quando voc no tiver mais.
         E se afastou, ressentido. Mais tarde, reformaria o juzo sobre
Proust, sobre a literatura em geral, sobre a vida.
         -- "A vida e o amor inclusive".
         -- Pois vou comear a estudar ingls.  uma vergonha a gente
ainda no ter lido "Ulysses".
         Mauro se limitou a erguer os ombros: no precisava ler ingls
para saber que a vida no valia a pena e a dor de ser vivida:
         -- Olha aqui, voc l, depois me conta. Agora no tenho mais
tempo, tambm estou trabalhando: estou vendendo remdio .
         Era uma pasta cheia de amostras que tinha de sair distribuindo
pelos consultrios.
         -- Quem manqueja de sua influncia, cedo tardar -- arrematou.
         Tinha mania de inventar provrbios:
         -- Quem as ganha, as mgoas amarfanha.
         -- Quem de si faz alarde, cedo o rabo lhe arde.
      Eduardo deixava o palet na repartio, esquivava-se pela porta
como se fosse ao mictrio, ganhava a rua, ia encontrar-se com Mauro e
sua pasta de remdios:
      -- Besta-Fera, est uma tarde belssima. Vamos  Pampulha
tomar uma cerveja.
      -- Voc est doido? No posso, de jeito nenhum.
      -- No analisa no.
      Era a palavra de ordem, espcie de lema que comandava o destino
dos trs, diante do qual nenhum obstculo se sustinha. Acordo tcito,
compromisso de honra: no analisar, porque do contrrio surgiriam
problemas,   todos   tinham   seus   problemas:    esmiuando    motivos,
prevendo conseqncias, nenhuma atitude seria possvel, a vida
perderia a graa. Tinham de viver em cada momento uma sntese de
toda a existncia, no analisar jamais! Mauro abandonou sua pasta de
remdios no meio-fio:
      -- Pronto, no tenho mais emprego, no tenho mais nada, sou
apenas um corao solitrio. Vamos.
      Tomaram o nibus:
      -- Experimente olhar a cidade com olhos de turista. Olha aquela
casa ali, que esquisita. Estamos em Beirute. Olha a cara das pessoas.
Todo mundo tem dois olhos para ver, que coisa estranha.  preciso ver
a realidade que se esconde alm, onde a vista no alcana. Sob o manto
difano da fantasia, a nudez forte da verdade. Palma Cavalo, voc 
uma flor por ter tirado o meu emprego, no trabalho mais. No sou
mais representante de remdios, no sou mais representante de coisa
nenhuma, a no ser das minhas contradies mais absurdas. Voc  a
ltima flor do Lcio, inculta e bela! Devamos ter trazido o Radiguet.
      Hugo tambm estava trabalhando: arranjara um lugar de
professor de portugus, num colgio particular. Vivia se queixando da
sade, no podia beber, tinha dor de cabea, tinha de acordar cedo, de
corrigir provas, um milho e meio de encargos, era um infeliz, seu pai
lhe pedira que pusesse uma carta no correio, como pr uma carta no
correio se no tinha selo? como comprar selo, entrar na fila, esperar,
oh, viver como era difcil, no, no podia sair com eles, no tinha
dinheiro, no tinha onde cair morto, estava mesmo para morrer, sentia
umas clicas, umas pontadas...
      -- No posso, de maneira alguma.
      -- No analisa no!
      -- Dentro de meia hora estarei a.
      Depois de vrias cervejas, Eduardo props que fossem, aquela
noite, a uma festa no clube. Mauro aceitou a idia entusiasmado, Hugo
vacilou:
      -- Festa no clube? Eduardo tem cada uma... Alm do mais no
tenho roupa de festa. Meu terno ter chegado do tintureiro? Mesmo que
tivesse, eu no iria. Ou iria, no sei. Pois v logo, senhor. V, tome um
porre, deixe a vida correr. Se entrar em casa com o p direito, vou. Por
que voc no foi  festa? Porque entrei em casa com o p esquerdo --
onde j se viu? Ento fica resolvido assim: mais tarde eu resolvo. E
chega! Pensar noutra coisa. Se eu fosse um sujeito bem sucedido na
vida, j teria arranjado emprego melhor. Mas no vou  festa, quer
dizer, no vou pensar nisso agora. Meu Deus, esta vida, sem a
eternidade, seria uma molecagem. No vou de jeito nenhum. Depois de
jantar vou... Vou? Vov. O vivo viu a ave. Ah, ento vou, no ? Eu
sabia que acabava indo.
      No foi, mas prolongou a agonia at as trs da madrugada. No dia
seguinte, queixou-se com Eduardo:
      -- Estou ficando cada vez pior: cheguei a me aprontar para ir,
acabei dormindo vestido. Que tal a festa?
      -- A mesma coisa de sempre. Mauro amarrou um porre que s
vendo. Tocou trombone na orquestra, danou sozinho, acabou expulso
do salo.
      -- E as raparigas em flor?
      -- Cada vez melhores. Conheci uma menina, filha de um
ministro, veio passar uns tempos aqui.
      -- Bonita?
      -- Mais ou menos. Um pouco irritante.
       Eduardo nunca mais se encontrara com Letcia.




SEU   ROMANCE,   iniciado na repartio. Agora, escrevia todas as noites --
os amigos queriam, a viva fora, arranc-lo para a rua, ele inflexvel:
       -- No. Tenho de escrever.
       Escrever toda noite. Se no tivesse o que escrever, pagar o tributo
devido  arte. Comeou a fumar, a instncias de Mauro.
       -- No sei por que diabo s voc no fuma.
       -- Eu era nadador...
       -- Deixa de bobagem, rapaz. Vontade de ser diferente. Olha, toma
aqui um cigarro.
       A noite inteira a fumar, olhos pregados no papel em branco. O
romance chegara a um impasse: no sabia o que pretendia, escrevendo-
o. Os amigos telefonavam:
       -- No analisa no.
       No funcionava mais: sem analisar, se recusava. Tinha de
escrever.
       -- Gnio incompreendido.
       -- Est querendo  nos humilhar.
       Havia datilografado e pregado em sua mesa duas citaes em
ingls:

       "Here the man of creative imagination pays a ghastly price for all
his superiorities and immunities. It is the particular penalty of those who
pursue Strange hutterflies into dark forests, and go fishing in enchanted
and forbidden streams."
                                                                  MENCKEN

       "We work in the dark -- we do what we can -- we give what we
have. Our doubt is our passion and our passion is our task. The rest is
the madness of art."
                                                              HENRY JAMES
      -- Ora, deixa disso, Lord Byron. Voc no sabe ingls!
      -- Ele  bem capaz de estar estudando escondido.
      Sorria, no dizia nada.
      -- Olha s o ar superior dele. Quer dizer o que significa isso aqui,
if you please?
      -- Isso o qu?
      -- "Penalty of those", etc..  penalty mesmo, como em futebol?
      Os dois saram impressionados:
      -- Ele parece que resolveu mesmo levar a coisa a srio. Disse que
escreveu 90 pginas, s aproveitou 10. Ser verdade?
      -- Anda lendo coisas, o sacaria. Quem  esse Mencken?
      -- Henry James eu sei: tem uma novela que j foi traduzida. Isso
ele pode ter lido.
      -- Voc no acha que  um desaforo ele no querer sair conosco?
Disse que no h fora humana que o tire de casa hoje.
      -- No que ele muito se engana.
      Em pouco Eduardo recebia pelo telefone um recado: o reitor da
universidade queria falar-lhe, que fosse urgentemente  reitoria.
      -- Comigo? -- espantou-se.
      Quase no freqentava as aulas; escrevera um artigo censurando
a atitude do corpo docente em face de uma greve... Saiu de casa
preocupado, j buscando argumentos para defender-se. Na esquina,
encontrou os companheiros:
      -- Uai, Henry James, resolveu sair?
      Com aquilo iniciou-se uma fase em que nenhum dos trs tinha
segurana mais: vivia-se em estado de expectativa, desconfiana,
precauo, mal o telefone tocava.
      -- Por que no juntarmos nossos talentos? -- resolveram, afinal.
      Durante certo tempo o telefone foi a fonte de mistrio que
envolveu quase todas as figuras conhecidas da cidade. Era o Terror;
houve at quem pedisse providncias  Polcia. Mas os trs, eles
prprios, jamais descobriram quem lhes telefonava, quase todas as
noites, sempre  mesma hora tardia, para no dizer nada.
      -- Papai est furioso.
      -- L em casa quem atende sou eu.
      Acusavam-se mutuamente:  voc! Eu? Ento voc. Eu no! Pois
se telefonam l para casa tambm!
      --  o prprio demnio -- sentenciaram.
      Impressionados,     decidiram,    prudentemente,   suspender   a
brincadeira, sair para novas emoes.
      O demnio existia -- Hugo acabara de ler um livro sobre
demonologia, passara-o a Eduardo. Mauro se recusou:
      -- Demnios, bastam os meus.
      -- Deve ser o Veiga, l da oficina. Tenho a impresso de que
escuto um rudo ao fundo, pode ser de linotipo..
      -- A essa hora? Que linotipo! Chacoalhar de ossos. -- E quem
disse que no cemitrio tem telefone?
      -- E quem disse que o Veiga no  o prprio demnio?
      At que os telefonemas acabaram cessando, o que era mistrio
continuou mistrio. E, uma noite, Eduardo e Hugo viram o demnio.
      Era uma noite clara, de lua. Os dois foram conversando at o
Parque. Havia muito sobre o que conversar, como falavam! Devassavam
as razes da existncia, descobriam a natureza ntima das coisas,
tentavam penetrar o mistrio do ser.
      -- Estamos imprensados entre estes dois acontecimentos: o
nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema,
talvez menos.
      -- No h problemas: s h solues.
      -- S h uma soluo: morrer.
      -- As nossas contradies. Vivemos segundo nossas emoes do
momento, procurando localizar, descobrir uma constante e dizer: isso
sou eu.
      -- Ningum entende nada de nada.
      Passaram pela ponte rstica, de madeira j podre, ganharam a
ilha deserta, no meio do lago j seco. Havia uma touceira de arbustos,
um banco de pedra, uma esttua de mrmore plida de lua. Sentaram-
se no banco e se calaram, tentando entender o silncio. As palavras
tinham um sentido alm delas mesmas. O silncio seria, sempre, o
nico meio de entendimento perfeito.
      -- Eduardo.
      -- O qu?
      -- Estou com medo.
      -- Eu tambm.
      -- Voc no acha que este lugar...
      Foram interrompidos por um rudo atrs do banco. Levantaram-
se, assustados, voltaram-se, e viram -- ambos viram -- um homem alto,
magro, lvido vestido de smoking, um cravo vermelho na lapela, sorrindo
para eles. Com um grito de pavor precipitaram-se para a ponte e, em
poucos segundos, estavam na rua. Pararam ofegantes, e puseram-se a
rir, um riso nervoso, descontrolado. Na fuga, Eduardo deixara cair a
caneta do bolso, Hugo torcera o p.
      -- Voc tambm viu?
      -- Quem era?
      -- Vestido a rigor, no Parque, a esta hora? S pode ser o demnio.
      -- Reparou no sorriso, na palidez?
      -- Que diabo estaria fazendo ali, atrs de ns?
      -- Quando chegamos no havia ningum, tenho certeza.
      -- Naquelas touceiras, talvez...
      -- Eu estava justamente pensando na esttua de Anita Garibaldi,
a solido da esttua naquela ilha... Senti uma coisa... De repente, olho
para trs...
      -- Algum que tivesse sado de uma festa, talvez bbado.
      O Automvel Clube  ali perto.
      -- E aquele sorriso, aquela palidez?
      -- Algum pederasta.
      -- O que no exclui a hiptese de ser o demnio, pelo contrrio.
      -- O melhor  a gente nem falar mais nisso.
      --  melhor.
      Ficaram pensando.
         -- No posso suportar a solido de Anita Garibaldi, naquela ilha,
naquele ermo...
         -- De mrmore. Deve ser muito pesada.
         Comunicaram o plano a Mauro: arranjariam um automvel, de
madrugada removeriam a esttua.
         -- Para onde?
         No sabiam. E nenhum deles tinha automvel. A idia de voltar
quele lugar os apavorava. Falaram a Mauro sobre o homem de
smoking.
         --  o terror -- dizia Mauro, entusiasmado, porque no tinha
visto.
         Subiam a rua em direo  Praa. Detiveram-se diante da
coletoria:
         -- J repararam como esta porta  fcil de abrir? Basta tirar os
pregos da dobradia.
         -- Ento me ajude aqui.
         Em menos de cinco minutos, a porta era retirada. E l se foram
os trs, a transport-la, deixando a coletoria escancarada. A princpio,
sem plano nenhum, decidiram deposit-la no jardim do delegado. Mas a
porta era pesada. Ento a depuseram na varanda da primeira
residncia cujo porto encontraram aberto.
         No dia seguinte os jornais noticiavam, em manchetes, o assalto 
coletoria estadual. Algum mais passara por ali, depois deles, dera com
a porta aberta, resolvera entrar e arrombar o cofre. E o mistrio era
explorado: a porta fora encontrada na varanda de um antigo coletor
estadual.
         -- Algum inimigo meu -- protestava o homem.
         -- Isso  o cmulo da coincidncia.
         -- At ele provar que no  elefante...
         -- O melhor  ficarmos quietos esses dias.
         A porta foi fotografada, submetida  percia. Amorim, o reprter
de polcia, os preveniu:
         -- O delegado andou me baratinando. Disse que o esqueleto
foram vocs que enterraram. E este caso da porta...
      -- Este caso da porta est me intrigando -- disse o prprio
delegado aos rapazes, no bar.
      -- Deixa disso, Barbusse. Voc nos acha com cara de ladres?
      -- No sei, no... Vocs andam se excedendo.
      Uma     noite,   afinal,   envolveram-se   em   complicao   maior.
Esquecidos da prudncia assumida, arrombaram a vitrine de uma casa
de chapus, pelo simples capricho de pr na cabea um chapu de
caador.
      -- "Vamos caar cutia, irmo pequeno!"
      Um guarda, surgido inopinadamente da noite, prendeu-os.
Tentaram argumentar, confundir o guarda:
      -- O senhor acha que pessoas de nossa categoria iam arrombar
vitrine para furtar chapu?
      -- A vitrine j estava arrombada.
      -- Foi justamente o que nos chamou a ateno.
      O guarda protestava:
      -- Mas eu vi tudo! Estava ali, escondido atrs da rvore.
      -- Tambm, tem cabimento o senhor andar se escondendo atrs
de rvores?
      -- Acaba vendo o que no deve.
      -- No adianta, foram vocs -- insistia o guarda. -- Eu vi.
      -- As mos so mais rpidas que os olhos.
      -- O que os olhos no vem, o corao no sente.
      -- "O corao tem razes que a prpria razo desconhece".
      Todos os habitantes da cidade, inclusive o guarda, poderiam ter
sido os autores do crime, exceto eles.
      O guarda coava a cabea, confuso, mas irredutvel:
      -- Qual, meninos, vocs so muito inteligentes, mas vo presos
assim mesmo.
      E ps-se a apitar. Em poucos minutos acorriam guardas de todas
as esquinas. Foram escoltados  delegacia.
      -- Quem mandou voc rir?
     -- Quem riu foi voc.
     -- Vamos ter de acordar o Barbusse.
     Ficaram detidos at o nascer do dia, quando foram soltos sob
fiana. Conseguiram, graas  interveno do delegado amigo, ser
autuados apenas por desordem e desacato.
     -- Outra que vocs fizerem, mando descer o pau.
     No gostaram da advertncia. Sentiam no ar que a ameaa se
concretizaria. Aquilo ainda acabaria mal: por pouco no foram
apontados  cidade como ladres. No tinha nexo tamanha leviandade
-- eles prprios, agora, protestavam. E buscavam um sentido, alm da
simples espontaneidade de viver. Compenetravam-se: estava findo o
Regime do Terror.




-- VOCS pensam que podem reformar o mundo. Tambm j pensei
assim. Com o tempo fui aprendendo umas tantas coisas.  preciso
compreender, antes de julgar... A natureza humana  frgil, ningum 
perfeito. E  assim mesmo que o mundo tem de ir para a frente...
     Comearam a olhar o Toledo com desprezo, no o poupavam:
     -- Literato rat.
     -- Academia com ele.
     Agora se diziam socialistas. Toledo, complacente, ouvia-lhes as
idias, as violentas idias: tudo errado, administrao corrompida,
acabar com tudo, instaurar uma nova ordem.
     -- Eu tambm sou socialista -- dizia ele, tentando ainda captar a
simpatia dos rapazes. -- Est bem, est bem,  preciso consertar,
comear tudo de novo. Mas no posso fazei nada. Tenho minha mulher,
meus filhos -- um dia vocs ainda ho de ver que isso  o mais
importante.
     -- O mundo no vale o meu lar.
     -- Vocs ho de ver. Quem foi que disse que todo homem 
incendirio aos vinte anos e bombeiro aos quarenta?
     -- Deve ter sido o Marqus de Maric.
      -- Abaixo os vendidos! -- e Mauro cerrava os punhos, em plena
Praa Sete. Os transeuntes se voltavam, paravam para ver. Mauro subia
ao pedestal do obelisco:
      -- Meus senhores!
      Empolgava-se, pouco se importando que o estivessem ouvindo,
que o tomassem por louco -- at que um dos amigos lhe tirava o
entusiasmo:
      -- Olha a cana chegando. Vamos dar o pira.
      Em geral um popular, tambm entusiasmado, j havia tomado a
palavra e se inflamava contra o governo. Este sim, acabava preso --
quando os trs j haviam partido, deixando o comcio formado.
      Freqentavam a missa aos domingos, mas afirmavam, em seus
artigos, que no se dobravam ante o clero reacionrio:
      -- Poltica no  questo de dogma.
      -- Olhem o caso da Espanha.
      -- Hay que vigilar!
      Liam Bernanos, Mauriac, Maritain -- no chegavam at Santo
Toms, mas se diziam neotomistas. O que uma vez ou outra
despejavam no confessionrio na manh de domingo, tomavam a fazer
na noite de segunda-feira. Por exemplo: beber chope no bar at sarem
bbados, praticando desmandos pela rua. Pecado por intemperana.
Mauro se rebelava:
      -- Vai ver que os verdadeiros pecados so outros. No acredito em
cdigos, em listas de proibio. Abaixo os doutores da lei! Deus me deu
um corpo, um animal a zelar.
      E saa pela cidade  procura de mulher.
      -- Trinta vezes, no: uma vez. O homem tem capacidade para
uma s vez, e gasta a vida procurando a mulher com quem realizar esta
nica vez. Depois disso, nada mais interessa -- atingiu o mximo de si
mesmo, deu tudo de si num s jacto, numa s ejaculao, concebeu o
mundo  sua maneira, pode morrer. Ver Npoles e depois morrer. O
que  que vocs acham?
      -- Ligeiramente Bilac: "H no amor um momento de grandeza"...
       -- E Raul de Leoni tambm: "Nosso amor conceberia o mundo",
etc. e tal.
       -- Imbecis! No  nada disso. A cpula nica -- o prprio mundo
foi concebido assim. O mundo no  seno o fruto da intimidade de
Deus consigo mesmo. Mas, vejam s esse espetculo.
       Era uma leva de retirantes dormindo debaixo do Viaduto. Haviam
desembarcado na estao, no tinham para onde ir. Mais de cinqenta
famlias: homens magros, sujos, mulheres de olho fundo e cabelo
desgrenhado, crianas encardidas e seminuas, trouxas de roupa,
esteiras, bas, promiscuidade, mau cheiro, abandono. Revoltado,
Mauro saiu dali e telefonou do primeiro botequim ainda aberto, para o
palcio do arcebispo.
       -- Falar com o arcebispo? A esta hora?
       -- Quem est falando?
       --  o irmo Jos, da portaria. Quem  o senhor?
       -- Um cristo. Basta?
       -- Um cristo?
       -- Chama o arcebispo a, homem de Deus.
       -- A esta hora o arcebispo est recolhido, no pode atender --
informou o irmo, cautelosamente.
       -- No pode atender? At uma farmcia pode atender dia e noite e
o representante de Deus no pode?
       -- O senhor quer falar com o padre Marques? Ele est aqui.
       Veio ao telefone uma voz macia, melflua, delicada:
       -- Al?
       -- Escuta, padre, quero que o senhor transmita um recado
urgente ao arcebispo. Na cidade, debaixo do Viaduto, tem mais de
cinqenta famlias de miserveis dormindo ao relento. So retirantes,
parece. Cristos, como qualquer de ns. E como cristo, exijo que sejam
todos albergados a no palcio.
       -- Aqui no palcio? -- espantou-se o padre. -- Mas no h lugar
para tanta gente...
       -- Essa  muito boa: no h lugar! O senhor se esquece de que
com sete peixes Cristo alimentou uma multido inteira?
     -- No posso fazer milagres...
     -- Olha, padre, que eu no estou brincando.
     -- O senhor podia dar o seu nome?
     -- Mauro Lombardi. Diga ao arcebispo que em nome de Nosso
Senhor Jesus Cristo...
     -- Pois no... Pois no...
     -- So uns vendidos -- disse ele, desligando o telefone. -- Deviam
dar o exemplo.
     -- Por que voc no leva para sua casa? -- sugeriu Hugo.
     Mauro sofria crises intermitentes de misticismo: Cristo: dizei
somente uma palavra. Seu catolicismo era feito de herosmo e de
conquista, renovado em iluminaes brutais. O de Eduardo era sereno e
humilde, de uma certeza sem problemas: Deus no abandona queles
que no O abandonam. O de Hugo era atormentado e sofrido: Senhor,
piedade para os que sofrem. Esperana, F e Caridade. Os trs se
reuniam e, juntos, celebravam a pscoa dos militares. Por que dos
militares? No saberiam explicar.
     Depois era a posio dos catlicos na luta pelo "amilhoramento
poltico-social do homem". Rerum Novarum. Quadragesimo Anno. Santo
Ambrsio. Chegaram, enfim, a Santo Toms: "um mnimo de conforto
sem o qual a virtude  impossvel". Escreviam longos artigos que
falavam em honra, liberdade, direitos do homem -- burlavam os agentes
do governo, que viam neles agitadores comunistas ameaando a
segurana do regime. Todas as noites o censor revia a matria j
composta, cortava, proibia, modificava -- ento eles se davam ao
trabalho de ir  oficina, tornar a escrever, tornar a compor. Abaixo os
burgueses donos da vida. Abaixo os exploradores do povo, abaixo os
fascistas, abaixo a tirania, viva a liberdade! Aos poucos, aceitando a
linha de conduta imposta pelos defensores da democracia, endossando
alguns postulados socialistas (falavam muito em reforma agrria,
explorao do homem pelo homem, infra-estrutura, participao nos
lucros das empresas, socializao dos meios de produo), foram
ingressando naquela massa amorfa, que vinha a constituir a Oposio
em plena atividade clandestina.
      Mauro fazendo poltica estudantil -- em pouco liderava os
colegas. No dia em que o reitor da Universidade ia ser homenageado
pela congregao dos professores, os alunos, convidados a comparecer,
se recusaram, por verem nele um agente da ditadura. Mauro os incitou.
      -- Podemos ir. Deixem por minha conta.
      Levou-os ao auditrio da Reitoria, encheu a sala. O reitor e meia
dzia de professores surpreenderam-se com a presena dos estudantes
-- no contavam com reao to acolhedora. Antes, entretanto, que o
primeiro orador abrisse a boca, Mauro, do fundo da sala, gritou:
      -- Peo a palavra!
      Sem que a palavra lhe fosse dada, anunciou que os estudantes ali
estavam para manifestar sua repulsa a um homem indigno de ocupar o
alto cargo de reitor da Universidade. E a um sinal seu todos se
retiraram, esvaziando a sala.
      Na rua os moos se reuniam, excitados, comentavam o incidente:
      -- Viu s a cara do reitor?
      -- Chegou a sorrir, pensou que Mauro fosse fazer uma saudao.
      -- No esperava por esta.
      No banco habitual da Praa, Mauro, inflamado, falava ainda na
sua faanha:
      -- Voc no achou formidvel, Eduardo?
      -- Confesso que fiquei meio triste.
      -- Triste? Ora essa  boa! Triste por qu?
      -- Voc viu s a cara do homem? Foi como cuspir-lhe na cara,
como esbofete-lo, como tirar o brinquedo de um menino.
      -- Que menino! J vem voc com literatura. Um bom filho-da-
puta, isso  o que ele .
      -- Meio impiedoso.
      -- Impiedoso nada! Impiedoso  voc, defendendo um sujeito que
pactua com a ditadura. Voc acha que ns estudantes devamos ficar
impassivos...
         -- Impassveis -- corrigiu Hugo.
         -- ...diante dessa indecncia, homenagear um homem desses, que
sempre foi contra ns, que nunca defendeu o direito de estudante
nenhum, ficar de braos cruzados, no protestar?
         -- No comparecer j era um protesto.
         -- E voc acha que ele esperava que fosse algum? Voc acha,
Hugo?
         -- No sei. A discusso  de vocs dois.
         Eduardo afirmava que no se humilha ningum impunemente.
Travassem uma discusso, um debate. Dessem ao homem oportunidade
de se defender. Insult-lo sem mais aquela e sair da sala no estava
direito. Mauro afirmava que um verdadeiro revolucionrio no tem
dessas bobagens.
         -- Voc  revolucionrio l para as suas negras.
         -- Para um reacionrio feito voc.
         Irritavam-se, e no chegavam a resultado algum. Hugo sugeriu
que resolvessem a discusso no brao.
         -- Boa idia -- entusiasmou-se Mauro. -- Voc topa, Eduardo?
         Tiraram o palet, subiram na grama e, entre as palmeiras do
jardim, dispuseram-se a brigar. Mauro ria, satisfeito:
         -- Eduardo Marciano, eu vou te partir a cara.
         No chegou a haver briga. Logo ao primeiro soco, Mauro deu com
o adversrio no cho, aparentemente desmaiado. Precipitou-se para ele,
fora de si:
         -- Eduardo! Eduardo! Eu te machuquei, minha flor?
         Eduardo abriu os olhos, ergueu-se com dificuldade, ajudado pelo
outro.
         -- , voc acertou de jeito.
         -- Quer dizer que eu ganhei a discusso.
         -- Ganhou.
         -- Pois ento lhe presto uma homenagem indo embora, para que
vocs dois possam falar mal de mim.
         Depois que Mauro se foi, Hugo comentou:
      -- Eu no quis dizer nada, mas quem tinha razo era voc.
      Eduardo apalpava cuidadosamente a articulao do maxilar
atingido:
      -- A Besta-Fera est cada vez pior.
      E passaram mesmo a esculhambar o amigo ausente, como de
costume, sempre que dois deles se encontrassem. (No admitiam,
porm, que ningum mais o fizesse). Mauro andava diferente, mudado.
Metia-se com outros estudantes entre os operrios, fazia discursos,
incitava-os  greve. Fundara um jornal clandestino, violentamente
contra o governo, era vigiado pela polcia. Hugo se limitava a assistir de
longe, Eduardo no participava:
      -- No nascemos para dar vaia em poltico no meio da rua,
apedrejar casa de ningum, pregar cartazes, pichar muros. No somos
moleques. Temos  de escrever, denunciar atravs da arte, dar nosso
testemunho. Somos escritores, intelectuais, nossa misso  outra.
      De repente se passaram seis meses.
      -- So uns vendidos -- protestava Mauro. -- Os polticos fazem
conchavos com o governo, prevaricam, atraioam. Farinha do mesmo
saco. Os comunistas so piores, aliam-se ao ditador, no tm nojo de
nada. A Igreja se associa aos donos da vida. E todos cada vez mais
gordos! Os intelectuais continuam intelectuais, inteligentssimos, muito
perfumadinhos, o encanto da sociedade. Srdidos! Mas, e vocs? No
me procuram mais, me abandonaram, que  que h?
      -- Continuo doente -- queixou-se Hugo: -- No tenho tempo para
nada, no tenho gosto para nada, sinto um nojo desgraado de tudo. A
vida me esmaga, sou escravo de horrios, no sou dono de mim, no sei
mais de onde vim nem para onde vou. Mas aqui o Prncipe de Gales
parece que vai bem. Est noivo.
      -- Ainda no -- negou Eduardo. -- Mas resolvi todos os
problemas de minha vida numa frmula s: a ter de me arrepender um
dia, prefiro me arrepender daquilo que fiz e no daquilo que no fiz.
      Resolveram aplicar imediatamente a frmula de Eduardo e
celebrar o encontro casual:
      -- H quanto tempo no tomo um porre.
      -- Eu tomei um porre de poltica, chega.
      -- Se eu tomar um porre, morro no dia seguinte.
      Ao quarto chope, Mauro comeou a entusiasmar-se:
      -- No sei, estou sentindo que este nosso encontro  para celebrar
alguma coisa mais do que nosso encontro. Afinal de contas, aqui
estamos juntos os trs, at quando? Ningum sabe, a verdade  esta.
      -- O que voc pensa que  a verdade, talvez no seja o que eu
penso -- comentou Hugo: -- Somos traduzidos em palavras. As
palavras no querem dizer nada. Servem s para formar uma verdade
comum a todos, que afinal no  de ningum.
      -- Hoje ns estamos afiados para puxar uma angustiazinha.
      Mauro props que, pela primeira vez na vida, fossem verdadeiros.
Dizer cada um a sua verdade, o que pensava ser verdade:
      -- Dizer o que pensamos uns dos outros e de si mesmo. Dizer no
duro, sem contemplaes. Voc topa, Hugo?
      -- No sei... H certas verdades que eu no digo nem a mim
mesmo.
      -- Desde que nos comprometamos a engolir calados, no
protestar, no brigar. E, saindo daqui, esquecer.
      Debaixo do sorriso de aparente despreocupao, os trs se
haviam feito graves, srios. Sentiam no ar a ameaa, o perigo da
experincia, sentiam medo. Tiraram sorte, coube a Mauro comear.
      -- Bem: primeiro, o que eu penso de mim. Antes de mais nada,
sou   um    sujeito   inteligente,   bastante   inteligente.   Mas   de   uma
inteligncia intuitiva, nada lgica, feita de iluminaes, de clares... No
sei se vocs esto me entendendo.
      -- Estamos. Continue. Comeou bem.
      -- Inteligncia de poeta. Sou um poeta. Agora: sou um desajeitado
para viver. No sei comprar uma camisa. Sou grosseiro, vulgar, suado,
me sinto proletrio, emigrante, pesado, sujo. Amo as pessoas e as
coisas...
      -- E as mulatas.
      -- No avacalhem. Amo as pessoas e as coisas mais do que sou
amado. Sou um pobre-diabo, mas um pobre-diabo lrico, cheio de
riqueza interior. Que no troco pela satisfao bem comportada dos
ricos em esprito. Sou um sujeito...
      -- Chega. E ns?
      -- Voc, Hugo,  um sujeito bom.          Sua maior qualidade. Mas,
como todo sujeito bom,  um fraco. Talvez influncia da sade, voc 
fraco e doentio, um sujeito que morre cedo. No sei explicar... Voc no
tem mau carter: tem carter fraco,  isso. Indeciso, medroso. E como
todo medroso, capaz de rasgos de coragem, subir no Viaduto, fazer um
discurso em praa pblica -- Eduardo jamais far um discurso.
      -- No sou orador: sou escritor -- interrompeu Eduardo.
      -- Capaz de nos surpreender com um rasgo de herosmo, mas
tambm capaz de nos surpreender com um rasgo de mesquinharia. 
inteligente, no tem dvida, mas de uma inteligncia maliciosa,
insinuante, irnica, o que no  bom sinal, pelo contrrio: serve para a
perfdia, a maledicncia, a traio...
      -- Chega -- pediu Eduardo, j incomodado. Hugo se mantinha
imvel, olhos fixos, nada dizia. -- Eu agora.
      -- Voc, Lord Byron,  inteligente tambm, mas uma inteligncia
fina, penetrante, como ao, como uma espada. Ao contrrio de mim,
voc  mais capaz de se fazer amado do que de amar. Sua lgica 
irresistvel, mas impiedosa, irritante.  desses remdios que matam a
doena e o doente. Voc tem sentimento potico, e muito -- no entanto
 incapaz de escrever um verso que preste. Por qu? Sei l. H qualquer
coisa que te contm, que te segura, como uma mo. Sua compreenso
do mundo, da vida e das coisas  surpreendente, seu olho clnico 
infalvel, mas voc  um homem refreado, bem comportado, bem
educado, flor do asfalto, lrio de salo, um prncipe, o nosso Prncipe de
Gales, como diz o Hugo. Tem uma aura de pureza no conspurcada,
mas  asctico demais, aprimorado demais, debilitado por excesso de
tratamento. No se contamina nunca, e isso humilha a todo mundo. 
esportivo,  atltico,  saudvel, prevenido contra todas as doenas,
mas, um dia, no vai resistir a um simples resfriado: h de cair de cama
e afinal descobrir que para o vrus da gripe ainda no existe antibitico.
      -- Opinio de estudante de Medicina -- e Eduardo procurava
ocultar seu ressentimento com um sorriso. -- Voc, agora.
      Hugo limpou a garganta, tentou controlar-se:
      -- Bem, eu vou falar porque prometi. Mas acho esta brincadeira
meio de mau gosto. Vou falar assim mesmo. E no me poupo como voc
fez; sei que sou um fraco, um vendido, um covarde...
      -- No exagere! -- os outros dois tentaram ainda um resto de
alegria.
      -- Me deixem falar. Sou tudo isso, mas sou, tambm, dono de
uma verdade que no se traduz em palavras e, sim, em gemidos. "Je
cherche en gmissant". Sou inteligente, sei disso, mas a minha
inteligncia no  capaz de iluminaes, nem ,,de distribuir justia,
como a de vocs.
      -- Primeiro voc, depois ns.
      --  inteligncia de defesa. Defesa de menino, sou um menino
que no aprendeu a viver e que se defende. Sou um pria, um marcado
pela morte, um amaldioado.
      -- Em suma: outro pobre-diabo.
      -- E eu? -- cortou Mauro.
      -- Voc  uma besta. Aquela besta de carne que voc tanto
alimenta.  um poo de contradies.  um impulsivo, um bardo de
esquina, uma poeta de opereta, um bartono de banheiro, um mascate
de sentimentos.
      -- Voc est me esculhambando -- Mauro se ps a rir.
      -- Estou dizendo a verdade. No  para dizer a verdade? Nem
sempre adianta... Pois a verdade  esta: voc  um peso-pesado, no h
sensibilidade capaz de dar conta dessa tonelada de sensualismo. Tudo
sensualismo, comrcio obsceno, transao com os sentidos. "So uns
vendidos!" Tudo para voc, afinal, se traduz em termos de compra e
venda. Quem fala em sangue, e no est sangrando,  um impostor.
Seu amor ao povo, aos semelhantes, aos oprimidos,  uma vlvula de
escape de sua inclinao para o que  comum, fcil, vulgar. Voc no
tem verniz, Tudo em voc  ostensivo, voc  ostensivamente amigo. E
eu sou seu amigo. Mas tenho em mim uma coisa que voc se esqueceu
de dizer: a capacidade de amar anonimamente, sem pedir nada em
troca, sem reconhecimento, sem perdo.
      Calou-se.   Ficaram    os   trs   em   silncio,   compenetrados,
pensando... Hugo estava visivelmente emocionado. Seria difcil aliviar a
tenso que agora pairava entre eles. Voltou-se com esforo para
Eduardo:
      -- E voc, Eduardo. Voc, o puro, o intocado, o que se preserva,
como disse Mauro. Seu horror ao compromisso porque voc se julga um
comprometido, tem uma misso a cumprir,  um escritor. Voc e sua
simpatia, sua sade... Bem sucedido em tudo, mas cheio de arestas que
ferem sem querer. Seu ar de quem est sempre indo a um lugar que
no  aqui, para se encontrar com algum que no somos ns. Seu
desprezo pelos fracos porque se julga forte, sua inteligncia incmoda,
sua explicao para tudo, seu senso prtico -- tudo orgulho. O orgulho
de ser o primeiro -- a vida, para voc,  um campeonato de natao.
Sua desenvoltura, sua excitao mental, sua fidelidade a um destino
certo, tudo isso faz de voc presa certa do demnio -- mesmo sua
vocao para o ascetismo, para a vida spera, espartana. Voc e seus
escritores ingleses, voc e sua chave que abre todas as portas. Orgulho:
voc e seu orgulho. De ns trs, o de mais sorte, o escolhido, nosso
amparo, nossa esperana. E de ns trs, talvez, o mais miservel, talvez
o mais desgraado, porque condenado  incapacidade de amar, pelo
orgulho, ou  solido, pela renncia.
      Hugo no disse mais nada. E os trs, agora, no ousavam
levantar a cabea, para no mostrar que estavam chorando. O garom
veio saber se queriam mais chope, ningum o atendeu. Algum soltou
uma gargalhada no fundo do bar. L fora, na rua, um bonde passou
com estrpito.
      -- Vamos embora -- murmurou Eduardo, afinal.
      -- No: falta voc -- protestou Hugo.
     Eduardo se ergueu:
     -- Eu me recuso, simplesmente. Se ns mesmos, que nos
conhecemos mais do que ningum, somos de tal maneira precrios no
julgamento de cada um,  porque no sabemos nada, no somos donos
de verdade nenhuma, temos de busc-la fora de ns. A conscincia 
intil, sem uma convico adquirida. Isso que estamos fazendo  intil,
 masoquismo. No temos importncia, somos apenas trs coisas
largadas, desarvoradas, aflitas. Est acima de minhas foras dizer
alguma coisa mais...
                                                  III -- O ESCOLHIDO




ERAM vistos em toda parte: no cinema, na Praa, na Avenida, nas
confeitarias.
      -- Como  que um ministro deixa que sua filha...
      -- Um rapaz como aquele, bomio, farrista.
      -- Boa coisa ela no deve ser.
      Antonieta viera para uma temporada na casa dos tios:
      -- O calor do Rio est insuportvel. Todo vero vamos a Poos.
Este ano a poltica se complicou, papai no pde sair, resolvi conhecer
Belo Horizonte. Titia insistia tanto! Ela  muito boazinha, voc querendo
pode ir l me visitar.
      Eduardo se esquivava. Afinal de contas, simples namoro -- no
significava compromisso. Moa do Rio, outros hbitos, outra espcie de
gente -- gente importante, vida de luxo e conforto, talvez -- ele mesmo
no sabia explicar como e por que comeara aquilo. Ela o aceitava como
namorado antigo, e, at agora, nada sabiam um do outro. De mos
dadas, num banco da Praa -- o mesmo banco dos amigos:
      -- Voc  diferente de todo mundo.
      -- Diferente por qu? -- perguntava ela.
      -- No sei. Diferente.
      s vezes se abria com o Veiga:
      -- Meu caso com essa menina me preocupa. Acabo me
envolvendo muito, quando abrir os olhos ser tarde.
      -- Afinal, ela no tem culpa de ser filha de ministro.
      -- No  por isso.  que... Voc sabe, no nasci para isso.
      -- Para que voc nasceu?
      -- No sei. Para escrever, talvez.
      -- E que tem uma coisa com a outra?
      -- Ora, voc no entende.
      -- No vejo incompatibilidade entre literatura e casamento.
      -- E quem falou em casamento?
      -- Fala-se...
      -- Voc no me conhece, Veiga.
      No durou muito: a tia da moa comeou a ouvir os comentrios,
ficou preocupada, achou prudente comunicar ao irmo. E o ministro
mandou buscar a filha. Encontraram-se pela ltima vez:
      -- Foi melhor assim. No dava certo mesmo. -- Tinha de acabar.
      Estavam na Praa. Noutros bancos, namorados de mos dadas se
esqueciam, entregues, felizes, alheios  discreta vigilncia dos guardas,
entre os canteiros. O sentimento de despedida era pungente.
      -- Antonieta.
      -- Que ?
      -- Voc me escreve?
      -- No sei. Valer a pena?
      Separou-se dela com estranha sensao de alvio. Pronto, estava
acabado. No dia seguinte encontrou o Veiga na redao, contou-lhe que
a moa tomara o avio para o Rio.
      -- No h mais problema.
      -- E voc? O que est sentindo?
      -- Fome. Podamos jantar na cidade.
      Jantaram na cidade. Veiga lhe contava o enredo de um conto que
pretendia escrever, ele no prestava ateno. Conversaram sobre
poltica -- Eduardo ps-se a descompor o governo com imprevista
violncia:
      -- E Minas em tudo isso? J se foi o tempo em que Minas dava as
cartas. Agora o Brasil  um feudo dos gachos.
      -- Pelo menos um ministro tem genro mineiro...
      -- Ora, no chateie, Veiga.
      -- Voc est apaixonado.
      -- Apaixonado uma ova.
      Depois do jantar se encontraram com Hugo, puseram-se a beber
cerveja num bar do centro. s onze horas, j alegres, voltavam pela
avenida ainda movimentada:
      -- Ai, Minas Gerais.
          Quem te conhece,
          No volta aqui mais.
      Cantando em plena rua -- aquilo lhes trazia um pouco dos velhos
tempos.    A   presena   do     Veiga,   compenetrado   e   apreensivo,   os
constrangia.
      -- Pena que o calabrs no esteja aqui.
      Sentaram-se na escadaria da igreja So Jos. Veiga protestava:
      -- Vamos, no faam isso. Olha s quanta gente a. Vocs afinal
no so moleques. Se comprometem  toa, no fica bem para vocs.
      -- Veiga, voc  uma flor de sujeito.
      -- Veiga, voc  uma graa.
      -- Sabe de uma coisa, Veigote? Damos para voc tudo que 
nosso, no  mesmo, Hugo? At a nossa roupa do corpo.
      Eduardo comeou a despir-se, ali mesmo. Hugo o imitou. Tiraram
o palet, a gravata, a camisa e, gravemente, iam depositando tudo nos
braos perplexos do jornalista.
      -- Por favor, parem com isso. Vocs acabam presos. Olhem o caso
da vitrine. J est juntando gente. Por favor.
      -- Ento no podemos dispor do que  nosso?
      -- Estamos ou no estamos numa democracia?
      -- Meus senhores! -- berrou Hugo, segurando as calas.
      O povo se aglomerava, curioso; era hora da sada dos cinemas.
Veiga no esperou mais: antes que os dois tirassem o resto da roupa,
abriu caminho e disparou a correr. Que foi? Que aconteceu? --
perguntava-se ao redor. Eduardo no podia de tanto rir:
      -- Sabe, Radiguet? Voc ainda  dos bons!
      --  o nosso protesto -- prosseguia o orador para a massa
estupefata. -- No podemos admitir, passou dos limites! Que nos levem
a roupa do corpo, que nos tirem tudo -- nossa dignidade ficar de p!
      -- O que ele est dizendo?
      -- Por que sem camisa?
      -- O que ele est...
      -- Muito bem! Apoiado! -- saltou uma voz familiar no meio da
multido j submissa. Algum abriu caminho enquanto Hugo falava,
veio subindo de costas os degraus -- era Mauro, j deitando falao:
      -- Eis um comovente espetculo, meus senhores! Um homem que
protesta  o mais comovente, o mais legtimo, o mais generoso dos
espetculos, se em nome do povo, pelo povo e para o povo! Um homem
que se despe  a imagem desse mesmo povo, perseguido e humilhado,
despojado da prpria roupa para vestir os poderosos!
      Os outros dois se vestiam apressadamente:
      -- Vamos embora, Besta-Fera, que daqui a pouco comea a
guerra.
      Algum mais iniciava um discurso, enquanto os trs escapuliam.
      -- Eu ia passando num bonde, vi o ajuntamento, vim ver o que
havia. Quase morri de rir, quando dei com vocs dois no meio do povo,
sem camisa, e o Veiga fugindo espavorido. ..
      -- Mas que coincidncia! Voc tambm est bbado?
      -- No, mas posso ficar. Vocs esto?
      -- No pensei que ainda fssemos capazes.
      -- H quanto tempo, hein?
      -- Que h com ele? -- perguntou Mauro. Eduardo se pusera a
gemer em voz alta.
      -- Dor-de-corno, voc no est vendo?
      -- Por qu?
      -- A ministrinha foi embora.
      -- Por que ele no foi tambm?
      Hugo se entusiasmou:
      -- Isso! Eduardo Marciano, voc est na obrigao de ir tambm.
      -- Como  que deixa sua namorada escapulir assim, sem mais
nem menos?
      -- Voc  homem ou no ?
      -- Soy un gitano legtimo. Vamos ali, na Telefnica. Vocs tm
dinheiro?
      Juntaram o que dispunham -- dava para alguns minutos de
conversa. J passava de meia-noite quando Eduardo conseguiu a
ligao.
      -- Tenham pacincia, arredem para l, me deixem falar.
      -- Ns tambm pagamos.
      A moa foi acordada, chamada ao telefone:
      -- Tem cabimento, meu bem? A esta hora!
      -- Voc fez boa viagem? -- era tudo o que conseguia dizer.
      Quando desligou, ficou-lhe uma impresso de fracasso.
      -- Querem saber de uma coisa? Dane-se.
      -- Pois agora voc vai: nem que seja  fora.
      -- No pode deixar a menina esperando, uai. Voc disse que ia.
      Naquela noite dormiu abraado a ela. Na manh seguinte
procurou Toledo:
      -- Quero que voc me arranje um passe. Preciso ir ao Rio, de
qualquer maneira, estou sem dinheiro.
      Sua vida se iniciava naquele instante.
      -- S se for sem leito.
      O que iria mesmo fazer no Rio? Passado o efeito da bebida, a idia
parecia-lhe louca e sem sentido. Tudo considerado, nada havia a fazer,
ela se fora para sempre, no queria coisa alguma com ele.
      -- Melhor assim.
      -- No dava certo mesmo.
      Mas era evidente que no dava certo -- por qu, ento? Vida
diferente da sua, amigos que no conhecia, carioca, outros namorados
talvez, um mundo que no era o seu, impenetrvel, hostil. Filha de
ministro.
      -- Os ministros passam, as filhas ficam -- concluiu.
      Olhava, pela janela do trem, a estrada passando rpida: uma
casa, um barranco, um cavalo pastando, a cerca de arame farpado. A
esta hora, meu bem, tem cabimento? "A esta hora", ela dissera. E tinha
razo: aquilo no era hora para se telefonar para filha de ministro. Ele,
Eduardo Marciano, morador de Belo Horizonte, telefonara para a filha
de um ministro, no Rio, depois de meia-noite. Sorriu, satisfeito.
Estudantadas. Estudante de Direito, escritor, bomio, farrista, no
servia para nada, quem diria para Antonieta. Dera trabalho vir.
Convencer os pais, licena na repartio, dinheiro. Seu Marciano ele
prprio lhe adiantara quinhentos cruzeiros:
      -- J que voc quer ir de fato, meu filho, tome aqui uns cobres.
      -- No  preciso, papai.
      -- Toma: vai por conta da firma. Voc se lembra quando fomos ao
Po-de-Acar?
      No dissera a verdade ao velho: iria ao Rio ver se arranjava editor
para o seu livro. Agora se arrependia:
      -- Papai, vou por causa de mulher.
      Que diria ele? Certamente haveria de compreender. Seu Marciano
compreendia mais do que deixava transparecer. Mulher -- mas
Antonieta no era uma mulher. Era uma menina, era uma...
      -- Este lugar est ocupado?
      Endireitou-se na poltrona:
      -- No, pode sentar.
      Recolheu sua mala para que o intruso se acomodasse. Haviam
passado Barbacena, restava uma noite inteira de viagem pela frente.
      -- Ns j no nos conhecemos?
      -- Tenho uma vaga lembrana.
      -- Ciro Leitosa... No se lembra?
      -- Ah...
      Eduardo no se lembrava.
      -- Sou professor da Faculdade de Medicina.
      -- Sei.
      Se da Faculdade de Medicina, era lgico que no podia lembrar-
se. No conhecia os professores da Faculdade de Medicina. E aquele
homem no tinha nada de professor de faculdade nenhuma -- a no ser
os culos, de lentes grossas. Que estaria fazendo ali, surgindo naquele
instante, a meio caminho do Rio? Teria embarcado em Barbacena?
     --     O   Senhor   deve   ser   professor   de   um   amigo   meu   --
experimentou.
     -- Quem?
     -- Mauro Lombardi.
     O homem sorriu, satisfeito:
     -- Filho do Dr. Lombardi? Conheo muito.  um jovem
inteligente. Um pouco irrequieto, mas inteligente. Meio poeta. Voc
tambm escreve, no?
     -- De onde o senhor me conhece?
     -- No me chame de senhor. Afinal, no sou to velho assim...
Voc no tem travesseiro?
     Enquanto falava, retirou da mala um pequeno travesseiro:
     --  um transtorno isso de viajarmos sentados. Olha, acho que d
para ns.
     Eduardo recostou-se a contragosto, sentindo a proximidade
desagradvel de outra cabea, o cheiro de outros cabelos. A mo do
professor tombara, naturalmente, sobre o seu joelho, parecia vir
subindo... Incomodado, fingiu que dormia, aguardando o momento de
mudar de posio sem ofend-lo. Seria proposital? A idia de que
pudesse ser proposital, ao mesmo tempo que o chocou, trouxe-lhe
inesperada volpia, uma inrcia feita de susto, expectativa e prazer.
Excitava-o imaginar o homem tambm fingindo que dormia... e a mo,
num movimento quase imperceptvel, leve, delicado, subindo sempre.
No tinha mais dvida -- e a surpresa o paralisava num quase gozo
pela sordidez daquilo, a baixeza, o escuso, o inconfessvel. Como
poderia aquele homem, o professor Leitosa, da Faculdade de Medicina,
t-lo escolhido para aquilo? E se ele se levantasse ostensivamente,
descompusesse o atrevido, acusando-lhe a perverso para que os
passageiros ouvissem? Ningum parecia reparar em nada: no trem,
quela hora, todos cochilavam como podiam. Eduardo permanecia
imvel, mas tenso de emoo. Era preciso reagir, no deixar: logo seria
tarde. Bem notara no homem certo ar melfluo, untuoso... aquela oferta
do travesseiro, a maneira de o abordar, puxar conversa. Lembrou-se de
Afonso, que o escolhera para vtima. Este o escolhia como homem --
antes que a mo o tocasse intimamente, tudo j se consumava num
estremecimento .
      -- Com licena.
      Ergueu-se, num mpeto, o homem chegou a assustar-se. Sentia
uma sbita nusea, no podia conter-se. Precipitou-se at o toalete do
trem, lavou-se, molhou o rosto e os cabelos. Depois, foi para a
plataforma: ficou vendo, entre fagulhas luminosas, a noite gelada correr
l fora, enquanto tentava pensar no acontecido. Como permitira?
Pensou em Antonieta, sentiu-se srdido, lgrimas comearam a rolar-
lhe nas faces. Ele, o puro, o escolhido, o que no se contaminava --
trazia em si o germe do pecado e da podrido. No voltou mais ao seu
lugar; para castigar-se, viajou na plataforma at o amanhecer, de p,
imvel, perplexo, estarrecido com as contradies desta vida. Somente
quando o trem passava pelos subrbios, j dia claro, voltou para
localizar sua mala. No tornou a ver o professor Leitosa.




DA ESTAO telefonou  casa de Antonieta. Temia que o prprio ministro
atendesse.
      -- Dona Antonieta foi  praia.
      Esquecera-se de que estava no Rio de Janeiro, esquecera-se da
existncia das praias. Esmagava-o a conscincia de uma vida mais rica,
movimentada, complexa, que Antonieta levaria, vida a que jamais teria
acesso, e que o humilhava.
      Tomou um txi, mandou tocar para o Hotel Elite, no Catete, onde
estivera da primeira vez. O tio de Mauro, o prmio, o ministro da
Educao.
      -- Eduardo Mariano.
      Assim eram os ministros -- assim deveria ser o pai de Antonieta.
Depois, a sordidez do hotel, o arroz com formiga, a revista comprada na
esquina, o conto premiado: cem mil ris.
         -- Voc  muito precoce.
         Seu Marciano chegando, o Po-de-Acar, seu Marciano a
abra-lo:
         -- Meu filho, voc  exatamente como eu gostaria de ter sido, no
conte para sua me.
         Fez a barba pensando no pai -- por que a espuma? por que uma
vez para cima e outra para baixo? Imitou-o ao terminar:
         -- Uma de menos.
         Tomou banho, vestiu-se e saiu sem destino certo. Tomou um
nibus, foi a Copacabana e ficou a ver os banhistas na areia.
Certamente nenhum deles sabia nadar. Mulheres seminuas, belas e
lnguidas, inatingveis: nem ao menos o olhavam. Mas, tambm, no
era possvel que homem algum as conquistasse, jamais seriam de
ningum. nibus, cheiro de leo queimado, maresia -- era o Rio de
Janeiro. Almoou sozinho no primeiro restaurante que encontrou,
ousou pedir camares, tomou chope. Voltou a telefonar a Antonieta.
         -- Est no cabeleireiro. Quer deixar recado?
         Deu o nome e desligou, contrariado. Arrependia-se de ter vindo.
Meteu-se num cinema, voltou a telefonar, ao anoitecer.
         -- Eduardo! -- disse ela, aflita: -- Estava preocupada, sem saber
onde voc se hospedou! J telefonei para tudo quanto  hotel. Hoje vou
a uma festa, mas voc tambm vai, encontra-se comigo l.
         Ento era assim? Sem a menor surpresa por ele ter vindo, com se
fosse a coisa mais natural deste mundo: s comprar a passagem,
encher o bolso de dinheiro e embarcar. Ela jamais se lembraria de
telefonar para o Hotel Elite.
         -- No vou, no.
         -- Mas, por que, meu bem?  a nica maneira de nos vermos hoje
ainda. No Cassino Atlntico, uma festa de caridade. Voc trouxe traje a
rigor?
         Por pouco no dissera um palavro, ao desligar. Esse palavro,
repetia agora, para si mesmo, andando horas sem rumo pelo centro.
Sentou-se numa mesa de calada, pediu um refresco, ficou a olhar o
movimento.    No,   aquilo   no   tinha   mesmo   sentido:   jamais   se
entenderiam. Traje a rigor. Era preciso que ela o aceitasse como ele era.
Era preciso que ela soubesse da existncia da vida c fora, o Hotel Elite,
a formiga no arroz, viagem sem leito, o professor Leitosa. Sacudiu a
cabea com desgosto: a vida era mesmo srdida. Chamou o garom:
      -- Ponha a uma dose de gim.
      -- Na laranjada?
      -- Na laranjada. O que  que tem?
      O garom o atendeu e depois ficou a observ-lo, disfarado, a
poucos passos. Provou a bebida: intragvel. Teve dio do tipo, fingiu
que bebia com prazer. Esperou que ele se virasse, derramou o resto no
cho, sob a mesa. O garom o olhava, sorrindo.
      -- Me traga outra -- desafiou. -- Com gim.
      Logo se arrependeu. Comeava a fazer asneiras. Gastar dinheiro 
toa, j era noite, deveria pensar em comer. Em vez disso, provou de
novo a bebida: j no lhe pareceu to enjoativa. Acostuma-se com tudo
nesta vida. Antonieta no sabe como vive um escritor. Ora, Antonieta.
      Algum estava de p a seu lado: era Amorim.
      -- Voc por aqui? -- espantou-se.
      -- Deixei o jornal, no se lembra? Vim para o Rio. Estou numa
agncia de publicidade... Melhor do que ser reprter de polcia.
Conhece Slvio Garcia?
      Eduardo se ergueu, emocionado, para cumprimentar o homem
baixo e ainda jovem que via  sua frente -- mais jovem do que
imaginava:
      -- Conheo de nome -- sorriu, querendo dizer ainda alguma
coisa, no sabia o qu. No o chamaria de senhor: -- Pensei que fosses
mais velho. No quer sentar-se um pouco?
      Sentaram-se. Amorim agora se voltava para o amigo:
      -- Eduardo tambm escreve. Trabalhvamos juntos, l no jornal
em Minas.
      -- Trabalhvamos  um modo de dizer.
      -- Bem, eu trabalhava -- corrigiu Amorim. -- Eles faziam o diabo.
Um dia roubaram um esqueleto.
      Eduardo, mais  vontade, ps-se a contar para Slvio Garcia a
histria do esqueleto. Depois se arrependeu: deveria continuar triste,
preocupado, pensando em Antonieta. Esquecera por completo a
namorada. Surpreendeu-se j falando ao poeta em Mauro e Hugo, no
que pensavam de sua poesia.
      -- E voc o que escreve?
      -- Oh, bobagens -- e acrescentou: -- Escrevi um artigo sobre seu
ltimo livro.
      Percebendo o que dissera, perturbou-se e comeou a rir. O poeta
tambm ria:
      -- O que voc est bebendo?
      Eduardo hesitou:
      -- Laranjada com gim -- confessou afinal.
      --  capaz de ser bom -- e o outro sacudiu a cabea, pensativo.
-- Com gim, mas sem acar.
      E pediu uma tambm para si.
      -- E voc -- perguntou Amorim: -- O que  que est fazendo por
aqui? Passeando?
      -- Mais ou menos. Vim ver uma mulher.
      Mais uma vez se arrependeu. "Devo estar causando uma pssima
impresso", pensou.
      -- Ns tambm vamos ver uma mulher -- disse Slvio Garcia, e
apontou o companheiro: -- Esse calhorda me tirou de casa para isso.
      --  uma admiradora do poeta -- confirmou Amorim, sorrindo: --
Estou fazendo o cafeto.
      Slvio Garcia:
      -- Espero traar essa admiradora ainda hoje.
      Eduardo observava o poeta, que ele tambm admirava. No era
possvel! Enfim, a vida tem dessas surpresas. Gostaria de discutir
literatura, perguntar, expor suas idias -- em vez disso levantou-se:
      -- Tenho de ir embora, sabem? Vocs me desculpem.
      No deixaram que ele pagasse a despesa.
      Afinal de contas, tanto fazia sair como ficar -- j andando pelas
ruas, sem ter aonde ir. Ele tambm me causou pssima impresso.
Slvio Garcia, ora vejam: um poeta de gravata borboleta.
      Andando sem destino, aqui uma confeitaria, um teatro, entrar
outra vez num cinema no teria cabimento, a esquina, outro bar. Gim
com laranjada? Pediu um chope:
      -- Me traz tambm um sanduche.
      Hoje vou a uma festa, voc tambm. Tudo resolvido, decidido de
antemo, como se ele no contasse, nem o sacrifcio da viagem, o passe,
os quinhentos cruzeiros. Traje a rigor. No era palhao para se prestar a
semelhante papel. Ento est bem -- ela dissera, me telefona amanh.
Outro chope. Para ela devia ser indiferente que ele fosse ou no. Festa
de caridade, tinha l dinheiro para essas coisas? Dona Antonieta foi 
praia. Dona Antonieta foi ao cabeleireiro. Telefona amanh: pois sim.
Nunca mais ouviria falar dele.
      -- Garom, mais um.
      No pensar nisso, pois. E o Amorim, quem diria. Morando no Rio,
amigo de Slvio Garcia. Agncia de publicidade -- ares de grande
jornalista, no sabia juntar duas palavras. Que queria dizer calhorda?
      -- Estava preocupada, j telefonei para tudo quanto  hotel.
      E da? Jamais o encontraria. Nem sequer garantira a sua vinda,
viera sem mais nem menos, de trem... o professor Leitosa. No, isso
no: que diria Antonieta, se soubesse? Slvio Garcia era possvel que
risse. Aceita laranjada com gim, e ainda diz que  bom. Traar essa
admiradora ainda hoje -- estou fazendo o cafeto. Todos da mesma
espcie, tudo se confundindo na mesma sordidez. O tempo passando,
outro chope, ele ali sozinho, numa cidade estranha, fazendo o qu?
Enfim, a vida tem dessas. Dessas contradies, costumava dizer seu
Marciano.
      -- A nota, faz favor.
      Ergueu-se, procurando firmar-se nas pernas. J na rua, fez parar
um txi. Ordenou ao chofer:
      -- Cassino Atlntico.
         Depois suspirou satisfeito, e recostou-se. Fez todo o percurso
prestando ateno no rudo do taxmetro, procurando calcular quanto
marcaria.
         Foi barrado logo  entrada:
         -- O senhor no pode entrar assim.
         -- Assim como?
         -- Hoje  a rigor. S para o salo de jogo.  esquerda.
         -- Est bem, est bem.
         Ficou a observar o movimento de uma das roletas, com a
segurana que o lcool lhe comunicara. Depois de aprender como se
jogava, comprou vinte cruzeiros de fichas, espalhou-as pela mesa.
nica maneira de nos encontrarmos hoje, ela dissera. Telefonei para
todos os hotis. Afinal, no podia imaginar que ele estivesse no Hotel
Elite. Fiquei to preocupada, meu bem. Disse meu bem? A festa talvez
fosse apenas pretexto para v-lo. No disse. Filha de Ministro no pode
ficar saindo assim  toa no. Por que voc no quer ir, meu bem?
Certeza que disse.
         Em meia hora, ganhou duzentos cruzeiros, foi receb-los na
caixa.
         -- E ento? -- perguntou depois ao porteiro.
         -- Ento o qu?
         Inclinou-se, persuasivo:
         -- Tenho a maior urgncia de entrar a,  importantssimo.
         Fiz uma longa viagem s para isso, cheguei hoje.
         -- Desculpe, mas s traje a rigor.
         -- Eu sei, mas... Um minuto s!
         -- O senhor nem convite tem.
         -- Tenho coisa melhor, olha aqui.
         O porteiro ficou a olhar, perplexo, para a nota de duzentos
cruzeiros que o moo lhe depositara na mo.
         -- No posso. Olha, faz de conta que o senhor foi entrando, eu
no vi nada, estava de costas. Um minuto s, hein?
         E voltou-lhe as costas. Eduardo se perdeu na confuso da sala,
entre as mesas, procurando Antonieta. Surpreendeu-a no momento em
que se erguia para danar.
      -- Antonieta.
      Enlaou-a antes do outro, saiu danando.
      -- Eduardo, voc est louco? Me larga. Como  que voc pde
entrar assim?
      -- Dei duzentos cruzeiros ao porteiro.
      -- E ainda por cima embriagado. Pelo amor de Deus, vai embora.
      -- Que eu ganhei no jogo.
      -- Todo mundo reparando! Papai ali na mesa...
      -- Vim aqui s para dizer que te amo.
      -- Voc est louco. Vai embora, me deixa voltar para a mesa.
      -- Ouviu o que eu disse?
      -- No se faz uma coisa dessas. Eu te avisei que era traje a rigor.
      -- Que tem isso? J no estou aqui? Voc quer mandar mais que
o porteiro?
      -- Vai embora, por favor.
      -- Voc me convidou.
      -- No assim. E voc disse que no vinha. Tem outras pessoas...
      -- Voc disse que eu viesse.
      -- Por favor, no faz escndalo.
      -- Bonito o seu vestido.
      -- Por favor.
      -- Eu te amo.
      -- Fala baixo...
      Viu o porteiro a procur-lo, um garom o apontava. Despediu-se.
      -- Telefona amanh -- pediu ela.
      No ficara cinco minutos ali: duzentos cruzeiros! Assim como
veio, foi. Pensou em tentar de novo a sorte no jogo, e, de repente, veio-
lhe um irreprimvel desalento ante tudo aquilo. Agora, que o efeito do
lcool ia passando, percebia como faltava sentido aos seus impulsos,
como eram incoerentes as suas sucessivas reaes. Cansado de tudo,
foi andando ao longo da praia, vendo as luzes da rua se multiplicarem.
Sentia-se miservel -- tudo intil, vazio, incuo, despropositado.
Ningum entenderia jamais o que ele sentia naquele momento --
bastava parar, sentar num banco da praia, meditar com calma, e faria
dele um desses momentos capazes de decidir todo um destino. Um
desses momentos -- todo um destino. Em vez disso, tomou um nibus,
foi para a cidade.




HOTEL ELITE. Viera a p desde a praia, cadenciando os passos no
pensamento preguioso de que s lhe restava dormir. Apanhou a chave
atrs do balco, sem se importar com o rapazinho da portaria, que
parecia cochilar na cadeira. No elevador, subiu tambm uma mulher
morena, de cabelos pretos -- o elevador era antigo, de grades, e
rinchava como se fosse desmantelar-se.
      Despiu-se devagar e, vencido pelo cansao, apagou a luz,
estendeu-se na cama assim mesmo, nu. A janela, aberta para o beco,
deixava entrever uma lua baa, cuja luz avanava pelo cho do quarto,
subia pela cama, vinha manchar-lhe o peito encalorado. Era uma noite
quente -- por que aquele sbito estremecimento, como se uma brisa
gelada houvesse soprado? No se ouvia o menor rudo, e o corpo imvel,
ps voltados para cima, parecia o de um morto. Pensou na morte, que
existia como algum respirando a seu lado.
      Levantou-se, para espantar a sensao vertiginosa de morrer
sozinho ali, num quarto de hotel. Deu dois passos em direo  janela.
Ao mesmo tempo uma coisa escura, como um saco, passou l fora ante
seus olhos, quase ao alcance do brao. Recuou de susto. Que seria
aquilo? Ouviu uma pancada l embaixo, nas latas da marquise, seguida
de um baque seco. Algum no quarto ao lado resmungou sonolento:
"Que barulho!" Depois mais nada, seno a treva e o silncio.
      Correu  janela. A princpio, pde ver apenas algo de forma
indefinvel tombado na calada, junto ao meio-fio. A marquise estava
amassada, como se tivesse recebido pesado impacto. Pequenos rudos
noturnos agora pontilhavam o silncio: tosse, miado de gato, msica
distante de algum dancing. Quantas horas seriam? Umas trs, no
mais. Algum acabava de surgir da esquina e vinha caminhando, mos
nos bolsos. Ao aproximar-se do vulto estendido na calada, curvou-se,
riscou um fsforo... e saiu correndo em direo  outra rua. Da janela
Eduardo tambm pudera divisar um corpo cado -- corpo de mulher, o
vestido arregaado, pernas  mostra.
      Lembrou-se da mulher que subira com ele no elevador. Uma
criatura caa l de cima e ningum aparecia, todas as janelas fechadas.
Era preciso fazer alguma coisa, e ele no tinha nimo, sequer, de se
mover. Quanta coisa para um s dia! Viu ento as pernas se crisparem
lentamente.
      -- Ela est viva -- falou em voz alta, e foi como se despertasse:
vestiu s pressas a capa de chuva, e precipitou-se at o telefone, no
corredor:
      -- Caiu uma mulher l de cima.
      Voltou  janela, na expectativa de que o rapaz da portaria
aparecesse na rua. Como ele demorasse, tornou a sair, lanou-se
precipitadamente pelas escadas. Na portaria encontrou o rapaz, todo
assustado:
      -- Aonde?
      -- A fora, no beco -- e ia lev-lo  rua, quando viu um guarda
passar correndo, seguido de dois homens (o que vira o corpo certamente
dera o alarme). Voltou  janela e, mais calmo, ficou a assistir ao
espetculo. Em volta da mulher se formara um ajuntamento: gente
vinda de todos os lados, no se sabia de onde, como brotada da terra.
Luzes se acendiam ao longo do beco, perguntas corriam de janela a
janela. "Eu bem que ouvi um barulho", explicava um sujeito em camisa
de meia, debruado  esquerda.
      Meia hora depois chegava a ambulncia. Os enfermeiros abriram
caminho, puseram a mulher na maca, recolheram-na e partiram. A
multido foi-se dissolvendo, entre comentrios: em breve, j no havia
ningum na rua. As janelas foram-se fechando, as luzes se apagaram, e
a noite continuou.
      Eduardo tornou a deitar-se. Era intil: o acontecimento o
precipitara numa zona de angstia em que ele agora se debatia,
prisioneiro de um insuportvel nojo da vida. Imagens se sucediam na
sua cabea, o professor Leitosa, Slvio Garcia, o porteiro do cassino,
Antonieta. Nauseado, levantou-se para vomitar. Devia ser a mistura de
bebidas, o estmago vazio, os camares do almoo. E era a noite que
parecia querer envolv-lo na sua misria, nos seus rudos ignbeis, na
sua trama de sbito revelada. Ansiava pelo novo dia que vinha
nascendo para libert-lo; s cinco horas ps-se a arrumar a mala
apressadamente: libertava-se tambm da cidade hostil, que no chegara
a venc-lo. Desceu at a portaria:
      -- Tire a minha conta. Quero ver se ainda alcano o rpido
mineiro.
      O rapazinho no sabia explicar nada sobre o suicdio.
      --   O    senhor   vai   embora?   Olha   l,   podem   precisar   de
testemunha...
      -- Testemunha, eu? Sei tanto quanto voc.
      -- Eu dei meu nome...
      -- Pois ento? Olha, isso aqui  para voc. Ser que eu arranjo
um txi a esta hora?
      Na estao correu  bilheteria:
      -- O rpido para minas j saiu?
      -- Calma, calma -- disse o homem: -- Mineiro no perde trem.
      Logo ficou sabendo que perderia o seu: o passe no servia seno
para o noturno.
      -- Mas  a mesma coisa!
      -- A mesma coisa? Olha, eu vou lhe explicar.
      Desanimado, viu o trem sair sem que o bilheteiro se rendesse aos
seus argumentos. Finalmente o cansao o dominava -- sentia o corpo
modo, os olhos pesados. Duas noites sem dormir! Tomou um caf,
perambulou pela estao sem saber o que fazer, acabou se decidindo a
voltar para o hotel. Mas no aquele -- entrou no primeiro que
encontrou nas proximidades.
      -- O senhor vem de onde? -- perguntou o gerente, um gordo em
mangas de camisa.
      -- De Minas.
      -- A esta hora? -- estranhou o homem.
      -- Vim de nibus.
      Pior do que o outro -- mas pelo menos tinha uma cama, e era
tudo. Dormiu at as trs horas da tarde. Tomou banho, fez a barba e
saiu para almoar. Comeu espaguete num restaurante da Lapa, o
melhor que j comera em toda a sua vida. Depois, mais feliz, ps-se a
andar  toa. De sbito se deteve numa esquina: e por que no? Afinal,
tudo considerado, ela no lhe fizera nada, pelo contrrio: ele  que fora
grosseiro, estpido, vulgar. Telefona amanh, ela dissera.
      -- Voc me desculpe a cena de ontem  noite. Devo ter-lhe
causado pssima impresso.
      No chegou a dizer nada disso:
      -- Telefonei s para...
      -- Eu tambm te amo -- interrompeu ela, apenas.
      -- Hein? O qu?
      -- Onde voc est?
      -- Bem, obrigado -- murmurou ele, confuso.
      Ela riu:
      -- Perguntei onde voc est.
      -- Ah! No centro da cidade. Estou falando de um caf. Mas o que
foi mesmo que voc disse?
      -- Quero me encontrar com voc.
      -- Eu vou embora hoje -- explicou ele, sem saber mais o que
dizer. No entendia mais nada. Eu tambm te amo! Ainda bem que
tomara banho, fizera a barba.
      Encontraram-se mais tarde numa confeitaria. Ela pediu um
sorvete que mal provou, ele pediu um vermute para impression-la .
      -- Que histria  essa de ir embora hoje? -- e Antonieta estendia
a mo sobre a mesa, apertava carinhosamente a sua.
      -- Voc no ficou zangada por causa de ontem?
      -- Zangada no; fiquei assustada. Quase morri de rir, depois.
      -- Tambm no vejo motivo para graa.
      -- Que foi engraado, foi. Voc entrando assim, de repente...
Papai perguntou se eu estava danando com um artista do show. Tive
de inventar uma poro de mentiras para explicar.
      -- Engraado, ento, estava seu pai.
      -- No liga, no: ele  assim mesmo. Vamos sair daqui?
      Levantou-se e foi saindo. Parecia no saber que se pagava a
despesa, esperava troco. Juntou-se a ela na porta:
      -- Para onde, agora?
      -- Vamos a um cinema.
      No cinema Eduardo beijou-a pela primeira vez -- mais fcil do
que esperava. Era como se tivesse entrado ali para isso. Depois ela ficou
prestando ateno no filme, mas ele, excitado, no desviava os olhos
dela -- queria abra-la, beij-la outra vez.
      -- Tenha modos -- sussurrou ela, enlaando-lhe os dedos: -- Os
outros esto reparando.
       sada, ele se lembrou do suicdio, comprou um jornal. L
estava, na terceira pgina: morrera ao dar entrada no hospital. No era
hspede do hotel, no fora identificada, morrera sem dizer uma palavra.
      -- Amanh voc vai  praia comigo?
      No era hspede do hotel? Ento que diabo estaria fazendo l?
      --  praia? -- e ele dobrou o jornal, pensativo: -- Mas eu ia
embora hoje...
      -- Vai amanh.
      -- No trouxe calo.
      Ela riu:
      -- Mineiro mesmo. Ento voc no pode comprar um?
      -- Voc pensa em tudo...
      No podia ficar comprando muita coisa, no. Nisso ela no
pensava.
      -- E trocar de roupa aonde?
      -- Na praia mesmo. Vai de calo por baixo. At logo, meu bem,
estou atrasada. Telefona, sim?
      Na esquina um carro oficial a esperava.
      Eduardo saiu assobiando pela rua, foi comprar um calo.
Comprou tambm um livro, jantou, e, sem ter mais o que fazer, tomou o
caminho do hotel.
      Do Hotel Elite, por distrao. Quando deu pelo engano, j se
achava em frente ao velho prdio. Dobrou a esquina, ficou a espiar o
beco, o lugar onde a mulher havia cado, a marquise amassada. De que
janela teria saltado? Naturalmente da que ficava logo acima da sua, que
agora estava fechada e s escuras. Falecera ao dar entrada no hospital
-- o jornal dizia. Afastou-se com alvio daquele lugar. A lembrana da
noite anterior de novo o deprimia. Foi para seu novo quarto e ficou
lendo at que o sono viesse.




GRUPO de moas e rapazes estendidos na areia da praia, Antonieta no
meio deles. Eduardo constrangido, sorriso forado a cada fase da
conversa sem rumo de que no chegava a participar .
      -- s mineiro? -- perguntou uma das moas.
      -- Sou mineiro pela graa de Deus -- arriscou, e foi bem
sucedido: todos riram.
      -- Pois ento vamos batizar o mineiro de Antonieta.
      -- Todo mundo ngua!
      Eduardo se deixou ficar. Antonieta se deteve junto dele, o corpo
jovem  mostra na exgua roupa de banho. Era bonita, vista assim de p
contra o azul do cu, indcil, incontida:
      -- Voc no vem?
      -- No, vou esperar.
      -- No precisa ter medo que no vamos muito no fundo. Voc
sabe nadar?
      Os outros gritavam por ela. A moa partiu em disparada e foi
diminuindo at a orla de espuma branca, a gua verde... A vida  boa --
pensou ele: nos proporciona um ngulo de viso, uma perspectiva -- o
ser que eu amo l longe, distante, no mais que uma mancha cor-de-
rosa e negra, que daqui a pouco vir crescendo de novo para mim...
Antonieta atirou-se ngua.
         Levantou-se em movimentos preguiosos e seguiu em direo ao
mar. Desviou-se do grupo de banhistas, j dentro dgua, em braadas
lentas e seguras foi-se distanciando da praia. Passou a arrebentao e
continuou nadando ainda algum tempo -- depois mergulhou.
         Outras eram as suas guas -- doces, macias, envolventes.
Aquelas eram vivas e pareciam rejeit-lo como um intruso -- o sal ardia
nos olhos e o gosto na boca era amargo. Nadou mais um pouco, logo se
cansou. Voltou nadando de costas e j na areia aproximou-se dos
outros corpos nus que secavam ao sol. Ningum parecia ter notado que.
ele nadava to bem. Estendeu-se na areia ao lado de Antonieta.
         Depois,  tarde, era a confeitaria, Antonieta j em meio a outra
roda de amigos. Desta vez ele protestou, chamando-a a parte:
         -- Escuta, meu bem, quero ficar sozinho com voc um instante.
Afinal de contas, vou embora hoje...
         Tiveram pouco tempo para conversar, sentados num banco da
praia.
         -- J estou sentindo saudades suas -- confessou ele, inquieto,
olhando para os lados. No foi possvel beij-la. Da estao, como
sobrasse tempo, ainda lhe telefonou para despedir-se mais uma vez:
         -- Voc me responde se eu lhe escrever?
         Foi uma viagem longa, montona, interminvel. Ao chegar, uma
surpresa o aguardava: fora convocado, juntamente com Mauro e outros,
para o servio militar. Hugo Obtivera dispensa por motivos de sade.
         -- Acharam aqui o nosso homem com o pulmo meio carunchado
-- explicou Mauro. Hugo protestou:
         -- Pra de falar isso! Daqui a pouco todo mundo comea a me
tratar com se eu fosse tuberculoso.
         Mauro o olhou, surpreendido:
         -- Uai, que  isso, Radiguet? Voc agora est com preconceitos
burgueses?
      -- E ns, para onde vamos? -- perguntou Eduardo.
      -- Para a Cavalaria. Comea no fim do ms.
      -- Justamente nas frias!
      -- Isso  que  pior.
      Estavam numa leiteria, cercados de outros amigos. Eram
estudantes, mais jovens ainda.
      -- O Veiga est protegendo os meninos, ajudando, publicando,
pontificando. Daqui a pouco comeam a desancar o Veiga, como ns.
      -- Deviam desancar  conosco -- comentou Eduardo. -- Dizer que
nunca fizemos nada, somos uns canastres.
      -- Espera a! Estamos com vinte anos.
      -- Aos vinte anos Radiguet j tinha morrido, Rimbaud deixado de
escrever.
      -- Radiguet morreu com vinte e trs.
      -- lvares de Azevedo, ento.
      -- Eles agora esto descobrindo Rilke.
      -- Daqui a pouco esto subindo no Viaduto.
      -- Agora  que ns devamos estar fazendo essas coisas. Somos
umas bestas, uma gerao tempor, amadurecida antes do tempo.
      -- Tudo murcha, Eduardo Marciano.
      -- Apanhamos o fruto verde e deixamos que ele apodrea nas
nossas mos.
      -- Deixe de literatura.
      -- Literatura coisa nenhuma. Voc nem queira imaginar a
impresso que esses meninos esto me dando, discutindo a problemas
de esttica. Parecem anes. De noite, na cama... voc sabe. Ns ao
menos na idade deles j tnhamos as mulatas .
      Lembrou-se da viagem, o professor Leitosa. Mexeu-se na cadeira,
procurando fugir ao pensamento. Mauro lhe respondia:
      -- No exagere: ainda temos. Nem tanto ao mar, nem tanto 
terra. Quando no temos... Eu no me envergonho disso no, acho uma
contingncia natural da solido. Somos imaginativos, isso  inevitvel.
S que no temos mais aqueles temores ridculos da infncia,
preconceitos religiosos, a submisso a tabus, medo do pecado, horror
de ser castigado por Deus.
      -- Vai devagar, Besta-Fera. Voc agora  ateu?
      -- Ateu, no: agnstico.
      -- Pois eu te dou quinhentas pratas se voc me disser o que quer
dizer essa palavra.
      -- Ora, para comear, voc no tem quinhentas pratas. Estou
conversando a srio e voc me vem com molecagem. Acho que Deus 
uma coisa, os padres outra. O rano das sacristias me enoja. Tenho
horror ao bafo clerical dos confessionrios! O bem que a confisso pode
nos fazer  o de uma catarse, um extravasamento, que a psicanlise
tambm faz, e com mais sucesso. Estou mesmo com vontade de me
especializar em psiquiatria.
      -- S mesmo um doido te procuraria.
      Mauro no pode deixar de rir. Eduardo acrescentou:
      -- Voc vai ter de se curar primeiro para depois curar os outros.
      --  isso mesmo -- concordou o outro, srio: -- Estou exatamente
preocupado com o meu prprio caso. J iniciei o que eu chamo de "a
minha libertao".
      -- E o que eu chamo de "a sua imbecilizao".
      -- Vista pela sua, que j  completa. O que eu chamo de
libertao  a possibilidade de me afirmar integralmente, como homem.
O homem  que interessa. Se Deus existe, posso vir a me entender com
ele, mas h de ser de homem para homem.
      Aborrecido, Eduardo no lhe deu resposta. Hugo deixou os outros
com quem conversava e voltou-se para eles, neutralizando a discusso
j armada:
      -- Ento, Eduardo, como  que foi a coisa?
      -- Qual coisa?
      -- A coisa l no Rio.
      -- Conheci Slvio Garcia. O tipo do cafajeste.
      -- Pois saiu um poema dele no domingo que  uma beleza. Mas
no  isso que eu estou perguntando.
      -- O que  que voc est perguntando?
      Cheio de evasivas, Eduardo se recusou a falar da viagem: mudava
de assunto, evitava tocar no nome de Antonieta.
      -- Sabe de uma coisa? -- concluiu o outro: -- Voc est mesmo
apaixonado. Quando comea assim...
      Estava apaixonado. S foi reconhecer quando se viu a telefonar
para Antonieta quase todas as noites, da Companhia Telefnica. No se
arriscava a escrever-lhe, temia que ela no respondesse. E no havia
dinheiro que bastasse. Tinha de conversar com os olhos no relgio,
contando os minutos. A moa no parecia dar conta deste problema,
prolongava a conversa, e nada tinham a conversar.
      -- Voc gosta de mim?
      -- Muito. E voc?
      -- Quando  que voc vem me ver de novo?
      -- To cedo no posso: fui convocado.
      -- Talvez v com papai a Poos. Ele acabou resolvendo ir...
      -- Vai sentir saudade de mim l?
      -- Vou.
      -- Jura?
      -- No  preciso.
      -- Voc me ama?
      -- Ora, meu bem.
      -- Ento at logo.
      -- Um beijo para voc.
      -- At logo, meu amor.
      No fim do ms comeou o servio militar. Todas as manhs seguia
com Mauro para o quartel no alto da Serra. As vezes, quando  noite se
encontravam para um chope ou uma conversa, que se prolongava at
alta madrugada, j saam fardados de casa, seguiam direto do banco da
Praa para a instruo. E no agentavam o sono e cansao, caam do
cavalo. Sentados nos traves da cerca, os oficiais assistiam ao
treinamento dos recrutas, entre risos:
      -- Bate as pernas, sua besta!
      -- Olha a, vai refugar!
      -- Larga a patilha, animal!
       tarde, na repartio, Eduardo lia ora Flaubert, ora Stendhal.
Ficou na dvida, acabou preferindo Stendhal.
      -- Preciso arranjar um emprego melhor -- pensava.




RECEBEU um aviso de que deveria comparecer  Polcia Central.
Intrigado, compareceu imediatamente:
      -- O que  que h, Barbusse? No fizemos nada.
      -- H muitas coisas. Primeiro que tudo, pra de me chamar de
Barbicha! Fui transferido para aqui e se isso pega eu estou perdido.
      -- Henry Barbusse, um romancista francs.
      -- Olha, tenho aqui uma precatria do Rio para te fazer umas
perguntas. Antes de mais nada: o que  que voc foi fazer no Rio?
      -- J sei de que se trata: deve ser sobre uma mulher que pulou
da janela, no ?
      Contou-lhe tudo que sabia -- o escrivo tomava notas. Depois de
faz-lo assinar o depoimento, o delegado deixou que ele se fosse:
      -- No se preocupe. Se for preciso, te chamo de novo.
      -- Acho que no vai ser preciso, vai?
      Em casa, resolveu contar o caso ao pai. Ao contrrio do que
esperava, seu Marciano ficou preocupado:
      -- Voc fez mal, meu filho. No devia ter sado do hotel assim de
repente.
      -- Mas eu no tinha nada com o caso!
      -- Voc disse que a mulher subiu com voc no elevador?
      -- Subiu uma mulher. Nem posso afirmar que fosse ela.
      Olhou o pai com estranheza:
      -- O senhor no est pensando que estou escondendo alguma
coisa, est?
      -- No: estou com medo de que eles pensem.
      -- Qual, bobagem...
     O velho se alarmava  toa, no entendia bem certas coisas, vivia
um pouco fora do mundo.
     Dias depois, contudo, Eduardo o procurava, irritado:
     -- O senhor tinha razo: fui chamado de novo  Polcia.
     -- Vou com voc -- disse o pai.
     -- Aquele depoimento no serviu -- explicou o delegado: -- Se eu
fosse voc dava um pulo no Rio.
     -- No Rio? Para qu? No haveria um jeito de evitar isso?
     -- Acho melhor voc ir, meu filho -- decidiu seu Marciano .
     O delegado procurou tranqiliz-los:
     -- Essas coisas, quanto mais depressa esclarecer, melhor.
     Eduardo resolveu concordar; ir ao Rio significava ver Antonieta.
No dia seguinte tomava um avio -- seu Marciano facilitou-lhe tudo.
Antes de se apresentar na delegacia, porm, procurou o Amorim:
     -- Me lembrei de voc. Esse negcio de polcia voc entende
melhor do que eu.
     -- No sou mais reprter de polcia, voc sabe disso. Ainda mais
aqui no Rio! Prefiro no me meter.
     -- Custei tanto a te encontrar! Em todo caso, muito obrigado.
     Irritou-se com a m-vontade do outro, foi sozinho. Depois de duas
horas de espera foi atendido por um comissrio. Repetiu tudo o que
sabia, respondeu a vrias perguntas. Desta vez ningum tomava notas.
     -- Voc disse que naquela noite esteve no Cassino Atlntico?
     -- Estive.
     -- E na mesma noite deixou o hotel, voltou para Minas.
     -- Isso mesmo. Quer dizer, deixei o hotel mas no pude embarcar:
minha passagem s servia para o noturno.
     -- Embarcou  noite, ento.
     -- Na noite seguinte.
     -- Voltou para o hotel?
     -- Para outro hotel.
     -- Por qu?
     -- Bem, porque...
      -- Voc no voltou ao Hotel Elite?
      -- Quando?
      -- Na noite seguinte.
      -- No. Isto , passei l por curiosidade, no cheguei a entrar. O
hotel em que eu estava hospedado...
      -- Isso no tem importncia.
      O comissrio pediu-lhe que esperasse, e saiu da sala. Quando
Eduardo j se dispunha a protestar contra a demora, apareceu com um
papel na mo:
      -- Assine aqui, e est dispensado.
      -- Posso ler?
      -- Pode -- o homem ergueu os ombros, indiferente.
      --  mais ou menos isso mesmo -- disse Eduardo, enquanto
assinava. O senhor tem boa memria, guardou tudo na cabea.
      O homem sorriu. Eduardo se deteve, ao sair:
      -- Me diga uma coisa: como  que o senhor sabia que eu estive l
perto na noite seguinte?
      -- O porteiro -- concedeu o comissrio. -- Isso tambm no tem
importncia...
      -- O criminoso sempre volta ao local do crime. -- gracejou
Eduardo. Quem era ela, afinal?
      -- Ainda no foi identificada. Mas vai ser.
      Eduardo o olhou, estarrecido:
      -- Quer dizer que... ainda no est enterrada?
      -- Por enquanto est.
      -- Por enquanto?
      -- No se preocupe. Tudo isso  mera formalidade.
      Agora, a parte da viagem que mais o interessava: rever Antonieta.
Telefonou, e lhe disseram que tinha ido para Poos de Caldas.
      -- Nem para me avisar -- queixou-se, amargurado.
      Ao regressar, porm, soube que lhe haviam telefonado de Poos
de Caldas.
      -- Deixaram algum recado?
         Seu Marciano quis saber o que acontecera no Rio.
         -- Nada. Bobagem. Essa gente de polcia trata testemunha como
se fosse criminoso. Mas quando  que telefonaram? O senhor disse que
eu estava no Rio?
         Foi imediatamente para a Companhia Telefnica. Com o dinheiro
que lhe sobrara da viagem -- passara apenas uma noite num hotel do
centro, tomara o primeiro avio de volta -- pde localizar Antonieta
depois de vrios telefonemas:
         -- Por que voc no me avisou?
         -- E voc, que foi ao Rio sem me avisar!
         -- Isso  outra histria. Depois te explico. Como  que vamos
fazer?
         -- Fazer o qu?
         -- No posso passar mais tempo sem te ver.
         Dois dias depois Antonieta lhe telefonava:
         -- Tenho uma notcia para voc. Conversei com papai sobre ns
dois, falei quem voc era, consegui convenc-lo de que no havia nada
de mais. Ele acabou deixando que eu passasse uns tempos a na casa
de titia.
         Eduardo queria prolongar a conversa, pedir detalhes, mas a
presena de dona Estefnia na sala o constrangia.
         -- Conversamos quando voc chegar.
         Agora os dois se viam quase todas as noites, na varanda da casa
dos tios. s vezes a velha aparecia para uma conversa -- revelara-se
uma boa criatura, afinal -- mas a maior parte do tempo os deixava a
ss.     Nesses   momentos,    abraados,   falavam   de   si,   revelando-se
mutuamente, se experimentavam, maravilhados, descobriam pontos de
contato, afinidades insuspeitadas. Recompunham o mundo  sua
maneira, tentavam um entendimento completo alm das palavras.
         -- Nunca pensei que isso fosse possvel.
         -- Nunca pensei que voc pudesse entender.
         Isso o qu? Entender o qu? No sabiam. Suspiravam apenas,
olhavam-se nos olhos, beijavam-se a cada instante. Eduardo procurava
conter-se, mas isso sim, nem sempre era possvel. Continuava arredio e
distante de mulheres, ainda que s vezes desse uma escapada furtiva 
zona bomia, de onde voltava cheio de nojo, decepo e arrependimento.
Antonieta, to pura! era preciso ao menos preserv-la, conservar-se
tambm puro, respeitar o seu amor. Uma noite no resistiu, acariciou-
lhe os seios -- outra noite seus corpos se misturaram, deitados no sof
da sala, numa das ausncias da tia. Eduardo se martirizava -- era uma
baixeza deixar que tais coisas acontecessem. Quando por acaso iam a
alguma festa, danava com ela como danaria com uma mulher de
cabar! Era preciso resistir -- foi o que lhe disse um dia, quando enfim
se abriu com ela, revelando-lhe o motivo de sua aflio. Antonieta ficou
pensativa:
      -- Achava que se a gente gosta um do outro...
      -- No. Est errado.
      -- ...fosse uma coisa natural.
      -- No  natural... E voc tem de me ajudar.
      --  pecado? -- perguntou ela. -- Eduardo olhou-a, intrigado:
      -- No  por isso, mas... Sim,  pecado, voc tem dvida? Voc 
catlica?
      -- Acho que sou...
      Acabou procurando um padre para se confessar. O padre o ouviu
com pacincia, mas no deu muita importncia aos seus pecados:
      -- A moa tem razo, vocs sentirem desejo  natural. O que no
 natural  essa situao de namoro com tantas facilidades, com tantas
ocasies de tentao. No prolongue isso por mais tempo. Trate de
casar-se logo que puder.
      -- Casar?
      No, o padre no compreendia. Como casar-se, na sua idade, sem
terminar o curso na Faculdade, no ganhava nem para o seu sustento!
De qualquer maneira, precisava melhorar de vida. Ningum vive de
literatura -- era o que seu Marciano costumava dizer. Um dia falava
com entusiasmo a Antonieta sobre sua necessidade de publicar
imediatamente um livro -- iniciar a carreira, firmar-se como escritor --
a moa o desapontou com um nico comentrio distrado:
      -- Voc no acha que  um pouco cedo?
      -- Nunca mais hei de tocar neste assunto com ela -- decidiu,
magoado. -- Ela tambm no entende.
      Ao saber da vaga de assistente de portugus, num colgio
secundrio, procurou o Toledo, que lecionava l. Hugo no era
professor? Tambm poderia ser.
      -- Acho difcil -- ponderou o amigo. -- E no lhe aconselho. No
h vida mais miservel.
      -- Eu continuaria com meus outros empregos...
      -- Que outros empregos?
      -- A repartio e o jornal.
      Seu salrio no jornal, onde trabalhava na parte da tarde, fora
finalmente fixado.
      -- Uma misria. E na repartio tambm. Voc acabaria feito eu.
Escuta uma coisa, Eduardo: no tenho nada a ver com isso, mas esse
namoro com a filha do ministro...
      -- No sei o que ela tem a ver com isso.
      -- Desculpe ter tocado neste assunto. Mas eu perdi minha
oportunidade, no gosto de ver voc perder a sua.
      -- Que oportunidade?
      -- A de escrever. V em frente, rapaz. Case-se, mude para o Rio,
fuja disso aqui enquanto  tempo. Antes que voc acabe oficial-de-
gabinete, feito eu. Conquiste sua independncia, v escrever.
      -- Mas no era voc mesmo que me dizia estar arrependido de
ter-se casado?
      -- Psiu, fale baixo, rapaz! Voc quer provocar uma tragdia no
meu lar? Isso  diferente: casando ou deixando de casar, a gente se
arrepende sempre. No tem importncia.
      -- O que  que tem importncia, ento?
      -- Para mim? Mais nada. Para voc, escrever. Fazer do seu
arrependimento uma boa literatura.
      -- No me arrependi ainda. Talvez ainda possa evitar...
      --  impossvel. O sentimento no  bem de arrependimento, 
uma espcie de nostalgia -- j lhe disse isso. Nostalgia daquilo que a
gente no , dos lugares onde no esteve, das coisas que no chegou a
fazer... Se voc no tiver isso, se um dia se sentir satisfeito, pode ter a
certeza de que voc no  mais escritor.
      -- E ser ruim, isso?
      -- O qu? No ser escritor?
      -- No: se sentir satisfeito, no ter essa espcie de nostalgia.
      -- Seria at bom, se no fosse o risco de ficar apenas com a outra
espcie de nostalgia: a de tudo que a gente realmente viveu. Uma
precisa da outra, para se transformar em experincia.
      -- Bem, mas eu no posso viver de nostalgia. Que devo fazer,
ento?
      -- O ministro lhe arranja um emprego. Por este lado voc no tem
com que se preocupar.
      -- Voc mudou de idia a meu respeito.
      -- No entendo.
      -- Dizia que eu no cometesse o erro que voc cometeu.
      -- Pensei que seu caso fosse diferente... Mas voc tambm no
soube escolher, foi escolhido. Agora agente.
      Eduardo se irritou:
      -- Ainda est em tempo, Toledo. Eu no sou um vendido.
      -- E eu sou --  isto o que voc quer dizer. Qual, essa linguagem
do Mauro no serve para voc, por favor, perceba! Mauro se engrandece
assumindo atitudes assim. Voc apenas se compromete.
      -- No tenho medo do compromisso.
      Toledo deu uma gargalhada:
      -- No, voc no tem medo! Tem apenas um horror cego ao
compromisso, e sabe por qu? Pois eu vou lhe dizer: porque para voc o
importante no  se comprometer, e sim cumprir o compromisso
assumido. Est certo, mas aquele que quiser salvar a sua vida...
Tambm j lhe falei isso uma vez, vamos agora falar de coisas
agradveis: aqui entre ns, voc est mesmo gostando da menina?
ANTONIETA lhe comunicou inesperadamente que iria embora:
      -- Papai chega amanh. Vai com o governador a uma exposio
pecuria em Uberaba, quer que eu v com ele. De l seguimos direto
para o Rio.
      Logo agora, que tinham tanto a conversar! No dia seguinte, de
volta do quartel, era ele que lhe contava pelo telefone:
      -- A visita de seu pai  oficial. Fomos escalados para a escolta do
ministro logo mais, da estao ao palcio.
      -- A cavalo? Ah, eu quero ver! Ento vou tambm.
      Era a primeira vez que os recrutas cumpriam misso to
importante. Compenetrados, nervosos, formavam o piquete de cavalaria,
armados de lanas e capacetes emplumados. Eduardo, em menino,
mais de uma vez sara  rua para ver os famosos cavalos do Esquadro.
Agora era um dos cavaleiros e olhava por cima a curiosidade agitada de
outros meninos, a cerc-los na praa da estao.
      O ministro seguiu para o palcio em carro aberto, ao lado da filha
que fora esper-lo, e acompanhado pelo piquete em trote curto. Ao
primeiro momento Antonieta localizou o namorado -- chegou mesmo a
acenar-lhe com a mo, o que mais tarde foi motivo de gracejo entre os
recrutas. Esta etapa da misso foi por eles cumprida com galhardia.
Quando, porm, o carro deixou o palcio a caminho do Grande Hotel,
onde se hospedaria o visitante, deu-se o imprevisto: esquecido da
escolta, o motorista tocou o carro em disparada, rua abaixo, os cavalos
galopando doidamente ao seu encalo. Escorregavam nos trilhos do
bonde, nos paraleleppedos, se dispersavam em confuso. Alguns
cavaleiros deixavam cair a lana na nsia de conter os animais. Alguns
enveredavam pelas ruas transversais, outros passavam de muito o
Grande Hotel, iam parar no centro da cidade. Dois ou trs sofreram
quedas, e entre eles Mauro, que se contundiu, teve de ser levado ao
Pronto-Socorro. O ministro e a filha no deram conta de nada.
      Ao chegar em casa, horas mais tarde, cansado e trpego, Eduardo
soube qu Antonieta lhe havia telefonado, convidando-o para a festa do
clube naquela noite, em homenagem ao pai.
      -- Ser a rigor? -- resmungou.
      -- No -- estranhou seu Marciano. -- Ela insistiu mesmo em
dizer que voc podia ir, no era a rigor. Voc no tem a o seu...
      -- Smoking, papai.
      Vestiu-se e foi para a festa. Ao v-lo, Antonieta atirou-se em seus
braos:
      -- Meu bem, voc no est ferido? S agora soubemos, eu estava
morrendo de aflio, pensando que fosse voc.
      -- Souberam o qu?
      -- Que um de vocs se feriu gravemente. Pois imagine que nem
vimos nada...
      -- No, ningum se feriu gravemente -- Eduardo tranqilizou-a,
displicente: -- Foi o cavalo de Mauro que boleou, isto , caiu para trs.
Ele no teve nada, s torceu o p. Mas ento voc pensou mesmo que
tivesse sido eu?
      -- Vem -- disse ela, puxando-o pela mo: -- Quero te apresentar
ao papai.
      O ministro estava rodeado de gente. Cumprimentou Eduardo com
jovialidade:
      -- Ento: deram hoje um galope extra, tenente?
      -- Tenente, no: soldado raso -- sorriu Eduardo, tentando o
mesmo tom.
      A vida de soldado raso no era atraente: tinha de estar no quartel
s cinco horas, lavar cavalo, dar rao a cavalo, encilhar cavalo, montar
a cavalo. Eduardo e Mauro se rebelavam, desafiando os superiores,
fugindo s instrues:
      -- Hoje voc responde chamada para mim, amanh eu respondo
para voc.
      Naquela manh, Eduardo foi direto da festa ao quartel, mal teve
tempo de vestir a farda. Mauro se aproximou mancando:
      -- Meu tombo ontem, voc viu? Fiquei preso pelo p. Vou pedir
dispensa ao capito Plulas.
        O capito Plulas era o mdico que atendia os recrutas:
        -- Plulas, que negcio  esse? Todos os dois machucados? Voc
no caiu, Eduardo.
        -- Cair, a gente cai todo dia... Levei um coice.
        Foram examinados sumariamente, Eduardo obteve licena de trs
dias.
        -- E eu? -- pediu Mauro, impaciente.
        -- Voc no tem nada -- tornou o capito. -- Voc  um
desenquadrado, no quer nada com o Exrcito. Enquanto Eduardo
estuda, se interessa, voc vive na farra, plulas! no aprende nem a
montar a cavalo. Mire-se no exemplo do seu colega!
        Mauro, perplexo, olhou para Eduardo como para um espelho.
        -- Mas eu ca ontem! -- insistiu.
        -- No posso dispensar os dois. Coice  mais importante. Cair,
voc cai todos os dias.
        Mauro saiu maldizendo o capito e o amigo:
        -- Voc procedeu como um autntico sacana.
        Eduardo ria:
        -- Vou dar um jeito nisso.
        Foi de novo ao departamento mdico e dentro em pouco voltava:
        -- Pronto, o Plulas te deu uma semana de licena. Mas voc tem
de fazer uma reportagem.
        Mauro no queria acreditar:
        -- Reportagem? Reportagem sobre o qu?
        -- Sobre qualquer coisa: sobre o servio mdico no Exrcito, por
exemplo. Contanto que voc cite o homem. Ele vai te dar os dados. Voc
pede ao Veiga para publicar.
        -- Depois o Veiga no publica...
        -- Bem, esse problema  seu.
        Ao chegar em casa, soube que fora chamado de novo  polcia.
        -- Plulas! -- explodiu.
        O delegado lhe disse que o caso devia ser mais complicado do que
parecia  primeira vista.
      -- Pelo jeito voc vai ter de ir de novo ao Rio.
      -- Mas ser possvel!
      -- Estou cumprindo ordens, filho.
      -- E eles? O que  que esto pretendendo?
      -- No sei... Essas coisas so assim mesmo.
      E o delegado se inclinou, mudando de tom:
      -- Escuta aqui, Eduardo: se a tal mulher estava com voc, pode
dizer, no h nada de mais nisso. Ficou provado que ela pulou...
      -- Nunca a vi mais gorda.
      -- No elevador?
      -- No elevador vi uma mulher, no sei se foi ela. No cheguei a ver
o corpo de perto.
      -- No esteve no seu quarto? Nem um instante?
      -- No meu quarto? Voc est doido? Nem clava tempo. Pulou do
quarto acima do meu dez minutos depois que eu cheguei.
      -- Meia hora.
      -- Quem te disse?
      O delegado o segurou pelo ombro, paternal, levou-o at  janela:
      -- Aqui dentro a gente fica sabendo de tudo. Olha, eu no devia,
mas vou te contar: j soube, por exemplo, que o quarto acima do seu
estava trancado.
      -- E o de cima?
      -- Do quinto andar? -- e o delegado debruou-se  janela: -- Veja.
Estamos no quinto andar. Voc acha possvel algum pular daqui l
embaixo e no morrer imediatamente?
      -- Em resumo: levei a dona para o quarto, joguei pela janela e fui
avisar o porteiro.
      -- No precisa se zangar! Estou exatamente procurando a melhor
maneira de te tirar dessa histria. Convm ficar por a esses dias,
aguardar um aviso meu.
      -- Quer saber de uma coisa, Barbusse? -- respondeu Eduardo,
mal-humorado: -- Esta brincadeira j est passando dos limites.
      -- Engraado... Voc brincou a valer, pintou o diabo, agora se
queixa: pensa que aquele esqueleto no me deu trabalho at apurar? E
a porta da coletoria?
      Acompanhou-o at a sada;
      -- Mas fique tranqilo que isso d em nada.
      Eduardo se sentiu realmente tranqilizado, nem contou nada a
seu Marciano. No pensou mais no assunto, e naquele mesmo dia
embarcou para Uberaba: seguia com a orquestra encomendada para o
baile. Conseguira que o Veiga o mandasse pelo jornal, para fazer a
reportagem da exposio pecuria.
      -- Deixo Mauro no meu lugar. Ele tem a uma reportagem para
fazer, voc vai ver s.
      -- A passagem est arranjada -- disse o Veiga. -- O resto por sua
conta.
      -- O resto por minha conta -- repetiu.
      O resto era Antonieta. No lhe falara nada, queria fazer-lhe uma
surpresa. E durante a festa no clube a idia de segui-la ainda mal
ganhara corpo. Despediu-se com intensidade:
      -- Esto sempre nos separando...
      -- Ningum h de nos separar.
      Buscaram a varanda para um ltimo beijo. Abraados a um
canto, j nada diziam. Naquele clube se haviam conhecido, naquele
clube se separavam. Estas foram as ltimas palavras que trocaram.
Agora, ele seguia para Uberaba num trem desconfortvel -- foram 36
horas de viagem penosa, ao fim das quais encontrou a cidade em festa,
hotis superlotados, confuso. Ningum se entendia, milhares de
pessoas tinham vindo de outras cidades para ver, se divertir, negociar:
      -- Quanto voc quer pela novilha? -- diziam, num caf.
      -- No vendo por menos de doze contos.
      -- Doze contos?  muito. Dou dez.
      -- Ento d onze -- arrematava o outro.
      O governador, o ministro e at o presidente da Repblica estavam
presentes -- a prefeitura local inauguraria vrias obras com o nome de
cada um deles. Eduardo se hospedou com a orquestra num grupo
escolar, em meio a outros forasteiros que dormiam em colches, pelo
cho. Logo nos primeiros minutos lhe furtaram uma caneta-tinteiro --
de um dos msicos furtaram o saxofone. Conseguiu trocar de roupa e
saiu  procura de Antonieta.




REGRESSOU a Belo Horizonte dois dias depois, num trem cheio de
retirantes. Sua cabea fervilhava, tinha o corpo modo de cansao:
estivera com ela,  verdade, mas foram dois dias e duas noites de
permanente agitao: festas, recepes, banquetes, solenidades, nas
quais a moa sempre arranjava jeito de inclu-lo, em meio a oficiais-de-
gabinete, autoridades, jornalistas, admiradores.
      -- Essa gente no serve para voc -- queixou-se ele, num dos
raros momentos em que se viram a ss. -- Essa vida que voc leva...
      -- Est com cime? -- desafiou ela.
      --  possvel. O Arago, por exemplo: quem diabo  afinal esse
Arago? Por que tem tanta familiaridade com voc? Passou a noite me
explicando seu temperamento, assumindo um ar de proteo.
      Arago era um rapaz da comitiva oficial, em cujo quarto no hotel,
graas a Antonieta, Eduardo fizera pouso.
      -- Voc j o conhecia, meu bem: esteve conosco aquele dia na
praia, no se lembra?  aviador. Filho de um amigo do papai.
      -- E eu, o que  que sou? -- disse ele, dramaticamente.
      -- Voc?  o meu namorado.
      -- Eu no sou nada -- continuou, sem ouvir: -- Fico no meio
dessa gente feito um importuno, um admirador a mais. Voc  minha! e
eles nem sabem. Precisamos ficar noivos, para que nos respeitem.
      -- Vou conversar com papai.
      Deixaram o assunto para o dia seguinte. Eduardo estava irritado
com tudo e com todos. Queixou-se de que a polcia continuava a
aborrec-lo com o caso do Hotel Elite.
      -- Vai ver que voc estava mesmo com a mulher -- gracejou ela, o
que ainda mais o irritou. E, deixando-o, saiu para danar. Estavam
numa festa. Antonieta tinha que danar com um e outro, largando-o
sozinho a cada instante. Desta vez, ele trouxera o seu smoking, mas se
arrependera; no devia ter-se metido naquilo. Ela  que tinha de vir
para a sua vida. Filha de ministro, do Rio de Janeiro, to diferente dele,
obscuro rapaz de Minas -- outro ambiente, outra educao. No dava
certo.
         -- Foi melhor assim.
         -- Tinha de acabar.
         Pois ento por que diabo no acabara mesmo naquela ocasio no
banco da Praa? Para se sentir cada vez mais infeliz por uma coisa que
no teria nunca?
         No dia seguinte, ao acordar, sentiu no ar algo de diferente, um
silncio l fora, uma calma... No viu no quarto do hotel as coisas do
Arago. Chegou  janela: os empregados da Prefeitura removiam as
faixas com os dizeres "Benvindo Seja a Uberaba" e as bandeirolas
festivas com que haviam enfeitado a rua. Vestiu-se, desceu  portaria.
Informaram-lhe que todos tinham partido naquela manh, o presidente
voltara inesperadamente ao Rio, de avio, o governador voltara a Belo
Horizonte.
         -- E o ministro? A filha do ministro?
         Sem um bilhete, uma despedida! Arrumou as coisas e ia saindo,
acabrunhado, carregando a mala, quando o homem da portaria o
deteve:
         -- Quer sua conta agora?
         -- Conta?
         -- O senhor no est de partida?
         -- Estou, mas... fao parte da comitiva -- explicou, confuso.
         -- O seu nome no consta...
         -- Com o Arago -- acrescentou, a voz mais firme. -- Aquele
aviador. Eu estava no quarto dele.
         -- Bem, mas...
         -- Ele pagou a conta? -- perguntou, irritado. -- No: ele era da
comitiva. O nome dele...
      -- Pois ento, pacincia! Tambm no pago. Em que ele  melhor
do que eu?
      O homem ergueu os ombros e continuou firme: no cederia.
      -- No quero favor de ningum -- disse Eduardo, afinal. Quanto
?
      E aquele sujeito a trat-lo cheio de mesuras, quando passava com
Antonieta pela portaria! Examinou a conta com raiva: duas dirias
completas, dez por cento de gorjeta.
      -- No almocei nem jantei aqui. Dormi uma noite. Na outra mal
cheguei e sa. Pago uma diria, o que j  roubo. E no dou gorjeta.
      Atirou a nota no balco, a nica de que dispunha, e saiu a passo
firme, sem esperar o troco. O que era um contra-senso: afirmara que
no daria gorjeta. No nascera para aquilo. Vou usar botinas e deixar
crescer o bigode -- se prometeu, enraivecido. Com os nqueis que lhe
sobraram, comprou pastis e um sanduche -- foi sua nica refeio at
Belo Horizonte. A orquestra no voltou, ficara por l. Teve de ir para
casa a p, ao peso da mala. Naquela mesma noite, mal refeito do
cansao, procurou o velho Marciano.
      -- Papai, tenho um assunto importante a tratar com o senhor.
      Seu Marciano mandou que esperasse: assuntos importantes, s
depois do jantar, na varanda. Ele prprio, sentindo a importncia da
conversa, no quis que dona Estefnia participasse.
      -- Antes de mais nada, meu filho: o Mafra, aquele seu professor
de natao, est atrs de voc.
      -- O que ele quer?
      -- No sei: pediu para voc procur-lo assim que chegasse.
      -- Bem, deixemos isso -- e Eduardo limpou a garganta: -- O
problema  o seguinte: eu quero me casar, papai.
      -- Casar? -- e o velho procurou disfarar o espanto. -- Mas antes
de casar voc tem de ficar noivo, meu filho.
      -- Eu estou noivo. Isto , quero ficar noivo.  isso: ficar noivo.
      -- Mas para isso era preciso que voc tivesse uma situao,
terminasse seu curso... Voc no acha que  um pouco cedo? Est com
vinte anos, no? Sempre quis que voc se formasse. Veja o meu caso: se
eu tivesse me formado...
     -- Eu me formo -- cortou Eduardo, impaciente. -- Quanto a isso
no tenha dvida. J prometi, pois ento acabou-se. Acho que no
adianta nada, mas me formo. O problema no  esse.
     -- Qual  o problema, ento?
     -- O problema  que...
     Seu Marciano resolveu abrir-se com o filho:
     -- Voc sabe, nunca falei nisso porque esperava que um dia voc
viesse conversar comigo. Hoje voc veio, pois vamos conversar: eu j
sabia do seu caso com essa moa -- no tenho nada contra ela, pelo
contrrio, j soube que  moa distinta. Mas isso  uma coisa que vem
me   preocupando     muito,   ultimamente.   A   mim   e      sua   me.
Principalmente a ela. J por duas vezes ela quis conversar com voc, eu
 que no deixei. Quando voc foi ao Rio e agora a Uberaba. Acontece
que essas coisas o povo fala muito, meu filho, no perdoa nada. E ainda
mais se levarmos em conta a situao da moa, sua posio social...
     -- Fala o qu? -- protestou o rapaz: -- No vejo motivo para
falarem de ns.
     -- Falam exatamente isso que voc est me falando: que vocs
esto precisando casar. S que tem que falam com malcia, e nem
sempre sem razo. Tambm j fui moo, sei como so essas coisas.
Noivado, quando chega a um ponto,  preciso casar mesmo.
     -- Mas eu nem noivo estou -- protestou Eduardo.
     -- Pois  isso: nem noivo est -- e o pai o fitou, percebendo que
tinham voltado ao ponto de partida.
     -- Antonieta ficou de conversar com o pai dela.
     Era a primeira vez que Eduardo mencionava o nome da moa
para seu Marciano.
     -- Ento depende dele, no de mim.
     -- E se ele consentir?
     -- Se ele consentir...
      E os dois ergueram o ombro, olhando-se com simpatia. No havia
problema, pois. O problema  o seguinte: no h problema.
      -- Como  que o senhor ficou noivo, papai?
      Naquele mesmo dia o delegado lhe telefonava:
      -- Voc foi embora sem me avisar. Te avisei que no sasse da
cidade.
      -- Voc sabe de tudo, hein, Barbusse? -- retrucou Eduardo, bem-
humorado. -- Pois ento fique sabendo que resolvi mandar s favas
esse caso. No volto a nem que voc ponha toda a polcia atrs de mim.
      -- No vai ser preciso. J tomei providncias, no vo te aborrecer
mais. O caso foi encerrado.
      Na redao do jornal, Eduardo encontrou Mauro s voltas com a
reportagem.
      -- Olha s o que voc me arranjou. O capito Plulas montou na
minha alma: est me chateando, no me larga mais.
      Eduardo se lembrou, comeou a rir:
      -- E o que  que voc est escrevendo?
      -- Sei l! Voc agora me tira disso.  lgico que o Veiga no pode
publicar esta merda.
      Leu o que Mauro havia escrito. Era uma digresso sobre a
restaurao das liberdades democrticas em todo o pas.
      -- Est timo, mas no sei aonde voc quer chegar.
      -- Agora vou entrar no papel do Exrcito, etc.. At chegar no
Plulas.
      -- No faa isso. D encrenca na certa.
      -- Quer aproveitar para a sua reportagem sobre Uberaba?
      Eduardo sentou-se  mquina e continuou no mesmo tom: entrou
a atacar as iniciativas governamentais, acabou falando em pecuria.
Citou o triste espetculo da exposio de Uberaba, para especulaes
entre os negociantes de gado: membros do governo, ministros, e at o
presidente, se valiam do pretexto para festas dispendiosas, enquanto a
carne subia de preo. E o povo passando fome.
      -- Isso, rapaz -- Mauro aplaudia, entusiasmado, lendo por cima
do seu ombro. -- Estou gostando de ver! O Veiga no vai publicar.
      -- Se eu assinar, ele publica.
      Na mesma noite telefonou para o Rio, soube de Antonieta que a
viagem fora decidida na ltima hora, no tivera tempo de despedir-se.
      -- Fiquei com tanta pena, deixar voc l sozinho... Voltamos no
avio do presidente.
      -- Conversou com seu pai?
      -- Conversou o qu?
      -- J esqueceu?
      -- Ah! Mas assim to depressa? Preciso aguardar uma boa
oportunidade, para no estragar tudo. Ele est muito bonzinho,
interessado em voc. Falei com ele sobre aquele caso do suicdio, ele
deu ordem para no te amolarem mais, no.
      -- Ento foi isso...
      Na manh seguinte no havia instruo no quartel. Lembrou-se
do Mafra, foi procur-lo:
      -- E ento?
      Encontrou-o  borda da piscina, o quebra-luz de celulide verde
na testa, treinando os novos nadadores.
      -- Veja s o estilo daquele menino -- o treinador apontou um
jovem que cortava a gua em braadas lentas. -- No tem nem
dezesseis anos e j est fazendo 1,4.
      -- Vai bater meu rcorde, ento.
      -- Se continuar, vai. Se for como voc, interromper... Mas
precisamos conversar.
      Levou-o para a sede do clube:
      -- Como  que voc vai de sade?
      -- Bem, obrigado.
      -- Fumando muito?
      -- No: pouco. Por qu?
      -- Daqui a um ms ser o campeonato. Estamos com os pontos
contados, o pessoal do interior vem forte este ano. H um nadador de
Juiz de Fora que vai ganhar os cem livres, no tenho ningum para ele.
Pela primeira vez vamos perder, a menos que... Pensei em voc.
         -- Em mim? -- Eduardo, espantado, comeou a rir: -- S se for
para juiz... Voc est doido, Mafra? H sculos que no entro ngua.
         -- Temos ainda trinta dias.
         --  pouqussimo. Estou com o corpo duro de montar a cavalo,
sem flego, perna-de-pau. Morro afogado. Nem para encher raia.
         -- Que encher raia! Para ganhar. Te ponho em forma. Em trinta
dias voc estar fazendo o seu tempo novamente.
         -- E aquele menino do 1,4?
         --  fraco para o outro. S mesmo voc. No custa tentar. As
frias    iniciavam-se   naqueles      dias.   Eduardo   comeou   a   treinar,
entusiasmado. Nos primeiros treinos o tcnico no quis tomar-lhe o
tempo, para no desanim-lo.
         -- A coisa vai.  preciso intensificar. Onde voc foi arranjar essa
puxada de mo esquerda? Muito rpida. Observe a pegada dupla.
         Mafra deixou os outros nadadores entregues ao treinamento
costumeiro, dedicou-se inteiramente a Eduardo: castigava-o com
massagens, ginstica, regime especial.
         -- Dormir cedo, no comer fora de hora. Nada de lcool, nem de
mulher.
         --  intil, no tenho mais flego -- queixava-se o nadador,
desconsolado.
         --  o cigarro. No tem importncia: voc ainda agenta. Uma
prova s.
         Aos poucos o cronmetro comeou a registrar as baixas de tempo.
Em vinte dias Eduardo j estava a dois segundos do seu antigo recorde.
         -- Acho que at aquele menino vai ganhar de mim.
         -- Agenta a mo, rapaz. Experincia tambm conta. O brao
esquerdo j est perfeito, agora  melhorar a sada e as viradas.
         -- Eu morro -- gemia Eduardo.
         -- A partir de domingo voc pode morrer.
         O treinador era de uma persistncia fria e impiedosa, que se fazia
contagiante. Eduardo se empolgava agora pelo desejo de vencer:
      -- Quanto faz esse rapaz de Juiz de Fora?
      -- O mesmo que voc.
      -- E quanto eu estou fazendo?
      -- No  da sua conta.
      E Mafra esfregava as mos, satisfeito:
      -- Vamos ter surpresa.
      Os jornais anunciavam a volta de Marciano, o recordista dos cem
metros, faziam prognsticos. Eduardo se via na sua antiga atmosfera,
familiar e agitada, feita de expectativa, ansiedade, obstinao. No dia da
competio se sentiu estranhamente calmo, seguro: era o nico
nadador veterano; os outros eram mais jovens, no vinham de seu
tempo. Rodrigo apareceu no vestirio para abra-lo:
      -- Voc  duro na queda, hein? -- e o antigo companheiro de
prova o olhava com admirao.
      -- Idia do Mafra -- sorriu, encabulado. -- E voc? Nunca mais
nadou?
      -- Eu? Vou  praia, de vez em quando... Estou morando no Rio,
entrei para a aviao. Vim passar as frias aqui, vi seu nome no jornal...
Olha, voc tem de ganhar. Apostei em voc, no vai me fazer perder
meu dinheirinho.
      --  lgico que vou ganhar.
      Tirou a roupa, Rodrigo lhe fez massagens nos braos:
      -- Fui ver ontem o treino desse menino de Juiz de Fora na piscina
do Atltico. No se impressione com o ritmo dele: tem uma braada
muito curta.
      -- De que lado ele respira?
      -- Do esquerdo. Mas eu se fosse voc no me preocupava com
isso: nade sozinho.
      E Rodrigo o abraou, se despedindo.
      --   Conte   comigo    --   prometeu     Eduardo,   inesperadamente
emocionado.
      -- Eu quero ver sangue -- incentivou Mafra, satisfeito, ao se
aproximar a hora da prova.
        Foi apresentado ao adversrio  borda da piscina: um jovem
magro, esguio, de cabelos louros. Quis puxar conversa mas Eduardo o
observava como a um inimigo. Ele h de ver comigo -- dizia, para si
mesmo. Por inexplicvel movimento de pudor que aos outros e  prpria
assistncia pareceu antiesportivo, recusou-se a ser fotografado ao lado
dele.
        Todas as raias seriam ocupadas. Feito o sorteio, o nadador de
Juiz de Fora ficou  sua esquerda. "Melhor", pensou, "s serei visto na
volta".
        -- Respire de um s lado -- advertiu Mafra.
        -- Ateno!
        J na banqueta, de sbito ps-se a tremer. Que idia, essa de
voltar! A luz dos refletores o deslumbrava, a gua verde e ondulante lhe
parecia traioeira como a de um pntano, os gritos da assistncia,
aclamando-o, o tonteavam. E aquela vontade de urinar  ltima hora,
aquele enjo, aqueles bocejos to seus conhecidos.  sua direita o
nadador que fazia 1,4 aguardava, sereno, imvel, o tiro de largada.
Pronto, o apito! O juiz de sada ergueu o revlver. Eduardo crispou-se,
armou a sada, perdeu o equilbrio e caiu ngua. A vaia costumeira
saudou o incidente. Isso nunca lhe acontecera! Acontecia sempre com
algum outro, nunca com ele. Aproveitou-se para molhar o corpo, em
movimentos deliberadamente livres, harmoniosos. No costumava
molhar o corpo, como os outros nadadores, preferia nas provas de curta
distncia o impacto violento da gua fria. Nadou uns vinte metros, a
assistncia finalmente identificou o seu belo estilo, to conhecido
antigamente, prorrompeu em aplausos, procurando incentiv-lo.
        Foi dada a partida. Logo s primeiras braadas o ritmo acelerado
do outro o surpreendeu. Como se fosse o tiro final! Estaria fazendo
aquilo para confundi-lo? Toda a emoo, toda a ansiedade de segundos
antes passara por completo. Sentia-se firme, seguro, confiante: traz-lo
sob controle, custasse o que custasse, conquistar uma pequena frente
-- e a volta faria o resto.
        Viraram juntos. Agora era dar tudo o que tinha, naquela
conhecida sensao de estar nadando sempre no mesmo lugar, cavando
obstinadamente a gua. Os ltimos cinco metros lhe pareceram
terrveis, como sempre: teve tempo de odiar tudo aquilo, mandar Mafra
ao diabo, a natao, e a vontade de vencer... Mal conseguia respirar,
quando sua mo tocou a borda, e o treinador teve de retir-lo da
piscina.
         -- Ganhei? -- perguntou, ansioso.
         Mafra o consolou, batendo-lhe nas costas: tirara o terceiro lugar.
Foi para casa sozinho, a cabea em tumulto. Por que tudo aquilo, santo
Deus? Que idia descabida, que estranha teimosia aquela, esquecer
tudo durante um ms, para dedicar-se como louco a experincia to
dura, que no lhe traria proveito algum! Vaidade? Solidariedade com
seu clube? Ora, bem sabia que tais coisas no existiam mais para ele.
Por que, ento? O pai lhe dissera, apreensivo: "Voc est exagerando,
meu filho. Isso no pode fazer bem". No lhe dera ouvidos, e agora o
resultado ali estava: pela primeira vez, terceiro lugar, seu rcorde batido
at pelo outro nadador do clube, o jovem de dezesseis anos. Ele prprio
conseguira apenas fazer o tempo que antes fazia -- o que j era muito.
Mas o outro, o de Juiz de Fora... Mafra lhe havia mentido. Escalara-o
apenas para encher raia, para fazer pontos.
         -- Ento, meu filho?
         Estranhou encontrar o pai ali, quela hora, na cadeira de vime da
varanda. Deixou-se cair na outra cadeira com um suspiro resignado:
         -- ... O senhor tinha razo.
         -- Eu estive l -- disse ento seu Marciano. Eduardo se espantou:
         -- L na piscina?
         -- No tinha nada a fazer, me deu vontade de ir -- confessou o
velho.
         -- E gostou? -- perguntou Eduardo, amargo.
         -- Sabe de uma coisa, meu filho? No entendo disso, mas se me
perguntar minha opinio, achei que voc nadou muito bem.
         -- Grande consolo.
         -- Escuta, Eduardo -- e o velho se inclinou para ele: -- Para que
um ganhe,  preciso que o outro perca. S que hoje foi voc esse outro...
No passa de uma espcie de jogo. Se voc ainda tivesse feito feio,
chegando muito atrs...
      -- Seria engraado.
      -- No sei... -- sorriu o velho, sem entender. -- Enfim, voc teve
vontade, no custava tentar. No tem importncia nenhuma. Vamos
dormir?
      No tem importncia -- tentava acreditar, nos dias que se
seguiram. Mafra o enganara, o nadador era melhor do que ele jamais
fora, no poderia ganhar. Ainda mais em trinta dias! Impressionado ele
prprio com a violncia de sua determinao, agora obsessiva,
continuou a freqentar a piscina. Longe dos olhos do tcnico, fora das
balizas de treinamento, continuou a exercitar-se. Pedia a Chico, o
roupeiro, que lhe cronometrasse os tiros. Deixou de fumar, fazia
ginstica respiratria. Passou a coordenar, ele prprio, o tempo das
passagens:
      -- No posso cair mais de 4 segundos em cada 25 metros --
calculava.
      Sua luta era contra o cronmetro. Corrigiu a posio da cabea e
ganhou alguns dcimos de segundo; aperfeioou a pegada dupla,
treinou sadas, viradas e batidas de perna at a exausto, ganhou mais
alguns dcimos. Ao fim de um ms dirigiu-se a Mafra, que o observava
de longe, intrigado, fingindo no ver:
      -- Pode convocar os juizes da Federao.
      -- Voc vai querer que algum te puxe?
      -- No: prefiro nadar sozinho.
      Marcaram a tentativa para um sbado  tarde, depois de
encerrado o movimento da piscina. Aos olhos apenas de um pequeno
grupo de pessoas -- juizes da Federao Aqutica, cronometristas, dois
jornalistas, o prprio Mafra -- Eduardo fez calmamente a sua ginstica,
foi massageado pelo roupeiro.
      -- Seu novo tcnico -- gracejaram.
      Subiu  banqueta e olhou com carinho a piscina clara e amiga:
sabia que ia lutar agora contra o seu maior adversrio, e pela ltima
vez.
       -- Pronto?
       -- Ateno... J!
       A nova marca oficial, estabelecida naquela tarde, levaria alguns
anos para ser superada. Eduardo saiu dgua, enxugou-se, agradeceu
os cumprimentos, despediu-se e deixou a piscina para sempre.
       De sbito, a caminho de casa, lgrimas de raiva e despeito
saltaram-lhe dos olhos. Era um choro nervoso e sem sentido, odiava a
si mesmo e o que fizera. Tudo aquilo, afinal, para qu? Tanto sacrifcio!
Perdera tempo, esquecera os amigos, os livros, a literatura quase de
todo abandonada. Sentou-se num banco da Praa, buscou acalmar-se
olhando os jardineiros que, indiferentes, aparavam a grama no jardim.
Eles, sim, sabiam viver. Nenhuma pressa, nenhuma aflio: obedeciam
ao ritmo que lhes era imposto, harmonizavam-se  ordem das coisas ao
redor, Era como se ele, apenas ele, excedendo a si mesmo, num
movimento brusco saltasse fora da engrenagem e, desgovernado,
pudesse ver de longe o mundo pacfico e feliz de que no sabia
participar.




POUCO falara com Antonieta ultimamente. A idia do noivado fora
adiada: por acaso cara sob os olhos do ministro a sua reportagem
sobre Uberaba, o homem nem queria ouvir falar nele:
       -- Vejam s a ousadia desse menino: diz aqui que eu fui uma das
figuras mais importantes da exposio de animais.
       -- Como  que voc teve coragem... -- queixou-se Antonieta .
       -- O que me admira  que nosso noivado, nossa vida inteira, v
depender de uma bobagem dessas. Tambm, como  que eu podia
imaginar que seu pai ia acabar lendo um jornal de Minas?
       Os telefonemas agora corriam por conta de seu Marciano.
       -- Meu filho, voc deixou a repartio? Anda faltoso, relapso...
       -- Perco meu tempo naquela burocracia estpida e o que ganho 
uma vergonha. Minha vida no vai para a frente, no, s vezes me d
vontade de desistir de tudo e sair por a...
      -- Tome juzo, menino -- censurava dona Estefnia. -- No fale
assim que Deus te castiga.
      -- Ora, Deus... Deus anda mesmo muito preocupado comigo.
      -- E seus estudos? -- perguntava o pai.
      -- No tenho nada para estudar: as aulas no prestam, os
professores so umas bestas.
      -- Meu filho, voc no era assim.
      -- Pois agora sou -- retrucava.
      Terminara     o   servio   militar,     fora   promovido,   aguardava
convocao para o estgio. Uma noite Antonieta lhe telefonou com uma
notcia inesperada:
      -- Papai est disposto a lhe arranjar um emprego aqui no Rio,
mas disse que antes precisa conversar umas coisas com voc.
      -- Umas coisas? Que coisas? E que reviravolta foi essa?
      -- No sei: disse que precisa te dar uns conselhos...
      -- Diga a ele que no estou querendo emprego nem conselhos.
      -- Ento pacincia.
      Discutiram e brigaram pelo telefone, sem saber direito por que
Eduardo estava nervoso, excitado, doente: o esforo com a natao o
extenuara. Seu Marciano chamou-lhe a ateno:
      -- Meu filho, voc no tem razo: o homem quer te ajudar, no
vejo por que se ofender.
      -- No estou pedindo conselho a ningum.
      -- No est pedindo? -- seu Marciano ficou lvido: -- Voc nunca
me falou nesse tom.
      -- Falo no tom que quiser.
      O pai encarou-o fixamente: quis dizer alguma coisa ainda, no
conseguiu. Estava ofegante, descontrolado. Eduardo, imvel, viu que ele
afinal lhe dava as costas e se afastava sem mais uma palavra, indo
sentar-se na varanda. Resolveu sair e passou por ele de olhos baixos,
constrangido, sem coragem de olh-lo. Entrou num cinema, mas no
conseguiu distrair-se. Voltou para casa -- o velho ainda estava no
mesmo lugar:
      -- Papai, eu... -- e sentiu a voz quase sufocada num soluo.
      -- Meu filho, voc anda precisando descansar um pouco.
      -- Eu no devia ter respondido assim, papai, me desculpe...
      -- Agora, tambm, no exagere.
      -- Mas eu no queria dizer que no preciso de seus conselhos.
No preciso dos conselhos dele.
      -- No vejo motivo para tanto orgulho.
      -- No  orgulho, papai,  tdio dessa vida...
      -- Muito bonito, um rapaz de sua idade, forte, sadio, inteligente,
se queixando de tdio da vida. No tem cabimento. Onde j se viu isso?
      -- Est bem, est bem: aceito o emprego, acabado. Contanto que
fique noivo.
      Dias depois comunicava sua deciso a Antonieta. Ela, porm, o
surpreendeu:
      -- Papai anda nervoso com a situao poltica, no sei... Mudou
de idia, disse que antes precisa colher umas informaes sobre voc.
      -- Informaes sobre o qu? Com quem?
      -- Me d mais alguns dias -- pediu ela: -- Vou tentar convenc-lo.
      Ainda bem que ele  vivo -- pensou: seno ela teria tambm de
convencer a me... Mais alguns dias e Antonieta lhe telefonava
chorando:
      -- Briguei com papai por sua causa...
      -- O que est se passando, afinal?
      Os telefonemas foram interrompidos. Melhor assim, no havia
dinheiro que bastasse -- concluiu ele. Foi inesperadamente convocado
para o estgio em Juiz de Fora. Mauro requereu baixa, foi dispensado
como terceiro-sargento.
      -- Faa o mesmo, rapaz. Deixa de ser besta.
      -- No: prefiro ir. J no agento esta vida aqui.
      O que se passava com ele? Sua inquietao, sua vontade de
encerrar uma fase da vida e inaugurar outra era algo que saltava aos
olhos de todos. Passou trs meses em Juiz de Fora, servindo na
caserna. Conheceu uma moa chamada Helga -- era alta, loura, serena
-- to diferente de Antonieta.
      -- Sabe, Helga? Eu devia ter te conhecido antes...
      Helga no dizia nada e o beijava, lnguida.
      Continuava a pensar em Antonieta. No sabia como tudo havia
acabado, assim de repente, sem nenhuma explicao. Um sbado,
afinal, tomou um nibus e foi at o Rio, procurou-a:
      -- Eu quero saber apenas o que foi que houve, afinal.
      -- Voc no quis mais saber de mim.
      -- Voc  que no quis. Eu estou aqui, no estou?
      Ela riu:
      -- Eu tambm estou.
      No houvera nada, pois. Beijaram-se, como antigamente, ela
prometeu conversar com o pai:
      -- Quando  que termina essa histria de exrcito?
      Comeou a aproveitar as folgas de sbado e domingo para ir ao
Rio: passava a noite numa penso, encontrava-se com Antonieta na
praia, iam ao cinema.
      -- E ento?
      -- Meu pai quer me mandar para a Europa. Disse uma poro de
coisas de voc...
      -- De mim? O que  que ele sabe de mim?
      -- Nada, no precisa de se ofender. S que voc  muito moo
ainda, no sabe direito o que quer...
      -- No ms que vem fao 21 anos e voc j tem dezoito. Diga
apenas isso a ele.
      -- Por qu?
      -- Se voc quiser eu mesmo digo.
      No quartel, para distrair-se, passava o dia treinando arduamente
equitao -- o que o dispensava de outras tarefas: ia haver um
concurso de saltos. Foi classificado em segundo lugar -- os oficiais
superiores vieram cumpriment-lo:
     -- Voc tem jeito para a coisa, rapaz.
     -- Grande vantagem. No ganhei o concurso...
     Escreveu uma longa carta a Mauro e outra a Hugo se queixando
por no ter ganho o concurso. Recebeu resposta de ambos: enquanto
voc cavalga, ns pastamos -- dizia um; voc deixou o barco quando j
estava fazendo gua -- dizia o outro. No se viam seno raramente.
Mauro reclamava que Hugo dera para andar com uns meninos, os
novos gnios da praa -- Hugo dizia que Mauro recomeara a salvar a
ptria pelas esquinas e prometia candidatar-se a deputado, caso
houvesse eleies.
     Findo o estgio, foi direto ao Rio. Antonieta veio ao seu encontro
ansiada, nervosa:
     -- Consegui convencer papai. Mas ele disse que primeiro precisa
conversar umas coisas com voc. Pode ir, no tenha medo.
     -- Medo, eu? Por que haveria de ter medo de seu pai?
     Naquele mesmo dia foi ao gabinete do ministro. Assim que deu
seu nome, fizeram-no entrar. Havia duas ou trs pessoas na sala, mas o
ministro o tomou pelo brao, familiarmente, levou-o a um canto:
     -- Escuta, meu rapaz: antes de mais nada, me conte tudo, mas
tudo mesmo, hein? sobre a morte da meretriz. Pode falar sem susto,
no me esconda nada.
     Eduardo o olhou, estupefato:
     -- Que meretriz?
     Percebeu logo que o homem se referia ao suicdio do Hotel Elite.
     -- No sei nada sobre aquela mulher. Nem sei se era meretriz. Fui
s testemunha do suicdio, ficou mais do que claro na poca. Mas vou
lhe contar tudo o que aconteceu.
     O ministro o ouviu, silencioso e concentrado. Quando Eduardo
terminou, disse apenas:
     -- Muito bem. Quer dizer que voc jura que no estava com ela?
     -- No estava -- disse o rapaz, veemente.
     -- Pois me disseram que voc tinha vindo com ela do Cassino
Atlntico. Levou-a para o quarto, estava completamente nu quando ela
se atirou. Se  mentira, eles ho de ver.
      --  mentira. Quer dizer,  mentira que eu tenha jamais visto
aquela mulher na minha vida. Agora, quanto a estar nu... Eu ia vestir o
pijama quando ela pulou. Me lembro que pus uma capa e...
      -- Voc viu quando ela pulou da janela?
      -- Vi. Isto , no vi pular e sim... -- Eduardo afinal perdeu a
pacincia: -- Ora, ministro, o senhor parece que est querendo me
confundir. O que eu vi j contei. Se o senhor no quer acreditar, o que 
que eu hei de fazer? Que interesse eu tinha em negar, se a mulher
estivesse comigo? Afinal de contas, no sou casado. No devo satisfao
a ningum. O senhor mesmo disse que era uma meretriz. Eu no
estaria fazendo mais do que todo mundo faz. Pouco me importava que
viessem a saber. Se o senhor acha que por causa disso...
      -- Bem -- interrompeu o ministro com deciso: -- De qualquer
maneira, o inqurito j foi encerrado. Queriam pedir prorrogao do
prazo, eu  que no deixei. No havia mais nada a fazer. Mesmo que
voc tivesse visto a infeliz se atirar da janela, que poderiam alegar? Voc
no teria culpa nenhuma. A no ser a de ter dado falso testemunho, de
ter mentido. Voc jura que no mentiu?
      Eduardo respirou fundo. Tudo iria principiar novamente, e j no
suportava mais repisar aquele caso: estava exausto. Era como se enfim
percebesse uma conspirao que aos poucos se armava contra ele --
era o Terror.
      -- No pense mais nisso, meu jovem -- disse o ministro, com
simpatia, vendo-o to abatido. Bateu-lhe nas costas: -- Tambm j fui
moo. Aparea l em casa uma noite dessas.
      Eduardo saiu do gabinete irritado: afinal, nem se mencionara o
nome de Antonieta. Fora dela, o que  que aquele homem tinha com sua
vida? Tambm j fui moo -- queria dizer talvez que no acreditava
numa s palavra sua, mas que tudo ficava por isso mesmo.
      -- Dane-se -- concluiu.
      Na manh seguinte, porm, Antonieta o surpreendeu com a
notcia:
      -- Papai concordou com o noivado! Parece que ficou bem
impressionado com voc. Sobre o que vocs conversaram?
      -- Sobre Kafka -- resmungou.
      Antonieta se voltou, desanimada:
      -- Voc nem parece ter ficado contente.
      -- Fiquei.  que estou muito cansado.
      -- Ele imps uma condio: disse que ainda somos muito moos
para casar, temos de esperar pelo menos um ano. Voc concorda?
      -- Concordo.
      E ficaram olhando um para o outro, sem ter mais o que dizer.
      Na mesma noite telefonou ao pai:
      -- Acho que o senhor vai ter de dar um pulinho aqui ao Rio.
      Passou horas sob a estranha impresso de que no havia mais
nada a fazer. Tinha vencido, afinal. Conseguira o que queria. E da?
Esperar, casar, morar, ter filhos, amar, sofrer, esquecer, envelhecer.
Oh, viver era to fcil, to sem gosto e sem estmulo, o que importava
era morrer.
      Seu Marciano atendeu o chamado, mas agora estava apreensivo,
intimidado:
      -- Escuta, meu filho, e se o homem no estiver para graas, me
passar uma corrida? Voc est certo de que...
      Eduardo ria:
      -- Pode ficar tranqilo, papai, no h problema nenhum. J est
tudo resolvido.
      -- E o que vocs pretendem fazer? Morar no Rio?
      -- Quanto a isso, no sabemos ainda. Esperar um ano,  o que o
homem quer. Em um ano h muito tempo para resolver. De vez em
quando venho aqui, Antonieta passa uns tempos l...
      -- S fao questo de uma coisa: que voc...
      -- Termine meu curso. Se vier morar no Rio posso terminar aqui.
      Seu Marciano ficou calado.
      -- Eduardo -- disse afinal: -- No sei, s vezes tenho a impresso
de que voc  apressado demais, para tudo: fala depressa, anda
depressa, pensa depressa. Agora h pouco eu ainda nem tinha falado...
      -- O senhor no fala outra coisa, papai.
      -- Voc vive muito depressa, meu filho.
      Foram os dois  casa do ministro, ambos de terno novo. Iam
nervosos, mas seu Marciano procurava disfarar a perturbao, estava
loquaz, jovial:
      -- Quando eu fiquei noivo... Voc me perguntou como eu fiquei
noivo? Pois olha, no fiquei: sua me  que ficou.
      E ria, excitado.  entrada segurou o brao do filho:
      -- Escuta, moo: se o homem me der um contravapor, voc vai
ver comigo.
      Antonieta os recebeu, fez companhia aos dois na sala. Em pouco
chegava o pai, seu Marciano se compenetrou:
      -- Senhor ministro...
      Antonieta se ergueu e saiu -- mais tarde contou a Eduardo que
ficara atrs da porta. Seu Marciano foi direto ao assunto:
      -- Creio que o senhor j sabe o que nos traz aqui.
      -- Acho os dois muito jovens -- foi tudo o que disse o ministro,
num tom paternal. -- Mas pode crer que hei de querer muito bem a seu
filho. Aceita um vinho do Porto?
      Estava selado o noivado. Na rua, seu Marciano respirou aliviado,
dando o brao ao rapaz:
      -- Sabe, Eduardo? Confesso que agora  que eu gostaria de tomar
um vinho do Porto.
      Eduardo tambm respirou aliviado:
      -- O senhor se saiu muito bem. Melhor do que a encomenda .
      -- O que  que voc queria? -- e o velho sorriu, satisfeito: --
Ento seu pai no sabe conversar com um ministro?
      Regressaram dois dias depois -- seu Marciano fez um relato 
mulher:
      -- O ministro est mais gordo, envelhecido... No se parece com
os retratos. Sabe, Estefnia? Nos tratou muito bem, foi muito distinto.
Disse que o Eduardo  mesmo que filho dele.
      Antonieta veio passar uns tempos em casa dos tios. A notcia do
noivado correra, todos felicitavam Eduardo:
      -- Muito bem! Voc agora manda neste pas.
      Em pouco comearam a aparecer os primeiros pedidos, os
agrados, os elogios. Eduardo se surpreendeu: no esperava por aquilo.
Pessoas que nem conhecia lhe tiravam o chapu, e eram homens
idosos, alguns at importantes. Um dos secretrios do governo um dia
deteve o carro oficial em plena avenida para oferecer-lhe conduo:
      -- Voc  meu funcionrio, no?
      Na repartio o tratavam com despeito:
      -- Me admira voc continuar trabalhando aqui. Eduardo se
desgostava, queixava-se aos amigos. Veiga riu de seus cuidados, mas
Mauro o levou a srio:
      -- Agora voc no pode recuar: o jeito  ir para a frente. Faa
carreira,   se   insinue,   interfira,   influa.   Voc   tem    uma   grave
responsabilidade, est destinado a exercer um papel qualquer, quem
sabe voc  quem vai um dia tirar o pas desta misria?
      Hugo era mais prtico:
      -- Ou quem sabe voc  quem vai nos arranjar um bom emprego?
      Mauro:
      -- Em seu lugar eu comeava por botar o ministro em pnico:
desancava com o regime, me revelava um agitador, um perigoso
anarquista...
      Hugo:
      -- Se eu fosse voc me casava, trazia a moa para c, alugava
uma casinha na Cameleira e ia criar galinhas.
      Sozinhos, porm, os dois se olhavam, apreensivos:
      -- Que ser dele, afinal?
      O delegado veio um dia visit-lo. Estava lpido, jovial:
      -- Ento, mestre, como vo as coisas? Cumpri ou no minha
promessa? Voc no foi mais incomodado, foi?
      -- No quero nunca mais ouvir falar naquele caso.
      Depois de algum rodeio, disse a que vinha:
        -- Conseguir do ministro a minha transferncia para o Rio. O que
eu ganho aqui j no d para viver.
        -- A vida no Rio  muito mais cara...
        -- Bem, mas l o campo  outro. Voc querendo, tudo se arranja.
Basta uma penada.
        Eduardo explicou-lhe que no se sentia em condies de pedir o
que quer que fosse ao ministro. O delegado desapontou-se:
        -- Bem, se  assim...




DECIDIRAM morar no Rio quando se casassem:
        -- Papai arranja um emprego para voc.
        -- No  preciso: posso trabalhar em jornal. Sei ganhar minha
vida.
        Encontravam-se  noite na casa da tia de Antonieta -- voltava o
problema que tempos atrs os havia atormentado:
        -- Precisamos tomar cuidado.
        E se perdiam em carcias, ansiosos, descontrolados; s vezes se
cansavam um do outro, descobriam motivos para discutir:
        -- Eu soube que voc namorou uma moa em Juiz de Fora.
        -- Quem voc queria que eu namorasse? Um soldado?
        -- Uma moa chamada Elza.
        -- Elza, no; Helga. E no foi namoro. Foi...
        Ao fim de trs meses Antonieta resolveu regressar ao Rio:
        -- Isso j est ficando demais. Deixe que eu conveno papai.
        -- Ele queira ou no queira.
        A data do casamento foi marcada: assim que ficasse pronto o
enxoval. Eduardo mudou-se para o Rio, tomou posse no emprego que o
ministro    lhe   arranjara,    e   viu,   num   misto   de   apreenso   e
deslumbramento, aproximar-se o grande dia. Teve de enfrentar, depois
da cerimnia, o longo desfile de cumprimentos de gente que via pela
primeira vez.
        -- Pela primeira e ltima vez -- assegurou a Antonieta, e escapou
com ela da recepo na casa do ministro. Os nicos rostos familiares ali
eram os de seu Marciano e dona Estefnia, compenetrados e
contrafeitos.
      -- Deus te faa muito feliz, meu filho -- disse-lhe a me,
comovida, procurando ajeitar-se ainda dentro do vestido novo.
      -- No tenho jeito para essas coisas -- confessou-lhe o velho, os
olhos midos, e abraou-o em despedida. Pela primeira vez Eduardo
percebeu que os deixava a ss, e para sempre.
      Depois foram dias de intimidade passados num hotel fora do Rio,
noites de abandono nos braos um do outro, e de sbito ela quis voltar.
      -- Precisamos comear a viver, Eduardo.
      -- E no estamos vivendo? -- mas ele se sentia fora de seu
mundo, esquecido de tudo, pacificado, feliz. O regresso, o apartamento
alugado, a moblia comprada, a vida em comum afinal feita realidade.
Tudo acontecia numa seqncia rpida, sem trgua, mal ele tinha
tempo de acomodar-se a uma transformao em sua vida, e logo vinha
outra, ainda maior. Que viria agora? -- ele se interrogava, sem saber o
que fazer de si, pela primeira vez sozinho, quando ela enfim, alegando
cansao, recolhera-se mais cedo. Sentia vagamente que se tornara
instrumento de desgnios outros, poderosos, desconhecidos -- j no
era dono de si mesmo. Voc no soube escolher -- lhe dissera Toledo:
foi escolhido. Escolhido por quem? Para qu? Desgnios de Deus?
Lembrava-se do diretor do ginsio, sculos atrs: voc acredita em
Deus? j nem sabia em que acreditava, no tinha tempo para pensar.
Voc vive muito depressa -- o pai tinha razo, era isso, depressa
demais. Essa ganncia de viver. Gostaria de ser um homem sereno,
comedido, um escritor como Machado de Assis. Era preciso ir devagar
-- saber envelhecer. O fruto que apanhava ainda verde, deixava
apodrecer na mo. Casado. A vida o afastava de sua origem, de seus
amigos. J nem sempre estaria presente na lembrana deles, o tempo o
empurrava com fora demais e isso era terrvel. Mal podia sentir o gosto
das novas experincias, j no eram novas, ficavam logo para trs, o
passado, ele que no tinha presente, no tinha nada, no fizera nada --
por que no podia parar um pouco, descansar, no dar mais um passo?
Queria adquirir seus hbitos tambm, certa maneira de ser, ele que era
moo. Sozinho. Muito precoce, aprendeu a ler sozinho, fazia o que
queria, bastava arranhar o rosto. Antonieta sua mulher, dia e noite,
enfim conquistada: nada mais a fazer? Sozinho, o tempo passando,
ignorava tudo que ficara para trs: Mauro fizera um poema e ele no
sabia, Hugo lhe mandara um telegrama, apenas um telegrama lhe
mandara Hugo. Assim, eles iam mudando: nada de intimidades. Uma
suave cortesia. Uma distinta amizade. Amabilidades de parte a parte. E
falsidade, hipocrisia, convenincia. Pois no, tambm acho, com prazer.
Com quem puxar angstia agora? Nascemos para morrer -- nada pior
do que no ter nascido. A vida tem dessas contradies, dizia o pai.
Onde as verdades eternas? O tempo levava tudo, ele no tinha onde se
ancorar. Oh, o Toledo era um tratado de psicologia. Tudo isso  natural,
diria ele, natural, viver  assim mesmo. O tempo acontece, o que tinha
de ser j foi, agora a nostalgia de j ter sido em experincia, etcetera,
etcetera. Conheceria novas pessoas, pensaria outras coisas, ouviria em
silncio prudente e compassivo opinies alheias que um dia j foram
suas. E est certo! No se pode fazer das dvidas de outrora o po
nosso de cada dia: no posso responsabilizar ningum pelo destino a
que me dei. Sozinho: sozinho no mundo com uma mulher. O que
significa isso? Significa que terei de am-la, zelar por ela, sustent-la,
cumprir os chamados deveres de estado. Pois ento o que  que estou
fazendo aqui, sozinho? No sou um homem? um marido, no sou? H
uma fresta em minha alma por onde a substncia do que sou est
sempre se escapando mas no vejo onde nem por qu. Depressa, no h
tempo a perder. Tambm tenho o meu preo mas ningum conseguir
me comprar, todo o dinheiro do mundo no basta, hei de escapar como
gua entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos -- hei
de fluir como um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir de p porque
esta  a cama estreita que conduz ao reino dos cus. No adianta
pensar, a mo de Deus  pesada mas me protege a cabea, tudo que
fao nasce feito, sozinho, no adianta chorar, meu Deus, nem tenho
motivos para isso, muito pelo contrrio,  preciso reagir, a literatura
no adianta, e os livros na estante e o cinzeiro cheio de cinza e a luz da
cozinha acesa, poderia fazer um caf, Antonieta dormindo e o boto do
pijama, meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro,
quero servir, pois vai trabalhar, moo, deixa de vaidade, tu s muito
pretensioso, uma misso a cumprir, ora vejam, perdulrio que tu s, a
vida  breve, no incomoda os que trabalham, os trabalhos do homem
so penosos, estou casado, estou cansado, estou abatido, em verdade
estou destroado, andei depressa demais, agora chega, basta, pra,
pronto! acabou. Assim. Fique quieto. Que nenhum som te denuncie.
Calma. No olhe. No mexa. No queira. No estou dormindo, estou
vigilante, hay que vigilar las tinieblas, capisca? ai, Minas Gerais, j ter
sado de l, tuas sombras, teus noturnos, teus bbados pelas ruas,
Eduardo Marciano, minha mgoa, minha pena, minha pluma, merecias
morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia est perdida, mas
voltars nem que tenhas de andar sobre as guas...
      De tudo, ficaram trs coisas: a certeza de que ele estava sempre
comeando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que
seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupo um caminho
novo. Fazer da queda um passo de dana, do medo uma escada, do
sono uma ponte, da procura um encontro.
SEGUNDA   PARTE


O   ENCONTRO
                                I -- OS MOVIMENTOS SIMULADOS




-- TRSIO ficou de aparecer -- disse Eduardo.
       -- Ele arranjou o tal emprego?
       -- No sei. Disse que precisava muito falar comigo. Deve estar
sem dinheiro.
       -- Grande novidade.
       -- Pode ser outra coisa tambm, Antonieta. No sei por que essa
m vontade com ele.
       -- No tem perigo: ele se arranja.
       Calaram-se, ficaram olhando o mar. Estavam no bar da praia
onde faziam ponto quase todas as noites, tomando chope ao ar livre
com sua nova roda de amigos. Trsio, um rapaz de Belo Horizonte, viera
tentar a vida no Rio, Eduardo procurava ajud-lo:
       -- Trsio  um poeta.  preciso entender as pessoas como elas
so.
       -- Voc fala como se eu no gostasse dele. A nica coisa nele que
me implica  andar desleixado daquela maneira. Slvio tambm  poeta
e no entanto faz a barba todos os dias.
       --  diferente: Slvio tem recursos, nome feito,  conhecido de
todo mundo. E tem Vnia para cuidar dele.
       -- Ento o que Trsio est precisando de arranjar  uma mulher
-- encerrou Antonieta.
       Slvio Garcia, o poeta, costumava aparecer em companhia da
mulher. Estavam sempre chegando do cinema:
       -- Samos no meio -- dizia Vnia: -- No agentei, minha filha. E
esse pateta insistindo em ficar.
       -- Da prxima vez me avisem -- pedia Antonieta -- Eduardo no
me leva nunca, tem sempre uma desculpa,
      -- Da prxima vez vamos ns dois, Nietinha -- Slvio prometia. --
Eles no entendem de cinema. Vnia quer ser uma mulher diferente,
no gosta de filme ruim.
      Trsio comentava com Eduardo os ltimos acontecimentos
polticos:
      -- O homem custou mas caiu, voc viu s?
      -- Caiu feito um fruto podre! como diria o Vtor.
      Vtor era jornalista de oposio, vinha fazendo campanha contra o
partido comunista:
      -- Ele acha que ns todos devamos escrever: eu, voc, at o
Amorim.
      -- O que ele est pretendendo com aquilo? Ningum sabe ainda
qual vai ser a posio do partido!
      -- Ningum sabe nem qual vai ser a posio do Amorim...
      Amorim tambm costumava aparecer:
      -- Eu mostro a ele qual a minha posio. Voc mudou o
penteado, Antonieta?
      -- Tirei a franja. Lda esteve aqui, disse que  para voc deixar a
chave debaixo do capacho.
      Lda era a mulher do Amorim -- dizia-se que os dois estavam em
vias de se separar.
      -- Debaixo do capacho? O que mais que ela disse?
      -- Foi uma pena -- disse Slvio: -- Voc ficava um amor de franja.
      Aos poucos o bar ia-se enchendo de fregueses, mulheres com
vestidos leves, rapazes de camisa-esporte. O garom renovava os chopes
com regularidade. Amorim tomava conhaque, Slvio se recusava a
beber:
      -- Hoje estou celebrando.
      -- Celebrando o qu?
      -- Voc hoje est com um ar muito misterioso.
      -- Fiz uma coisa que no fazia h muito tempo -- disse Slvio,
com um ar misterioso.
       -- Dito assim fica meio indecente, meu bem -- Vnia comentou.
       Slvio fez circular pela mesa um poema, todos leram. Trsio o
devolveu em silncio.
       -- Como ? No gostou?
       -- No.
       -- Acha que estou decadente?
       -- Acho.
       -- Obrigado pela franqueza.
       Eduardo levava novamente o assunto para a poltica:
       -- Ningum se lembrou de falar no ltimo golpe dele.
       -- Qual foi o ltimo golpe dele?
       -- As 48 horas que pediu para se retirar do palcio. Devia ser
preso e deportado. Acabou saindo com todas as honras. Acaba
voltando, voc vai ver.
       Trsio tinha de fazer um tpico de experincia para ser admitido
num jornal:
       -- Queria at uma sugesto sua. Vou aproveitar essa idia: o
ltimo golpe.
       -- Era isso que voc queria comigo? -- e Eduardo sorriu
significativo para Antonieta.
       -- Vamos embora? -- pediu ela. -- No estou me sentindo muito
bem.
       -- O que  que voc est sentindo?
       -- No sei: estou meio tonta. Esse calor...
       -- Ento pra de tomar chope.
       Algum fez um gracejo qualquer sobre gravidez. Antonieta
protestou:
       -- Bate nessa boca.
       -- J estava em tempo...
       -- Ela acha que ainda  cedo -- disse Eduardo.
       -- Pois eu fiquei logo no princpio -- e Vnia contava: --
Continuei levando a vida de sempre. S parei de beber no ltimo ms.
       Slvio:
      -- E eu em casa de resguardo.
      -- Cnico! Imaginem que ele uma noite me apareceu em casa que
era areia s: a cabea, a roupa, o sapato, tudo um verdadeiro areal.
Sabem que explicao me deu? Disse que ia passando pela praia com
Vtor, estavam meio de pileque, resolveram deitar na areia para
descansar...
      Os outros riram:
      -- Com Vtor?
      -- Vtor entrou nessa areia como Pilatos no Credo.
      Slvio mudava rapidamente de assunto:
      -- Comprei hoje um lbum fabuloso de Duke Ellington, estou
louco para ouvir. Vamos at l em casa?
      -- Nossa vitrola est estragada, meu bem.
      -- Ento vamos para minha casa -- Eduardo sugeria: -- Slvio vai
at a dele buscar os discos.
      Todos se erguiam. Eduardo pagava a despesa, mandava que o
garom embrulhasse duas garrafas de Macieira. Trsio lhe pedia
duzentos cruzeiros emprestados. Antonieta lhe devolvia o sorriso
significativo.
      -- Slvio est demorando! -- disse ele, j em seu apartamento.
Antonieta, de short, comodamente sentada, pernas nuas sobre o brao
da poltrona.  sua frente, Amorim, recostado no sof, clice de
conhaque na mo. Trsio  janela, Eduardo sentado no tapete -- como
resposta ao que acabava de dizer, bateram  porta: Era Slvio, em
companhia de Maria Elisa, mulher de Vtor:
      -- Ele ficou l discutindo poltica com Vnia -- explicou ela. --
Slvio fez questo de me trazer. Eles ficaram de vir mais tarde.
      Recusou o conhaque que Eduardo lhe oferecia:
      -- Vocs, que pensam como o Vtor, deviam escrever alguma coisa
tambm. Ele vai ser muito atacado.
      -- E voc quer que tambm ns sejamos atacados?
      -- Isso  bom para ele, que  jornalista.
      -- E vocs, o que so? -- perguntou ela.
      Antonieta respondeu por Eduardo:
      -- Funcionrio da Prefeitura.
      -- Eu ia dizer "romancista", mas Antonieta j respondeu por mim.
      Slvio respondeu por Trsio:
      -- Ele ia dizer "jornalista", mas ainda no foi contratado.
      --  isso mesmo. Por enquanto sou chmeur.
      -- Que  isso?
      -- Pergunte ali ao Amorim, que atualmente tambm .
      -- Chmeur  ser uma coisa e no ser, compreende?
      -- Hamlet, por exemplo, era um chmeur.
      --  o "no-poder-ser" de que nos falava Bergson...
      Todos riam. Maria Elisa voltava para um e outro os olhos claros,
irresoluta, sem saber se devia rir tambm. Amorim tirava os sapatos e
se estendia de comprido no sof:
      -- Quando vocs conversarem alguma coisa de til, me acordem.
      Eduardo servia mais conhaque. Os discos de Duke Ellington se
repetiam com estrpito na vitrola.
      -- No meu edifcio no se pode fazer o menor barulhinho -- disse
Maria Elisa. -- Vtor nem pode escrever a mquina de noite.
      -- Pois aqui nunca reclamaram. Ainda na semana passada
fizemos uma macumba, parecia que o edifcio vinha abaixo. Foi um
sucesso, pena o Vitor no ter te trazido.
      -- Acho que voc cometeu uma gafe, Eduardo -- disse Antonieta,
ante o silncio da outra.
      -- No, eu sabia que ele tinha vindo -- esclareceu Maria Elisa.
      -- Veio tambm um admirador seu -- disse Slvio.
      -- Olha s como ela ficou encabulada...
      -- Eu, por exemplo, vim e sou admirador seu.
      -- Ns todos somos.
      Estavam j sob o efeito da bebida. Amorim acrescentou, sem se
mover, os olhos pesados de sono:
      -- Ouvi dizer que ele recebeu dez contos adiantados para fazer
um painel em So Paulo. Precisamos pegar o homem de jeito para beber
os dez contos dele.
       -- Dele quem? -- perguntou Maria Elisa.
       -- Do Joubert, ora de quem. Acabou o conhaque, Eduardo?
       Eduardo abriu a segunda garrafa. Algum mais acabava de
chegar, era Lda. Ficou indecisa  entrada, quando viu Amorim.
       -- Voc  engraadinho, hein? -- decidiu-se afinal, caminhando
em direo ao marido: -- Fiquei l at agora procurando a chave. Tinha
um cachorro vagabundo rondando a porta, fiquei at com medo de que
ele tivesse engolido.
       Amorim lhe estendeu a chave:
       -- Com certeza voc esperava que eu fosse at l s para deixar a
chave debaixo do capacho. Qude a sua?
       -- Ficou com aquele sujeito l em casa
       -- Sujeito? Que sujeito?
       -- Voc estava to bbado que nem se lembra. Apareceu com ele
ontem, disse que era seu hspede. Me arranja cada amigo! Se enxugou
com a minha toalha, ficou com a minha chave e ainda me pediu cem
cruzeiros emprestados.
       Amorim comeou a rir:
       -- Eu tinha me esquecido!  o Java. Um bom sujeito. L do jornal
de Minas. Voc se lembra dele, Eduardo: aquele revisor. Estava por a,
num porre tremendo, e sem saber aonde ir.
       Slvio renovava os discos na vitrola:
       -- Duke Ellington est ficando muito sofisticado, metido a
Stravinski. Olhem s este solo de trumpete. Vem danar isso comigo,
vem.
       Puxou Maria Elisa pelo brao:
       -- Voc est usando falsies, menina?
       -- Falsies? Que  isso?
       -- Seios postios.
       -- Ih, Slvio, voc  to vulgar! Nem parece poeta.
       -- Sabem de uma coisa? A conversa est muito boa, vocs so
muito simpticos, mas eu estou morta de sono. Me desculpem, mas vou
para o quarto dormir um pouco.
      Antonieta foi para o quarto dormir um pouco. Algum assobiava
insistentemente l fora, na rua. Trsio se debruou  janela:
      --  Joubert. Parece que est meio alto. Mando subir?
      -- J comeou a gastar os dez contos.
      -- Manda -- e Slvio parou de danar com Maria Elisa, veio
espiar: -- Aquele calhorda me prometeu um quadro, deu para Gerlane.
      -- E voc mesmo queria dar o quadro para Gerlane -- concluiu
Maria Elisa.
      -- Essa a ouviu cantar o galo e no sabe onde -- concluiu
Amorim.
      -- Eu nem conheo essa Gerlane -- escusou-se Eduardo.
      -- Ele sabe muito bem a quem estou me referindo.
      Trsio, da janela:
      -- Como ? Mando Joubert subir?
      Slvio, j com um copo dgua na mo:
      -- Espera! Vamos jogar gua nele.
      Despeja o copo pela janela. Ouve-se l fora meia dzia de
palavres como resposta.
      -- No faz isso com o coitado -- pediu Maria Elisa.
      -- No faz isso com a Elisinha -- emendou Amorim.
      -- Ento manda ele subir.
      -- Eu vou-me embora -- disse ela. -- Vtor est demorando muito.
Slvio, voc quer me levar em casa?
      -- Como : mando ou no mando?
      -- Joubert te leva em casa.
      Lda, olhando para o marido, que j est dormindo:
      -- Vou com vocs, ento. Esse a j est dormindo.
      Maria Elisa, no olhando para ningum:
      -- No quero que Joubert me leve. Ele j est bbado.
      Trsio, gritando da janela:
      -- Joubert! Voc no vai levar ningum! Voc est bbado! -- e
volta-se para dentro, rindo: -- Ele mandou uma banana e foi embora
danado da vida.
        Slvio recolhe os discos da vitrola e se dispe a sair com as duas.
        -- Bem que Antonieta podia fazer um cafezinho -- sugere Trsio,
j a ss com Eduardo. -- Para tomar com esse conhaque.
        -- Antonieta j est dormindo. Tem cerveja na geladeira, voc
quer?
        Eduardo vai buscar a cerveja. Trsio vai ao banheiro urinar, e no
se d ao trabalho de fechar a porta, pode-se ouvir da sala o rudo da
urina caindo. Depois  o silncio, quebrado apenas pela respirao forte
de Amorim a dormir. Por um momento o ar, pesado de fumaa e
exalao de pulmes, fica parado e morto. A noite comea a apodrecer.
Eduardo e Trsio voltam  sala ao mesmo tempo, ficam bebendo
cerveja, naquele silncio de amigos que j no precisam falar para se
entender. Notam-se em seus rostos os sinais da viglia intil, ficaram
um dia mais velhos, mais uma noite a eles se incorporou.
        Vitor veio encontr-los assim, calados, ficou a olhar um e outro, o
corpanzil oscilando sobre as pernas. Depois apontou o corpo de Amorim
estirado no sof:
        -- Morto?
        -- Ainda no. Onde  que voc esteve at agora?
        -- Vocs esto com um ar de velrio... Maria Elisa foi embora h
muito tempo?
        Deixou-se cair na poltrona com um suspiro:
        -- Fiquei tomando uma coisinha com Vnia, conversa vai,
conversa vem, me atrasei. Vocs leram meu artigo de hoje?
        Passou logo a censurar a indiferena dos dois:
        -- Vocs mineiros so engraados: muito prudentes, muito
hbeis, muito cpticos, muito discretos... Essa nova gerao de vocs 
mesmo uma merda. Ai, estou com a garganta seca.
        -- Toma cerveja.
        -- No. Vou at o bar. Eu hoje estou com vontade de esvaziar a
alma at o rabo, como nos romances russos. Vocs ficam?
        -- Antonieta j est dormindo -- disse Eduardo, indeciso.
      -- Voc  que est dormindo...
      Ergueu-se, ergueu um dedo e ergueu a voz:
      -- Acorda, rapaz! Vamos embora, Trsio.
      Vitor e Trsio saram, sem se despedir. Amorim, incomodado com
a conversa, havia-se passado do sof para o div no escritrio, onde
continuava a ressonar. Eduardo ps-se a recolher os copos e os
cinzeiros. Voltou-se: Antonieta acabava de surgir  porta do quarto,
estremunhada, vestindo o pegnoir:
      -- U, voc est a sozinho? Ouvi algum gritar: "acorda"!
      -- Foi Vtor -- disse ele rindo e puxando-a para perto de si: --
Acabou de sair com Trsio. Amorim est dormindo ali no escritrio.
Maria Elisa e Lda foram embora com Slvio.
      -- No estou entendendo mais nada.
      -- Escuta, meu bem: voc no fica zangada se eu te disser uma
coisa?
      -- No. Pode dizer.
      -- Voc no devia ter apontado aquela palavra feia no poema do
Slvio.
      Ela o olhou, surpreendida:
      -- U! Mas se foi ele que escreveu! Voc tem umas bobagens...
      -- No devia ter chamado a ateno. Fingisse que no viu.
      -- Ora, tambm voc est cheio de coisas: e os palavres que
Vnia fala toda hora?
      -- Vnia  diferente, mais velha que voc, ela  assim mesmo, que
se h de fazer? Meu amor, pode parecer puritanismo de minha parte,
mas no gosto que voc oua palavra feia, no gosto que voc seja feito
essa gente. Voc no  feito eles. J notou como te tratam de maneira
diferente? Como certas coisas no falam na sua presena?
      -- No notei nada.
      -- Pois ento preste ateno, para voc ver. O caso dessa tal
Gerlane com Amorim, por exemplo...
      -- Com Amorim, no: com Vtor. Com Amorim j acabou.
      -- Como  que voc sabe?
      -- Todo mundo sabe.
      -- Bem, podem saber, mas no falam nisso com voc diretamente.
      -- Me acham muito criana. Amanh ns vamos ao cinema?
      -- No  questo de ser criana;  que voc  muito pura para
eles. Essa gente no tem moral, no tem princpios nem nada.
      -- Ento por que voc anda com eles? Entenda-se.
      -- Porque so meus amigos, ora essa. Mas o fato de serem amigos
no quer dizer que eu tenha de ser como eles. Eu no sou como eles.
Veja o caso do Trsio, por exemplo. Ele  como eu, da minha idade, da
minha gerao. Sabe as mesmas coisas que eu sei,  um excelente
poeta. A gente se entende.
      -- Nunca li nada dele.
      -- No  preciso ler para saber. J vem voc com sua implicncia.
Mas o que  mesmo que eu estava falando?
      -- Que amanh ns vamos ao cinema.
      -- Est bem, est bem -- e Eduardo sentou-se, puxou-a para o
colo: -- Vamos ao cinema. Alis, j esto levando o "Cidado Kane",
Trsio me disse que  muito bom.
      Fez uma pausa, ficou pensando.
      -- Gostei da franqueza dele com Slvio. Tambm no achei bom
aquele poema.
      -- E por que no falou?
      -- Porque exige muita explicao, no  s ir falando como Trsio
"no gosto" e acabou-se. Afinal de contas, voc tem de reconhecer que
pelo menos Slvio  um poeta. Mas anda frouxo, relaxado, no sei... A
poesia  boa, no tem dvida, versos muito bem feitos, mas... Voc veja:
em matria de arte...
      -- Tenho de ir ao cabeleireiro amanh cedo. Voc acha que ainda
posso usar franja?
      -- No sei... Gosto de voc assim. De qualquer maneira fica bem.
      -- Tenho medo de pensarem que estou querendo parecer criana.
      -- Voc  uma criana -- e puxou-lhe o rosto para si. Antonieta
esperou que ele a beijasse e depois se ergueu, espreguiando-se, disse-
lhe que ia dormir. Ele perguntou se ela no queria antes fazer um caf.
Ela pediu desculpa, mas estava morrendo de sono. Quer dizer que voc
no pode me esperar, ele perguntou ento. Ela pediu que no ficasse
zangado, mas estava to cansada. Ele disse que no tinha importncia,
ela saiu. Ele continuou a recolher os copos e os cinzeiros. Por um
momento se deteve e ficou a olhar fixamente, como se quisesse enxergar
alguma coisa alm da mesa e alm do cho. Depois foi para a cozinha.
      -- Foi bom ele ter ido embora. No agenta a parada -- dizia
Vtor, uma hora mais tarde, no bar da praia. Estava em companhia de
Joubert   e    ambos,   j   embriagados,   bebiam   chope   e   conhaque
alternadamente...
      -- No agenta no.
      -- Trsio  metido a gente, mas qual! esses meninos de hoje no
sabem beber.
      -- No sabem no.
      -- No sabem o que  dor-de-corno, daquelas boas! das legtimas.
      -- Das legtimas.
      -- Pra de me repetir!
      -- S estou falando...
      -- "S t falano". Voc no est falando, est grunhindo -- e Vtor
soltou uma gargalhada: -- Voc est  de porre, olha a.
      -- De porre, eu? Facilita comigo no, que hoje sou muito homem
de te mandar a mo na cara.
      -- Homem coisa nenhuma, seu pintor de merda.
      Joubert empunhou um garfo:
      -- Repete que eu te arranco o olho com este garfo e depois chupo,
est ouvindo? Depois chupo.
      -- Chupa essa, olha aqui.
      Joubert se ergueu num mpeto, avanou para o companheiro, que
tambm se ergueu, ambos perderam o equilbrio. O garom interveio,
conciliador:
      -- Parem com isso, onde j se viu? Amigos h tanto tempo,
brigando  toa.
      Joubert, voltando a sentar-se:
      -- Ento me traz um conhaque. Hoje eu vou at o fundo do poo.
      -- De onde nunca devera ter sado -- Vtor deu outra gargalhada.
      -- Pra com isso, rapaz! Olha, se voc est com dor-de-corno,
cuidado comigo, que tambm estou. Hoje eu mato um.
      -- Mata nada. Por que voc no matou o Trsio, ento? Ele at
que dava um bom defuntinho.
      -- Te mostro -- e Joubert empunhou de novo o garfo. Antes que
outro pudesse cont-lo, voltou-se e aplicou violenta garfada de baixo
para cima no assento de vime da cadeira vizinha, onde estava sentado
um fregus. O fregus deu um salto e um grito de dor, avanou para o
agressor aos berros. Os garons acorreram. Grande rebulio no bar.
      -- Eu arrebento esse desgraado! -- ameaava o homem, punhos
fechados.
      Vtor tentava cont-lo:
      -- O senhor no faa isso. Desculpe. Ele no sabe o que faz. Est
apaixonado, por isso te espetou.
      -- Que  que eu tenho com a paixo dele? Vai espetar a puta-que-
o-pariu!
      A custo foi contido pelos garons. Vtor e Joubert finalmente se
safaram do bar, mas se detiveram na calada, puseram-se a urinar
calmamente junto  rvore da esquina.
      -- Voc tambm vai dar uma garfada daquelas no homem! Devia
ao menos ter escolhido o outro, aquele gordinho. Se ele te pega, te
arrebenta.
      -- Arrebenta  a me. Vamos voltar l.
      -- No, deixa o homem. Olha aqui, escuta uma coisa: se eu te
contasse o que me aconteceu hoje... Guarda esse garfo.
      Esperou que o outro guardasse o garfo no bolso:
      -- Dizer que eu marquei encontro com Gerlane e aquela
vagabunda no apareceu.
      -- No chama ela de vagabunda no, que  minha amiga.
      --  minha tambm, essa  boa.
     -- Ento no chama de vagabunda.
     -- Me deixou esperando.
     -- Ento no chama.
     -- No quero nada com ela.
     -- Eu te avisei que ela no dava.
     -- Mas em compensao, fui para a casa do Slvio, fiquei l
discutindo com Vnia, e de repente... No te conto nada. Slvio e Maria
Elisa j tinham ido embora.
     Joubert de sbito se interessou:
     -- Embora para onde?
     -- Para a casa do Eduardo. Mas a Vnia, quem diria...
     -- Ela estava l?
     -- Quem, Vnia? Pois eu no estou dizendo...
     -- Maria Elisa, imbecil.
     -- Imbecil  a me.
     -- E aqueles calhordas, que no me deixaram entrar!
     -- No vai me dizer que voc est apaixonado  pela Maria Elisa.
     -- .
     --  o qu?
     --  isso mesmo.
     Vtor, o corpo oscilante, olhou com pena o amigo:
     -- Voc est mais bbado que uma vaca.
     -- No quer acreditar, pacincia.
     -- Pela Maria Elisa?
     -- Pela Maria Elisa.
     -- Ento, seu ordinrio, a dor-de-corno  por causa da minha
mulher?
     -- Ela mesma.
     -- No sei onde estou que no te prego a mo na cara.
     -- Por qu? -- e Joubert, por via das dvidas, empunhou
novamente o garfo: -- Eu no fiz nada! Voc devia at ficar satisfeito.
Ela no quer nada comigo.
     -- Isso voc no precisa me dizer, eu conheo minha mulher. Ela
tem bom gosto. Uma grande mulher.
        -- Uma grande mulher -- concordou o outro.
        Vtor ficou comovido:
        -- Um anjo de mulher.
        -- Em todos os sentidos.
        -- Em todos... Espera: em todos quais? Que histria  essa?
        -- Em todos, u. No comea...
        -- Guarda esse garfo, homem de Deus.
        -- Voc acha crime a gente se apaixonar por uma mulher?
        -- Mas logo a minha, pombas!
        -- Voc no se apaixonou pela minha?
        -- Desde quando Gerlane  sua mulher?
        -- No  mas podia ser. Fui eu que descobri.
        Vtor ficou a olhar o amigo, deslumbrado:
        -- Mas sim senhor.  incrvel. Voc, apaixonado pela Maria Elisa.
Logo voc -- e desandou a rir.
        -- Tambm no vejo nada de to engraado nisso -- resmungou
Joubert, ressentido.
        -- Ela sabe que voc est apaixonado?
        -- Acho que no...
        Vtor lhe deu um tapa nas costas, entusiasmado, Joubert quase
caiu:
        -- Pois ento vamos at l em casa contar a ela!
        Saram os dois pela rua, abraados, amparando-se um no outro.




LTIMOS dias do ano. Andava no ar uma agitao inslita, todos indo e
vindo, se encontravam, se separavam. Pela manh, depois de mais uma
noitada insone no bar ou em casa de algum, Eduardo se interrogava ao
espelho: um dia mais velho. Que estou fazendo de minha vida? -- se
perguntava, e saa para o trabalho. Mas um de seus amigos tocava
violo; outro dizia coisas engraadas e imitava as pessoas, todos muito
inteligentes -- e isso era tudo. Trsio se arranjara afinal no matutino,
aparecia todas as noites depois do servio, a caminho da penso onde
morava. Eduardo lhe expunha as suas idias, j sem muita convico:
        -- O que  preciso  escrever! seja o que for. Veja o exemplo de
Stendhal: escreveu a "Chartreuse" em quarenta dias. Trancou-se no
quarto e s saiu de l com o livro pronto.
        Lda finalmente separada de Amorim. Uma noite Eduardo foi
lev-la em casa, acabou beijando-a -- um beijo com gosto de cigarro.
        -- Melhor eu ir embora enquanto  tempo. Amanh eu no
poderia olhar para o Amorim.
        -- No tenho mais nada com ele.
        -- Ou para voc -- acrescentou. -- Gosto de voc como de uma
irm.
        Lda de sbito abraou-o e ps-se a chorar. "Santo Deus", pensou
ele, "nunca imaginei que essa mulher tambm fosse de chorar".
Decidida, experiente, com idias prprias, no parecia precisar ou
depender de ningum. No entanto ali estava, soluando, frgil ser em
seus braos, ele sem saber o que fazer com ela.
        Amorim por onde andava? Diziam que fazia poltica eleitoral,
trabalhando para um dos candidatos, tentando tirar partido da
situao. Cavava publicidade, fazia "contactos". Ora, quem diria! O
Amorim no passaria jamais da reportagem de polcia. Slvio protestava:
        --  um grande sujeito.
        -- Pode ser. Mas voc  diferente.
        -- Diferente por qu?
        -- Voc  poeta. Muito antes de te conhecer, eu sabia seus versos
de cor! No entanto hoje voc no escreve mais nada que preste.
        -- Na sua opinio. Para voc nem parece que houve uma guerra.
Voc queria que eu ficasse escrevendo poema sobre uma flor, enquanto
o mundo se arrebenta?
        Eduardo se indignava:
        -- Faz ento mais uma ode a Garcia Lorca.
        Vtor s voltas com a moa Gerlane. Quem era essa Gerlane,
ningum sabia explicar. Aparecera como modelo de Joubert, mas era de
boa famlia, diziam. Independente at certo ponto, dali para a frente
ningum conseguia nada, era o que tambm diziam, e Vtor confirmava.
Maria Elisa revoltada com ele:
        -- Imaginem que uma noite ele me chega bbado s cinco da
manh, trazendo Joubert mais bbado ainda, e me acorda para dizer
que os dois estavam morrendo de paixo por mim.
        Vnia e Trsio quase presos como agitadores num comcio
dissolvido pela polcia.
        -- Dissolvido a bala! Tive que me agachar atrs de um automvel
para no levar tiro, mas Vnia deu um chute na canela de um guarda...
Foi um custo para nos livrarmos.
        -- Tambm, que diabo de idia  essa de ir a comcio comunista?
Vnia ainda v l, mas voc!
        -- Voc porque vive fora do mundo. Se visse, ficava revoltado
tambm. Seu sogro vai falar hoje no rdio.
        Eduardo pediu mais um chope -- estavam no bar -- e voltou-se
para Antonieta:
        -- Est vendo? No adiantava a gente ir l.
        -- Ns no amos l: ns amos ao cinema.
        -- J sei: e eu acabo sempre no indo a lugar nenhum.
        Foram finalmente visitar o ex-ministro. Encontraram-no cercado
de polticos, pouco se demoraram:
        -- Pode ter certeza de uma coisa: nenhum deles  amigo de seu
pai.
        Dona Estefnia veio passar uns dias com o filho -- o mesmo disse
de seus amigos:
        -- Essa gente com quem voc anda no serve para voc, meu
filho. E voc est to diferente...
        Voltou logo para Belo Horizonte, desgostosa. Eduardo tambm se
desgostava consigo mesmo. Dessa poca, uma carta que escreveu a
Hugo:
        "Sei apenas que estou vivo. Nada mais sei. Sinto em mim um
sangue que talvez exista para ser derramado e no para correr
frouxamente pelas veias. Existem palavras essenciais: amor, infncia,
pureza, espao, tempo. Com elas eu escreveria um romance, cem
romances. O amor como atitude esttica diante da vida, realizao da
pureza no espao e da infncia no tempo. Tudo mais  literatura".
      "Isso tambm  literatura" -- respondeu-lhe Hugo.
      Para Mauro:
      "Literatura. J no escrevo nada. Est tudo esgotado. Ou se faz
alguma coisa de verdadeiramente novo, ou  melhor esperar os tempos
novos. Alguma coisa nova se anuncia, eu vejo, eu sei, eu juro que
alguma coisa nova est para surgir para ns e para o mundo -- se eu
estiver enganado, ento o melhor  mesmo comer, beber e dormir,
porque nem morrer ser preciso. Estou na expectativa -- descrente das
frmulas gastas, esgotadas. Tenho sentido muita falta de vocs".
      Mauro no lhe respondeu.
      Passaram o ano em casa de Vtor. Antonieta mandara fazer um
vestido diferente dos que usava at ento: parecia mais adulta, o corpo
mais seguro de si emergindo do decote, as formas acentuadas sob a
seda justa.
      -- Essa menina afinal virou mulher -- disse Vtor, abraando-a.
      Grande confuso no pequeno apartamento do casal: eram
escritores,   jornalistas,   pintores,   gente   de   toda   espcie   que   se
acotovelava nas duas salas, abraando-se, felicitando-se:
      -- Feliz Ano Novo!
      Maria Elisa j nem sabia onde pr tanta gente. Iam entrando,
enchendo a sala, invadindo os quartos.
      -- O que vocs fizeram das crianas? Venderam?
      -- Mandei os dois para a casa de mame -- explicava ela,
afogueada.
      Cada um que chegava trazia uma garrafa de usque ou de
champanhe debaixo do brao.             meia-noite em ponto apagaram as
luzes. Eduardo procurou Antonieta em meio  confuso, no encontrou.
Recebeu abraos, apertos, beijos -- beijou vrias bocas que se ofereciam
no escuro da sala.
     -- Antonieta!
     Deixou-se ficar a um canto at que as luzes se acendessem
novamente. Estava irritado, de mau humor:
     -- Voc viu Antonieta? -- perguntava a um e outro.
     Encontrou Maria Elisa na cozinha, s voltas com os copos:
     -- Ela saiu com Slvio, foi buscar mais gelo na casa dele.
     Ia afastar-se, ela tocou-lhe o brao, solidria:
     -- Acho horrvel tudo isso, Eduardo -- desabafou.
     Buscar mais gelo -- num movimento brusco, procurou a sada do
apartamento. Algum quis ret-lo  porta -- era Lda:
     -- Como vai, meu irmozinho? -- e se encostou a ele, provocante.
     Desviou-se sem uma palavra. No vestbulo encontrou dois casais
abraados, um terceiro se refugiara no elevador, detendo-o entre os
andares. Desceu os trs lances da escada, ganhou a rua. Foi seguindo
sem destino at a esquina -- havia uma porta iluminada, gente, muita
gente -- era uma igreja. Duas pretas passaram por ele, xale na cabea,
e entraram. Entrou tambm, apoiou-se na coluna. Assistiu, obstinado,
ao resto da primeira missa do ano. Aquilo era uma missa. E no lhe
dizia nada, gestos mecnicos de um ritual sem sentido. Ao lado uma
velha, ajoelhada, mexia os lbios molemente.  frente os ombros
quadrados de um homem ocultavam metade do altar -- palet escuro,
com farelo de caspa.  esquerda duas meninas, uma gorda e outra
magra, de vu branco na cabea. Gente, gente por todo lado, e ele
sozinho. Havia um mundo ao seu redor, do qual no participava -- e
ningum reparava nele, ningum dava conta de sua presena. L fora
os foguetes do Ano Novo espocavam e ali dentro, aquele silncio. De
sbito, a massa humana se agitou, todos se ajoelharam. Ite, Missa est,
disse o padre. Foi buscar gelo -- respondeu. E voltou-se bruscamente,
saiu da igreja. Era querer demais, que o aceitassem num momento
daqueles. Continuou a andar pela rua, agora a caminho de um bar. Foi
buscar gelo e saiu tosquiado.
     -- Ite, Missa est.
     Entrou, sentou-se, pediu uma cerveja bem gelada. Na mesa ao
lado quatro operrios celebravam o Ano Novo a copos de cachaa:
      --  o que eu digo! -- berrava um. -- Pedro II foi e ser sempre o
maior! Saa do palcio a p, andava por a, conversava com todo
mundo...
      -- Isso no  vantagem, o pequenino tambm fazia.
      Voltaram-se para Eduardo:
      -- Moo, o senhor quer dar um palpite aqui?
      Ite... Eduardo chegou-se a eles.
      -- Quem foi o maior: Pedro I ou Pedro II?
      -- No sei. Na escola a professora torcia por Pedro II, mas acho
que Pedro I foi mais simptico.
      -- No falei? -- gritou um dos pretos, entusiasmado. --  o maior!
Moo, tome uma cachaa com a gente.
      Deixou-se ficar com eles, bebendo cachaa. De imperadores
passaram a msicas de carnaval. Olhou o relgio e eram trs horas da
manh. J embriagado, voltou para o apartamento de Vtor, custou a
localizar o edifcio.
      Antonieta abraou-se a ele, ansiosa:
      -- Eduardo, onde  que voc estava?
      -- Na missa -- e desvencilhou-se dela.
      -- Me deixar assim, sem nem avisar?
      -- Sem nem avisar? -- repetiu ele, e atravessou a sala em passos
difceis. Olhou ao redor, notou vagamente que alguma coisa havia
acontecido: a festa acabara. Restavam alguns casais enlaados pelos
sofs, um j havia mesmo deslizado para o cho. Algum dormia a sono
solto, estirado no tapete, e era s. Na cozinha copos quebrados, vmito
pelo corredor. Antonieta o seguia:
      -- Eduardo, onde voc vai? O que  que voc tem? -- e o segurava
pelo brao.
      -- Me larga.
      -- Vamos embora, meu bem. A festa j acabou. Estava s
esperando voc.
      -- Dane-se.
      -- No fica assim, Eduardo, por favor!
      -- No estou me sentindo bem, acho que vou vomitar.
      Fez um esforo para conter-se e saiu com ela. Na rua ps-se a
respirar em largos haustos, Antonieta o amparava. Tomaram um txi.
      -- Voc est melhor, meu bem?
      -- No se preocupe. O que foi que aconteceu?
      -- Aconteceu que Vtor convidou Gerlane, Maria Elisa fez uma
cena. Algum se trancou no banheiro com a mulher de um sujeito,
aquele cantor de rdio, me esqueci o nome, houve uma briga,
quebraram tudo. Enquanto isso Vtor saa com Gerlane, Maria Elisa foi
atrs, surpreendeu os dois dentro de um automvel l na rua. Voltou,
anunciou para todo o mundo que estava se separando dele naquela
noite. E foi embora, ningum sabe para onde. Vtor voltou, soube de
tudo, ficou feito louco, comeou a chorar, algum para fazer graa
chamou a polcia...
      -- Enquanto isso voc foi buscar gelo com Slvio.
      -- Fui, mas voltei logo. Fomos de txi. Por qu?
      -- Por nada.
      -- Ele me pediu...
      -- Podia ao menos ter avisado.
      -- Naquela confuso, no te encontrei -- e ela tentou abra-lo.
      -- Me larga.
      Recusou-se a conversar, dali por diante. Em casa se recusou a
dormir:
      -- Estou sem sono. Vou escrever um pouco.
      Trancou-se junto aos seus livros, passou o resto da noite
acordado, mas escreveu apenas:
      "No posso responsabilizar ningum pelo destino que me dei.
Como nico responsvel, s eu posso modific-lo. E vou modificar".
      Para comear, rasgou o papel em que escrevera. Depois ps-se a
rasgar    papis,   originais   de   contos,   romances   iniciados,   notas,
rascunhos.
      -- Basta. Chega de literatura.
        Quando Antonieta acordou, encontrou-o extenuado, arrumando
seus livros, excluindo vrios da estante e empilhando-os no cho:
        -- J li tudo isso. Para que guardar?
        Eliminou todas as tradues:
        -- Vergonha! Anatole France, e ainda por cima em espanhol: "Los
dioses tienen sed". Lixo!
        Esquivou-se da mulher, no estava para muita conversa. Trsio
veio encontr-lo  noite ainda s voltas com os livros.
        -- Que h com ele? -- perguntou a Antonieta.
        -- No sei. Est assim o dia inteiro. Nem dormiu, de ontem para
hoje.
        Trsio aproximou-se de Eduardo, curioso:
        -- Por que essa fria?
        -- Vou fazer uma limpeza na minha vida. Se quiser levar esses a,
pode levar.
        -- Fechado para balano -- e Trsio se agachou para examinar os
livros empilhados no cho. Eduardo parou um pouco, enxugou o suor
do rosto:
        -- Sabe de uma coisa, Trsio? Quem no tem plantao, no vai
para frente no.
        O outro refletiu um momento e se ergueu:
        -- Ento vamos tomar um chope.
        -- S se formos ns dois sozinhos. Noutro bar. Estou cansado de
todo mundo.
        -- Voc vai sair? -- perguntou Antonieta.
        -- Vou.
        -- E eu: fico?
        -- No me ouviu dizer que estou cansado de todo mundo?
        -- No sabia que voc estava me incluindo nesse "todo mundo".
        -- Pois ento fique sabendo.
        Trsio, constrangido, quis abrandar:
        -- Deixa disso, rapaz. Leva a moa, o que  que tem?
        -- Se ela quiser vir, venha -- reconsiderou ele.
        -- No -- disse Antonieta.
        -- Ora, vem logo, ho chateie.
        -- Perdi a vontade, juro.
        -- Voc no vem porque no quer.
        -- Prefiro ficar. Voc vai voltar cedo?
        Acabaram indo ao bar de sempre. Trsio insistia em saber o que
havia com ele.
        -- Nada. S fiquei irritado com aquela festa de ontem, voc viu s
que bacanal? E irritado com a vida que estou levando. Vou acabar com
isso.
        -- Vtor se separou de Maria Elisa. Por causa de Joubert, parece.
        -- De Joubert? Mas ouvi dizer que foi o contrrio: que Maria Elisa
surpreendeu Vtor com Gerlane dentro de um carro.
        -- No sei: a verdade  que se separaram. Maria Elisa foi para a
casa da me dela, deixou Vtor entregue s baratas. Mas voc estava l?
Nem te vi.
        -- Nem eu a voc.
        -- Quem estava no carro com Gerlane era eu -- confessou Trsio,
afinal. -- Vtor podia estar com alguma outra. Alis, perdi meu tempo.
        -- Gostaria de conhecer essa Gerlane -- murmurou Eduardo.
        Algum ps a mo em seu ombro:
        -- Se eu der licena...
        Era Antonieta, em companhia de Slvio:
        -- Passei l em sua casa, encontrei sua mulher sozinha, triste
feito um passarinho. Resolvi traz-la. Como vo as coisas?
        -- Voc disse que se eu quisesse podia vir...
        Eduardo ocultou seu aborrecimento enquanto lhe arranjava uma
cadeira. Queria estar a ss com Trsio, no queria conversar com mais
ningum.
        -- Eu estava contando a ela o que me aconteceu ontem -- disse
Slvio: -- Vocs nem imaginam.
        -- Posso imaginar -- resmungou Eduardo.
        -- Pois ento imagine o seguinte: na hora em que a confuso era
maior, ningum se entendendo mais, todo mundo de pileque, quem
resolve me passar uma cantada?
       -- A cozinheira -- disse Trsio.
       -- Sua mulher -- disse Antonieta.
       -- Nada disso: aquele cantor de rdio, como  mesmo o nome
dele, Eduardo?
       -- Eu  que vou saber?
       -- Ningum diria que ele era veado.  forte como o diabo, eu havia
de pensar? Passei meus bons apertos. Uma hora l, fui ao banheiro, ele
foi atrs, e...
       -- Voc no vai contar, vai? -- e Eduardo se ergueu.
       -- Que h com voc, rapaz?
       -- Nada. Vamos embora, Antonieta.
       Agarrou a mulher pela mo, soprou para Trsio:
       -- Passe l em casa: preciso muito falar com voc. Despediu-se,
foi para casa. No trocou uma s palavra com Antonieta. Em pouco
chegava Trsio.
       -- Slvio ficou danado da vida com voc. Achou que voc no
gostou que ele tivesse levado Antonieta ao bar. Disse que no tinha
nada com isso, ela  que pediu, insistiu...
       -- Que se danem. Escuta, Trsio, no sei o que h comigo, mas
sinto que alguma coisa de importante est acontecendo, no sei... 
preciso que eu faa alguma coisa, tome alguma providncia.
       Andava de um lado para outro, excitado. Era mais de meia-noite,
Antonieta fora dormir. Um vento fresco entrou pela janela.
       -- Voc est nervoso, cansado,  isso.
       -- Cansado desta vida. Vontade de me mudar do Rio, ir para um
lugar sossegado, ter um filho, cri-lo longe daqui, constituir uma
famlia, compreende? Levar uma vida decente. No nasci para isso. S
voc, que me conhece melhor, pode me compreender. Ns somos
diferentes um do outro, eu sei; mas voc sabe que eu no nasci para
isso. Eu queria ser um homem simples, direito... Um homem como meu
pai. Mas o que  aquilo?
      Recuou assombrado: um vento mais forte entrava pela janela.
Deixou-se ficar, olhos parados, sentindo-se tomado de um estupor
inexplicvel:
      -- Como meu pai -- repetiu ainda, para si mesmo, sem desviar os
olhos da janela. Trsio seguiu a direo de seu olhar, depois caminhou
para ele:
      -- Eduardo, que foi isso -- e sacudiu-o, enquanto ele escondia o
rosto nas mos, como se fosse chorar. -- Voc est nervoso, esgotado,
vendo coisas. Precisa descansar. Por que no vai dormir um pouco?
      De repente, trs rudos simultneos se fizeram ouvir: o relgio da
sala deu uma hora, uma porta bateu, impulsionada pelo vento, e o
telefone ps-se a chamar. Os dois se entreolharam em silncio:
      --  interurbano -- sussurrou Eduardo, afinal, como de dentro de
um sonho.




PASSOU   O   resto da noite com Trsio, pendurado ao telefone, tentando
arranjar lugar num dos primeiros avies. Conseguiu reserva para as
nove da manh. Acordou Antonieta:
      -- Tenho certeza de que ele morreu. Senti uma coisa...
      -- Quer que eu v tambm? -- perguntou ela, aflita.
      -- No, voc tem medo de avio. Fica em casa de seu pai.
      -- Tenho medo, mas sendo preciso -- ela insistiu, j inteiramente
acordada. Abraou-o, penalizada: -- Gostaria de poder fazer alguma
coisa por voc.
      -- Faz um caf.
      -- Se for preciso, voc me avisa que eu vou.
      Como lhe sobrasse tempo, resolveu passar em casa do pai de
Antonieta, a caminho do aeroporto.
      -- Avise ao ministro que preciso falar com ele.
      Em pouco o criado voltava:
      -- O ministro manda perguntar de que se trata.
      -- Diga-lhe que vou agora para Belo Horizonte, que meu pai... que
eu... No, no diga nada: pergunte se ele deseja alguma coisa para l.
De novo o criado:
      -- O ministro manda dizer que lhe deseja boa viagem.
      -- Pois ento manda o ministro a... -- mas se conteve, pensando
em Antonieta.
      No avio no conseguiu repousar. Morrera -- tinha certeza disso.
Era essa espcie de intuio que tivera, nascida do cansao e da
excitao. Seu prprio pai, quando pensava, quando falava justamente
nele. Exemplos de pressentimentos como este no eram raros. Seu pai!
-- e as lgrimas lhe escorriam pelo rosto, que se esquecera de barbear.
      No aeroporto encontrou Veiga  sua espera:
      -- Seja forte, rapaz. Prepare-se para o pior.
      -- J sei: ele morreu. Mas como? Quando? Voc sabe me dizer a
hora exata?
      Estava excitadssimo. Olhou longamente o corpo do pai estendido
no caixo, na sala de visitas -- o rosto largo to seu conhecido. Por que
ser que no choro? -- pensava. Devo chorar, devo chorar, preciso
chorar. Reagia vagamente aos abraos das pessoas, tanta gente
conhecida, tanto rosto compungido ao seu redor, mas no discernia
nada -- mal pde distinguir Mauro e Hugo entre os presentes. O cheiro
das flores, as velas crepitando -- lembrou-se de Jadir, o velrio de
Jadir, havia tanto tempo. O corpo pequeno, descarnado, feito esqueleto
debaixo da terra. Em breve, o de seu pai -- o velho Marciano morto,
nunca pensara nisso, ele no parecia que um dia iria morrer. Isso
alterava fundamentalmente a sua vida? ou no lhe traria sequer a mais
ligeira modificao no modo de ser e encarar as coisas -- sempre fora,
era assim, sempre seria, ele vivendo, a morte do pai j em sua vida
incorporada. Mais uma poca ali se encerrava? Acaso no vivia sempre
encerrando pocas e inaugurando outras? De onde vinha, para onde ia?
Que sentido tinham as coisas? Nenhum, nenhum, se dizia, sentindo
finalmente seus olhos se encherem de lgrimas. Disfarou, j agora
para no ser visto chorando, foi  cozinha, tomou o caf que lhe
ofereciam -- algum, uma mulher. Era justamente dona Marion, a me
de Jadir, a quem dona Estefnia ajudara quando o filho morreu.
Chegara a sua vez de ajudar tambm, prestar auxlio, fazer caf,
consolar dona Estefnia. Exatamente aquela que vivia por a, dizia-se
que no prestava. Olhou em torno: uma poro de conhecidos
desentocados, todos muito cheios de dedos, meus psames,  isso
mesmo, quem diria, to forte que ele era. Dona Estefnia nem chorava
mais: olhos vermelhos, rosto inchado, deixava-se ficar, perplexa, junto
ao corpo do marido, mos na face fria e amarela, sem compreender o
que se passava. O encontro com o filho fora novo motivo de choro e
desespero, dificilmente amainado: cara-lhe nos braos, meu filho! e no
queria desgarrar-se dele, seu ltimo refgio.
       noite se lembrou de Antonieta, resolveu telefonar.
      -- No est aqui no -- disse o prprio ministro, vindo atender. --
S agora eu soube. Porque voc no me disse pela manh que era isso?
Dei ordem para enviarem uma coroa, no sei se chegou a tempo...
      -- No est? -- insistiu Eduardo. -- Ela no vai dormir a?
      -- Que eu saiba, no. Isto , no me falou nada.
      -- Dava muito trabalho, acabei ficando por aqui mesmo --
explicou ela, quando ele ligou para casa.
      -- Voc est sozinha?
      -- Estou. Por qu?
      -- Por nada. Voc vem?
      -- Se for preciso... Quando  o enterro?
      -- O enterro foi hoje mesmo,  tarde.
      -- Quanto tempo voc ainda fica a?
      -- No sei: depende de voc.
      -- Se voc acha que  preciso...
      -- No vem no -- concluiu ele.
      Desligou o telefone, atordoado, voltou para junto da me, que
agora dormia, depois de ter tomado  fora um calmante. O mdico no
permitira que ela fosse ao cemitrio. Eduardo fora como um sonmbulo,
no falou com ningum, no viu nada do que se passava  sua volta.
      Ficou ainda em Belo Horizonte por trs dias. No tornou a
comunicar-se com Antonieta. Qualquer coisa se rompera entre eles:
revia-se solteiro, morando em Belo Horizonte, em sua prpria casa.
Afinal, o tempo no havia passado, ali estava ele de novo... Durante a
noite chorava como antigamente, no seu quarto de antigamente,
abafando os soluos no travesseiro. No sabia por que chorava: se pela
morte do pai, pela solido em que viveria sua me, ou por si mesmo.
Afinal, no conto mais com ningum -- pensava. Nem com meus
amigos, nem com meu pai, nem com minha mulher, nem comigo
mesmo. Estou sozinho, no h salvao.
      No conseguiu ter com Mauro e Hugo os momentos que esperava:
nem um encontro fecundo, nem ao menos uma conversa, um dilogo
como os de outrora. No sabia o que acontecera: se a morte do pai o
traumatizara, se eles  que haviam mudado -- o certo  que, juntos, j
no eram os mesmos. Mauro terminava seus estudos de medicina,
descrente de tudo, depois de seu fracasso em poltica: no conseguira
incluso de seu nome na chapa de deputado, como candidato dos
estudantes. Passava os dias numa desolada inatividade, quando no
estava bebendo pelos bares com novos companheiros: dois ou trs
jornalistas vencidos pelo cansao, pela falta de estmulo, pela
estagnao intelectual.
      -- Voc precisa  se mudar para o Rio -- Eduardo procurava
incentiv-lo. -- Se lembra do Amorim, aquele reprter de polcia? Pois
est l, vencendo na vida. Se tivesse ficado aqui, teria desaparecido.
      -- Prefiro desaparecer. Me deixa por aqui mesmo.
      -- Est bebendo demais -- informou-lhe Hugo. -- Ns deixamos
aquela vida, Mauro continua. No l nada, no escreve nada, no
estuda. No percebe que est se desmoralizando pelos botequins, com
essa turma de jornal, uns fracassados.
      Eduardo se lembrava dos rapazes do jornal, que antigamente o
deslumbravam e com quem andava, Veiga  frente. Seriam assim, como
os de hoje? Mauro, porm, se queixava de Hugo:
      -- Radiguet no  nem a sombra do que foi. Perdeu aquele ar
doentio que lhe ia to bem. Voc se lembra que ns alimentvamos uma
esperanazinha de que ele estivesse fraco do peito, acabasse um poeta
descabelado e desmilingido? Qual o qu! Perdi meu futuro cliente: est
forte, saudvel, professor, vive estudando filosofia, filologia, psicologia,
tudo para acabar descobrindo um dia que a vida  isso mesmo. E vive
rodeado de meninos, alunos dele. J sugeri que ele devia andar de
calas curtas e fundar uma associao de escoteiros.
      Hugo se justificava:
      -- Alguns deles so muito inteligentes, voc precisa conhec-los.
      -- Voc no percebe que est sendo exatamente aquilo que
censurvamos no Veiga? O que voc est fazendo de si mesmo? Se
esses meninos forem como ns fomos, havero de estar rindo de voc
como ns ramos...
      -- Ningum ser como ns fomos -- cortou Hugo, amargo.
      Toledo tambm lhe pareceu amargo -- mais velho, acabado:
      -- Estou pensando em ir para o Rio: J no agento mais isso
aqui. Com a mudana da poltica comearam as injustias, as
perseguies...
      -- No vai me dizer que a poltica mudou para pior, Toledo.
      -- Para mim, foi. Perdi o meu cargo no gabinete, voltei a chefe de
seo. A vida cada vez mais cara, o dinheiro cada vez mais curto, as
aulas cada vez mais longas...
      -- E a literatura?
      -- No tenho tempo para literatura, nem para nada. No saio,
no vejo ningum. Converso de vez em quando  com Hugo, mas ele
vive em companhia de efebos. Est pensando em fazer concurso para
uma das cadeiras da Faculdade assim que terminar o curso.
      E Toledo baixou a voz:
      -- Dizem dele por a umas coisas, mas no acredito,  lgico.
      -- Dizem o qu? -- estranhou Eduardo.
      -- Dele com os meninos.
      Estarrecido, Eduardo recusava-se sequer a pensar, a continuar
aquela conversa. Diziam coisas de Hugo com os meninos! A palavra
meninos  que lhe ficou ressoando na cabea: meninos eram eles
prprios,     os      trs!   Por   que   se   sentirem   assim,     precocemente
envelhecidos, sem poder exercer sua mocidade?
         -- Ns somos muito precoces -- comentou apenas. Toledo no
entendeu.
         Uma noite Mauro lhe telefonou -- era tarde, mais de duas horas.
         -- Eduardo, vem aqui no bar, preciso de voc, esto querendo me
bater.
         Saiu de casa apreensivo: a voz de Mauro trmula, insegura,
humilde. Ele nunca fora assim. E parecia bbado. Ao chegar deu com
um ajuntamento  porta do bar: abriu caminho e entrou. Mauro
tambm abriu caminho ao v-lo, caiu-lhe nos braos:
         -- Eduardo, mon semblable! Mon frre!
         Dois garons procuravam cont-lo, um guarda telefonava, os
fregueses o rodeavam, curiosos.
         -- Que foi que houve?
         --   Esto     querendo    me    bater   --   lamuriou-se    ele.   Estava
completamente embriagado. -- Me tire daqui, por favor, use seu
prestgio, mostre a esses sacripantas quem voc , quem somos ns.
         -- Quis sair sem pagar a despesa -- explicaram-lhe. --  a
terceira vez que ele faz isso. E agrediu um garom.
         -- Eu pago a despesa. Quanto ?
         -- Tens uns copos quebrados tambm -- disse o gerente,
irresoluto.
         -- Vamos, Eduardo! -- dizia Mauro, j confiante. -- Eles no
sabem que ns somos generais.
         -- Fica quieto.
         Conseguiu livr-lo do bar, dispensar o guarda. Foram subindo a
p a rua da Bahia. Mauro mal podia andar.
         -- Agenta a mo, que ali no Grande Hotel tomamos um carro.
Como  que voc foi me promover um estrago daqueles?
         Algum saa justamente do Grande Hotel, vinha-lhes ao encontro.
Mauro se contraiu, soltou um berro:
         --  ele!  o Barbusse! Foi quem me denunciou. Traidor!
      Avanou furioso para o delegado. Tomado de surpresa, o homem
recuou dois passos, voltou-se e saiu correndo, perseguido pelo rapaz:
      -- Segura! Socorro! Ele est louco!
      -- Louco  a me! Eu te mato, preboste! -- gritava Mauro.
      Cruzaram o jardim em disparada, o delegado fugindo espavorido,
aos gritos. Quando ia alcan-lo, Mauro tropeou no meio-fio, caiu
estendido no cho. O delegado, com suas perninhas curtas, j se perdia
nas sombras da avenida Joo Pinheiro.
      -- Ai, estou ferido. Quebrei a perna -- e Mauro se apalpava,
dramtico. Eduardo aproximou-se, tentou ergu-lo. Ao sentir-se tocado,
ele se levantou de um salto:
      -- No chega no! Quem  voc?
      -- Eduardo, sua besta.
      -- Eduardo, meu amigo! Voc  meu amigo?
      -- Sou. Vamos embora.
      -- Ento vamos tomar alguma coisa.
      Conseguiu arrast-lo at um carro de praa. Depois foi um
trabalho convenc-lo a entrar em casa.
      -- Meu amigo, mon cher ami -- repetia Mauro.




NO foi diretamente para o Rio --  ltima hora resolveu passar dois
dias em Ouro Preto. Precisava descansar, pensar um pouco, meditar em
sua vida, ver que rumo tomar. Deixava a me morando com umas tias,
na Serra. Mais tarde teria de voltar, providenciar o inventrio de seu
Marciano -- o que seria fcil, seu Marciano no deixara quase nada.
Mas agora queria proceder ao inventrio dos prprios bens. Precisava
saber com que contava, para prosseguir.
      Em Ouro Preto se deixou ficar, pelas ruas quietas e frias,
tentando ordenar as idias, descobrir o que ocorria consigo, afinal. No
podia entender, no entendia nada, era como se os pensamentos lhe
viessem envoltos em nuvem, uma nuvem de tristeza, desnimo,
aniquilamento. Sua vida no estava certa. Esses amigos com quem voc
anda no servem -- a me dissera. E assim eram todos -- escritores
sem livros, poetas sem versos, pintores sem quadros, arraia mida da
arte que vicejava ao seu lado, tirando-lhe o que lhe restava de melhor --
entusiasmo, idealismo, mocidade. A que ponto chegara: em Belo
Horizonte lastimara Hugo e Mauro, agora percebia que tambm ele no
escapava, eram os trs que naufragavam lentamente. Mas ainda haveria
de se salvai.
      Como?
      Estava  janela do hotel, olhando o casario que subia pelo morro.
Era de tarde e um sol frio se escondia de Ouro Preto para que a noite
baixasse. Viu um cavalo pastando  sombra de uma rvore, uma
menina sentada numa pedra. De sbito o cavalo deixou de ser apenas
cavalo, a menina deixou de ser menina e tudo -- cavalo, rvore,
menina, pedra -- se tornou uma coisa s, ligada por elementos
invisveis num s bloco, espcie de sntese de todas as coisas criadas...
Eduardo fechou os olhos e esperou, buscando em vo entender os
pensamentos soltos que lhe acudiam vertiginosamente. Tornou a olhar
e viu o cavalo se mover, vagaroso como um monstro gigantesco de
quatro patas, a menina coar o p num gesto de experincia milenar e a
pedra imvel a desafi-lo como um enigma. Um sino ps-se a tocar na
igreja prxima, denunciando o momento suspenso entre a realidade e o
mistrio. Apoiou-se  parede -- seu corpo tremia, o corao disparava e
todo ele parecia tocar o mais fundo da angstia. Sim, aquilo era
angstia. Num grande esforo tentou ainda ordenar os pensamentos,
entender as coisas ao redor -- no entendia mais nada.
      -- Estou perdido -- murmurou, deixando-se cair na cama.
      Sentia-se inseguro como no instante de se atirar na piscina em
dia de competio. Mas isso no era nada: era um estado permanente
de angstia, crnico, suportvel -- era a fragilidade do ser diante da
brutalidade e da crueza da vida, mas era ainda a vida, o existir e se
saber presente. A evaso da realidade, o vrtice negro em que se sentira
cair ali na janela, como num poo,  que era a angstia, o desespero, a
negao de si mesmo -- o no-ser, o vazio, o nada. Sua testa comeou a
porejar suor, quando viu que o poo novamente se abria, tudo
comeava de novo a perder o sentido, suas foras faltavam e ele se
agarrava apavorado a uma idia qualquer para no ser tragado...
      -- No, no! -- balbuciava, e comeou a chorar. -- Meu Deus, me
ajude!
      Aos poucos veio vindo o apaziguamento, numa espcie de letargia
em que ele nada sabia de si mesmo e tinha medo sequer de se mover.
Deflagrada a crise, ficava agora alagado, destrudo, nada mais
germinaria ali, tudo seria remorso e solido. Desgraado! candidato ao
esquecimento.
      A noite veio encontr-lo na mesma posio, adormecido. Foi um
sono espesso e sem sonhos.
      Voltou para o Rio em estado de pnico. No disse nada a
Antonieta, mas se abriu com Trsio:
      -- No sei, estou doente, estou com esgotamento nervoso.
Deprimido, angustiado, o corao disparado...
      --  natural. A morte de seu pai...
      -- Natural nada. No senti a morte de meu pai, no consegui me
compenetrar sequer de que ele morreu.
      Resolveu procurar um mdico:
      -- Estou com taquicardia, doutor. Alguma leso, talvez. Um
estado permanente de expectativa, como  espera de um desastre, como
se fosse morrer a qualquer momento.
      -- Voc no tem nada no corao. Isso  angstia, e da boa.
Deve procurar um psiquiatra.
      Psiquiatra? Mas seria uma rendio, uma aceitao passiva de
sua desordem interior, seria o reconhecimento da loucura.
      -- No estou louco -- se afirmava. -- Tudo, menos louco. Sou o
sujeito mais equilibrado, mais saudvel, mais cheio de razo que existe.
      Lembrava-se de Chesterton:  o que perdeu tudo, menos a razo.
Neste caso estaria mesmo louco. Mas teria perdido tudo? Seus amigos,
seu pai, sua mulher? Sua vocao de escritor? Trancava-se no
escritrio, sentava-se diante da mquina e ficava horas e horas
tentando escrever alguma coisa -- no havia o que escrever. s vezes
Antonieta acordava no meio da noite, dava por falta dele, vinha busc-
lo:
      -- Assim no  possvel, voc acaba doente mesmo.
      -- Preciso escrever.
      -- Assim no  possvel...
      -- Eles me pegaram, Antonieta. Eles me pegaram.
      -- Eles quem? -- perguntava ela, apreensiva.
      Uma noite, depois de grande esforo, encontrou idia para um
conto: a histria de um escritor que de sbito perde por completo a
capacidade de escrever.
      -- E da? -- se interrogou, aflito. Escreveu apenas isto:
      "Era um homem de certo talento que cedo foi apanhado e se
mediocrizou. Agora est tentando achar um caminho e no consegue,
porque para descobrir o caminho para o talento  preciso talento."
      Leu o que escrevera e ps-se a rir:
      -- Deixa estar que isso  engraado. J  alguma coisa. E pode
ser um caminho...
      No dia seguinte props a Antonieta:
      -- Sabe? Precisamos mudar de vida, antes que eu enlouquea:
mudar completamente. Mudar de bairro, mudar de hbitos, de amigos,
de nome: eu passo a me chamar Joaquim e voc Guiomar.
      E acrescentou, vendo que ela o observava, assustada:
      -- Isso  brincadeira, ouviu? Isso de mudar de nome. Ainda no
enlouqueci.
      Transferiram-se para um apartamento maior, em Botafogo. Aos
poucos tudo ia se acomodando: tomavam gosto pelo lugar, mandaram
reformar os mveis, decorar as salas. O esforo que ele fazia era o de
quando voltara a nadar, anos antes. Desta vez haveria de vencer.
      -- Agora vamos ser felizes -- prometia.
      Vinha do servio diretamente para casa, trazia revistas para a
mulher. Um dia trouxe-lhe um presente: atendendo a sbito capricho,
entrou numa loja, comprou um colar, o que lhe pareceu mais bonito --
ele que no entendia dessas coisas. Antonieta achou graa:
      -- Que colar! Voc podia ter me dado o dinheiro, como faz sempre,
que eu mesma comprava.
      Ele riu tambm, conformado, sugeriu que dessem o colar 
cozinheira, E assim, eles iam vivendo, Antonieta o esperava todas as
noites, elegante com se fossem a uma festa. Iam ao cinema.
      -- Quero levar uma vida bem simples -- dizia ele. -- Viver para
voc, apenas. E para escrever.
      Agora   que      a   despesa   aumentara,   tivera   de   iniciar   uma
colaborao semanal na imprensa:
      -- Hoje eu tive uma idia...
      Aproveitava avaramente todas as suas idias, que no eram
muitas. Aos poucos elas iam frutificando, produzindo outras --
comeou a arquitetar um livro. Voltou a aperfeioar-se em ingls,
descobriu uma nova linha de pensamento: Morris, Ruskin, o catlico
Eric Gill:
      -- Esse sim, foi um homem de grande carter. Como eu gostaria
de ser. Comeou escrevendo livros, acabou cortando pedras.
      -- Uma carreira s avessas! -- ria-se Trsio.
      -- No seja imbecil: era um arteso, um entalhador. Artista e
operrio ao mesmo tempo. Voc precisa de ver as idias dele. Olha aqui:
"O artista no  uma espcie de homem; todo homem  que  uma
espcie de artista".
      -- Voc nunca mais teve aquelas coisas no? -- perguntava
Antonieta, preocupada.
      -- No: s vezes sinto uma ameaa, mas j tenho minhas defesas.
O segredo  ir para a frente e no para trs:  uma espcie de lodaal
em que a gente mete o p. Se parar para tentar arrancar o p, acaba
deixando o outro e se afundando a cada novo esforo, compreende?
Atolando-se no lodo at a boca, sabe como ?
      -- Voc  to mrbido...
      -- Ao contrrio, estou explicando a voc exatamente a maneira de
sair.  no parar, ir tocando para frente. O que ficou para trs, ficou,
no interessa. Recolher os despojos do naufrgio e deles fazer um
barquinho, sair remando.
     -- Voc est to excitado! No parou um instante. Por que no
descansa um pouco?
     Antonieta tinha razo: era preciso descansar, ter calma e
pacincia. Seu maior defeito ainda era a pressa, a ganncia de viver.
Organizou um declogo de conduta no qual pressa, vaidade, teimosia,
egosmo, disperso, eram defeitos a evitar, com o incentivo das virtudes
correspondentes:      calma,   modstia,   humildade,     generosidade,
concentrao. Em vez de falar, ouvir; em vez de responder, refletir; em
vez de decompor, reintegrar.
     No teve muita oportunidade de praticar tudo isso. Mesmo porque
no sabia por onde comear, e concluiu que ao artista era essencial
certo egosmo, do contrrio jamais exerceria sua imaginao criadora;
tambm certa vaidade em se sentir capaz de criar. Concluiu que s
vezes  mais importante perguntar do que ouvir a resposta; e se a
pressa era inimiga da perfeio, certo grau de imperfeio era tambm
indispensvel  obra de arte, para dar a medida do homem que a
produziu. O artista era uma espcie de homem! Reduziu, ento, suas
concluses a uma norma apenas: restringir-se ao essencial. Mas o que
era essencial? Para descobrir, muniu-se de um esquema de disciplina:
ordem, obedincia, respeito, lucidez e mtodo. Ps Trsio a par de suas
concluses.
     -- Voc assim, ainda acaba mal -- era o que dizia o outro,
sacudindo a cabea.
     Trsio: o nico amigo que continuava a freqent-lo. Slvio e
Vnia haviam embarcado para a Europa; Vitor tambm se mudara para
outro bairro, voltara a viver com Maria Elisa, estava pensando em
fundar uma editora. Diziam que j no levava a mesma vida, no bebia,
no saa  noite. Um que se salvava: para qu? Amorim ganhara
dinheiro ningum sabia como, comprara um carro, era visto rodando
por Copacabana. Joubert fora para So Paulo executar o famoso painel,
de l no voltara ainda. Lda, correra notcia de que estava vi- vendo
com um mdico, mudara-se para Niteri. E de Gerlane ningum mais
ouvira falar. Os outros, os que apareciam e desapareciam ao sabor das
circunstncias, conforme a poca, haviam se dispersado definitivamente
em outras rodas. Nunca mais Eduardo voltara ao bar da praia.
      -- O garom outro dia perguntou pela turma -- disse Trsio. --
Estive l. Ningum conhecido. S mulheres da vida e cafajestes.
      -- J era assim. Ns  que no notvamos.
      Influenciado pelas novas leituras, Eduardo procurava organizar
as idias, firmar as convices. No podia dizer que ainda fosse catlico:
de formao catlica, apenas. E era o bastante. Continuava a freqentar
a igreja, de vez em quando -- Antonieta nunca fizera questo de
acompanh-lo -- e, mesmo, a rezar distraidamente, uma noite ou outra,
j deitado, adiando sempre para o dia seguinte o problema de pensar no
assunto, fazer tambm uma reforma radical em tudo aquilo. Urgia,
antes, firmar uma convico -- pois vamos a ela: a industrializao foi
responsvel pela decadncia do mundo ocidental; o poder do Estado
deveria ser reduzido s menores propores, at desaparecer de todo,
cedendo lugar a uma espcie de sindicalismo que se propusesse a
eliminar para todo o sempre os males do estatismo: o nacionalismo e a
burocracia; a finalidade da poltica sendo a preservao do bem comum,
a liberdade, em ltima anlise, depende de uma organizao mais
racional da produo e distribuio.
      -- Serei um anarquista? -- se interrogava.
      No, era simplesmente romancista. E o romancista  um
inocente, no sabe nada seno escrever. Aprender a escrever. Regressou
 fico: aprender com os que sabiam, se preciso plagiar, mas plagiar
com    sabedoria,   com     verdadeiro   aproveitamento     das    idias,
desenvolvendo-as noutras idias -- e no apenas pastichar: escrever
para os dias de hoje como eles escreveram para o seu tempo. E isso j
no  plagiar,  recriar. Na literatura, como na natureza, nada se cria e
nada se perde: tudo se transforma.
      Trsio, a essa altura, comeou a cham-lo de La Palice.
      --  isso mesmo -- dizia o velho Germano: -- Mas voc tem de
fazer a obra nascer sozinha: no tire nem acrescente nada, seno
atrapalha. O importante  no colaborar.
        O velho Germano passava o dia inteiro de pijama na casa em
frente; quando no estava na varanda cuidando dos passarinhos,
estava no quarto de solteiro lendo os Evangelhos, um copo de usque na
mo:
        -- Foi bom voc ter aparecido, menino. Estou muito inteligente
hoje.
        Os dois conversavam durante horas. O velho era diplomata
aposentado, viajara pelo mundo, mas suas lembranas eram confusas:
        -- Paris  isso mesmo que dizem: d sempre a impresso de que a
gente chegou l com dez anos de atraso. Londres ningum nunca viu:
se tem fog no se v, e sem fog no  Londres. Em Jerusalm eu nunca
estive e no entanto nunca sa de l, imagine. Em Berlim tinha uns
meninos to bonitos... Mas no vamos falar nisso. Vamos ouvir um
pouco de msica, tem agora um programa muito bom.
        Pegava Eduardo pelo brao, levava-o para o banheiro. Seu rdio,
pequeno e barato, s funcionava no banheiro, em cima do aparelho
sanitrio. Sem se preocupar em descobrir a razo, o velho escutava
msica sentado no bid.
        -- Deve ser por causa do encanamento que serve de antena --
explicou-lhe Eduardo um dia.
        O velho Germano fitou-o longamente, desligou o rdio, levou-o
para fora do banheiro:
        -- Por isso  que voc no vai para a frente, meu filho. Entende as
coisas demais, quer encontrar explicao para tudo. Era to simptico
da parte dele, s tocando onde bem entendesse. Ento minha
privadinha  uma antena? Voc criou um problema para mim.
        -- Me desculpe.
        -- No tem importncia. A princpio eu achava que voc fosse
anjo, palavra. Custei muito a descobrir que no era.
        -- E por que no?
        -- Porque no tem asas. Voc j viu anjo sem asas? A nica coisa
que anjo faz  voar: ir daqui para ali, dali para l, feito um passarinho.
O passarinho  um poema de Deus. Deus  poeta, voc sabia? Qual,
voc conversa direitinho, sabe umas coisas, mas no sabe tudo no. Se
sabe, me diga por exemplo: que  o pecado?
      E o velho comeava a folhear os Evangelhos com os dedos vidos
-- um folheto gasto, esfacelado, em traduo portuguesa, distribudo
gratuitamente.
      -- O pecado  tudo que Cristo no fez. Se voc, por exemplo...
      -- Espere, espere. No seja apressado. Isso que voc falou tem
coisa, pelo menos parece muito grave. Espere:  tudo que Cristo no
fez... Olhe, vou at lhe servir um usque. Voc gosta de usque?
      -- Gosto.
      -- Mas gosta mesmo? Olhe l, hein?
      Servia-lhe um usque em dose medida rigorosamente:
      -- Voc no  anjo mesmo no. Muito espertinho, discute comigo,
toma meu usque. O que ns estvamos falando? Ah, sim, o pecado:
tudo que Cristo no fez? No, est errado: isso  exagero, voc est
querendo ser mais cristo que o prprio Cristo. Cismtico! V embora!
No quero mais conversar com voc.
      No dia seguinte, porm, voltava a receb-lo:
      -- Sabe de uma coisa, Eduardo? Estive pensando muito em voc.
Seu erro fundamental  lembrar em vez de recordar. H uma diferena
entre lembrar e recordar; recordar  reviver, lembrar  apenas saber. O
que  recordado fica, o que  lembrado  tambm esquecido.
      -- Kierkegaard j disse coisa parecida.
      -- J vem voc. Quem  esse? O jogador?
      -- No: um filsofo dinamarqus.
      -- Ah! Eu estava confundindo com Friendenreich, aquele jogador
de futebol. Pois se ele disse isso, ele  dos bons.
      -- Ele fala tambm nas "resolues negativas", essas que a gente
toma e que em vez de nos suportar, ns  que temos de suport-las.
      O velho ficou pensando.
      -- , isso  importante... -- comentou afinal, balanando a
cabea: -- Voc veja, por exemplo, o problema do pecado: a grande
dificuldade diante do pecado est em que para combat-lo temos de
tomar resolues negativas. O homem resolve no pecar, isto , negar
alguma coisa que j existe, para recuperar sua condio original, que
no existe ainda.    Com o suicdio, por exemplo,  a mesma coisa: o
homem resolve suicidar-se, mas nunca poderia resolver no se suicidar,
como resoluo afirmativa. Estou certo ou errado?
     -- Est errado: o suicdio tanto pode ser afirmao da morte como
negao da vida. Tanto faz.
     --  mentira! -- bradou o velho, exaltado: -- Olhe a morte de
frente! Se voc olha para trs, Deus pode te castigar, te transforma
numa esttua de sal. Eu vou explicar: o suicida  aquele que perdeu
tudo, menos a sua vida. Quis salv-la e quem quiser salvar a vida a
perder. No soube renunciar a si mesmo, no soube morrer -- por isso
se matou. O pecado dele  uma resoluo afirmativa. A luta contra o
pecado  a luta contra o suicdio. E no entanto, com a resoluo
negativa de continuarmos vivendo, estamos sustentando o mundo. Veja
o exemplo de Judas: condenou o mundo se suicidando. Porque a
salvao do mundo s poderia vir do Cristo.
     Eduardo o olhava, estupefato: lembrava-se de uma conversa sua
com o diretor do ginsio, fazia tantos anos, em que dissera
praticamente a mesma coisa, por pouco no fora expulso. Mas o velho
Germano j estava meio bbado:
     -- E h mais: h pecados para dentro e pecados para fora, 
preciso distinguir. Pecado para dentro: orgulho. Para fora: assassinato.
Pecados ativos e pecados passivos. Sabe que seu grande mal so os
pecados para dentro? Se voc talvez pecasse um pouco para fora... Mas
voc no pode, seu grande mal  o orgulho -- e sem orgulho voc  um
homem liqidado.
     Antonieta no via com bons olhos aquela amizade:
     -- Tem cabimento voc passar horas e horas conversando com
esse velho maluco?
     Eduardo ria:
      -- Talvez eu seja mais velho do que ele...
      Germano no riu, pelo contrrio, se fez srio.
      -- Sabe, Eduardo? Voc no  mais velho do que eu: voc  uma
coisa sem idade. A eternidade de seu esprito impregnou seu corpo, de
modo que parece que o corpo est se tornando imortal e em
conseqncia o esprito envelheceu. Da o desequilbrio. Talvez uma
cadeira de rodas resolvesse seu problema. Voc paraltico, por exemplo,
para castigar o corpo, conter o corpo e soltar o esprito. Voc faria
verdadeiras proezas na sua cadeirinha de rodas, circulando para l e
para c, rindo satisfeito, abrindo porta, subindo escada. Que grandeza!
Que despojamento, que liberdade! J no peo tanto: ao menos se voc
capengasse, quando anda, arrastasse uma perna... Por que voc no
passa uns tempos arrastando a perna, para experimentar?
      Aproximou-se, segurou-o pelos ombros, nervoso, excitado, com
ficava sempre que bebia:
      -- Sabe de uma coisa, meu aleijadinho? Vou lhe dizer, preste
ateno: um dia, faz tempo, li um livro, parece que de Dostoievski. Me
lembro de uma cena em que um rapaz vai visitar o mstico, em
companhia do irmo mais novo, que tambm era mstico -- o rapaz no,
o rapaz era estroina -- ento o padre no d importncia ao irmo mais
novo, mas cai aos ps do rapaz e beija-lhe os sapatos chorando, depois
diz: "Fao isso pelo que voc ainda vai sofrer". Pois bem: estou sentindo
que devia fazer o mesmo com voc.
      Eduardo o olhava, constrangido. Tentou sorrir, mas sentiu
lgrimas nos olhos. De sbito, o velho ergueu a mo espalmada e
esbofeteou a prpria face com violncia:
      -- Toma, fariseu! Para aprender a se calar.
      Eduardo lhe falava de seus amigos de Minas. Germano se
afeioava a eles, sem conhec-los, comentava um e outro:
      -- Deixa Mauro beber, que  que tem?  o caminho dele. Ele se
salva, fique tranqilo. S que me parece muito distrado e isso  mau,
um poeta no pode ser distrado. Hugo  que ainda no sei bem: ele tem
olhos verdes? Se tivesse olhos verdes estava explicado. Gostaria de
conversar com ele para ver se sabe umas coisas que todo poeta deve
saber. Se sabe, por exemplo, que a lua  uma vaca.
      Uma noite Eduardo convidou-o para jantar. Germano despiu pela
primeira vez o pijama, barbeou-se, penteou-se, vestiu-se elegantemente
-- palet mescla e cala listrada -- e cruzou a rua. Antes de se
sentarem  mesa, j se fizera amigo de Antonieta:
      -- Essa palhacinha finge que no sabe as coisas -- dizia,
entusiasmado -- mas acho que sabe mais do que ns dois. Quer ver?
      Para Antonieta:
      -- Que dia  hoje, palhaa?
      -- Dia 15.
      Para Eduardo:
      -- Voc sabia que hoje era dia 15?
      -- No...
      -- Eu no disse? -- e de novo para Antonieta: -- Que dia da
semana?
      -- Segunda-feira.
      -- De que cor?
      -- Segunda-feira? Acho que cinzenta...
      -- Isso mesmo! s vezes  branca. E tera-feira?
      -- Verde?
      -- No! Verde  quinta-feira. Tera-feira  amarela. Quarta-feira 
marrom. E sexta-feira  engraado: muita gente pensa que  alaranjada,
e no entanto no :  cor-de-rosa, voc sabia?
      -- Cor-de-rosa no  domingo, no? -- perguntou ela.
      -- No: domingo  outra cor, vamos ver se voc descobre.
      -- Vermelho -- arriscou Eduardo.
      -- Cala a boca. Voc no sabe nada. Vamos, menina!
      -- Dourado! -- concluiu Antonieta.
      -- Isso! -- e o velho se ergueu, beijou-a na face, contente como
um professor: -- E sbado  azul.  o ouro sobre o azul.
      Findo o jantar Eduardo preparou-lhe um usque -- comprara
uma garrafa especialmente para ele.
      -- Sabe, Germano? -- comentou, enquanto servia: -- Essa
histria das cores dos dias da semana  interessante, mas Rimbaud fez
melhor: descobriu as cores das vogais.
      Germano o olhou, cauteloso:
      -- Quem? o Poetinha?
      -- Poetinha? Voc chama Rimbaud de poetinha? Aos dezessete
anos era um dos casos mais srios da literatura.
      -- No se  srio quando se tem dezessete anos.
      -- Mas isso  justamente um verso dele! -- exclamou Eduardo,
admirado. -- "On nest pas serieux quand on a dix-sept ans".
      -- Est vendo? -- o velho se voltou, vitorioso: -- No precisa
traduzir que eu sei francs.
      E se levantou, despedindo-se:
      -- Preciso ir embora, me levanto muito cedo. Tem um bem-te-vi
que me acorda toda madrugada. Posso levar a garrafa?
      Empunhou a garrafa de usque e abraou-se a Eduardo:
      --     Vamos   fazer   as   pazes?   Tem   domingo   vermelho,   sim.
Especialmente na Espanha.
      Antes de sair, voltou-se para Antonieta:
      -- Ia lhe dizer agora uma coisa muito importante. Mas  to
importante que prefiro no dizer. S  sincero aquilo que no se diz.
Boa noite.
      -- Ento isso tambm no  sincero -- sorriu ela.
      -- Tambm no. S o silncio  sincero. O silncio de uma pessoa
dormindo, por exemplo. Como  sincero algum dormindo! Sincero
como uma flor. Imagine se uma flor falasse, que ridculo no seria. Por
isso  que eu no gosto de desenho animado. Dormindo  que cada um
se revela, por causa do silncio, ou seja: feito  imagem e semelhana
de Deus.
      -- E os que roncam? -- gracejou Eduardo.
      O velho fulminou-o com o olhar:
      -- Quem ronca no homem  o demnio. A luta se trava at dentro
do sono, s cessa com a morte. Os mortos no roncam, seu doutor,
porque Deus vence sempre. O silncio  a linguagem de Deus. No
princpio era o Verbo, vocs sabem o que  isso? O silncio, o espantoso
silncio do princpio. Ah! o verbo e o silncio so a mesma coisa. Que
coisa bonita que eu falei, minha Nossa Senhora.  preciso escutar o
silncio, no como um surdo, mas como um cego! O silncio das coisas
tem um sentido. Quem no entende isso no entende nada.
      Eduardo se viu de sbito transportado a uma noite j longnqua,
no Parque, diante da esttua de Anita Garibaldi. O demnio mudo.
      -- E a msica? -- desafiou.
      -- A msica -- o velho traou com o dedo uma pausa no ar --  a
expresso mais completa do que estou dizendo. Ou do que no estou
dizendo, pois  preciso ouvir apenas o que no se diz. Quem tiver
ouvidos para ouvir, oua. Eu ia chegar nela. A msica tambm 
silncio. Bach sabia disso, Mozart tambm. Beethoven s soube quando
ficou surdo. O ar no  silencioso? O vento no faz barulho? E que  o
vento seno ar? A msica  o silncio em movimento.
      -- O mesmo com as palavras.
      -- No senhor: as palavras esto em quem fala e em quem escuta.
O   silncio   fica   entre   os   dois,   intocado,   um   silncio   enorme,
intransponvel. Ao passo que a msica est nela mesma, isto , no que
resta alm de ns. E o resto  silncio. Adeus.
      J  porta:
      -- Reparem como o meu silncio  mais sugestivo do que
qualquer palavra.
      Olhou fixamente o casal durante algum tempo e voltou-se, solene,
cruzou lento a rua, a garrafa de usque na mo.
      -- Que homem extraordinrio -- disse Antonieta, deslumbrada.
      -- Voc no viu nada -- disse Eduardo, rindo. Passaram a visit-
lo juntos quase todas as tardes.            s vezes Antonieta ia sozinha,
Eduardo chegava da rua e a encontrava l, em conversa com o velho.
      -- Esta menina sabe as coisas -- dizia ele.
      Eduardo se alegrava com a mudana que sentia na mulher. J
no queria sair, ir tanto ao cinema, passear em Copacabana. Preferia
ficar em casa  noite, lendo as revistas que ele lhe trazia. Enfim,
pareciam constituir um casal feliz. Eduardo fazia planos literrios --
um livro de ensaios, por que no? Faltava um crtico  sua gerao, no
era isso mesmo? Antonieta pensava em aprender alguma coisa, tomar
aulas particulares -- costura, datilografia, francs, ginstica, culinria.
Desde que terminara o colgio, no estudara mais nada, queria sentir-
se til, encher seu tempo. No faziam nada disso e  noite se buscavam
sem pressa, para cumprir pacificamente os deveres de estado. Essa era
a felicidade, pois. A rotina no sendo afinal o temido fantasma do tdio,
mas a ordem, o equilbrio, a permanncia tornados hbito. Que se
amassem apenas, no bastava; era preciso principalmente amar em
comum alguma coisa alm deles, e isso o que buscavam -- seguissem
vivendo paralelo como dois trilhos, eles nunca se encontrariam. E assim
 que se poupavam, no mais aflitos, mas de prontido, a casa
arrumada como  espera de uma visita.
       Eduardo voltou a Belo Horizonte duas vezes. Dona Estefnia, com
a morte do marido, estava velha, acabada. Continuava morando na casa
dos parentes, reclamava do filho no ter cumprido a promessa feita ao
pai:
       -- Voc no terminou seu curso, meu filho. Ele fazia tanta
questo.
       -- Este ano vou me reinscrever na Faculdade -- mentia ele com
pacincia.
       Da ltima vez no chegou sequer a avistar-se com Mauro e Hugo:
       -- Mauro est um caso srio -- lhe disse o Veiga, sempre  frente
do jornal. -- H pouco tempo foi preso numa arruaa na zona bomia.
Iam mudar a zona de bairro, despejar as mulheres, Mauro ento
promoveu um verdadeiro comcio, queria fazer uma passeata com elas
at o Palcio do Governo.
       -- E Hugo?
       -- Hugo vive s voltas com um jovem poeta, aluno dele, um
negcio meio escandaloso. Todo mundo comenta, s ele no percebe.
Imagine que o menino foi expulso do colgio...
      Voltou para o Rio desgostoso, em vo tentou esquecer os amigos.
Eles que se danem! Por que no vieram tambm? Mas acabava
escrevendo a ambos longas cartas, quando  noite a lembrana deles o
perseguia, tirando-lhe o sono. Recebia respostas lacnicas; de Hugo,
apenas meia dzia de linhas mordazes: "Prncipe, voc  dono de uma
verdade, eu no sou dono nem de meu nariz. Sou apenas o destinatrio
humilde de sua brilhante literatura epistolar". De Mauro recebeu um
pedido de dinheiro: " natural, voc tem e eu no tenho. Para escrever
poemas, como voc quer, preciso comprar papel, uma caneta, cigarros e
as obras completas desse poeta ingls que voc citou, como  mesmo o
nome dele?" Eduardo lhe passou um telegrama: "Cames morreu na
misria". Mauro lhe respondeu: "Porque no lhe deram emprego na
Prefeitura de Lisboa".
      No tendo outra coisa a fazer, deu mais um balano em sua vida.
Para surpresa sua, apurou um saldo -- pelo menos no tinha de que se
queixar, como Mauro, Hugo e tantos outros: estava bem de vida. Seus
vencimentos na Prefeitura haviam aumentado, com uma pequena
comisso nas multas, agora aprovada -- por este lado no tinha com
que se preocupar. Ainda assim, continuava a escrever artigos semanais,
seu nome ia-se tornando conhecido. Trsio ainda aparecia de vez em
quando:
      -- Essa calmaria me assusta um pouco. Eu teria medo...
      E Antonieta finalmente esperando um filho. Eduardo foi levar a
notcia ao Germano. Da ltima vez que o procurara o velho lhe pedira
que se retirasse: "No posso conversar. Eu hoje estou de mal comigo".
Agora, porm, o recebia com os olhos molhados:
      -- Sabe Eduardo? Estou chorando por sua causa: essa tristeza
antecipada diante das fatalidades que a gente no pode mudar...
                                                    II -- O AFOGADO




      EM   ALGUM   lugar dentro da noite um telefone toca sem parar mas
ele no ouve nada. Vai caminhando com deciso, prosseguindo na sua
busca. Atravessa ruas, dobra esquinas, sobe escadas, bate em portas,
entra, pergunta, olha; sai, torna a andar. Procura entre os rostos que
passam, que riem, que se mexem, e se escondem atrs de outros rostos.
Na esquina h um letreiro luminoso, mas basta, j esteve aqui, no h
cabar, nem dancing, nem botequim, nem penso que no tenha
esquadrinhado -- nuns dizem que no, noutros dizem que sim mas vo
ver esto enganados, noutros no dizem nada. Portas que no se
abrem, bocas que no se abrem, olhos que nada viram, uma mesa e
quatro cadeiras, cerveja, vestidos de cetim, seios e axilas, o garom
eunuco no sabe de nada, a gorda de olheiras nunca ouviu falar,  uma
procura intil, dez anos j se passaram.
      -- Gerlane -- insiste ele. -- O nome dela  Gerlane.
      Pela porta aberta uma ponta de cama baixa, coberta vermelha,
uma luz vermelha, saia de feltro vermelho de uma boneca na cadeira.
Uma perna, duas pernas. Perfume, vaselina, esperma.
      -- Marlene? Tenho uma menina aqui chamada Marlene, mas ela
agora est ocupada. O senhor no pode esperar?
      -- Marlene no: Gerlane -- corrigiu. Esta no sabe, nem esta,
nem esta outra, uma cabeleira loura se volta com espanto, Gerlane? e a
boca vermelha maior do que a boca sorri uma falha de dois dentes
assim meio de lado, no, me desculpe, no conheo, mas como 
mesmo o nome dela? Gerlane, Gerlane, Gerlane -- repete ele para os
sapatos que desistem a cada degrau. Enquanto isso o telefone continua
a tocar, h um sculo, sem parar, longe, muito longe, sem parar, ser
interurbano?
      Estendeu o brao ainda de olhos fechados, tateando. A mo bateu
no despertador  cabeceira da cama e o atirou no cho, a campainha
ainda disparada. Completamente acordado, ergueu-se de um salto e
procurou prend-lo nas mos como um pssaro assustado.
      -- Quem diabo botou este despertador? -- resmungou.
      -- Voc mesmo, quem havia de ser? -- respondeu Antonieta, l do
banheiro. -- Hoje voc no vai trabalhar?
      Eduardo dirigiu-se ao banheiro em passos pesados. A lembrana
do sonho o perseguia: por que prostituta? Abriu a torneira da pia,
deixando escorrer algum tempo o jato de gua fria at tomar coragem.
Prostituta? Tentou relembrar tudo, mas o sonho se perdia j,
escorrendo na memria como a gua entre os dedos, misturando-se s
lembranas da noite. Inclinou-se e molhou agitadamente a face, os
cabelos. Qualquer coisa de dez anos passados...
      Ficou a olhar Antonieta que, sentada na borda da banheira, se
ocupava em raspar os plos da perna. Era uma mulher, a sua mulher.
Uma bela mulher -- dessa beleza que um dia, pela manh, haveria de
desaparecer do rosto sem deixar vestgios. O corpo jovem tinha j certo
ar de coisa usada que pode passar por nova e ele de algum modo era
responsvel por tudo que lhe viria a acontecer: rugas, gordura,
disformidade, cabelos brancos, dores no fgado ou no tero, doena,
morte. Dela finalmente nasceria o filho, que ainda no se adivinhava --
e para isso a mulher fora feita. No mais, era apenas aquilo: um feixe de
nervos e carnes em cima dos ossos, um conjunto de glndulas, vsceras,
vasos, sangue, humores, tudo coberto de uma pele macia, delicada, boa
de se passar a mo...
      -- O que  que voc est me olhando? -- perguntou ela.
      Plo nas pernas.
      -- Voc est usando meu aparelho -- queixou-se ele. -- Quero
fazer a barba.
      -- Toma. J acabei.
      Pernas. Coxas, a confluncia das coxas, plos escuros sob a
camisola transparente. Ela lhe estendeu o aparelho de barba mas ele,
em vez de segur-lo, tomou-a pelo brao, puxou-a para si:
      -- Vem.
      Ela virou o rosto para que ele no a beijasse.
      -- Que  isso, Eduardo. Tome modos. Voc nem escovou os
dentes, ainda est cheirando a bebida.
      -- Me desculpe -- disse ele, respirando fundo e largando-a. --
Bebi um pouco ontem.
      -- Seu leno est todo sujo de batom.
      Ele sorriu, apreensivo:
      -- O que  que voc tem de ficar mexendo nos meus bolsos?
      -- No mexi em coisa nenhuma. No grite comigo, no. Voc
deixou o leno atirado na cadeira. Nem ao menos tem o cuidado de
esconder.
      Eduardo escorou a cabea nas mos em frente  pia, desanimado.
 verdade, como fora esquecer de jogar fora o leno?
      -- No precisa se zangar: voc acha que se o leno fosse meu, eu
teria trazido para casa? -- disse, sem convico.
      Ela no queria, mas acabou perguntando:
      -- De quem , ento?
      -- Do Trsio. Entornou usque na minha roupa, pedi o leno dele
emprestado, distrado guardei no bolso.
      -- No me consta que o Trsio usa batom.
      -- Gerlane usa. Trsio tem um caso com ela.
      Imediatamente se arrependeu. Tudo, menos tocar nesse nome.
Mudar logo de assunto:
      -- Voc no tem mais sentido enjos, tem?
      -- Depende do que voc chama de enjo -- respondeu ela, e ele
prudentemente no disse mais nada.
      No mesmo dia preveniu Trsio:
      -- Se Antonieta lhe falar qualquer coisa de leno, agenta firme.
      -- O que  que voc andou arranjando?
      -- Gerlane.
      -- Outra vez? Isso anula acaba mal.
      -- No tenho nada com ela. Somos amigos, apenas.
      -- Para cima de mim, Eduardo?
      -- Ela  meio doida: disse que tem complexo de ser virgem.
      -- Fcil de curar.
      -- Vou estar com ela, hoje, pela ltima vez.
      -- Conta essa para outro.
      Estavam no bar da cidade, onde costumavam se encontrar todas
as tardes.
      -- Voc no acredita, mas eu, realmente, na minha situao, voc
compreende, no pretendo absolutamente, voc compreende?
      -- Eu compreendo -- encerrou Trsio.
      Que diria a Antonieta? Depende do que voc chama de enjo. Um
filho, um filho seu afinal, era o que esperava para levar afinal uma vida
reta, tranqila, feliz, como sempre quisera. Sempre no quisera? Afinal.
Pois ento? Tinha de imaginar uma desculpa bem convincente, vrias
noites seguidas! Dois sambistas amigos de Trsio haviam se chegado 
mesa, um deles lhe explicava que muitos sambas de Noel Rosa na
verdade no eram de Noel Rosa.
      -- J me disseram... J me disseram... -- concordava, distrado.
O desejo que sentira por ela naquela manh, como um remorso.
Antonieta o que pensaria? Uma desconhecida, sua prpria mulher. No
desejava mais nada seno Gerlane.
      -- Vocs me desculpem, mas vo me dar licena... Tenho um
encontro...
      Algum que chegara recentemente dos Estados Unidos se sentara
com eles e falava muito, contava casos de l:
      -- Eles esto se preparando para uma nova guerra, vocs nem
tenham dvida.
      Levantou-se, foi ao telefone:
      -- No vou poder jantar em casa -- disse simplesmente. No
tinha mais nimo de mentir.
      -- Eu j sabia -- respondeu Antonieta, num tom neutro: -- Nem
precisava avisar.
      Desligou o telefone, amargurado: por que diabo as mulheres no
podiam entender certas coisas? Se chegasse para ela e dissesse:
Antonieta, voc me desculpe, mas estou apaixonado por Gerlane, isso
no dura muito, voc agenta mais um pouco, tenha pacincia que
assim que acabar vou me dedicar inteiramente a voc, saber finalmente
quem voc ... Seguiu direto para o bar do encontro em Copacabana --
um bar fechado e discreto onde j tinham estado outras vezes. Eram
dez horas da noite.
      Ao segundo usque (e eram j seis, com os que tomara no outro
bar) convenceu-se de que ela no viria. Onze e meia -- mais de uma
hora de atraso. O bar quase vazio, como um palco, dois casais
abraados na penumbra e esquecidos de tudo, o garom cochilando
atrs do balco, uma cano francesa a tocar em surdina. Deixou
pender a cabea: quando ela chegar j estarei completamente bbado.
       meia-noite em ponto a porta de vidro se abriu. Ergueu os olhos
ansiosos -- a chegada de Gerlane lhe parecia agora algo de
imprescindvel como se estivesse para decidir o seu destino -- e deu
com um homem magro, alto, plido, vestido de smoking, cravo vermelho
na lapela, e que o olhava da porta. Devia estar a caminho de alguma
festa. Veio sentar-se na mesa ao lado e o garom, voltando  realidade,
se apressou em servi-lo.
      -- Pippermint -- pediu o desconhecido. Sua voz era clara e
precisa como a de um locutor. "Algum artista do cinema nacional",
concluiu Eduardo, voltando a pensar em Gerlane. Estava indeciso entre
pedir mais um usque e ir embora imediatamente. Antes de tudo,
precisava comer alguma coisa -- se esquecera de jantar e da aquela
sensao de leveza, de insegurana, que lhe viera de sbito, como
trazida pelo vento frio quando a porta se abrira. Foi ento que o homem
a seu lado lhe dirigiu palavra:
      -- Pode me informar as horas?
      Consultou o relgio:
      -- Meia-noite. Mas parece que est parado -- e levou-o ao ouvido
para se certificar: -- Est parado. No deve ser muito mais do que isto.
      O homem sorriu:
      -- No tem importncia... Um relgio parado at que  bom: d a
impresso de que conseguimos sair fora do tempo.
      Eduardo o olhou, intrigado:
      -- Eu j no o conheo de alguma parte?
      O homem provou o lquido verde que o garom lhe trouxera num
clice:
      --  possvel. Daqui mesmo, talvez. Venho sempre aqui.
      -- Vai a alguma festa?
      -- Vou. Passei por aqui s para matar o tempo. Mas j que o
tempo parou... -- e o homem acendeu um cigarro americano.
      No ntimo Eduardo lastimou que ele logo pagasse a despesa para
partir. Gostaria de conversar com quem quer que fosse -- Gerlane no
viria mais e no tinha disposio de ir para casa, ela ainda viria.
      -- Voc  escritor, no? -- perguntou-lhe o homem, enquanto
esperava o troco. Espantou-se:
      -- Como  que voc sabe?
      -- Eduardo Marciano... -- sorriu o desconhecido: -- Conheo de
nome. Domingo passado escreveu um artigo sobre a tcnica do
romance.
      Pensou em convid-lo a tomar um ltimo, mas se conteve:
lembrou-se de incidente semelhante, anos atrs, num trem, o professor
de medicina que o reconhecera.
      --- J vai embora? -- limitou-se a dizer, quando o homem se
levantou. -- Ainda  cedo...
      -- Nem cedo nem tarde, pelo seu relgio. Mas ainda havemos de
nos encontrar.
      O homem se despediu e partiu. Pronto, estou sozinho -- correu os
olhos em torno. Os dois casais haviam sado sem que ele percebesse, o
garom voltara a inexistir atrs do balco. Devia ser mais de uma hora.
Sozinho. Como sempre desejou viver! Podia se estender de comprido e
dormir. Podia chorar, podia tomar veneno, morrer. Sozinho -- sozinho
no mundo, isolado, incomunicvel, fora do tempo, abandonado,
perdido... Mudou com esforo a ordem dos pensamentos, tentou
reanimar-se dentro de sua embriaguez: angustiado diante da angstia,
o poo negro em cujo vrtice fora apanhado uma vez, em Ouro Preto.
"No tem perigo; a mo de Deus est pousada na minha cabea".
      -- , mas a pacincia de Deus tem um limite.
      Ergueu os olhos: quem falara aquilo? Ele prprio? No viu
ningum. Ele prprio, ento. "Estou mesmo bbado", decidiu-se.
      s duas horas Trsio e os dois sambistas irromperam no bar e o
encontraram cochilando. Acordaram-no s gargalhadas:
      -- Voc ainda aqui?
      -- Ele tinha um encontro com ele mesmo.
      --  isso! E nenhum dos dois apareceu.
      As risadas estouraram. Eduardo se reanimou:
      -- Sabem de uma coisa? -- a voz j pastosa se recusava: --
Estava aqui pensando um samba formidvel: "Sinto a mo de Deus na
minha testa". Trsio, o que  que eu devo tomar para rebater um
pileque e iniciar outro?
      -- O que voc estava tomando?
      -- Usque.
      -- Ento toma outro.
      Todos riram, como se o que Trsio dissera fosse irresistivelmente
engraado. O garom serviu-lhes usque. J no sabiam bem o que
diziam:
      -- Surgiu um sujeito aqui que me disse que eu estou fora do
tempo -- olhando o relgio: -- Olha a, meia-noite s.
      -- Ento vamos tomar mais um.
      -- Garom, mais um!
      -- Assim ns ainda vamos acabar bbados.
      -- E disse tambm que  isso mesmo, que hoje  sempre...
      -- Por que voc no quebrou a cara dele?
      -- Como  mesmo o samba? A mo de Deus, o que  que tem?
      -- Na minha testa. Oh Trsio, voc acha que vale a pena telefonar
para ela?
      -- Para a mo de Deus? -- e um dos sambistas disparou a rir.
      -- No seja imbecil -- protestou, magoado.
      -- Olha, rapaz -- e Trsio inclinou-se para ele, falando com
dificuldade: -- Nesse seu negcio com Gerlane eu no me meto. Sou
gato escaldado.
      -- Ento ao menos tire a na minha caderneta o telefone dela, que
eu me esqueci. J no estou enxergando mais nada.
      Trsio segurou com dedos grossos a caderneta que lhe era
estendida, ps-se a folhe-la.
      -- Voc est olhando no W, sua besta.
      -- Dabli! Dabli! -- fez um dos sambistas, e entornou um copo.
      -- Oba! -- gritou o outro.
      Dirigiu-se em passos trpegos ao telefone. Em pouco ouvia a voz
sonolenta de Antonieta.
      -- Gerlane? Voc...
      De Antonieta?
      -- Onde  que voc est? -- perguntou afinal, tudo se
confundindo na sua cabea.
      -- Estou em casa, voc no ligou para c?
      Sem uma palavra, Eduardo desligou o telefone. "Oba, digo eu",
murmurou, perplexo, e voltou para a mesa:
      -- Mulher  glndulas.  tudo glndulas.
      -- Voc hoje est muito endocri... nolgico -- gaguejou Trsio.
      -- Tudo glndulas. Eu vou-me embora, v quanto  minha parte.
      Olhou o relgio. "Meia-noite. Est mesmo na hora de ir para
casa". Eram trs horas da manh. Deixou os trs empenhados numa
discusso:
      -- Ento o samba nasceu na Bahia? Ora, vamos deixar de
bobagem, Motinha.
      Tomou um txi na esquina, foi conversando com o motorista para
no dormir. Falavam em poltica.
      -- Os Estados Unidos esto se preparando para uma nova guerra,
o senhor nem tenha dvida.




ANTONIETA no lhe disse nada sobre o telefonema. Ele prprio havia
esquecido que telefonara. Mas naquela mesma manh ela comeou a
sentir-se mal, queixando-se de dores.
      --  assim mesmo -- tentou ele. -- Nesta fase...
      Quando as clicas ficaram insuportveis e ela comeou a perder
sangue, chamaram o mdico.
      -- Melhor vermos isso no hospital -- ordenou ele depois de um
rpido exame.
      Trs dias mais tarde ela estava novamente em casa, j
restabelecida. O mdico lhe recomendou apenas um pouco de repouso:
      -- Ainda bem que a coisa se precipitou por si mesma. Vocs
devem dar graas a Deus. Gravidez tubria costuma s vezes ser bem
complicada.
      Eduardo procurava consol-la nos dias que se seguiram, no
arredando p de casa:
      -- No tem importncia, meu bem. Voc j est quase boa, ainda
podemos ter outro filho...
      Ela chorava:
      -- Nunca mais quero ter outro -- e pela primeira vez parecia olh-
lo com dio.
      -- Voc me olha com dio, como se eu fosse culpado.
      Mas no ntimo se sentia mesmo culpado, com se a perda do filho
fosse decorrncia da vida que vinha levando -- e tentava ferozmente
esquecer Gerlane. Por que fora se meter naquilo? Logo agora, que tudo
parecia ir to bem, a mudana de casa, o esforo para recomear. Era
intil, vivia sempre recomeando, no nascera para vencer, mas para
encher    raia,   tirar   o   terceiro    lugar.   Gerlane   surgindo-lhe
inesperadamente no caminho quando j se julgava a salvo com sua
mulher: era intil, o filho perdido, ele prprio perdido.
      Passou duas semanas sem v-la. Um dia, enfim, a encontrou no
ateli de Joubert. Ali se tinham visto pela primeira vez:
      -- Eu fazia uma idia completamente diferente de voc -- ele
dissera, desapontado. Os cabelos aparados rente davam-lhe certo ar de
rapazinho vestido de mulher: a blusa de malha colada ao peito quase
liso e o corpo esguio nascendo de ancas largas, adultas, as pernas
longas e fortes. Qualquer coisa de bailarina, de menina de circo, de
modelo mesmo para pintor. Nada da mulher a que ningum resistia,
que se acostumara a imaginar.
      -- Que idia voc fazia?
      -- Pensei, por exemplo, que voc posasse inteiramente nua.
      Agora, porm, no dizia nada -- limitava-se a mir-la em silncio.
Mal respondeu ao seu cumprimento.
      -- Voc est sumido -- insistiu ela. -- Por onde tem andado?
      -- Em casa -- respondeu, com raiva. -- Por que voc no
aparece? Minha mulher teria muito prazer.
      -- O prazer seria todo meu. Gostaria muito de conversar com
ela... umas coisas sobre voc.
      Ele mudou de tom:
      -- Por que voc no foi ao nosso encontro?
      -- Que encontro?
      -- Voc sabe muito bem.
      -- Porque no gosto de me encontrar com homens casados.
      -- Vamos deixar de brincadeira, Gerlane. Ento  assim que se
faz? Me deixar esperando?
      -- Voc esperou porque quis.
      -- Voc me disse que ia.
      -- Mudei de idia.
      -- Podia ao menos ter avisado.
      -- Me esqueci.
      Segurou-a pelos pulsos, irritado:
      -- Escuta, menina, voc est facilitando muito comigo. Ainda
acabo perdendo a pacincia.
      -- Me larga, voc est me machucando! Joubert, olha esse bruto
querendo me bater.
      Joubert limpava pachorrentamente um pincel e nem se deu ao
trabalho de olhar:
      -- Veja l, rapaz, no vai me estragar o modelo.
      -- Vem comigo -- disse, puxando-a pelo brao.
      -- Aonde?
      -- Vamos tomar alguma coisa.
      -- J falei que no saio com homens casados.
      Ele ficou indeciso, acabou rindo:
      -- Ah, no? E Amorim, o que ?
      -- Desquitado. E no vejo Amorim h sculos.
      -- Para mim  a mesma coisa.
      -- Eu sei que voc  um puritano.
      -- Puritano  a me -- estourou ele, e saiu sem se despedir.
      Encontrou Antonieta se vestindo para um jantar:
      -- Pensei que voc tinha se esquecido -- disse ela. -- J estamos
arrasados. Eu at j tinha ligado para o bar.
      -- Pois fez muito mal, j te disse que no tem graa nenhuma
ficar telefonando para tudo quanto  lugar  minha procura. O que 
que os outros vo dizer?
      -- Vo dizer que voc em vez de vir para casa vai para o bar.
      -- H vrios dias que estou vindo do servio direto para casa.
Hoje custei a achar conduo -- e sentou-se na cama, desanimado: --
Que jantar  esse?
      -- Eu sabia que voc tinha se esquecido: hoje . aniversrio de
papai, te avisei que ns amos jantar l.
      Antes que ele pudesse responder, o telefone tocou. Foi atender,
era Gerlane.
      -- Preciso muito falar com voc -- a voz dela era ansiosa,
descontrolada: -- Voc pode sair agora?
      -- Ah, sim, pois no -- confirmou, num tom neutro. -- Pode
deixar que eu aviso a ele.
      Voltou para junto de Antonieta, que acabava de se pentear em
silncio:
      -- Recado para Trsio -- explicou.
      -- De Gerlane?
      -- No. Por que havia de ser de Gerlane?
      -- Voc disse outro dia que ela tem um caso com ele.
      -- No, era o Motinha -- esclareceu, mudando de tom: -- Um
sambista a amigo dele. Disse que se o Trsio aparecesse, no deixasse
de procur-lo na Rdio ainda hoje.
      E continuou sofregamente a desenvolver a mentira:
      -- Trsio deu agora para andar com essa gente, acho que vai fazer
um programa de rdio, ou coisa parecida. Imagine voc, Trsio no rdio.
Olha, eu vou sair um instante, me esqueci de comprar cigarro.
      -- Tem cigarro na gaveta da penteadeira.
      -- Voc agora deu para fumar? -- e saiu sem esperar resposta.
      Ligou para Gerlane do botequim da esquina:
      -- Voc est ficando doida, telefonar l para casa? Que
aconteceu?
      -- Preciso me encontrar com voc de qualquer maneira.
      -- Hoje  impossvel, tenho um jantar. Amanh.
      -- Tem de ser hoje. Agora.
      -- J disse que hoje...
      -- Um instante s, por favor! Te espero na esquina.
      -- Voc no pode ao menos me dizer o que aconteceu?
      Saiu do botequim ansioso, desnorteado, em vez de voltar para
casa tomou um txi:
      -- Depressa, para Copacabana.
      Gerlane   o   esperava    com   um   sorriso.   Entrou   no   carro
despreocupadamente .
      -- Que cara  essa?
      Ele a olhava sem compreender. Ordenou ao chofer que esperasse:
      -- Antes de mais nada: voc quer me dizer o que aconteceu?
      -- Aconteceu que cheguei em casa, mame tinha sado, fiquei
triste de ter que jantar sozinha.
     -- Ento se lembrou de mim.
     -- Fiz mal? -- perguntou ela, os olhos grandes.       Ele respirou
fundo, antes de responder:
     -- Olhe, Gerlane, se voc pensa que eu vou estragar minha vida
por sua causa, est muito enganada. Vamos, desce do carro. Deixei
minha mulher esperando.
     -- No estou querendo que voc estrague sua vida: estou
querendo apenas que voc me leve para jantar.
     -- Ento vem. Eu vou jantar na casa do meu sogro, posso te
levar. Vamos em frente.
     -- Para onde? -- perguntou o chofer.
     -- Estou falando aqui com ela. Escuta, menina: j estou atrasado,
convm voc ir para sua casa que eu vou para a minha.
     -- Voc vai jantar comigo -- insistiu ela.
     Ele comeou a rir:
     -- Desde quando voc manda em mim?
     -- No estou mandando: estou pedindo.
     -- Vou te perguntar uma coisa: por que voc, em vez de me pedir
que te leve para jantar, no me pede que te leve para dormir?
     Ela o olhou com firmeza:
     -- Primeiro vamos jantar.
     Ele abriu a porta do carro:
     -- Desce.
     Em vez de descer, ela atirou-se em seus braos, escondeu a
cabea junto ao seu rosto:
     -- Eduardo, no agento mais, eu te amo -- murmurava
baixinho, a voz quase num soluo. -- No posso passar mais um
minuto sem voc.
     -- Desce -- repetiu ele, e afastou-a. Viu seu rosto muito junto,
transtornado, os olhos grandes cheios de lgrimas -- ela chorava, e
chorava mesmo, lgrimas j escorrendo pela face.
     -- No fique assim -- ele, perturbado, j no sabia o que dizer.
Beijou-lhe os cabelos, a boca, os olhos. Ela no correspondia, mal
contendo os soluos: -- Voc est chorando mesmo, o que  que voc
tem, no fique assim, meu amor, amanh ns conversamos...
      Ela voltou-se e saiu do carro sem uma palavra. Pensou em segui-
la, chegou mesmo a curvar-se para sair tambm do carro, hesitou,
acabou recuando e derreou-se na almofada com um suspiro:
      -- Podemos voltar -- ordenou ao chofer.
      No encontrou Antonieta em casa. A empregada avisou que ela
sara logo em seguida:
      -- Disse que o senhor no precisa de ir.
      -- Pois ento no vou -- decidiu.
      E tornou a sair. Telefonou para a casa de Gerlane, ningum
atendeu. Passou o resto da noite num bar, bebendo em companhia de
um conhecido eventual. A todo momento se levantava para telefonar --
era intil, no atendiam.
      -- Voc est ruim, rapaz -- notou o outro. -- Sei como so essas
coisas. Uma vez conheci uma mulher...
      Ao chegar em casa j encontrou Antonieta dormindo. Esquecera-
se dela completamente, e do jantar, de tudo. Na manh seguinte,
porm, ela se limitou a perguntar.
      -- Ento: divertiu-se muito?
      No respondeu. No havia o que responder. Antes de ir para o
trabalho, telefonou a Gerlane da esquina.
      -- Onde voc se meteu? Tentei falar com voc a noite toda.
      -- Fui jantar -- disse ela.
      -- Com quem?
      -- Mame tinha sado, aqui em casa no tinha jantar, eu estava
sem dinheiro. E com fome. Algum tinha de me levar para jantar.
      -- Espero que voc tenha encontrado esse algum na rua, depois
daquela cena pattica do carro.
      -- E voc? Estava bom o jantar?
      -- Eu no fui, cheguei atrasado.
      -- E sua mulher?
      -- Sei l... As coisas no esto boas. Ela j est desconfiada.
      O prprio Trsio lhe avisou:
      -- Convm tomar cuidado com essa histria de Gerlane. O que 
que voc est pretendendo, afinal? Outro dia Antonieta andou me
perguntando umas coisas sobre ela. Por que voc no dorme com a
moa de uma vez e acaba com isso?
      -- Desconfiada por qu? -- perguntou Gerlane, irritada: -- No h
nada entre ns dois.
      -- No posso fazer uma coisa dessas -- dizia Eduardo: -- E por
uma razo muito simples: ela  virgem.
      -- E da? -- Trsio insistia: -- Tem mais de dezoito anos,  o que
interessa.
      -- Se no h nada entre ns dois ento por que voc disse que
no podia passar um minuto mais sem mim?
      -- J lhe disse que eu estava com fome -- retrucou ela.
      -- No posso fazer uma coisa dessas -- repetia Eduardo: -- Voc
v as coisas de maneira diferente, Trsio.
      -- Diferente por qu? Mulher quando comea assim, no quer
outra coisa.
      -- Eu sou casado -- confessou ele.
      Trsio perdeu a pacincia:
      -- Ora, entenda-se! Ento o que voc pretende, afinal?
      -- Na hora voc no disse que estava com fome -- insistiu ele: --
Voc disse que me amava.
      -- E voc acreditou.
      -- Acreditei porque tambm te amo. Ou voc prefere acabar logo
com isso?
      -- Acabe com isso -- encerrou Trsio.
      -- Foi o que eu disse outro dia a ela: acabar logo com isso.
      Em vez de acabar, voltava a encontrar-se com ela. Gerlane no
sentia o menor constrangimento em ser vista com ele nas confeitarias,
nas compras, no cinema.
      -- No cinema no convm -- dizia ele, irresoluto, mas acabava
entrando.
       Um dia por pouco no esbarraram com Antonieta ao sarem de
uma loja do centro. Eduardo se sentia ridculo, carregando embrulhos
para ela.
       -- No vou mais a esses lugares com voc -- decidiu ele, com
firmeza.
       O ponto de encontro mais seguro era o ateli de Joubert, onde ela
continuava indo quase todas as tardes para posar. Um dia, porm, o
pintor o surpreendeu com uma notcia:
       -- Sua mulher esteve aqui hoje.
       -- Antonieta? Aqui? Fazendo o qu?
       -- Sei l. Chegou de surpresa, disse que queria escolher um
quadro meu no sei para qu... Passei bons momentos, com medo de
voc e Gerlane estourarem aqui de uma hora para outra.
       Em casa, antes que interpelasse a mulher, ela veio lhe contar:
       -- Estive hoje no ateli de Joubert escolhendo um quadro. Seria
um bom presente para Maria Lcia.
       -- Maria Lcia? Que Maria Lcia?
       -- Voc no se lembra mais de nada... Aquela minha amiga que
vai se casar no sbado.
       -- Por que no me avisou? Eu escolhia para voc.
       Eduardo tentava em vo se lembrar quem diabo seria Maria
Lcia.
       -- No convm voc ficar indo sozinha no ateli de Joubert. Me
dissesse.
       -- Eu te disse. Voc no se lembra mais de nada -- repetia ela.
       Ele se dizia nervoso, cansado, esgotado, pedia-lhe pacincia:
       -- Daqui a pouco tudo estar bem de novo, por favor, confie em
mim.
       E saa para telefonar a Gerlane, da esquina.
       Uma noite Antonieta despertou quando ele entrava -- costumava
entrar em silncio no quarto, despir-se no escuro e insinuar-se na
cama, furtivo como um ladro.
       -- Que horas so? -- perguntou ela.
       -- Duas -- mentiu. Eram quase quatro da manh. Ela levantou-
se e foi ao banheiro -- por precauo ele atrasou o relgio de pulso e
teve de ir  copa, atrasar tambm o de parede -- fazer logo o servio
completo.
       -- Voc est bbado -- disse ela, vendo-o regressar  cama em
passos incertos.
       -- Um pouco. Estive bebendo com Vtor. Me encontrei com ele no
bar. Quer por toda lei lanar meu livro na editora dele, me fez uma
proposta. Deixa estar que no ser m idia...
       -- Voc est bbado -- repetiu ela.
       -- Bbado por qu?
       -- Voc no escreveu livro nenhum.
       -- Ainda posso escrever, no posso? -- retrucou ele, e de sbito
ficaram calados no escuro do quarto. Ela se assustou:
       -- Eduardo -- chamou.
       Ele   no   respondeu.   Em   pouco   ressonava   pesadamente     e
Antonieta continuava de olhos abertos para o inevitvel.
       Em verdade se encontrara com Vtor, mas  tarde, na rua. Vtor
estava mais gordo, mais velho, diferente... No parecia o mesmo.
       -- Voc  que nem parece o mesmo -- dissera o outro. -- Que
aconteceu com voc?
       -- Que est acontecendo conosco? -- perguntou-lhe Antonieta um
dia.
       -- Que voc est pretendendo, afinal? -- lhe perguntava Trsio.
       -- Que est acontecendo com todo mundo? -- ele prprio se
perguntava, olhando ao redor sem nenhuma perspectiva. O mundo
parecia ter perdido a sua verdadeira configurao, tudo se deformava e
se esbatia aos seus olhos, como se ele, reduzido  condio mais
insignificante, se agarrasse sfrego ao que pudesse tocar com as mos e
perdesse a noo do conjunto. Pensava no filho mal concebido como se
com ele tivesse perdido a ltima esperana. Mas esperana de qu?
Tambm se sentia mal concebido e mal conformado para viver, faltava-
lhe uma dimenso para mover-se livremente no mundo, estava preso,
tolhido, escravizado ao seu destino como um desenho  folha de papel.
      O que pretendia? Espere, era preciso crescer primeiro, voltar ao
tamanho normal,  sua condio de homem, para saber responder a
essa pergunta: pretendia, era lgico, viver de acordo com as suas
convices. Mas era to difcil, a vida tendia ela prpria a afrouxar as
mais empenhadas decises do esprito, num permanente convite s
acomodaes. Vamos com calma: e quais eram mesmo as suas
convices? Errar no tinha importncia, desde que no pactuasse com
o erro, endossando-o, justificando-o. No, ele no justificava nada.
Errar todo mundo erra -- em determinadas circunstncias todo mundo
erra,  natural,  compreensvel. O que se dizia ser a parte frgil, o lado
humano. E o outro lado? Isso  que os outros no viam, o outro lado.
Ser humano, isto , errar e aceitar, era o que chamavam experincia,
ganhar experincia. Ento s faltava erigir dessa oscilao entre o bem
e o mal uma nova moral feita ao sabor do acaso, instvel como a prpria
vida, uma tica de ocasio para justificar o erro -- no, isso ele no
faria. Da sua conduta, aberta numa dualidade irremedivel: de um
lado o que ele queria ser e de outro o que ele realmente era. Agora, por
exemplo, estava apenas no que realmente era, a ponto de nem saber
direito o que queria ser. Onde estivesse aquilo que buscava, e o que
quer que fosse, o certo  que tomara o caminho mais longo.
      -- Voc  um maniquesta em disponibilidade -- gracejava Trsio.
      -- O importante  saber cumprir com o compromisso assumido --
repetindo Toledo com alguns anos de atraso.
      -- Jesuta! Jesuta! -- gritou-lhe o velho Germano:-- Voc assim
vai mal.
      -- Desgraado daquele que v: h de pagar pelo crime de ter visto
pouco.
      Monsenhor Tavares, diretor do ginsio, era um jesuta.
      -- Isso  um pastiche do Novo Testamento, no quer dizei nada,
no resiste! Quer ver? Experimente: desgraado daquele que ouve: h
de pagar pelo crime de ter ouvido pouco. Desgraado daquele que fala:
h de pagar pelo crime de ter falado pouco. Desgraado daquele que
anda, que dorme, que come... Serve para tudo e no serve para nada.
Experimente agora com alguma palavra do Cristo, para voc ver.
      -- Jesuta por qu? -- protestou Eduardo: -- Eu quis dizer
apenas que quem v as coisas como elas so, h de pagar por no ter
visto como elas deviam ser.
      -- Voc no quis dizer nada. Isso  julgar, e quem julga  Deus.
      O velho aproximou-se, exaltado, tomou-lhe o copo:
      -- Hoje voc no bebe do meu usque. Me diga por que Deus gosta
mais do filho prdigo, se  capaz.
      -- Porque voltou.
      -- No senhor. E o outro, que nem saiu?
      -- Ento por qu?
      -- Porque ele era mais simptico, s por isso. Assim deve ser a
justia de Deus: diferente da dos homens, a gente no sabe como .
Deus gosta mais de uns do que de outros e isso no  injustia no,
ouviu? Ele sabe o que faz, tem suas preferenciazinhas. Deus gosta, por
exemplo, mais dos poetas, dos mendigos, dos doidos, dos prdigos. E
sabe por qu?
      -- No -- confessou Eduardo.
      -- Porque o homem  o brinquedo de Deus. Olha, se voc
continua assim Deus acaba no gostando de voc no. A pacincia de
Deus tem um limite.
      Algum j lhe dissera aquilo -- onde e quando, no se lembrava.
Atormentava-se, j sem saber por qu -- seus encontros com Gerlane
haviam sido subitamente interrompidos, desde o dia em que Antonieta
lhe confessou de surpresa que queria ter outro filho.
      -- Mas voc disse que nunca mais -- estranhou ele.
      -- Mudei de idia.
      Foram para o quarto naquela noite como para o local do sacrifcio.
Desde ento se agarravam silenciosamente  idia como nufragos, mas
sentiam que era intil, a praia estava perdida, uma corrente irresistvel
os arrastava cada vez para mais longe. Ela cada vez mais aptica, sem
uma palavra de queixa ou de censura para com a ausncia dele, que a
presena agora constante s fazia acentuar. Ele abandonava exausto o
corpo da mulher como ao fim de uma batalha e se deixava, devorar pelo
escuro e pelo silncio at adormecer. Seu sono era atormentado, cheio
de pesadelos. Dera para sonhar com natao, via-se empenhado em
competies difceis mas nadando sem parar, numa gua grossa,
viscosa como melado, que lhe impedia os. movimentos -- ou ento a
piscina ia se esvaziando  medida que nadava, acabava se debatendo
em seco, ferindo as unhas no cimento do fundo.




-- RODRIGO, aquele seu companheiro de natao de quem voc falava
tanto -- disse Antonieta.
      -- Hoje  aviador. O que  que tem ele?
      -- Diz aqui que ainda no foi encontrado. Todos os outros se
salvaram.
      Assustado, saltou da cama, tomou-lhe o jornal da mo, leu
avidamente. O avio cara no mar -- todos os tripulantes salvos, menos
o tenente Rodrigo.
      -- Mas por qu? -- perguntava, aflito. -- Justamente ele, que
sabia nadar!
      Passou o resto do dia agoniado, telefonando aos jornais:
      -- Alguma notcia?
      As buscas prosseguiam -- avies da Fora Area sobrevoavam o
local.  noite Eduardo no conseguiu dormir: pensava no companheiro
perdido, naquele instante talvez nadando no escuro, na vastido do
mar... Lembrava dele, a procur-lo no vestirio:
      -- Olha, voc tem de ganhar. Apostei em voc...
      No ganhara; como poderia agora contar com o amigo, esperar
que ele no falhasse?
      -- Bem, deixa ver: em longa distncia ele era melhor do que eu.
Quanto tempo se agentaria? Naquela poca podia nadar horas e horas
seguidas, no se cansaria. Mas muitos anos passaram, vai ver que
nunca mais voltou a nadar.  verdade que numa emergncia dessas...
      -- Com certeza nadou em direo oposta em vez de nadar para
terra -- e Antonieta procurava acalm-lo: -- Por que no tenta dormir
um pouco? Afinal vocs no eram to amigos assim, no se viam h
tanto tempo...
      -- Ora! -- e Eduardo andava pelo quarto, irritado: -- Um amigo
meu est perdido no mar e voc me manda dormir? Se eu no pensar
nele, quem h de pensar? No posso fechar os olhos e o vejo nadando a
meu lado... Mas ele h de chegar, no vai fazer isso comigo.
      De um jornal lhe avisaram que tinham suspendido as buscas at
a manh seguinte, os avies haviam regressado s suas bases.
      -- Estpidos! Como se ele pudesse ficar esperando at de manh!
      Durante dois dias e duas noites durou sua agonia. Ao terceiro dia
deram o tenente por desaparecido e os jornais diziam: "O ex-Nadador
Morreu Afogado".
      -- O radiotelegrafista afirmou que ainda viu Rodrigo nadando ao
lado dele. Sujeira, suspenderem as buscas!
      Por essa poca, ao recortar um artigo seu no jornal de domingo
(era mais um artigo sobre "A Arte do Romance") deu com seu nome no
verso do recorte, num trecho da seo de esportes: "...A marca anterior
pertencia a Eduardo Marciano, de Minas Gerais..." Ento haviam batido
o seu rcorde!
      -- Olha aqui, Antonieta: afinal bateram o meu rcorde. E por dois
segundos! Esse menino deve ser muito bom...
      -- S dois segundos? -- estranhou ela.
      -- Voc no entende disso -- irritou-se. -- Levou anos para ser
superado. Hoje no sou capaz de nadar duzentos metros...
      As ondas se arrebentam com violncia, trazendo espuma at seus
ps. Vai avanando, enquanto lhe sobe pelas pernas o frio esperado da
gua que o sol mal chega a tocar de leve, arrancando reflexos. Em
pouco se atirar de cabea e o corpo reagir num arrepio de protesto,
at que se acostume  gua, seu elemento, a ela integrado, em
movimentos livres, harmoniosos, completos.  um nadador.
      Foi nadador. Esquece-se de que os anos passaram e se distrai,
para experimentar, nadando como antigamente, sem medir distncias,
deixando-se levar pelo ritmo fcil das braadas, largado ao embalo das
guas, seduzido pela amplido envolvente do verde... Ao longe um navio
cruza lentamente a barra. Sob seu corpo, o mistrio iridescente do mar.

      "Ignorante del agua, voy buscando
      Una muerte de luz que me consuma..."

      Os versos de Garcia Lorca lhe vm como uma advertncia. Em
breve est respirando difcil, os braos lhe pesam, o corpo se rebela e o
medo o domina, ao sentir a corrente traioeira arrast-lo. Agora pode
compreender por que Rodrigo no se salvou. Nada com fora para a
praia j distante, deixa em pnico que uma onda mais poderosa o
empolgue como um objeto largado e afinal se v, ofegante e trpego, em
areia firme. Recebe ainda uma ltima lambada de espuma nas pernas,
despedida irnica do mar, e vem redimir-se da imprudncia c fora, a
um sol esquivo, sob cuja luz raros banhistas mais precavidos se
aquecem.
      -- Telefonei para sua casa, Antonieta me disse que voc tinha
vindo  praia. Que idia  essa?
      Trsio senta-se a seu lado, enquanto ele estende preguiosamente
na areia o corpo esguio, branco, asctico.
      -- No agento nadar nem duzentos metros. Meu rcorde foi
batido. Voc leu meu artigo de domingo?
      -- Li.
      -- Que tal?
      -- Bom.
      -- Estou pensando em abrir com esse artigo um livro sobre o
romance -- e, animado, comeou a inventar: -- "As Tentaes da
Facilidade" seria um dos temas: imposies de fim de captulo,
descrio dos personagens, etc.. ,,"A Reabilitao do Lugar-Comum"
seria outro; outro ainda sobre a tcnica, propriamente: o corte, a
interseo de dilogos, contraponto, etc..
      -- Por que voc em vez de ficar escrevendo sobre romance, no
escreve logo um romance?
         Magoado, Eduardo retrucou:
         -- E voc, por que em vez de se dizer poeta, no publica logo um
livro de poemas?
         -- Eu no me digo poeta: eu me digo jornalista.
         Calaram-se   ambos,   voltados   para   o   mar.   Ondas   furiosas
rebentavam, espumando. Agora j no havia mais ningum na praia,
alm deles dois. Deviam ser mais de cinco horas da tarde. Viram
aproximar-se um banhista baixo e gordo, abandonar a toalha na areia e
aventurar-se ao mar. Eles mal ousavam molhar os ps.
         -- Aquele gordinho est meio afoito -- comentou Trsio.
         -- Ainda h pouco eu quase me afoguei.
         -- O mar no est para brincadeira.
         -- No est no.
         Os dois ficaram calados e graves, olhando o banhista.
         -- Vamos embora? -- sugeriu Eduardo, afinal.
         -- Vamos -- respondeu Trsio.
         Apanharam as camisas e saram da praia sem olhar para trs. Na
areia ficou a toalha abandonada. Escurecia rapidamente, em breve seria
noite.
         Se ele se afogar, no tenho culpa -- pensava Eduardo, aliviado.
Afinal de contas no sou palmatria do mundo, sou? Rodrigo era um
grande nadador e morreu afogado. Trsio nunca mais escreveu um
poema e se diz poeta. Acaso serei insensvel como um poste, reto, duro,
seco e inexpugnvel? Tambm no sou feito de carne e osso, para sofrer
ou gozar, acertar ou errar? Tambm no sou frgil? Tambm? Quer
dizer que eu tendo uma fora, isto , tendo sido por exemplo campeo
de natao, tenho de salvar o afogado ou morrer com ele. Acreditando
numa coisa mas fazendo outra, tenho de alterar o mundo para que ele
passe a funcionar segundo a minha maneira de ser -- por que no
alterar a minha maneira de ser? Resolveu conversar com Germano, teve
a surpresa de saber que o velho se mudara.
         -- Sabe que o Germano se mudou? Alugou a casa e foi para um
hotel na cidade.
      -- ? -- e Antonieta no deu maior importncia  notcia.
      -- O que teria havido? -- insistiu.
      -- Como  que eu posso saber?
      -- Assim sem me avisar, sem nada.
      -- Avisar como? Voc no pra em casa.
      -- Podia ter avisado a voc -- e Eduardo prudentemente evitou a
discusso: -- Voc no fica em casa o dia todo?
      -- Com certeza se cansou daqui -- Antonieta afinal resolveu
encontrar uma explicao: -- Morar numa casa, sozinho daquela
maneira! No Place ele fica mais  vontade.
      Eduardo concordou -- mas logo a olhou com estranheza:
      -- Como  que voc sabe que ele foi para o Place? Me disseram
s que se mudou para um hotel...
      -- Ora, Eduardo, no seja idiota.
      -- O qu? -- disse ele, surpreendido com a reao da mulher. --
Idiota por qu?
      -- Ele vivia dizendo que gostaria de morar no Hotel Place.
      -- Nunca me disse nada.
      -- Disse a mim.
      Eduardo ficou pensativo, mudou de tom:
      -- Por causa disso no precisa me chamar de idiota. Voc anda
nervosa, irritada com qualquer coisa...
      -- Tenho motivos para andar irritada.
      O que ele queria mesmo com o velho Germano? Ah, sim --
conversar sobre as suas idias, qualquer coisa sobre o mundo e a sua
maneira de ser. Mas o que, precisamente? Qual era o problema?
Gertrude Stein, agonizante, dissera: "Qual  a resposta?" E pouco
depois, ao morrer: "Qual  a questo?" Foram suas ltimas palavras.
Ser ou no ser, that is the question. O problema  o seguinte: No h
problema! Resolveu escrever um artigo sobre Gertrude Stein.
      Seus artigos. Eternamente se preparando para tornar-se escritor,
eternamente comeando, em pouco seria tarde, no mais teria direito de
escrever asneiras, teria de comear com uma obra-prima. No depois
que lera "Guerra e Paz". Jamais nenhum romancista seria capaz de
escrever algo de mais completo, e no entanto ningum deveria
ambicionar menos. A literatura se dividia em duas partes: antes e
depois de "Guerra e Paz". Isso era fcil de dizer, tudo na vida se dividia
em antes e depois; antes e depois de casar, antes e depois de amar,
antes e depois de escrever. A prpria literatura: antes e depois de
Proust, de Kafka, de Joyce... Para um escritor o importante no era
antes nem depois, mas durante. Colocar-se naquela postura de quem
vai escrever -- eis tudo, o resto era fcil. Quando iria ele. afinal, levar
sua vocao a srio, comear?
      Resolveu escrever um artigo sobre "Guerra e Paz".
      -- Estou dirigindo uma editora -- lhe dissera Vtor: -- Fao
questo de lanar um livro seu.
      Livro sobre o qu? Para qu? S sabia escrever sobre a arte de
escrever -- o que tambm era uma arte. Acabaria escrevendo sobre a
arte de escrever sobre a arte de escrever -- e assim indefinidamente,
enfiando-se na sua obstinao como um escravo entre dois espelhos,
at o ltimo andar da torre onde o haviam aprisionado. Esta no o
levaria ao cu, pelo contrrio, fixava-o ao cho, para sempre. Cada vez
se tornava mais penoso escrever ou mesmo ler o que quer que fosse, a
no ser aquilo que o ajudasse a entender-se, a configurar seus limites e
aptides... Encontrou em Valry preocupao igual: "Esta doena
secreta nos priva das letras, apesar de estar nelas a sua fonte..." Mas
no chegou a pensar em escrever um artigo sobre Valry.
      -- No  possvel que eu s tenha defeitos -- reagiu: -- Devo ter
algumas qualidades tambm.
      Esta talvez fosse a primeira -- aceitar a existncia de seus
defeitos. Portanto:
      -- No exagerar as qualidades e sim corrigir os defeitos.
      -- O perigo do virtuosismo!
      -- A ubiqidade  impraticvel.
      -- No cruzar a ponte antes de atingi-la.
      -- Calma! O espetculo comea quando voc chega.
      Estava, assim, armado para viver? No, estava se armando como
quem vai enfrentar a morte. Nascemos para morrer. Isso tambm no
queria dizer nada! Germano tinha razo. Seno, vejamos: nascemos
para morrer. Morremos para nascer. D na mesma. Muero porque no
muero. Nascemos para viver e morrer -- vamos ser lgicos, meu filho,
nosso nascimento  fruto de um momento de fraqueza de nossos pais.
Vivemos por displicncia e morremos por exausto, cansados de nos
agarrarmos a frmulas de viver para no nos afogarmos. Rodrigo, por
exemplo, se afogou apesar de tudo. Pela primeira vez pensou na morte
como soluo. Soluo de que, se no havia problema? Um dia ia abrir
a boca na sua roda costumeira no bar da cidade, para dizer uma coisa,
viu que no tinha nada a dizer, no chegou a abrir a boca. Vasculhou-
se interiormente, no encontrou nada; nem uma idia, um pensamento
aproveitvel. Estava vazio, literalmente vazio, nada interessava, nada
tinha importncia.
      -- Eu acabei completamente! -- descobriu, abismado.
      Suicidar-se,   resoluo     afirmativa.   Pronto,   estava   criado   o
problema. Tinha dali por diante de sustentar uma resoluo negativa, a
de no se suicidar. Finalmente o crculo vicioso o aprisionava: sua razo
de viver era esta -- no morrer.
      -- Voc precisa tomar cuidado -- dizia Trsio, apreensivo. --
Neurastenia no  brincadeira. Se voc comear a ficar triste sem razo,
abra o olho, melhor procurar um mdico. Principalmente se sentir
vontade de chorar sem motivo...
      -- E com motivo, pode?
      Trsio ergueu os ombros.
      -- Bem, com motivo  diferente.
      Ento ele se ps inesperadamente a chorar. No confessava o
motivo nem a si mesmo: Gerlane? No. Gerlane ficara para trs -- j
no se encontrava com ela, j no tinha de mentir em casa, j podia
dizer tranqilamente, sem remorso, que ficara na rua com um amigo
at tarde. Os mais avisados diziam que se um homem fica na rua 
porque alguma coisa est errada em casa. O que estaria errado na sua?
      O corpo de um afogado deu  praia. O do aviador continuava
desaparecido.
      De errado no havia nada, propriamente -- e isso  que o
intrigava: no tinha de que se queixar. Seria natural que Antonieta 
que se queixasse, censurando-o pela irregularidade de sua vida -- ou ao
menos procurasse saber o que havia com ele. A princpio ela dava a
entender em meias respostas que se ressentia -- ultimamente nem isso.
      -- Voc ainda gostaria de ter um filho? -- perguntou-lhe um dia,
de surpresa.
      -- Agora  tarde -- respondeu ela e no lhe deu mais explicaes.
Evitava-o quanto podia, o que no era difcil. Ele aos poucos deixara de
procur-la e dormiam em horas desencontradas. Quando telefonava da
rua para avisar que no iria jantar, ela nada dizia -- mesmo quando se
esqueceu de telefonar, ela no reclamou. Uma noite, depois de avisar
que no iria, mudou de idia: num inesperado movimento de ternura
pela mulher, que a ele prprio surpreendeu, decidiu voltar cedo, lev-la
a um cinema. No a encontrou. Esperou at onze horas da noite.
      -- Posso saber onde voc estava? -- perguntou-lhe apenas, num
tom deliberadamente neutro, quando ela finalmente chegou. Deixara-se
ficar na poltrona, um livro na mo, fingindo ler.
      -- Se lhe interessa.
      --  claro que interessa.
      -- Voc no disse que no vinha jantar?
      -- Disse.
      -- Que eu no esperasse?
      -- Disse. E da?
      -- Resolvi no esperar mesmo. Fui jantar em casa de papai. H
algum mal nisso?
      -- No, nenhum -- suspirou ele, largando o livro: -- S que voc
podia ter voltado mais cedo.
      -- Depois do jantar fui ao cinema.
      -- Com quem?
      -- Sozinha.
      -- No fica bem voc ir ao cinema sozinha, pelo menos  noite.
      -- No tenho quem me leve.
      -- Voc pode achar graa, mas hoje eu tinha justamente a
inteno de te levar. Que filme voc viu?
      --  um interrogatrio?
      -- No. Curiosidade. No precisa reagir como se eu estivesse
desconfiando de voc.
      -- Pois parece.
      -- No est no meu temperamento.
      -- Ento no se queixe.
      -- No estou me queixando.
      -- E eu posso saber por que voc veio cedo? Que milagre  esse?
      -- Estou com fome -- disse ele, sem responder. -- No jantei at
agora. Vou sair para comer qualquer coisa.
      Milagre? Sim, parecia viver  espera de um milagre. Havia alguma
coisa de errado, sim, de fundamentalmente errado, sim. Se descobrisse
o que era, estaria salvo.
      Ao chegar, sem sono ainda, ia para o escritrio. Ficava tentando
ler ou escrever, mas no lia nem escrevia nada. Mesmo seus artigos
semanais, cada vez menores, lhe saam penosos, difceis: as idias,
sopradas de alguma parte de sua mente, no chegavam a impressionar
a conscincia, no se traduziam em palavras e permaneciam difusas,
feitas em estados de esprito. Depois ia dormir, despindo-se no escuro
para no acordar a mulher. s vezes fazia ch e o tomava na sala com
todos os requintes, como num secreto ritual da solido.
      Por que ela o evitava? Era evidente que o evitava. Mesmo quando
ele s para experimentar a procurava, ela se conformava em aceit-lo
apenas como quem rende o corpo a um sacrifcio necessrio e
inevitvel. E no princpio fora to diferente -- quando se sentiam
integrados um no outro, completados, perfeitos.
      --  tarde por qu? -- perguntou ele.
      -- O qu?
        -- O filho.
        -- Ora... -- e ela se afastou sem dizer mais nada.
        Que significava o casamento para ela? -- pensava ento, irritado.
A gente se casa  para isso mesmo: ter filhos e tocar o barco para a
frente. Constituir uma famlia. Quem no pensar assim que no se
case.
        E ele prprio? Afinal, que fizera de seu casamento seno um
campo aberto s acomodaes, e a todas as transigncias, ludibriando,
burlando a vigilncia de Deus?
        -- Mas escuta aqui, Eduardo Marciano, voc acredita mesmo em
Deus? -- ele se interrogava ao espelho, fazendo caretas. Ou quem sabe
acreditava apenas em certos preceitos, certas regras de conduta que
no chegava sequer a praticar, certos ensinamentos recolhidos e
conservados como as roupas de algum que j morreu?
        Basta de interrogaes. Sim, acreditava em Deus, mas um Deus
longnquo, esquecido, distrado, voltado para outras preocupaes, que
no o seu mesquinho problema de aprender a viver. Ou de no ter
problemas. No pensar mais nisso, pois. s vezes, quando Antonieta j
estava dormindo, no resistia e tornava a sair. Ia a um bar qualquer,
beber um pouco mais em companhia de algum conhecido da
madrugada at que o sono viesse. Conhecidos  que no faltavam. Ha-
via os antigos freqentadores do bar, perdidos como ele pela noite 
procura de esquecimento ou convvio -- quando no os encontrava,
fazia relaes com o primeiro que aparecesse. Uma noite, j bbado,
seguiu com um desses at uma casa de mulheres, deitou-se com uma
delas. No dia seguinte nem se lembraria o que chegou a fazer com ela,
mas no momento em que entrou novamente na intimidade de seu
quarto que cheirava a tranqilidade e sono, o sono de sua mulher, teve
vergonha de si mesmo, teve remorso, deixou-se cair de joelhos junto 
cama, comeou a chorar. Antonieta acordou sobressaltada .
        -- O que foi? Voc est doente?
        Espantou-se ao v-lo assim todo vestido:
        -- Voc vai sair? Por que est chorando?
      -- Por causa de meu pai -- soluou ele, sem erguer a cabea. Ela
chegou a sorrir, passou a mo pelos seus cabelos:
      -- Seu pai j morreu h tanto tempo...
      -- Mas s agora eu estou sentindo. Ele era to bom para mim,
Antonieta.
      Em verdade, passara sem transio a chorar a morte do pai.
      -- Voc saiu e andou bebendo. Est cheirando a usque. Vem
dormir que j  tarde.
      -- No! Vou ler um pouco.
      Foi dormir no escritrio, porque naquela noite no queria se
aproximar de Antonieta.




ABRIU a carta com sofreguido pensando ser de Hugo ou Mauro,
lembranas de um tempo morto. Era do Veiga: "Queria uma reportagem
sobre o momento poltico. Coisa viva, movimentada, inteligente, como s
voc saberia fazer".
      -- Vou fazer uma reportagem poltica. Talvez seu pai possa me
ajudar.
      Tentava amparar-se num entusiasmo de ocasio: coisa viva,
movimentada, inteligente, s ele saberia fazer -- Veiga tinha razo.
Ficou um pouco desconfiado: por que ele teria se lembrado justamente
de mim? J no publicava mais nada -- o jornal cortara seus artigos
semanais por falta de espao. E desde estudante no escrevia sobre
poltica. O Amorim, por exemplo, seria muito mais indicado: entendia
do assunto, tambm era mineiro, tambm trabalhara com o Veiga... No
lhe agradava a idia de visitar o ex-ministro especialmente para isso.
Era-lhe penoso enfrentar a roda de polticos que o cercava --
bajuladores,   aproveitadores   eventuais,   trocavam   de   idia   e   de
convices como quem troca de camisa, segundo as convenincias do
momento. Ele, pelo menos, ainda acreditava numas tantas coisas.
      -- So uns vendidos -- concluiu, no mesmo tom de Mauro,
antigamente.
      Desta vez, porm, iria procur-lo como jornalista -- afinal de
contas, era um escritor, um profissional, a quem uma misso fora
confiada. Como s ele saberia fazer. Sabia outrora fazer artigos
desafiando a censura, atacando o governo, exigindo democracia. Onde
ficara tudo aquilo? Ali talvez estivesse a oportunidade para recomear
algo de til, voltar a escrever, influindo, participando. Movimentada,
inteligente. Quanto mais gente l estivesse, melhor. Conversaria com
um e outro, contaria tudo que ouvisse.
      No durou muito o entusiasmo: teve a surpresa de encontrar o
velho sozinho, sentado na varanda, e desde o primeiro instante o calor e
a simpatia com que foi recebido neutralizaram sua agressiva disposio
de escrever fosse o que fosse.
      -- Reportagem? Mas como voc anda fora do mundo! J no
tenho mais nada com isso, meu filho, Deus me livre de poltica. Desde
que deixei o ministrio no me meti mais. Aceitei ser ministro apenas
para servir  minha ptria. E servir ao presidente, meu amigo pessoal.
Mas agora o presidente  outro... As coisas no andam nada boas, meu
rapaz. Aqui, tome alguma coisa. J soube que voc gosta de um usque.
      Segurou-o pelo brao, levou-o  sala:
      -- A poltica s me deu aborrecimento. Fiz os maiores sacrifcios e
nem reconhecem. Almoava apenas uma vez por dia! Quero dizer, no
tinha tempo nem de almoar. No entendo a orientao desse governo.
Ainda agora esto dizendo que vo pedir uma comisso de inqurito
contra mim. Imagine! Dizem que isso  coisa do Sousa, aquele menino
que foi eleito deputado. Logo o Sousa, no saa de minha casa! No
acredito que o Sousa seja capaz de uma coisa dessas. Algum inimigo
meu, na certa.
      -- Na certa -- repetiu Eduardo, para dizer alguma coisa. Nem
sabia quem era o Sousa. Mas o homem no conversava, estava
pensando em voz alta:
      -- E se a imprensa souber disso, adeus meu sossego. A  que a
comisso sai mesmo. Alis, nada tenho a temer. Minha conscincia est
tranqila. Sempre procurei cumprir meu dever. Mas ento voc quer
fazer uma reportagem? Quem sabe o Marques no poderia ajud-lo?
Dizem que ele vai ser lder da maioria. Espera, vamos ver se o Marques
est em casa. Aqui, tome outro. Sirva-se  vontade.
        Foi ao telefone e discou um nmero. Onde aquele ministro
desempenado e seguro de si que o tomava pelo brao e dizia "me conte
tudo sobre a morte da meretriz"? O Marques no estava em casa.
        -- Fica para outra vez -- disse Eduardo, se erguendo.
        -- Espere, espere! -- e o homem o reteve acaloradamente: --
Ainda  cedo! Voc no contou nada. Ento, como vo as coisas? Como
vo as letras?
        Forou Eduardo a sentar-se de novo, terminar o seu usque.
        -- Vocs andam sumidos, no aparecem!
        Parecia buscar mentalmente um assunto que interessasse o
genro, como se temesse ficar s. Num inesperado movimento de
simpatia, Eduardo pensou em convid-lo a sair, dar uma volta.
        -- O senhor  que nunca nos visita -- arriscou apenas.
        -- No saio mais, a no ser para ir  igreja. s vezes vou a um
cinema...
        Eduardo o olhou, surpreendido: jamais imaginara que aquele
homem fosse de igreja.
        -- Busquei o consolo da religio. A poltica me absorveu, mas
desde que perdi minha mulher me sinto muito s. Depois minha filha se
casou... Mas vocs apaream de vez em quando! Ela nunca mais esteve
aqui.
        -- Outro dia mesmo ela veio jantar com o senhor.
        Saiu dali deprimido, as idias embaralhadas. Era cedo ainda e a
perspectiva de encontrar Antonieta lhe pareceu de sbito insuportvel.
J no tinha o que lhe dizer e precisava isolar-se, tomar mais um
usque, aguardar os acontecimentos, aguardar o inimigo.
        -- As coisas no vo nada boas, meu rapaz -- repetia
mentalmente as palavras do sogro.
        No bar, inesperadamente: Amorim, bebendo sozinho junto ao
balco.
      -- Voc est parecendo um fantasma! -- espantou-se o outro.
      Pensou em escusar-se e sair: passara ali s por acaso, tinha
algum  sua espera... Era tarde, porm. Amorim o forava a sentar-se,
pedia um usque para ele.
      -- Onde  que voc se meteu?
      -- Por a...
      -- Imagine que eu estava aqui pensando justamente em voc.
Como vai indo Gerlane?
      -- Nunca mais vi.
      -- Estava pensando em telefonar a ela, cham-la para tomar
qualquer coisinha comigo, imaginei que voc...
      -- No temos nada um com o outro, quem lhe disse isso?
      -- Bem, eu pensei...
      Para fugir  lembrana de Gerlane, Eduardo lhe contou que vinha
da casa do ex-ministro, referiu-se  comisso de inqurito:
      -- Ele est preocupado, mas disse que no tem nada a temer. Isso
 coisa do Sousa, aquele deputado.
      Mostrar-se a par da situao poltica: revelar que se interessava
por tudo, sabia o que pensar. Amorim agora era comentarista poltico
num jornal.
      -- Mas veja l, hein? isso no  para publicar. O Veiga me
encomendou uma reportagem sobre a situao, mas, francamente, as
coisas no vo nada boas: s se fosse para descer o pau. E isso no
interessa ao Veiga...
      Amorim lhe disse que estava pensando em fundar um jornal:
      -- Um jornal nas prximas eleies, bem orientado, toma conta
deste pas. O homem vai voltar, voc escuta o que estou lhe dizendo.
      -- O que voc chama de bem orientado?
      Foi para casa cansado de poltica, cansado de Amorim, cansado
mesmo de beber -- era intil: sentia-se cada vez mais lcido, senhor de
cada um dos detalhes da vida, s lhe faltando uma viso do conjunto.
Antonieta ainda acordada, a esper-lo:
      -- Ento, fez a reportagem?
      -- Antonieta -- e sentou-se na cama, estudando a melhor
maneira de dizer: -- Seu pai se queixou muito, dizendo que voc nunca
mais foi visit-lo. Voc no disse que outro dia jantou l?
      -- Tenho culpa se ele nunca pra em casa? Sempre que vou l ele
no est. Outro dia jantei sozinha, porque ele no apareceu.
      -- Isso voc no me contou.
      -- Voc no me perguntou.
      -- Ele disse que no tem sado ultimamente -- experimentou
ainda.
      -- S se ultimamente. Mas e a reportagem?
      Ele passou a mo pelo rosto, exausto:
      -- Estive com o Amorim...
      Na manh seguinte ela veio acord-lo:
      -- O que voc andou dizendo ao Amorim? Papai telefonou muito
aborrecido com voc.
      -- O qu? Aborrecido comigo?
      Mandou comprar o jornal: num dos tpicos do Amorim, o que lhe
dissera sobre o ex-ministro.
      -- Aquele canalha. Foi s eu pedir que no publicasse, saiu dali e
foi escrever. Mas ele vai ver comigo.
      Somente  noite conseguiu se comunicar com o jornalista, pelo
telefone:
      -- Voc no tem carter, Amorim. Bastou dizer que no
publicasse.
      -- Mas aquilo no tinha a menor importncia! -- se escusava o
outro. -- Na redao todo mundo j sabia.
      -- No tenho nada com isso. Eu disse que no publicasse.
      -- Mas voc no entende! No era novidade nenhuma, segredo
nenhum. A comisso de inqurito foi pedida hoje!
      -- Eu disse que no publicasse! -- repetiu Eduardo, enfurecido. O
outro estourou, afinal:
      -- Voc no manda em mim, ora essa! Publico o que eu quiser.
      -- Porque voc no tem carter.
      -- No facilita comigo no, Eduardo.
      -- V ameaar sua me.
      -- No facilita no -- repetiu o outro.
      Desligou o telefone num terrvel estado de nervos. Mal podia
conter-se. Antonieta o espreitava, alarmada:
      -- Tambm no fique assim! Afinal de contas, vocs so amigos.
      -- Amigos uma ova. No sei por que acabei convivendo com um
sujeito desses. Cafajeste, ordinrio. Em Belo Horizonte era reprter de
polcia. Voc j viu gente da polcia prestar?
      -- Mas se todo mundo j sabia.
      -- Ainda por cima voc d razo a ele.
      Ento Antonieta inesperadamente lhe props que esquecessem o
incidente e fossem dormir.
      -- A essa hora? -- espantou-se. -- Ainda  cedo...
      Ela baixou os olhos.
      -- No. Vou trabalhar um pouco.
      Foi para o escritrio, mas acabou desistindo ao fim de meia hora:
no conseguia ler nem escrever. Rendeu-se, afinal -- e encontrou
Antonieta  sua espera.




NEUSA era a vizinha. Tinha dezessete anos, se fizera amiga de Antonieta,
costumava aparecer de short, entrava pela porta da cozinha, andava
desenvoltamente pelos quartos. s vezes invadia o escritrio, dava com
Eduardo sentado diante da mquina:
      -- "Genius at work" -- gracejava, acomodando-se na extremidade
da mesa, em frente a ele. Mauro e Hugo vinham surpreend-lo em meio
ao seu romance, fazia tanto tempo. Agora no tinha Mauro, nem Hugo,
nem romance. Neusa viva, saudvel, inquietante. Um dia foi esticar a
mo para apanhar um papel, sem querer deslizou os dedos pelas coxas
dela. A menina no se incomodou, fez que no viu. Desde ento sua
presena passou a ser um suplcio:
      -- Isso  uma loucura -- censurava-se ele, revoltado.
     No resistia, inventava pretextos para ret-la no escritrio, longe
de Antonieta. Num sbado  tarde atirou todos os livros da estante no
cho, chamou Neusa para ajud-lo a arrumar:
     -- Fui mexer na estante, ela caiu.
     E ficaram os dois, pretensamente atarefados em recolher os
livros, mas na verdade se encostando um no outro enquanto
amparavam a estante, e se ela abria um livro, fingindo ler, ele se
debruava sobre seu ombro, colando-se a seu corpo, fingindo ler
tambm. Ficava alucinado de desejo, temendo descontrolar-se -- o
escndalo que seria! Mais de uma vez deixou-a e foi trancar-se no
banheiro, antes que fosse tarde, usando Neusa na imaginao: era uma
espcie de defesa, medida de precauo -- dos males o menor. Depois
se arrependia como antigamente, sentia remorso:
     -- Tem cabimento isso, rapaz? -- incriminava-se, com dureza: --
Na sua idade!
     Mas acabava repetindo Mauro, amortecendo a conscincia no
reconhecimento de que, justamente por no ser criana, no devia ter
mais preconceitos -- encarar tudo com naturalidade.
     Neusa e sua pele jovem, macia,  mostra na roupa exgua.
Saberia o perigo a que se expunha? Por que o procurava com tanta
insistncia, por que dissimulava?
     -- Ela est percebendo tudo, a safadinha -- excitava-se ele.
     Uma tarde em que Antonieta havia sado para a costureira, pediu
a Neusa que o ajudasse a trocar a lmpada do escritrio, que se havia
queimado. Ps a mesa sob o lustre. Vestia apenas um pijama fino e a
lmpada nem queimada estava.
     -- No alcano. S se eu carregar voc.
     -- Olha que ns dois camos. Voc me agenta?
     Neusa subiu na mesa, deixou que ele a erguesse, segurando-a
fortemente pelas coxas. Ela estava de short, e procurava desatarraxar a
lmpada, enquanto a mo de Eduardo tocava-lhe a pele entre as
pernas, o rosto apertava-lhe o ventre, e as narinas, ofegantes,
buscavam o sexo. Deixou que ela escorregasse entre seus braos e todo
o corpo dele tremia, mal se mantinha de p, por pouco no tombaram
ao cho. Assim, um instante: ela tambm tremia, abraada a ele, a
lmpada mal segura na mo. Eduardo no resistiu mais e estremecia
j, num espasmo final, comprimindo o prprio sexo contra o dela.
      -- Cuidado, ns camos -- murmurou a moa aos seus ouvidos, e
fechou os olhos. A lmpada tombou ao cho e explodiu.
      Naquela mesma tarde Eduardo lhe pediu que no viesse mais 
sua casa:
      -- Espero que voc compreenda por qu -- disse apenas.
      Antonieta estranhava a ausncia da moa.
      -- No quero que essa menina fique por a, tomando intimidade
conosco.
      -- Por qu? Ela  to boazinha.
      -- No quero. Voc parece que no pensa as coisas.
      Ela parecia que no pensava as coisas. Ou talvez nem se
importasse.     Mas   agora   as   relaes   entre   ambos   iam   ficando
inesperadamente acomodadas, o convvio se fazia mais fcil:
      -- Hoje vamos ao cinema -- anunciava ele, depois do jantar, e ela
chegava a sorrir. Voltavam a sair juntos, iam ao cinema, visitavam o pai
de Antonieta.
      -- Sabe, Eduardo? -- dizia ele: -- Gostaria de montar um
escritrio de advocacia. Voc viria trabalhar comigo...
      A promessa feita ao pai, jamais cumprida.
      -- Pensei que o senhor tivesse se zangado comigo por causa
daquela noticia.
      -- Qual, bobagem -- protestou o homem: -- voc viu? No
apuraram nada contra a minha administrao. Poltica  isso mesmo...
Enfim, s tenho de prestar contas a Deus, a mais ningum.
      Ficava sentado na varanda, sozinho, triste porque os dois logo se
despediam:
      -- Voltem amanh, sim? Por que no vm almoar comigo?
      -- Sabe de uma coisa? -- dizia Eduardo, a ss com ela. -- Seu pai
afinal de contas  um bom sujeito, no tem dvida.  pena ter-se
metido em poltica. Ficou to amargurado... No sei quem, acho que foi
Guardini -- aquele livro que eu estava lendo, sabe? -- que disse: "o
homem que quer justia tem de colocar-se em nvel superior ao da
simples justia". Pois bem: isso serve para tudo. O homem que quer
fazer poltica, tem de se colocar em nvel superior ao da simples poltica.
Voc veja, por exemplo, o problema do romance...
      -- Eduardo... -- interrompeu ela.
      -- O qu?
      -- At quando vai durar isso?
      -- Isso o qu? -- estranhou ele.
      Ela no respondeu. Foram para casa pensativos, mas se
juntassem todos os seus pensamentos, talvez no formassem com eles
uma s idia, seno a de que j no obedeciam mais  prpria vontade,
mas cumpriam como autmatos o ritual de um destino certo. Um dia
ele encontrou Lda, mulher do Amorim, num nibus a caminho da
cidade.
      -- Eduardo, h quanto tempo!
      Estava mais velha, acabada. Eduardo no sabia o que dizer; mal
a reconhecia -- aquele rosto sem pintura, aqueles lbios outrora vivos e
frescos, que ele num momento de loucura ousara beijar.
      -- Voc tambm anda sumida -- experimentou.
      -- Continuo morando em Niteri. E voc, como vai indo? Que h
com voc?
      -- Comigo? Nada. Por qu?
      -- No sei, voc est to... diferente... Tenho ouvido coisas.
      -- Fala-se muito -- gracejou ele.
      -- E Antonieta?
      -- Vai bem -- e olhou-a, intrigado.
      -- No sei, Eduardo, vocs dois me preocupam tanto... No
gostaria que acontecesse com vocs o que aconteceu conosco. Lembra-
se daquele tempo?
      -- O que aconteceu com vocs?
      Ela sorriu tristemente:
      -- O que aconteceu conosco... Voc tem visto Amorim?
      -- Estive com ele outro dia.
      -- E Antonieta? -- insistiu ela. -- Nunca mais estivemos juntas.
Um dia destes a vi numa confeitaria com um senhor de idade -- nem
me reconheceu, parece.
      Ele no respondeu. Na mesma noite, porm, perguntou a
Antonieta:
      -- Com quem voc foi a uma confeitaria num dia destes?
      -- Confeitaria? Eu?
      -- Estive com Lda, ela me contou. Disse que te viu com um
senhor de idade.
      -- Ah! -- e ela se moveu pelo quarto, despreocupada: -- Deve ter
sido papai. Me encontrei com ele na cidade, fomos tomar ch.
      -- Isso tambm voc no me contou.
      -- Por que haveria de contar? Voc no me perguntou.
      -- Estou perguntando agora.
      -- Ento pergunte -- desafiou ela: -- O que voc est querendo
saber?
      Ele respirou fundo.
      -- Onde est morando o Germano, por exemplo. Gostaria de
procur-lo.
      -- Isso voc j me perguntou.
      -- E voc disse que era no Hotel Place.
      -- Ento procure no Hotel Place. Mais alguma coisa?
      -- Antonieta, eu... -- e no pde prosseguir. A voz lhe faltava, um
soluo atravessou-lhe a garganta. As coisas perdiam o sentido, a
realidade lhe escapava, e era preciso uma verdade qualquer, uma
verdade concreta, acessvel e sem mistrios a que se agarrar, para no
ser tragado.
      -- Eu no agento mais, Antonieta -- disse ele, com esforo,
passando a mo pelo rosto num gesto de cansao.
      -- No precisa ficar assim. Descansa um pouco. Amanh ns
conversamos sobre isso.
      --  preciso que voc me ajude.
      -- Sinto muito, mas no posso fazer nada por voc.
      -- Ento eu estou perdido, eu estou perdido -- e ele escondeu o
rosto nas mos. -- No sei mais nada, no conto com mais ningum...
      -- Amanh ns conversamos -- repetiu ela.
      -- Voc promete? -- ele pediu, submisso.
      -- Amanh voc saber de tudo.
      -- Amanh talvez seja tarde...
      -- No  no -- encerrou ela, absorta, e acrescentou, olhando o
relgio: -- J  tarde, eu vou dormir.
      -- Sempre  tarde. Sempre  tarde -- dizia ele para si mesmo, j
sozinho no escritrio, cercado de fantasmas. E entregou-se a uma de
suas crises de choro, a mais longa e violenta, que durou quase toda a
noite. A manh veio encontr-lo adormecido na poltrona.




TEVE a surpresa de dar com o velho hotel fechado aos hspedes, pronto
para demolio. Pelo aspecto todos j se haviam mudado. Restava
apenas um porteiro de vigia no prdio abandonado.
      -- No h mais ningum morando aqui? -- perguntou.
      Encontrou o velho sozinho num quarto do hotel vazio -- pareceu-
lhe extremamente agitado.
      -- Mas j no h ningum morando aqui -- disse-lhe Eduardo,
perplexo.
      -- Por que voc insiste em me procurar? -- e Germano andava de
um lado para outro, num roupo usado. Tomava longos goles de
usque, servindo-se da garrafa sobre a mesa. No parecia seguro de si,
sua voz se alterava, devia estar bbado. -- Me deixe sozinho no meu
canto, pelo amor de Deus, v embora.
      -- Antonieta -- disse Eduardo apenas.
      -- Converse com ela e no comigo.
      -- No h mais conversa possvel entre ns dois.
      -- Nunca houve. Voc nem sequer a conhece.
       -- Pois ento? -- e Eduardo sentou-se na cama.
       -- Pois ento converse sozinho, mas no comigo. O que voc quer
de mim?
       O velho sentou-se a seu lado, sem olh-lo, sacudiu a cabea:
       -- No tenho nada a lhe dizer. Voc jamais saber nada, voc no
 capaz de saber coisa nenhuma desta vida.
       -- Por qu?
       -- Porque voc se julga dono de seu destino, e ningum  dono de
coisa nenhuma neste mundo. Eu por acaso sou dono do meu? No fao
coisas que por si j so destinos? Ningum conhece ningum, nem a si
mesmo, a cada passo nos surpreendemos, nos desmentimos, negamos o
que um minuto antes nos pareceu a ltima das verdades. Olhe, s h
uma verdade essencial, e essa a gente gasta a vida toda procurando,
quando ela est montada no nosso ombro como uma cruz. S um cego 
que no v. Eu estou morando sozinha neste hotel: todos os hspedes j
foram embora, s eu fiquei, pedi que me deixassem mais uma semana,
s preciso de uma semana. Pois aqui estou eu, e os ratos. H ratos por
todo lado -- s vezes passeio pelos corredores vazios, entro num quarto
e noutro, tudo vazio, parece um navio abandonado, vai afundar. De
noite fico quieto aqui no meu canto, no h luz, desligaram tudo, breve
comeam a demolir. Vejo at morcegos nos beirais do telhado, onde
antigamente moravam pombas. O prdio estala e geme de velhice,
parece que vai morrer...
       -- Por que no se muda? -- perguntou Eduardo, impressionado.
       -- Para onde? Para qu? Estou cansado...
       E o velho se estendeu na cama, prostrado. Em pouco ressonava
pesadamente, a boca aberta, exalando lcool, o peito magro arfando.
Eduardo o olhou durante algum tempo -- tentando decifrar o enigma
que era a mscara de um homem. Cobriu-o com a colcha, antes de sair.
 porta perguntou ao vigia:
       -- No seria melhor que vocs mudassem o velho logo de uma
vez?
       Escurecia sobre a cidade. Em vez de ir para casa, tomou
insensivelmente o caminho do bar. Precisava beber alguma coisa, que j
no se agentava de aflio. Encontrou Trsio em companhia de dois ou
trs conhecidos -- um deles Arago, o aviador:
      -- Lembra do Rodrigo, aquele amigo seu? Foi encontrado.
      -- Encontrado? -- saltou Eduardo.
      -- Retiraram afinal o avio do mar, o corpo estava preso na
cabine. Ele ficou enganchado, no conseguiu sair.
      -- Mas o telegrafista disse que o viu nadando! -- protestou
Eduardo. -- Na poca do desastre todos os jornais...
      -- Foi engano: afundou com o avio, no chegou a nadar. Ento
Rodrigo no chegara a nadar. Intil e sem sentido o sofrimento de dois
dias e duas noites seguidas, o companheiro perdido na imensido do
oceano, enfrentando a fria das ondas, nadando, sempre nadando,
como antigamente a seu lado... J estava morto, afogado dentro do
prprio avio, nem ao menos chegara a nadar. Sentiu certo alvio ao
descobrir que h sofrimentos inteis tambm, gratuitos, imaginrios,
cuja causa j se extinguiu como a da luz de uma estrela, ou que nem
sequer chegou a existir. Em casa contou quase jovialmente a Antonieta:
      -- Sabe? Encontraram o cadver de Rodrigo.
      -- Quem? -- assustou-se ela.
      -- Rodrigo. No chegou a nadar, ficou preso no avio. Agora,
porm, Arago j no falava no companheiro morto e sim na prpria
Antonieta -- dirigia-se a Trsio, apontando Eduardo:
      -- Esse a eu conheci em Uberaba, j faz muitos anos, morto de
paixo pela namorada... Ele ficou no meu quarto, no havia lugar no
hotel. Contribu muito para o casamento deles, no tenha dvida. Foi
ou no foi, Eduardo? Eu era amigo de Antonieta... Ela sempre dizia que
se tivesse de casar haveria de ser com um artista. Pois no foi mesmo?
      -- Voc dizia que se tivesse de casar haveria de ser com um
artista? -- perguntou ele.
      -- De onde voc tirou isso? -- estranhou ela.
      -- Arago me contou. Aquele seu amigo, estive com ele hoje.
      --  possvel... Coisa de menina.
        -- Eu no sou artista.
        -- Que bobagem  essa? Voc no  escritor?
        -- Escritor  quem escreve. Eu no escrevo nada. E no sou
artista nem aqui nem na China.
        -- O que voc , ento? -- disse ela, rindo ante o seu tom
desalentado.
        -- Funcionrio da Prefeitura.
        -- E da?
        -- Voc se casou com o homem errado. Olha, Antonieta, preciso
ter uma conversa com voc.
        -- Voc bebeu?
        -- Um pouco, no muito. Ontem voc prometeu que...
        Foi interrompido pela campainha do telefone. Ambos se voltaram.
Tudo se precipitava.
        -- Deve ser Amorim -- disse ela: -- J telefonou trs vezes para
voc.
        -- Amorim?
        -- . Olha, Eduardo, estive pensando...
        -- O que  que ele quer?
        -- No sei -- e ela ps-se a falar depressa, antes que ele
atendesse: -- Se eu lhe pedir uma coisa voc faz?
        -- Depende.
        -- Depende de voc -- segurando-o pelo brao.
        -- Ento pede -- j com a mo no fone.
        -- Queria que voc no sasse mais hoje.
        -- O qu...
        -- Queria que voc...
        -- Al! -- disse ele ao telefone.
        Era Amorim:
        -- Gerlane est comigo aqui no bar, me pediu que ligasse. Voc
quer falar com ela?
        -- No.
        -- Ento venha para c.
      Eduardo reps o fone no gancho lentamente e fitou a mulher com
olhos distrados:
      -- O que  que voc estava dizendo? -- perguntou afinal,
enquanto vestia o palet.
      -- Nada. Voc vai sair?
      -- Vou. Ele disse que precisa muito falar comigo. Deve ser por
causa daquela nossa discusso. Preciso ir, fui muito estpido com ele
naquele dia.
      Aproximou-se da mulher, vendo que ela no se movia, despediu-
se com um rpido beijo na testa:
      -- Amanh ns conversamos.
      Como ela no dissesse nada, voltou-lhe as costas e saiu. Sem
olh-la uma ltima vez.
                                                           III - A VIAGEM




No   PRINCPIO   limitou-se a aceitar passivamente seu novo estado: relaxava
o corpo, abandonava o esprito e deixava que as idias flutuassem
soltas, sem tentar orden-las em torno de qualquer pensamento
objetivo. Ficava andando pela casa, barba crescida, sem hora certa de
comer ou dormir, olhando uma coisa e outra, o armrio da mulher
completamente vazio, a ausncia dos objetos dela nas gavetas e na
penteadeira, o lugar que ela antes ocupava na cama a seu lado.
Impregnado de solido, sentiu, afinal, mais nos olhos da empregada que
o observava perplexa do que propriamente nas exigncias de sua
condio, que precisava reagir, fazer alguma coisa, readaptar-se.
Comeou por despedir a empregada. Depois, passado o estupor dos
primeiros dias, para que a lembrana no o martirizasse, buscou
distrao em martrio maior, privando-se do cigarro, impondo a si
mesmo um sistema rgido de disciplina: passou a dormir no escritrio,
acordava cedo, tomava banho frio, fazia a barba e ia para o trabalho. Na
volta, mais de uma vez resistiu ferozmente  necessidade de beber. No
queria ver ningum, evitava at mesmo as proximidades do bar -- e
sabia que beber sozinho naqueles dias seria a sua perdio. Fazia as
refeies no restaurante da esquina e em casa punha-se a ler com uma
obstinao quase fsica, mas como a ateno se recusasse, mais
obstinada ainda, castigou-se buscando estudar alguma coisa de rido e
penoso, elegeu o latim.
       -- Labor improbus omnia vincit.
       No pensar, no pensar de maneira alguma -- se impunha,
andando de um lado para outro e recitando em voz alta declinaes j
meio esquecidas, at que o cansao e o sono o vencessem. Quem o visse
o tomaria por louco -- e nunca se sentira to asceticamente lcido, to
ciente de si, de sua fora e de suas limitaes. At que, uma manh,
resolveu procurar Antonieta de novo, e aceitou serenamente a idia,
embora sem saber o que lhe diria desta vez.
        Marcou a visita pelo telefone, conforme a estrita regra de conduta
que se tinham imposto, mas teve o cuidado de escolher uma hora em
que o pai no estivesse em casa.
        -- Voc conversou com ele? -- perguntou, ao v-la. Procurava ser
o mais objetivo possvel.
        -- Conversei.
        -- Quer dizer que para ele eu no estou mais em viagem.
        -- No. Contei a verdade. Ficou muito triste, mas eu convenci a
ele de que no havia nada a fazer, era melhor assim. Voc tornou a falar
com o advogado?
        -- Ele ficou de telefonar quando os papis estivessem prontos.
Escuta, Antonieta...
        Calou-se, sem saber o que dizer. Olhando-a, notava pela primeira
vez que ela se vestira para receb-lo: usava um vestido verde, tinha
brincos e um colar. O cabelo tambm estava diferente, fora cortado. Ele
era uma visita, simples visita -- e nem um ms havia passado. Em
silncio, ela esperava que ele continuasse, preocupada e j na
defensiva.
        -- Voc cortou o cabelo -- comentou ele, idiotamente.
        Aliviada, ela passou a mo pelos cabelos, num gesto seu de
antigamente, o primeiro:
        -- Cortei e j estou arrependida -- sorriu. -- Mas, e voc? Est se
dando bem na sua vida de solteiro?
        No havia no tom de sua voz um mnimo de ironia, mas ele no
entendeu assim:
        -- No estou levando vida de solteiro -- respondeu, subitamente
irritado: -- Estou levando vida de vivo. Vida de solteiro eu levava com
voc.
        Levantou-se como se fosse sair sem despedir-se. No sairia,
contudo; tambm era nele apenas um gesto de antigamente, que ela
logo reconheceu:
      -- No precisa se zangar. Afinal, j conversamos tanto...
      Ele andava ao longo da sala.
      -- Antonieta -- recomeou, buscando as palavras: -- Eu quero
saber apenas uma coisa. Se voc... Se sua resoluo  definitiva.
      -- J conversamos tanto -- repetiu ela, com um suspiro
resignado.
      Ele se deteve em frente  mulher, decidido, olhando-a nos olhos:
      -- Ento me responda a uma ltima pergunta, para que eu saiba
ao menos o que pensar. Voc est gostando de algum?
      Ela desviou os olhos:
      -- Eduardo, por favor. No vamos recomear. Voc j me
perguntou isso. J lhe disse que no houve nada, j lhe provei, voc me
disse que no houve nada, j nos convencemos disso, que mais que
voc quer?
      -- Voc no me respondeu.
      -- J lhe disse que no! -- gritou ela afinal, transtornada,
erguendo-se e encarando-o: -- Voc no quer acreditar, pacincia! Pode
ter a certeza de que se eu tivesse de gostar de algum no haveria
jamais de ser de voc.
      Ele ficou imvel, a olh-la estarrecido.
      -- Por que ento voc se casou comigo?
      -- No sei. Porque eu era muito criana, no sabia o que estava
fazendo. E por favor v embora, me deixe sozinha.
      Ele ficou em silncio, a olh-la estarrecido.
      Sua vida terminava naquele instante.
      Voltou-se em silncio e caminhou para a porta.
      -- Eduardo -- ouviu que a mulher o chamava e se deteve, assim
de costas, para o que ela tinha a lhe dizer: -- No quis magoar voc, me
desculpe, estou nervosa, mas por favor compreenda, voc mesmo 
culpado, fica insistindo, insistindo...
      -- No tem importncia -- balbuciou, e sua voz morreu num
engasgo. Ela avanou para abrir a porta e ao dar com seu rosto
crispado e subitamente envelhecido, os olhos esgazeados a fit-la como
 procura de algum, teve pena, num gesto hesitante tocou-lhe o brao:
       -- No ligue para o que eu disse. Por favor, esquea.
       Ele chegou a sorrir, agradecido:
       -- No tem importncia -- repetiu, a voz sumida. Voltou-se em
direo ao elevador, mas ela, apreensiva, o deteve ainda:
       -- O que pretende fazer?
       -- No sei... Como haveria de saber? -- e, constrangido, evitava
olh-la pela ltima vez: -- Sabe, Antonieta? Estive pensando, estou com
vontade de fazer mesmo uma viagem...




EM   VEZ   de extenuar-se no estudo ou na leitura at que o sono viesse,
acendeu ento o primeiro cigarro e ps-se deliberadamente a pensar no
que lhe acontecera, como a ver se encontrava entre os restos do
desastre alguma coisa pela qual continuar a viver.
       --  intil, Eduardo.
       -- Vamos ser razoveis.
       -- Tinha que acontecer.
       Agora ele est andando pelo apartamento vazio. Tudo nos seus
lugares.     Acende    as   luzes      medida   que   avana,    observa
meticulosamente os mveis, os livros na estante, um grampo de
Antonieta esquecido no parapeito da janela, quase um ms e o grampo
ali na janela, j enferrujado. Tinha de acontecer.
       -- Vamos ser razoveis -- repetia, para si mesmo.
       Uma noite, tomado de sbita deciso, foi ao telefone e discou para
Gerlane.
       -- Preciso muito falar com voc -- pediu, num tom grave.
       -- Eu tenho mais o que fazer, Eduardo -- e ela desligou.
       Atordoado, ele ficou ainda um instante com o fone na mo. Bem,
se  assim -- e afastou-se afinal do telefone assobiando baixinho,
esfregando as mos, embora seus olhos se turvassem de lgrimas:
aquilo tambm estava resolvido, nada mais a fazer. O que era preciso 
que no se sentimentalizasse, ora diabo, no comeasse a se sentir um
pria, repelido por todo mundo, no era isso mesmo? um miservel, ora
tinha graa, um pobre coitado sem ningum -- e j falando em voz alta
palavras soltas, enquanto arrumava a mala em passinhos lpidos entre
o armrio e a cama:
      -- Meias. Camisas. Cuecas?  isso mesmo. No analisa no. Pe
isso aqui... isso aqui... e isso aqui... O que mais? Se eu tivesse de gostar
de algum... Dane-se! Toca para frente: dois lenos. Tenho mais o que
fazer, Eduardo. Est bem, est bem, sua vaca. S porque eu no quis...
Uma gravata, duas, mais umazinha s... E pronto, acabou-se. No quis
o qu? Ah, Gerlane. No se deixar abater. Algum livro? Trsio tinha
razo: mulher, quando comea assim... No, que livro nada! Nem
passado e nem futuro, a vida presente, minha enfim, liberta, sem
limitaes. E chega! Descansar um pouco, ainda  cedo.
      Assim mesmo vestido, esticou-se na cama para aguardar a
manh.
      A seu lado, ia um homem corpulento, bem vestido. Os demais
passageiros    se   entreolhavam      e   estabelecia-se   aquela    muda
solidariedade dos que secretamente esperam em Deus que o avio no
caia. Apertavam em silncio os cintos de segurana, enquanto o
aparelho deslizava para a pista. O homem a seu lado respirava
desconforto, olhando duro para a frente; quando os motores ganharam
fora, preparando-se para a decolagem, ele relaxou o corpo na poltrona,
tentando aparentar displicncia, e lanou a Eduardo um olhar de
curiosidade. Eduardo fingiu-se distrado. Agora que o avio corria pela
pista quase a desgarrar-se do solo, o homenzarro no resistiu e levou a
mo  testa como se consertasse o cabelo, ao peito, depois ao ombro
esquerdo como se tirasse um cisco do palet, ao ombro direito e
finalmente  boca, como se roesse a unha... Era o sinal da cruz mais
camuflado de que ele seria capaz. Eduardo fingiu que no via nada,
mas persignou-se tambm, abertamente, a mo espalmada para que o
homem visse, enquanto o avio ganhava altura. O homem ento o
imitou, feliz, e respirou aliviado, Voltando-lhe um olhar solidrio que
era quase que um agradecimento. Eduardo se sentiu mal: cnico,
fingido, hipcrita -- no se importava se o avio casse.
      Encontrou a cidade diferente, mudada. Agitao pelas ruas,
prdios novos, gente andando para l e para c, como se realmente
tivesse urgncia de ir a qualquer parte. Os elevadores funcionavam todo
o tempo:
      -- Andares! -- gritava o ascensorista, e ia dizendo: primeiro!
segundo! terceiro! quarto! e assim at o vigsimo, quando ento a porta
se abria: terrao! Vejam s que bela vista.
      Depois algum lhe batia no ombro:
      -- Voc por aqui? Vamos tomar um caf.
      Era o Veiga. Estava gordo, meio calvo, e era diretor do jornal.
      -- Que tal se voc iniciasse uma srie de artigos no suplemento?
Voc sabe, no podemos pagar, mas enfim... S que no pode ser de
ataque ao governo.
      O nico que ainda acreditava ser ele um escritor... Veiga no
tinha nada a lhe dizer. Eduardo tambm no tinha nada a dizer ao
Veiga, no tinha nada a dizer  sua me, no tinha nada a dizer a
ningum:
      -- Meu filho, o que aconteceu com voc? Onde est sua mulher?
Ouvi dizer que voc est morando sozinho.
      A velha, acabada, doente, sempre com os parentes na Serra. Toda
chorosa, abraando-o:
      -- Escrevi trs cartas para voc, voc nem ao menos se digna de
responder.
      -- No recebi, mame.
      Teria recebido? No teria? Nem se lembrava. Nada importava
mais, seno que haviam acabado com o banco da Praa. O novo prefeito
fizera um estrago no jardim, pondo abaixo as belas touceiras de
antigamente, substituindo tudo por uma grama rasa, bem aparada,
ridcula. Os bancos agora eram de mrmore, como tmulos. Nada mais
o ligava quele lugar:
      -- Chegou a hora de puxar angstia.
      Chegou a hora. Mocidade velha, cansada, desnorteada, exaurida,
quando chegaria enfim a tua hora? Quantos sculos de angstia
coletiva te fizeram? Quantas horas de aflio foram vividas, quantos
coraes se extenuaram no amor e na esperana para te entregarem
desamparada ao mundo novo? e que ser de ti neste mundo? que ser
do mundo? Perguntas sem resposta e sem sentido que ele largava na
praa avermelhada pelo crepsculo. "Aqui outrora retumbaram hinos",
pensou, e logo se afastava dali. O fruto que apanhara ainda verde...
Nem verde, nem maduro, nenhum fruto colhido: um livro cem vezes
comeado, um filho abortado, um casamento dissolvido. Para isso
vivemos... Nada mais terrvel do que no ter nascido! ele dissera um dia.
E agora? Agora s a liberdade importava: liberdade de um dia olhar o
outro nos olhos e dizer: s tu -- reconhec-lo, identificar-se com ele logo
que o encontrasse e enfim se deixar viver numa enfim conquistada
disponibilidade, que a vida em si mesmo justificava. O anonimato, por
exemplo, era uma anteviso do paraso -- andar desconhecido e livre
pelas ruas, ningum o identificava, ningum que parasse a todo
momento para:
      -- Ento, como vo as coisas?
      -- No to bem como voc...
      -- Quando chegou?
      -- Como vai Antonieta?
      -- Ainda fica aqui algum tempo?
      Algum tempo. Mauro, casado, morando num bangal:
      -- Estou trabalhando no Pronto-Socorro, dirigindo a seo de
radiologia. Hugo me chama de fotgrafo... Temos uma equipe muito
interessante, uma boa turminha. Vou te levar l um dia desses, para
voc ter uma idia do que pode acontecer numa cidade em apenas uma
noite... Voc, que  escritor, precisa ver um planto do Pronto-Socorro.
      Eduardo mudou de assunto:
      -- Voc nunca mais tomou daqueles porres colossais?
      -- Qual o qu -- disse Mauro rindo: -- Minha mulher  s farejar
bebida, pe a boca no mundo. Mas no me chateia em nada, pelo
contrrio:  uma boa figura, voc vai ver.
      A mulher de Mauro era filha de portugueses, falava com ligeiro
sotaque. Calada, humilde, levantava-se a todo momento para ir 
cozinha, voltava  mesa de jantar:
      -- Meu marido me contou que ele e o senhor foram grandes
amigos -- foi tudo quanto disse. -- O senhor  mdico?
      -- Que mdico nada! -- Mauro, rindo, respondeu por ele: --
Eduardo  poeta, minha filha: e no chama de senhor no, que ele no
 to velho assim...
      -- Poeta  voc -- disse Eduardo: -- Eu nunca fui.
      -- Imagine que essa aqui -- disse Mauro, dando uma palmadinha
carinhosa na mulher -- foi fazer uma limpeza nas minhas coisas,
encontrou uma pilha de poemas meus, jogou tudo fora pensando que
era para jogar fora. Nesse dia tomei um porre, para celebrar o
acontecimento. Um vastssimo porre, durou uma semana. Mas foi o
ltimo. Foi ou no foi, galeguinha?
      -- Foi -- confirmou ela.
      -- Voc no sente falta, no? -- perguntou Eduardo.
      -- De qu? Da bebida?
      -- Do poeta em voc.
      Mauro deu uma gargalhada:
      -- Deixa de literatura para cima de mim! Olha que eu sou macaco
velho nessas coisas.
      -- Para mim, na calada da noite, voc ainda medita seus
versinhos.
      -- Cad tempo, rapaz? Fico batendo chapa o dia inteiro! Tanta
perna quebrada neste mundo de Deus, voc nem imagina. Eu por mim
prefiro me realizar no p quebrado diretamente.
      -- Esse  infame -- protestou Eduardo, e ambos riram. Moviam-
se cautelosos na sua nova forma de conviver:
      -- E o terrorismo? -- lembrou Eduardo.
      --  isso mesmo... O terrorismo...
      Findo o jantar, sentaram-se na varanda e para celebrar a ocasio,
Mauro desafiou a mulher mandando buscar na venda uma garrafa de
conhaque.
      -- Voc j esteve com Hugo? -- perguntou, antes que Eduardo
partisse: -- Se estiver com ele d meu abrao, diga para aparecer. Nem
conhece minha mulher, aquele safado.
      Encontrou Hugo cercado de jovens na leiteria:
      -- No vejo Mauro h mais de um sculo. O carcamano acabou
um bom burgus, ganhando dinheiro  custa da desgraa alheia. E ns
que espervamos dele no mnimo um Maiakovski!
      -- Nossa misso era outra, talvez -- disse Eduardo, fitando o
amigo: estava mais velho, os cabelos j um tanto ralos, via-se que
ficaria calvo.
      -- A poesia  que era outra -- comentou baixo um dos jovens.
Eduardo ouviu e se inclinou, interessado.
      -- Como?
      -- Estava falando aqui com ele -- esquivou-se o outro.
      Hugo o preveniu com um sorriso:
      -- No facilita com eles, no, Eduardo... So concretistas.
      -- O que  preciso  conduzir a linguagem verbal a uma condio
de experincia orgnica -- concedeu o jovem.
      -- Experincia orgnica? O que  isso?
      -- Poesia no  a notcia de determinada emoo potica ou da
coisa que a provocou. Poesia  a prpria emoo potica integrada na
coisa que a provocou. A linguagem diz de uma viso especial das coisas
-- formulao colocada no extremo de uma srie contnua e ascendente
de inteleces.
      -- Ah... -- e Eduardo desistiu de entender, voltou-se para Hugo:
-- E voc, no tem escrito nada?
      -- S pontos de aula. E algumas teses: vai haver uma
homenagem ao reitor e estou escrevendo o discurso de saudao no
qual abordo a reforma do ensino, gostaria que voc visse.
      -- No, muito obrigado. Ainda me lembro da ltima homenagem
ao reitor de que participei, voc no se lembra?
      -- Se me lembro... Mauro foi de uma grosseria! E o pior  que
ainda  o mesmo reitor -- hoje somos bons amigos. L na Faculdade
estamos realizando um trabalho interessante...
      -- Mauro me disse a mesma coisa.
      -- Sobre a Faculdade? -- espantou-se Hugo.
      -- No; sobre o Pronto-Socorro.
      O jovem continuava:
      -- Poesia , pois, a concretizao em linguagem verbal dessa
realidade ltima contida nas coisas. Tomemos por exemplo esta garrafa.
O conceito que fazemos desta garrafa.
      No dia seguinte era o Toledo:
      -- No sei o que eles pretendem, nem quero saber. Estou velho
para essas novidades. Em verdade j nasci velho, como voc. A
diferena  que voc tem uma chance e eu no tenho.
      -- Que chance eu tenho?
      -- A de romper com seu passado. Abrir mo de tudo o que vem
constituindo voc: sua sinceridade, sua fidelidade a si mesmo. O que 
a sua sinceridade? A sinceridade de quando voc no sabia nadar ou
de quando voc se tornou campeo?
      -- Hoje no sou capaz de nadar mais de duzentos metros --
sorriu ele.
      -- Pois nade esses duzentos metros. No se detenha diante de
nada. Comece enquanto  tempo, rompa com tudo e cora todos! Quero
voc capaz de mijar na minha sepultura.
      -- Que devo fazer? -- perguntou ele, impressionado.
      -- No blefe. Jogue todas as cartas na mesa. No fuja. No tenha
medo de perder. Nada mais digno do que, tudo feito, depois que no se
poupa nada, saber dizer: perdi. Porque essa  a grande verdade:
perdemos sempre...
      -- Eu no nasci para perder.
      --  um bom comeo saber isso: no ter medo de nada, nem de
morrer. Voc tem medo da morte? Ento desista de uma vez, porque
morrer no tem importncia -- Mrio de Andrade morreu e est mais
vivo do que eu, do que voc. Estou repetindo palavras dele! Tenha medo
 dos escorreges. No escorregue, caia de uma vez. Os medocres
apenas escorregam. Os bons quebram a cabea. Voc  dos bons. Pois
v em frente! Pague seu preo e Deus o ajudar.
      -- Estou pensando em fazer uma viagem -- disse ele, pensativo.
      Mauro o saudou alegremente pelo telefone:
      -- Ento quando  que aparece de novo? Depois que voc saiu,
fiquei triste como o diabo, enxuguei sozinho aquela garrafa de
conhaque. No resisti, acabei saindo  sua procura por tudo quanto 
bar. O resto, j se sabe: tomei um daqueles porres homricos de que
voc falava, estou escornado at agora.
      Eduardo falou-lhe no encontro:
      -- Ah, sim, no Ginsio... Me lembro de qualquer coisa. Mas por
que voc no aparece?
      Despediu-se do amigo pelo telefone mesmo. E foi ao Ginsio, ao
encontro marcado. Havia um terceiro de quem os dois nem mais se
lembravam. Monsenhor Tavares morto. Na natureza nada se perde,
nada se cria. Lago Titicaca, Popocatepelt -- Fujika Mosaka no era ilha
do Japo, era a japonesinha assassinada. Todo corpo mergulhado num
fluido.
      -- A lua banha a solitria estrada.
      Raimundo Correia no era poeta modernista. A poesia  uma srie
contnua e ascendente de inteleces... Formulao de uma viso, fuso
de inteleco, linguagem verbal, experincia orgnica. Experincia
orgnica era comer, beber e dormir. Poesia era gua, alimento, suor,
urina e fezes. Quem era mesmo o terceiro no encontro marcado?
      O prdio, assim fechado, pareceu-lhe triste e envelhecido -- no
havia alunos, estavam em frias. Havia um poste de iluminao 
entrada principal, o globo no fora quebrado. Agachou-se, apanhou
uma pedra e atirou-a. Errou o alvo e foi-se embora, envergonhado,
temendo que algum tivesse visto.
      Partiu no dia seguinte, de trem.
      -- Voc escreve, meu filho. D notcias. Essa sua viagem para o
estrangeiro... Antonieta vai tambm?
      Antes passou pela piscina do clube, tambm vazia. Rodrigo no
chegara sequer a sair do avio. O porteiro o reconheceu:
      -- Pode entrar, andar a dentro  vontade.
      No havia o que ver. No quadro de honra do clube seu nome fora
substitudo.    Estavam   construindo    uma   nova   arquibancada   que
comportaria o dobro de espectadores. Chico, o roubeiro, sempre o
mesmo, sacudindo a cabea:
      -- Nadador como o senhor, nunca mais teve no.
      O cemitrio -- seu Marciano enterrado ali, na terceira sepultura a
contar da esquerda. Deixou um ramo de flores ao p da cruz, voltou
para o carro que o esperava no porto:
      -- Depressa, para a estao.
      Saiu da cidade como de um cemitrio.
      Por pouco no perde o trem. Que idia, essa, voltar de trem...
Professor Feitosa, quando foi isso? Feitosa ou Leitosa, no se lembrava:
da Faculdade de Medicina. Naquele tempo viajava sem leito -- era
pobre, era algum que vinha de um lugar e ia para outro, tinha um
destino certo, uma misso a cumprir. Subitamente decidiu saltar em
Juiz de Fora.
      -- Com licena, com licena...
      Abriu caminho entre os passageiros que embarcavam em Juiz de
Fora, era uma famlia inteira: um pai se esbofando com as malas, uma
senhora gorda, trs ou quatro meninos...
      -- Eduardo!
      Parou, olhou para trs... O trem dava sinal de partida. Quem o
chamava?
      -- Com licena...
      Era a me dos meninos que lhe sorria, toda afobada e risonha.
Letcia? No, aquilo tambm era demais. Sentiu um aperto na garganta,
uma vontade de chorar. Ajudou-a a entrar, contendo a porta do vago,
sorriu enquanto lgrimas lhe saltavam dos olhos. Abaixou a cabea
para que ela no visse e ganhou rpido a plataforma da estao. No
tivera coragem de lhe dirigir uma palavra. Pensou confusamente que ao
passar pela porta ela comprimira contra ele os seios fartos, gordos,
aqueles mesmos que ele vira um dia pequeninos, despontar sob a fina
blusa de jrsei. Mas o que viera fazer ali, em Juiz de Fora, quela hora
da noite? Eu te amo eternamente -- ela escrevera na sua caderneta. Foi
seguindo a p a rua Halfeld, em direo ao hotel, curvado ao peso da
mala. Enfim, tanto fazia seguir como ficar. Poderia ficar morando ali
para sempre. Ningum teria mais notcias dele e o pior, ningum daria
pela sua falta. Jadir morto com dezesseis anos! Suicidara-se por causa
de uma mulher.
      -- No, por uma noite: embarco amanh para o Rio.
      -- O senhor no  o tenente Marciano?
      Ento o porteiro se lembrava dele! Seria sempre reconhecido pelos
porteiros.
      -- No. Isto ...
      Na manh seguinte foi visitar o quartel de cavalaria.
      -- Eu servi aqui -- explicou ao sentinela. -- Alguns anos atrs.
Gostaria de dar uma olhada...
      O sentinela chamou o oficial do dia.
      -- O que o senhor deseja?
      Quando falou em cavalaria:
      -- Mas deve ter sido h muito tempo! H anos que somos da
motorizada.
      E convidou-o a entrar. As baias haviam sido transformadas em
garagens. Em vez de cavalos, tanques e jipes. O oficial, tomado de
simpatia, explicava:
      -- Isso aqui... Aquilo l...
      -- Houve um concurso de saltos. No ganhei: quem ganhou foi o
tenente Meireles, de Trs Coraes.
      -- Meireles? Deve ser o major Meireles -- foi nosso comandante.
      Mas isso no tem a menor importncia! -- pensou. No tem a
menor...
        -- Muito obrigado...
        -- No quer ver l dentro?
        -- No, s dar uma espiada... Muito prazer, hein? Muito obrigado,
hein?
        O oficial bateu-lhe no ombro, jovialmente:
        --  isso, meu velho, o tempo dos cavalos j passou.
        Ora, eis que esse homem falou alguma coisa: o tempo passa e os
cavalos tambm. E ns os cavales comendo! Isso era um verso. A
poesia, formulao da fuso da inteleco. Que ele era meio burro!
Burro, besta, cavalo. Eduardo Marciano, cavalo que passa. Mas
romancista -- romancista  diferente, no precisa saber nada disso,
basta ir dizendo as coisas como elas acontecem: minutos aps a
entrada do conde, a marquesa sorriu e disse: -- Como vai? Minutos
aps a entrada do conde. Como vamos? Minutos aps a entrada. Como
pois entretanto marquesa, como vai a senhora, exclamou o conde.
Quem no tiver coragem de escrever isso no  romancista. Por isso
Paul Valry no era romancista. Minutos aps... de repente se lembrou
de Helga:
        -- Era loura e alta... Chamava-se Helga, e era bonita como um
cavalo.
        O porteiro no parece lembrar-se:
        -- Tanta moa loura e alta que passa por aqui...
        -- O pai dela era dono de uma poro de fbricas... Era a moa
mais importante da cidade.
        -- Ento deve ser a filha de seu Koetz -- sugeriu o porteiro. -- O
escritrio dele  ali no fim da rua. Ela trabalha l.          Hoje no 
importante, no. Passa aqui em frente todo dia.
        -- Ainda  bonita?
        -- Bem...
        No era um escritrio, era       uma espcie de depsito de
mercadorias: caixotes por todo lado, poeira, penumbra. Ao fundo um
estrado, duas ou trs mesas, dois ou trs empregados, uma mulher. O
tempo dos cavalos havia passado.
      -- Helga...
      Ela ergueu a cabea -- custou a reconhec-lo. Os cabelos eram
louros, ela era alta, aqueles lbios ele havia beijado.
      -- No se lembra de mim?
      -- Me lembro, voc andava fardado.
      -- Eu era tenente -- disse ele.
      A pele j no era fresca -- meio spera, terrosa. Os lbios agora
mais finos, o cabelo mais escorrido -- o vestido preto.
      -- Voc est de luto?
      -- Estou: mame morreu h dois meses.
      No tinham o que dizer, e evitavam olhar-se. Ela se fingia
distrada com o lpis.
      -- Voc se casou, no? Eu soube...
      Ele sorriu, depois explicou:
      -- Imagine que eu ia para o Rio e de repente resolvi saltar aqui,
para lembrar aquele tempo...
      Se lhe viesse  cabea uma palavra ao menos daquele tempo. Em
vez disso se despediu:
      -- Ento, adeus, Helga. Prazer em v-la.
      -- Adeus, tenente -- disse ela, tentando sorrir.
      Naquela mesma tarde deixou Juiz de Fora num nibus.




SOZINHO no apartamento.  noite. Debruado  janela, ele olha a rua.
Um bonde, dois automveis. Conversa de notvagos na esquina, o vigia
da construo. Um choro de criana, miado de gato, tosse de homem,
so rudos esparsos, dbeis sinais de vida que no iludiro a morte,
nessa hora em que todos se esquecem e dormem. Uma noite
semelhante, no Hotel Elite... O que me impede de morrer? Um dia fui
dizer uma coisa no bar e percebi que no tinha nada a dizer. No soube
escolher, fui escolhido. Pois agora agenta a mo, rapaz! No vai chorar
mais no, que no adianta. A princpio chorava tanto que se
acostumara a encarar o pranto com certo bom humor: muito bem, est
chegando a hora, daqui a pouco comea a choradeira. Ou ento: isto 
bom, principalmente antes do jantar --  duro sofrer assim, mas abre o
apetite. Encarava-se ao espelho com simpatia, quando o sofrimento
fazia escorrer lgrimas de seus olhos: "Ento, garoto, como vo as
coisas? Tem cabimento um homem chorando dessa maneira? No liga
no,  assim mesmo, mais tarde passa..."
      Mas as lgrimas acabaram secando e ele se limitava a ficar
andando pela casa, sem ter o que fazer, com preguia de barbear-se,
vestir e sair. "Uma de menos", dizia seu Marciano, enxugando o rosto a
cada manh. Mal se arriscava at a esquina para comprar cigarros,
comer qualquer coisa, e voltava logo para casa.
      Um dia encontrou Neusa, a menina sua vizinha. J no era
menina: tivera um namorado.
      -- No quero que essa menina fique por a, tomando intimidade
conosco.
      A vida  assim mesmo, pensou, de novo sozinho, resolvido a
esquec-la sem remorso. Nos desmentimos a cada passo, o velho
Germano afirmara. Mas no h verdade nenhuma nos nossos ombros
como uma cruz. Para que esperar? Ele havia triunfado, precipitando o
seu destino.
      E assim passavam os dias, no tinha sequer em que pensar.
Rebuscava pensamentos que antes o seduziam, acabava organizando
listas: listas dos livros que j lera, das coisas que mais o irritavam, das
mulheres que j conhecera, de seus autores prediletos. Com estes
comps um time de futebol para jogar com o time das mulheres.
      -- Assim eu acabo doido mesmo -- reconhecia, de sbito sentindo
pena de si mesmo, j se vendo doido manso, internado num hospcio.
Antonieta o visitaria? e recomeava a chorar.
      Agora no est chorando. Tem os olhos secos e busca outra
janela, a que d para o fundo de outros apartamentos. A rea entre os
edifcios se abre com um poo. O que me impede de morrer? Inclina-se e
olha para baixo. Se algum dia tiver de suicidar fao um estrago louco...
Mas Jadir no pensava assim. Hoje ele tambm no pensava assim.
Nada de violncias! o tresloucado gesto na noite do Hotel Elite, me conte
tudo sobre a morte da meretriz. Nada disso, a coisa tinha de ser suave,
delicada, impressentida... Um tubo de luminal, Antonieta no deixara
atrs de si, no armrio do banheiro, um tubo de luminal ainda fechado?
Por que diabo teria comprado aquilo? Foi ao banheiro, abriu o armrio
do banheiro. Para que ele se lembrasse de tomar, depois que ela se
fosse? Deitar, dormir e morrer. Escovaria os dentes? Daria corda no
relgio? Apanhou o tubo, abriu-o, despejou os comprimidos na palma
da mo, brancos, puros, inofensivos. Vinte comprimidos, era o que se
chamava uma dose cavalar. O tempo dos cavalos... De repente tocaram
a campainha da entrada.
      -- A esta hora?
      Por um momento pensou em Neusa -- enfiou rapidamente os
comprimidos no tubo, guardou-o no bolso do pijama e foi abrir.
      -- Voc?
      Era Vtor. Entrou meio constrangido, sorrindo de lado, tentando
naturalidade:
      -- Estava passando a por perto, resolvi te fazer uma visita.
Ento, como vo as coisas?
      Aqui por perto? Desde quando algum do outro mundo passava
jamais aqui por perto? Assim de noite, sem mais nem menos, como
antigamente. No h de ser para pedir que lhe d um livro para a sua
editora. Pois ento sente-se a, esteja  vontade, espere um instante,
vou ali na mquina e escrevo um livro para voc. Escrevo um romance,
o meu romance. Esse bestalho saber que o tempo dos cavalos j
passou?
      -- Como vai a editora?
      -- Vai indo. Estamos pensando em fundar uma revista. Alis, seu
nome foi lembrado...
      Eduardo o olhava, tentando simular interesse. Nem ao menos
alguma coisa para beber, nada a oferecer-lhe para quebrar o
constrangimento da visita. Quem sabe voc aceitaria tomar uns
comprimidos de luminal?
      -- E Maria Elisa?
      -- Est bem. Tivemos mais um filho, sabia?
      Alguma coisa ele queria dizer. O que quer que fosse, melhor que
dissesse logo. Ou no dissesse -- ningum tinha nada com sua vida.
      -- Soube que voc est sozinho.
      -- Escuta, Vtor -- comeou, mas o visitante o interrompeu,
incisivo:
      -- No pense que vim aqui te chatear as idias, me meter na sua
vida. Apenas acontece o seguinte: toco neste assunto porque no vejo
outro jeito de dizer o que eu quero dizer. Mas  s para dizer que o que
eu quero dizer...
      De repente se perdia em palavras e olhava Eduardo como a pedir
ajuda:
      -- Bem,  o seguinte: vim aqui para lhe dizer que sou seu amigo,
conte comigo para o que der e vier. Era isso. E est acabado, no se fala
mais no assunto.
      Eduardo o olhava, estupefato.
      -- Fica meio cretino eu dizer isso assim sem mais nem menos --
continuou ele -- mas que hei de fazer? Venho pensando h vrios dias,
no vi outro jeito. Afinal, voc era o meu melhor amigo...
      -- Tambm no exagere...
      -- No  exagero -- protestou o outro: -- De toda aquela turma
voc foi sempre o melhor e em quem eu mais confiei.
      -- Ora, deixe de bobagem.
      -- Estou falando srio.
      -- E hoje?
      -- Ainda confio -- disse Vitor, com firmeza. -- Voc vai para a
frente, estou certo disso. E vai por caminhos estranhos. Ainda mais
agora, que voc no tem desculpa. Eu confio em voc.
      -- Obrigado, Vtor -- disse Eduardo, comovido.
      -- Ento no se fala mais nisso -- e ambos respiraram aliviados.
Depois comearam a rir, felizes:
      -- Voc esteve viajando, no?
      -- Por a...
      Eduardo agora se tomava de inesperada euforia, ps-se a falar,
explicar, contar casos. Falou-lhe da viagem a Belo Horizonte, de Mauro,
da nova gerao, das inteleces. Vtor o ouvia, interessado, de vez em
quando fazia um comentrio:
      -- Que estamos vivendo o fim de uma poca, no h dvida. Por
que voc no escreve o que est me dizendo?
      -- J pensei nisso. Mas, e voc? Como  mesmo, o plano dessa
revista?
      Era um homem de meia-idade, Vtor -- pensava, a observ-lo com
simpatia, enquanto ele falava. Um pai de famlia, um homem
respeitvel, um pouco ingnuo, mas vivo, coerente, reto, convicto,
vivendo de acordo com suas idias -- como ele gostaria de ser, como
seu Marciano gostaria que ele fosse. O que acontecera para Vtor mudar
tanto?
      -- Cheguei  concluso de que aquela vida que ns levvamos
no servia, resolvi tomar outro rumo. Tem de ser de uma vez s: ou vai
ou racha. Aos pouquinhos  que no adianta. Mas outro dia me
aconteceu uma coisa engraada -- e Vtor sorriu, desajeitado, sem
saber se contava ou no: -- Voc ainda  catlico?
      -- Eu nunca lhe disse que era catlico.
      -- Qual, vocs mineiros so todos catlicos. Mas, eu dizia, o que
me aconteceu foi o seguinte: fui a um mdico, porque estava sentindo
umas dores esquisitas. Tirei radiografia do pulmo, fiquei de voltar no
dia seguinte. No dia seguinte o mdico me pega e me leva a um canto:
seja homem, rapaz -- essa coisa toda. Voc est com cncer no pulmo.
      -- No  possvel!
      -- Ouve o resto: levei a radiografia a outro mdico, que confirmou.
Fui para casa daquele jeito, voc pode calcular -- mas resolvi esconder
de Maria Elisa a notcia. Quando cheguei no agentei mais, me
tranquei no banheiro, tive uma crise de choro. Quando dei por mim
estava pedindo a Deus um milagre, fazendo uma promessa: se eu no
tivesse nada no pulmo, subiria de joelhos a escadaria da Penha. Me
lembrei disso porque  o que todo mundo promete...
     E Vtor fez uma pausa, respirou fundo:
     -- S mesmo um milagre, porque a radiografia no podia mentir.
Pois bem: no dia seguinte o mdico me telefonou todo afobado, dizendo
que a radiografia fora trocada, eu no tinha absolutamente nada no
pulmo.
     Eduardo ficou calado,  espera.
     -- O que eu quero saber  o seguinte: houve milagre? Por favor,
no conte isso a ningum, que acho o caso todo meio ridculo, mas eu
teria de cumprir a promessa?
     -- Tem -- e Eduardo, sem saber por que, se lembrou de Germano.
     -- Mas foi apenas um engano do mdico...
     -- Voc fez um pedido, no foi? O que voc pediu? Que no
tivesse nada no pulmo. Pois est a, voc no tem nada no pulmo.
Com muito menos do que isso Graham Greene escreveria um romance.
Cumpra a sua promessa.
     -- Mas continuo a pensar que se foi engano...
     -- Voc acredita em Deus?
     -- No sei, Eduardo... Quando estou sozinho eu acredito. Nunca
tinha pensado nisso antes...
     -- Talvez o milagre tenha sido a sua esperana no milagre...
     O rosto de Vtor era agora o de um menino:
     -- Se  assim eu subo a escada, no tem dvida. Vou l de
madrugada, quando no tiver ningum...        Agora  uma questo de
teimosia. Milagre ou no, a verdade  que se prometi eu cumpro.
     -- No sei, tudo  milagre... Se voc no viesse hoje aqui, por
exemplo, quem sabe?
     Conversaram at as quatro horas da manh. Despediram-se
alegres e cansados, prometendo-se mutuamente se encontrar sempre,
se visitar, voltar ao convvio antigo, feito agora em outros termos. E
nunca mais se viram: uma semana depois, na noite de Natal, Vtor foi
atropelado e morto quando um nibus desgovernado subiu na calada e
o prensou contra a parede.
      Bem, e agora? -- pensa Eduardo no bar. Chegou o tempo de
beber sozinho, sentado junto ao balco. Neste bar se encontrou tantas
vezes com Gerlane -- inclusive a ltima, em que brigaram por causa do
Amorim. Agora vem quase todas as noites tomar uns usques at que o
sono o domine. Ter insnia no  nada engraado, mas j no h
luminal em casa, jogou fora naquela noite. Eu confio em voc. Eduardo.
Exatamente como Rodrigo, anos antes no vestirio da piscina: voc tem
de vencer. Vencer o qu, agora? Vencer na vida? Morte, a est a tua
vitria. A morte  para os que confiam. Os que confiavam nele
acabavam morrendo. Mas todos acabam morrendo, mais dia, menos
dia. Vtor morreu para que ele vivesse. Na noite de Natal! Para que
Cristo nascesse. Mas isso j era uma idia sem sentido.
      Chegou o tempo de beber sozinho. Depois chega o tempo de
andar, andar at no poder mais de cansao: castigar o corpo. Depois
chega o tempo de trabalhar, fazer alguma coisa, sentir-se vivendo de
alguma maneira. Houve um que nesta ltima fase fundou uma cidade.
Sim, ele sabe, conheceu nos outros e nos livros todas essas etapas.
Nunca pensou  que pudesse acontecer com ele, logo com ele! que se
julgava invulnervel. Por ora, beber apenas.
      -- Imagine um elefante -- disse ele.
      -- Um elefante -- disse o garom.
      -- Imagine dois.
      -- Hum...
      -- Um, no: dois!
      -- Eu sei: dois.
      -- Imagine trs. Dez. Vinte.
      -- Vinte elefantes -- sorriu o garom.
      -- Agora, imagine cem, duzentos, mil.
      -- Mil?
      -- Mil. Se voc  capaz. De mil, cinqenta mil, cem mil elefantes.
Voc  capaz?
      -- ...
      -- Pois agora imagine um milho. Um milho de elefantes
galopando, um milho! J imaginou?
     -- Poeira, hein?
     -- Poeira, nada: elefantes! Um milho. Um bilho, chega?
     -- Um bilho -- o garom repetiu.
     -- Novecentos bilhes. Novecentos e noventa e nove trilhes! de
elefantes. No posso mais. Acho que chega, voc que acha?
     --  muito elefante -- concordou o garom.
     -- : muito. Pois agora voc imagine uma pulga.
     -- Uma pulga -- e o garom suspirou, resignado.
     -- Isso: novecentos e noventa e nove trilhes de elefantes, de um
lado: e uma pulga, do outro lado. -- Morou?
     -- No.
     --  o terror -- arrematou ele. -- Me d um usque.
     Havia tambm a histria do homem que procurava o seixo que
virava qualquer metal em ouro. Era uma vez um homem que procurava
um seixo que virava qualquer metal em ouro. Saiu por a -- foi na ndia
-- saiu ainda jovem pela ndia, todo seixo que via no cho apanhava,
batia na fivela de metal do cinto e atirava fora. Andou por todas as
estradas da ndia catando seixos, colheu pedrinhas no fundo dos rios, e
nada. Um dia, depois de anos e anos de procura, j velho e alquebrado,
sentou-se  sombra de uma rvore para descansar e distraidamente
olhou para a fivela do cinto -- a fivela do cinto, que era de um metal
qualquer, tinha virado ouro. Onde? Quando? Quer dizer que o seixo
procurado estivera nas suas mos! Resignado, o velho recomeou a
procura.
     -- Angstia, e da boa.
     O mdico dissera isso, depois de Ouro Preto. E finalmente, tinha
um sonho assim: algum o obrigava a apanhar no fundo do mar uma
agulha -- mas no sabia dizer precisamente onde: se no Oceano
Atlntico, se no Oceano Pacfico. E ele saa mergulhando, durante anos
e anos, nada de agulha. Ento lhe diziam: talvez se voc tentasse no
Oceano Indico... Em geral acordava em pnico, suado, chorando.
     Completamente bbado, o corpo oscilando sobre as pernas,
deteve-se no meio da sala, o copo na mo.
      -- Tenho de ir  missa.
      Olhou em torno com olhos frouxos, tentando ordenar as idias:
      --  missa -- repetiu.
      Ningum lhe deu ateno. Eram trs horas da manh e a festa ia
no auge. Havia de tudo: mulheres vestidas a rigor, moas de cala
comprida, rapazes de smoking, outros sem palet. Um gaiato chegara
mesmo a comparecer fantasiado: era uma festa de passagem do ano, e o
ano j passara sem que Eduardo percebesse.
      -- Tenho de ir  missa -- exclamou pela terceira vez. Algum a
seu lado deu uma gargalhada:
      -- Ele disse que tem de ir  missa!
      Voltou-se lentamente e contemplou com olhar crtico a mulher
que tinha junto de si:
      -- Est rindo a, sua boba? Vou-me embora, no tenho nada com
esta festa.
      -- No est me reconhecendo?
      -- Nunca tive o prazer -- e estendeu o brao para cumpriment-
la. Perdeu o equilbrio, teve de apoiar-se nela para no cair. Aproveitou
o movimento e abraou-a.
      -- Espera, espera! Est me molhando com esse copo. O que voc
est bebendo?
      -- Usque.
      -- Onde arranjou? Aqui s tem batida...
      -- No bar. Eu estava l muito sossegado tomando o meu usque,
apareceu no sei quem, me trouxe para c, disse que era um absurdo
eu passar o ano sozinho, me arrastou para esta festa. No quero saber
de festa, preciso ir  missa.
      -- Mas por que missa? -- a mulher se preparava para rir, na
expectativa.
      -- Voc  meio burra, no ? Por que missa...
      --  uma idia -- concordou ela: -- Comear o ano indo  missa.
      Comear o ano? Lembranas indistintas afloravam em confuso
na sua cabea, uma festa na casa de Vtor se misturando quela em
que estava agora, uma igreja iluminada, a primeira missa do ano, h
quantos sculos? oh, como ele ento era inocente! Deus rejeita os
inocentes: no servem para nada.  preciso se perder primeiro, para
depois se salvar. Antes, resistir bastante, para que a queda seja
completa. Escarrapachar-se no cho, quebrar a cabea. Ps-se a rir:
este era o privilgio do homem. Um direito, o direito de escolher. Um
direito, ouviu? Deu um tapa nas costas da mulher.
      -- Ite, Missa est -- despachou-a. Ela se ofendeu:
      -- No faa isso. Voc me machucou.
      -- Desculpe. Quem  voc? Que diabo de festa  esta?
      Todos se movimentavam agora, no caberia mais ningum na
sala. Ele foi empurrado de um lado para outro, procurava proteger o
copo j vazio.
      -- Estou bebendo desde cinco horas da tarde,
      -- Est se vendo -- disse a mulher.
      -- Pois ento vamos beber alguma coisa.
      A custo atingiram a mesa a um canto. Eduardo encheu seu copo
de batida, que tomou de uma s vez. Fez uma careta de nojo, voltou-se
para ela:
      -- Por que s servem cachaa, nesta casa? De quem  esta casa?
      -- Minha -- respondeu ela, sorrindo. Ele no se alterou:
      -- Por que no disse logo? Ento me d um abrao.
      Largou o copo na mesa e abraou-a, cambaleando. Ainda a
segur-la, olhou-a nos olhos:
      --  uma pena voc no poder sair comigo.  to bonita, to
simptica... Como  o seu nome?
      Ela riu novamente:
      -- Voc no est se lembrando de mim: Antonieta...
      Ah! Aquela mulher era amiga de Antonieta: seu nome era Maria
Lcia e no seu casamento lhe haviam dado de presente um quadro de
Joubert.
      -- Foi Joubert quem te trouxe -- confirmou ela.
      -- No tenho mais nada com Antonieta.
      -- Eu soube.
      -- Para mim ela morreu.
      -- Bebendo desse jeito, quem acaba morrendo  voc.
      -- Sabe de uma coisa? Eu podia continuar bebendo assim at
morrer, mas no posso, porque daqui a pouco...
      -- ...tem de ir  missa.
      Ele a olhou, espantado:
      -- Como  que voc sabe?
      Algum veio chamar a dona da casa, Eduardo aproveitou-se e foi
saindo. No jardim ps-se calmamente a urinar sobre as plantas, sem se
importar com os casais que deixavam a casa para refugiar-se entre as
sombras. Joubert bateu-lhe nas costas:
      -- Vamos embora, isso aqui no d mais nada. Vamos a Lili.
      -- Todos a Lili -- secundou o jovem que o acompanhava.
      -- Quem  Lili?
      -- Vem conosco, voc vai ver s.
      -- Todos a Lili -- repetiu ele para si mesmo, abotoando a cala,
      No carro, deixou-se cair no banco de trs, estirando o corpo.
      -- Deixa ele dormir -- disse Joubert. -- Deve ter bebido demais.
      -- . Est num porre desgraado.
      Eduardo endireitou-se e ps a mo na maaneta:
      -- Porre  a me. Pra o carro.
      Os dois se espantaram, voltando-se para v-lo. O carro diminuiu
a marcha:
      -- Que  isso, Eduardo? Voc se ofendeu  toa, ele s falou...
      -- Falou  a me. Quem  esse menino para dizer que eu estou de
porre? Pra o carro.
      -- Mas no vamos a Lili?
      -- Sei l que Lili! Estou quieto no meu canto e vem esse merda-
seca dizer que eu estou de porre. Pra o carro, que eu tenho de ir 
missa.
      Os dois riram:
         -- Ainda  cedo para a missa...
         -- Vamos em frente. Todos a Lili.
         -- Eu te mostro Lili. Pra essa joa!
         Desta vez ele gritara com raiva -- o jovem se assustou e parou o
carro. Os dois mantinham agora um silncio ressentido, enquanto ele
abria a porta e saltava. Fez uma pirueta inesperada, buscando se
equilibrar, despediu-se:
         -- Eu vou para a missa. Vocs vo para a...
         O carro arrancou, as ltimas palavras do xingamento morreram
no ar.
         -- Lili -- resmungou, enojado. Danem-se.
         Olhou o relgio e coou a cabea, irresoluto: o diabo  que eles
tinham razo, ainda era mesmo cedo para a missa. Foi caminhando
pela praia e insensivelmente tomou o rumo do bar, o mesmo bar de
onde Joubert o arrancara. Fez dois quarteires num passo irregular e
obstinado: a sede o consumia. Da esquina surgiu uma mulher, que o
chamou sem cerimnia:
         -- Psiu!
         Deteve-se, ela veio se aproximando:
         -- Sozinho, meu bem?
         -- No -- respondeu, lembrando-se subitamente de Mauro e
comeou a rir, apontou para cima: -- Com ele.
         -- Com quem?
         -- Com Deus.
         A mulher recuou um passo:
         -- Voc est bbado:
         --  a me. At logo, estou com pressa.
         Enquanto caminhava, sentia os olhos se encherem de lgrimas.
"Devo estar mesmo bbado", pensou, percebendo que era ridculo e sem
nexo chorar na rua quela hora. Mas a verdade  que estava mesmo
sozinho. Procurou discernir as luzes do bar. J no havia luz, o bar se
fechara. Ficou revoltado: era uma traio! Fora vtima de uma cilada.
Ou, quem sabe? ainda havia algum l dentro. Ps-se a sacudir a porta
com violncia:
      -- Abre isso a!
      No havia ningum, tudo s escuras. Enraivecido, apanhou uma
pedra junto ao meio-fio e atirou-a contra os vidros da porta, que se
partiram, retinindo. Depois ficou por ali, resmungando. Dentro em
pouco, alertada por um dos moradores do edifcio, que ouvira o rudo,
chegou a radiopatrulha e o prendeu.




ERAM mais de sete horas da manh quando conseguiu livrar-se da
delegacia. Saiu a correr pela rua, entrou num txi:
      -- Depressa! Para a cidade.
      Agora sentia os pensamentos mais ordenados, as idias mais
claras: ela prpria lhe telefonara, pedindo que no deixasse de ir. J
no fora ao enterro...
      -- Ele falou tanto em voc nos ltimos dias... amos te convidar
para a ceia de Natal, naquela noite.
      Morto h uma semana. No tivera coragem de ir v-lo morto, e
agora ia perder a missa do stimo dia.
      -- Sei que voc no acredita nessas coisas, mas...
      -- Eu? No acredito?
      O motorista virou-se para trs:
      -- Como?
      -- Nada no. Mais depressa, por favor.
      O efeito da bebida no passara de todo. Era aquela cachaa,
bebera um copo de cachaa com limo, onde? na casa daquela mulher,
conhecida de Antonieta. Para mim ela morreu.
      -- Depressa, por favor,  importantssimo -- pediu novamente,
sentado na ponta do banco. S ento, ao ver-se refletido no espelho do
carro, deu conta do estado deplorvel em que se achava: roupa em
desalinho, camisa encardida de poeira e suor, barba crescida... Passou
o pente nos cabelos, endireitou a gravata, tentou recompor-se como
podia. No tinha importncia. Maria Elisa devia estar muito abalada
para prestar ateno nessas coisas.
         Entrou na igreja precipitadamente, e estacou: a missa ia em meio,
o sacerdote erguia lentamente a hstia. Tudo imvel e em silncio, um
mar de cabeas curvadas e submissas. Agora as sinetas retiniam, as
cabeas se agitaram, todos se ergueram. L na frente, num grupo
isolado, pde distinguir Maria Elisa, de preto, vu negro sobre os
cabelos louros. De sbito ela voltou a cabea e seus olhos claros o
descobriram, fixaram-se nos dele um instante.
         No teve coragem de se dirigir  Sacristia, finda a missa. Deixou-
se ficar, irresoluto,  margem da multido que saa, acabou saindo
tambm. Viera  igreja, eis o que importava. Fora visto por ela, deixaria
para visit-la um dia desses. Deu consigo caminhando at a esquina,
ficou  espera do bonde.
         -- Voc por aqui?
         Era Trsio que tambm acabava de sair da igreja.
         -- Como foi acontecer uma coisa dessas. Tenho pena  de Maria
Elisa.
         -- Voc est sumido -- disse Eduardo apenas.
         -- Voc  que est... No te vi no enterro.
         -- No gosto de enterros.
         -- Estive viajando, a servio do jornal -- e Trsio olhando para os
lados, para evitar o constrangimento do amigo, constrangido ele
prprio: -- Agora vou ao Sul para ver se consigo uma entrevista com o
homem.  a minha grande chance. Idia do Amorim. Fundou um jornal,
voc sabia? Estou trabalhando com ele.
         -- No me dou mais com Amorim.
         -- , eu soube... Vocs tiveram uma briga, no foi? Bobagem sua,
Amorim  um bom sujeito.
         -- No interessa, Trsio.
         O outro o encarou, finalmente, em desafio:
         -- E voc?
         -- Eu o qu?
         -- Continua... Continua morando l?
      -- Continuo.
      -- Qualquer dia desses apareo. Se eu conseguir a entrevista...
      -- Voc se lembra das 48 horas?
      No, Trsio no se lembrava.
      -- O seu primeiro tpico, contra o ditador...
      -- As coisas mudaram muito desde ento, Eduardo.
      -- Vtor queria que todos ns escrevssemos.
      --  isso mesmo... Que coisa tremenda, o Vtor. Assim de repente.
      E Trsio sacudiu a cabea, depois se despediu.
      Outro amigo morto -- pensou Eduardo, e fez sinal para bonde que
se aproximava.




DA REPARTIO O advertiram que dali por diante teria de cumprir horrio,
assinar o ponto: determinaes do novo prefeito.
      -- Chegou a fase do trabalho -- reconheceu ele.
      E   passou     a   comparecer    pontualmente,   desdobrava-se    em
eficincia, informava processos, aprendia enfim a trabalhar.
      -- Tambm no exagere -- queixava-se o chefe, jovialmente,
tropeando com ele a todo momento. -- Voc assim acaba criando
problemas para mim.
      -- Sou pago para trabalhar. Por isso  que este pas no vai para
a frente. O que  que eu fao agora?
      Diante de si um homem baixo, dentes escuros, fisionomia
vagamente familiar:
      -- Estou vendo que voc no se lembra de mim.
      -- Confesso que no.
      Mas se no era o Afonso! -- fantasma de um perodo negro na sua
infncia. Afonso era menino distinto, dizia a me. Debaixo da escada --
Afonso j usava cala comprida.
      -- E o que  que voc deseja?
      -- Soube que voc hoje  importante. Minha situao. Qualquer
coisa. Com boa vontade. Seu sogro.
      -- Vamos ver o que se pode arranjar.
      Sentiu pena do homem. Um dos funcionrios chegara a
sussurrar-lhe: "Conheo a pinta: facadista -- e pederasta". A que ponto
descera! Deu-lhe algum dinheiro e Afonso se eclipsou, sorrateiramente
como surgira, para o seu mundo sombrio. Fosse algum tempo antes e
lhe teria dado um bom murro na cara.
      -- J no sou mais um menino -- sorriu para si mesmo, com
simpatia.
      Naquela noite foi visitar Maria Elisa.
      -- Pensei que voc no viesse mais -- disse ela.
      -- Maria Elisa, eu... Eu senti tanto, foi horrvel.
      A todo momento ela se erguia, para cuidar dos filhos -- trs
crianas rebeldes que no queriam ficar na cama. Uma mulher jovem e
bela ainda, largada no mundo com trs filhos, sem ter mais com quem
repartir o encargo -- era a fmea sozinha protegendo as crias:
      -- Mame se ofereceu para me ajudar a cuidar deles, mas eu no
quero, so meus.
      -- Vai ser difcil para voc, Maria Elisa. Viver sozinha...
      -- Voc no est sozinho?
      -- Bem, eu no tenho filhos.
      -- Pior ainda.
      -- Sou homem,  diferente.
      Prometeu tornar a procur-la e ela se despediu dele, o rosto
pasmado mas os olhos enxutos. Ele  que sentia vontade de chorar.
Resolveu procurar Antonieta:
      -- Fui visitar Maria Elisa -- contou-lhe. -- Nunca pensei que ela
fosse to corajosa. No se deixou abater. Depois de um choque
daqueles...
      -- Eu imagino... Li no jornal. Coitado do Vtor.
      -- Eles viviam to felizes, ultimamente.
      -- Eu imagino -- repetiu ela.
      -- O que teria acontecido conosco? -- ele perguntou, abstrado.
      -- Conosco?
       -- Eu no morri, nem voc. E estamos sozinhos. Podamos ter
sido felizes...
       Ela tambm ficou absorta, olhando fixo para frente:
       -- No sei... Temperamento, Eduardo. Se voc fosse diferente,
menos torturado, com mais vontade de vencer...
       Ele ps-se a rir:
       -- Mais vontade de vencer, eu? O que voc chama de vencer?
       -- Vencer na vida: fazer carreira, ganhar dinheiro, levar uma vida
confortvel.
       -- Para mim, o ideal de conforto  uma camisa limpa para mudar
todos os dias. E isso, pelo menos, honra lhe seja feita: no que dependia
de voc, eu quase sempre tinha.
       -- E hoje no tem?
       Ele sorriu:
       -- Hoje, depende da lavadeira.
       Ficaram em silncio, pensativos.
       -- Voc sabe que eu sempre tentei vencer escrevendo --
recomeou ele, sem queixa.
       -- Ningum lia -- ela comentou, quase para si mesma.
       --  verdade: ningum lia. Nem por isso... e ele se ergueu para
partir: -- O advogado me pediu para lhe avisar que os papis j deram
entrada, esto em andamento. Vai haver uma audincia.
       --  muito complicado? -- ela o acompanhou at a porta.
       -- No. Basta o juiz dar a sentena.
       Encontrou-se com ela ainda uma vez, a ltima. Foi um encontro
formal, sem uma palavra a mais, diante do pai, depois o advogado,
depois o juiz.
       -- Sinto muito, meu rapaz,  isso mesmo, se eu pudesse, mas
enfim -- disse-lhe o sogro, se despedindo dele para sempre.
       Tudo ficou resolvido: no havia problemas.
       -- No h problema -- foi mesmo a ltima coisa que disse para
aquela que era a sua mulher.
       No tinha dvida, humanizava-se: algum tempo antes as coisas
eram piores, ele era pior. Algum tempo antes sofria, sim, mas sofria
mal, atropeladamente, o prprio tempo aos poucos ia-lhe ensinando a
sofrer melhor, E a incapacidade de amar? Hugo lhe dissera um dia:
incapacidade de amar -- orgulho -- solido -- renncia. Pois bem, eis a
renncia, eis a solido. Onde o orgulho? Sua estrela de orgulho se
apagava, ningum queria ver, ningum via. O amor concebido em
termos de ddiva, em aceitao e entrega genricas, no com relao a
uma pessoa apenas, mas a vrias, a muitas, ao maior nmero possvel,
at que muitas pudessem ser tidas como todas -- a maioria. O amor
como regra, no como exceo. Elevado  perfeio, tudo e todos, seria
talvez o amor de Cristo pela humanidade, quando disse que seus
irmos eram aqueles que o ouviam. Que O ouviam.
      Sentindo-se um nada, pequeno, nfimo, ridculo, indo para casa
passo a passo, heroicamente, para enfrentar a noite da solido. Sua
grandeza, ainda no revelada.
      Os homens -- no era difcil am-los -- a todos, indistintamente
-- olhando ao seu redor e se deixando viver. Ele duro, ele cheio de
arestas, defendido, cortante, hostil, se enojara de viver porque viver era
fcil. Era s ainda ser e j ter sido. Pois bem -- e agora? Agora via em
volta que o seu mundo era dos outros tambm, carregando cada qual a
sua cruz -- pobres criaturas de Deus. E como eram simpticas, essas
criaturas. Nada da sordidez que via antes em cada olhar, da misria em
cada gesto, o cotidiano sem mistrio, a surpresa adivinhada em cada
corpo, o segredo assassinado em cada boca.
      -- "No s bom nem s mau: s triste e humano" -- citou ele.
      -- De quem  isso? -- perguntou frei Domingos.
      -- De Bilac.
      -- Pois no parece -- disse o monge.
      Veja o exemplo de frei Domingos -- nem bom nem mau, apenas
um monge. Em Belo Horizonte se chamava Eugnio Maldonado, seu
colega de ginsio, dos mais humildes, mais recatados, mais esquivos...
E, agora, era frei Domingos, vivia num convento. Mandara um recado a
Eduardo, que o fosse procurar. "Mais um" -- pensava ele: "mais um
para se meter na minha vida -- e desta vez um padre". Mas frei
Domingos tinha outro assunto  tratar:
      -- Estamos com um caso na Prefeitura, questo de impostos...
Soube que voc trabalha l, me encarregaram de lhe pedir esse favor.
      Prometeu atend-lo. Depois ficaram a conversar, Eduardo falou-
lhe em Vtor, contou o caso da radiografia, da promessa que ele talvez
no tivesse chegado a cumprir:
      -- Foi milagre?
      -- No -- respondeu prontamente o monge: -- No houve neste
caso o que caracteriza o milagre, isto , um elemento de sobrenatural,
um fenmeno acima da razo.
      Cham-lo de voc ou senhor? Eugnio ou frei Domingos?
      -- Bem, eu sa do ginsio, voc se lembra. Depois disso... At que
um dia...
      De vez em quando, cansado da agitao da cidade, subia ao
convento para v-lo, conversar um pouco.
      -- Milagre, sim -- insistia. -- O que ele pediu foi que no tivesse
nada. Contra a evidncia, a radiografia era insofismvel. E foi atendido:
realmente no tinha nada, devia cumprir a promessa.
      O monge sorria jovem, benevolente:
      -- Bem, no digo que ele no cumprisse a promessa... Mas 
difcil, voc sabia? Sei de muitos casos -- a escada no  brincadeira,
subir de joelhos. So 365 degraus.
      -- Ele j morreu.
      -- Voc me disse. Reze por ele... E pelo outro.
      -- Que outro?
      -- O outro, o da radiografia. A radiografia evidentemente era de
algum...
      Ora, eis que esse monge tem umas idias que eu no teria --
pensou. Nunca me ocorreria rezar pelo outro. E dizer que eu poderia ser
assim, como ele. Cabea raspada, ali dentro como ele e no aqui fora na
rua, sem saber ao certo onde ir.
      Foi visitar Maria Elisa. Dera agora para procur-la de vez em
quando. A caminho de casa passava por l, de tarde, s vezes levava
uma bala ou uma lembrana para as crianas:
      -- Eles esto crescidos, Maria Elisa.
      Esquecido de si mesmo, ficava a olh-la com simpatia, vendo-a s
voltas com os meninos, ou reclinada sobre a mesa, uma mecha de
cabelos louros cada na face, tomando a lio do mais velho, com um
suspiro de cansao. Um dia ela se ergueu, endireitou no corpo o vestido
leve de luto j aliviado, caminhou resoluta at ele:
      -- Eduardo, preciso falar com voc.
      Tomou-o pelo brao, levou-o  janela, longe dos olhos das
crianas.
      -- Vou ter de lhe pedir que no venha mais aqui.
      Ele ficou a olh-la, perplexo.
      -- Espere que eu lhe explico -- sorriu ela. -- No precisa se
assustar: no  nada contra voc, no.  que os vizinhos andam
comentando e, voc compreende, na minha situao...
      -- Eu compreendo.
      -- No me leve a mal, por favor.  to difcil para mim. No tem
nada de mais, eu sei, mas essas coisas, quando comeam a falar...
Espero que voc compreenda.
      -- Eu compreendo, j disse.
      -- Se ao menos voc no viesse sozinho...
      -- Com quem voc queria que eu viesse?
      Entardecia. Ele no a escutava mais e seu olhar se perdia para os
lados do morro, onde o sol comeava a se esconder. Um avio brilhava
alto, longe, no cu dourado. Cigarras cantavam numa rvore prxima.
Da rua principal, na esquina, vinha o rudo spero e tumultuado do
trfego. Dentro do peite o corao batia rudemente.
      -- Eduardo...
      Voltou-se para olh-la, e viu-a pela primeira vez.
      O ltimo raio de sol iluminava-lhe o rosto e ao redor da cabea os
cabelos se esfarinhavam numa aurola dourada. Os olhos, clarssimos,
quedaram-se nos dele, imveis, e os lbios, detidos em meio a uma
palavra, eram vermelhos e intumescidos, como se fossem destacar-se do
rosto.
         -- No, Eduardo -- ela teve tempo de murmurar, antes que ele a
beijasse. Depois se deixaram ficar um instante de olhos fechados, as
cabeas unidas. Logo um rudo qualquer das crianas os chamou 
realidade.
         -- Ns somos amigos -- ela advertiu apenas, emocionada.
         -- Eu sei...
         Viu que ela se afastava -- o corpo assim de costas num
movimento elstico e harmonioso -- para abrir-lhe a porta.
         -- Adeus, Maria Elisa.
         Saiu dali, a cabea num tumulto. A mo pesada de Vtor parecia
descansar no seu ombro, amistosa, e ele horrorizado imaginava o corpo
enorme apodrecido debaixo da terra.
         -- No, no -- balbuciava, andando pela rua.
         Frei Domingos a princpio no entendeu bem:
         -- Se ela lhe pediu que no voltasse l e voc mesmo acha que
no deve voltar...
         -- No  isso -- insistia ele: --  que eu senti desejo por ela e no
podia, no tinha esse direito.
         -- Por causa dele?
         -- No sei. Por causa dele, talvez. Por causa dela, das crianas.
         O monge o olhou, inquiridor:
         -- Olha, Eduardo, vou lhe perguntar uma coisa...
         -- No me pergunte se acredito em Deus que  uma pergunta
meio irritante.
         -- E no demnio, voc acredita?
         -- O demnio eu sei que existe.
         Frei Domingos riu, depois continuou:
         -- Mas no era isso que eu ia perguntar. E pergunto porque 
preciso para que eu possa entender: se voc... vivendo sozinho... bem,
como  que tem se arranjado nesse setor.
         -- No vai querer que me confesse, vai? -- brincou ele.
       -- Seria bom -- respondeu o padre, srio.
       -- De vez em quando levo alguma mulher l em casa, mas nem
sempre, em geral depois tenho nojo.
       -- Eu calculava.
       -- Um dia levei uma moa que mora perto de minha casa.
Quando ela era mais nova vivia me provocando, eu resistia por causa de
minha mulher. Mas agora me disse que foi enganada pelo namorado --
a histria de sempre. Com ela no tive nojo. Foi uma espcie de
triunfo...
       -- Triunfo do demnio -- acrescentou o padre.
       -- Mas isso no chega a constituir problema para mim. Para dizer
a verdade, eu no me importaria de ser casto, se fosse possvel.
       O monge tornou a sorrir, e ficou silencioso.
       -- Tudo isso no tem nada a ver com o que senti por Maria Elisa.
Foi diferente. Eu tive desejo mesmo, de todo o corao. No sentiria
nojo depois. Senti nojo antes, nojo de mim mesmo, tive uma espcie de
remorso antecipado pelo que poderia vir a acontecer. No  possvel,
Frei Domingos,  srdido demais. Se eu continuar assim, eu estou
perdido.
       O monge tocou-lhe o ombro, se despedindo:
       -- Pelo contrrio -- falou com firmeza: -- Se voc continuar
assim, voc est salvo.




A   CAMINHO   da repartio, comprando na banca o jornal do Amorim. Na
terceira pgina a notcia numa coluna social: nomeado embaixador,
levaria para a Europa a filha, recentemente desquitada.
       -- Eles sempre se arranjam -- murmurou, pensando no sogro: --
So assim mesmo: no querem nada, s sacrifcios, servir a ptria, e
tal, e coisa, mas eles sempre se arranjam.
       Dobrou o jornal e guardou-o no bolso. Procurava obstinadamente
no pensar em Antonieta.
       Qualquer coisa no ar, entre os colegas de servio. Olhavam-no de
maneira diferente, calavam-se quando ele se aproximava. A certa altura
resolveu interpelar o chefe.
      -- Bem -- fez o homem, constrangido: -- Cada um tem seus
problemas, cada um  dono de sua vida. Resolvi proibir que aqui dentro
se falasse no assunto, para deix-lo mais a vontade.
      Afastou-se, irritado. Tudo isso por causa de uma simples notcia
de desquite? No disse mais nada a ningum, foi ao toalete. Misael, um
funcionrio meio calvo, casado e cheio de filhos, tambm ia urinar.
      -- Olha, Eduardo: ele no quer que se fale nisso, mas eu falo.
Para mim voc continua o mesmo. No acredito em nada daquilo, sei
que voc  inocente, deve ser alguma confuso. Gostaria s que voc me
contasse se...
      -- Sobre o que voc est falando? Explique-se logo, homem de
Deus -- retrucou ele, impaciente.
      O outro puxou-lhe o jornal do bolso, exibiu a ltima pgina:
      -- Ser possvel que voc ainda no leu?
      "Crimes para sempre insolveis", de uma srie de reportagens: o
crime do Hotel Elite. Leu atropeladamente, ali mesmo, as trs colunas
historiando a morte misteriosa da bela desconhecida. O jovem Eduardo
Marciano, recm-chegado ao Rio, que viera fazer? Procurar uma mulher
-- disse a vrias pessoas. Forou entrada no Cassino Atlntico com
uma grande gorjeta -- depoimento do porteiro no inqurito. Visto
entrando com sua vtima no hotel. As contradies do jovem: dizia
nunca t-la visto em sua vida, deixou apressadamente o hotel para Belo
Horizonte, passou-se para outro hotel, como se acabasse de chegar de
Belo Horizonte... Feita a exumao, constatou-se que a mulher havia
sido Seviciada antes da queda. Seu companheiro estava nu quando
comunicou ao porteiro o "acidente". A interferncia oportuna do sogro,
ento ministro, fz arquivar o processo -- mais um crime sem punio.
      O delegado recebeu-o a sorrir:
      -- Este mundo d muitas voltas, hein, rapaz?
      Custou a reconhec-lo: havia raspado a barba.
      -- Como  que voc veio parar aqui? -- perguntou.
      -- Est espantado? Consegui minha transferncia, afinal foi mais
fcil do que parecia. Voc se lembra, no? No, voc no se lembra. E
vim servir aqui, na prpria Chefia.
      -- O que significa isso? -- e Eduardo exibiu-lhe o jornal.
      -- Mandei cham-lo exatamente por causa disso. Me lembro que
na poca seu depoimento foi colhido por mim mesmo, por precatria...
Que coincidncia, voc no acha? O chefe est muito interessado em
dar soluo a esses casos, fazendo reviso de processos, etc.. A
imprensa, voc sabe, no perdoa nada... No seu caso, a coisa  simples.
 s provar...
      -- Imprensa nada -- retrucou Eduardo, enraivecido: -- Imprensa
aqui  o Amorim, que voc conhece muito bem. Voc deixou que ele
fizesse isso comigo, at ajudou. Pensei que voc fosse meu amigo,
Barbusse.
      -- Que  isso, rapaz? Fale baixo, at aqui voc quer me
desmoralizar? No deixei coisa nenhuma. Apenas no podia impedir...
Pois se  ordem do prprio chefe! Mas no seu caso no se aflija, no
creio que essa reportagem seja justificativa bastante para a reabertura
do inqurito...
      Deixou enojado a polcia, tornou a ler a reportagem que toda a
cidade estaria lendo. Seu nome estaria sob os olhos de todos como
suspeito de um crime, "o crime do Hotel Elite"... Antonieta estaria lendo,
Maria Elisa, os conhecidos, os vizinhos. No podia ficar assim, tinha de
dar um desmentido.
      -- Acho imprudente -- disse frei Domingos: -- Muita gente que
no leu da primeira vez, ler da segunda.
      --  a minha honra que est em jogo.
      -- Ora, que bobagem... Isso no tem a menor importncia. Tem
importncia apenas a seus olhos.
      -- Acha ento que no tem importncia nenhuma passar por
assassino aos olhos de todo mundo?
      E j descontrolado, quase chorando:
      -- Por que eles tinham de fazer uma coisa dessas comigo? E eu
que j comeava a acreditar nos outros... Como a natureza humana
pode ser to srdida?
      -- Voc est enganado. A natureza humana no  srdida. Voc
diz: e eu que comeava a acreditar nos outros... A soluo no 
acreditar nos outros, mas em Deus. E tudo mais vem por acrscimo.
      -- No mete Deus nisso no, frei Domingos. A soluo seria eu
sair daqui, ir l no jornal e dar um tiro naquele filho-da-puta.
      -- A soluo pode ser boa, mas a expresso  que  um pouco
forte para ser dita aqui..
      -- Perdoe.
      -- Voc no v sua prpria contradio? Indignado porque te
chamaram de assassino, pensa logo em assassinar quem te calunia.
      -- O que eu poderia fazer de mais justo?
      -- Muita coisa -- disse o monge, pensativo: -- Essa pobre mulher
desgraada, por exemplo, se atirando assim da janela, lembre-se dela,
esquea um pouco o seu problema...
      -- Ela no tem mais nenhum problema: j morreu h muito
tempo.
      -- Pois ento? Reze por ela...
      J vinha de novo aquele monge descobrir ngulos inditos nos
casos para depois mand-lo rezar. Era verdade, nunca lhe passara pela
cabea o drama vivido pela suicida. Ela tambm amava, sofria, buscava
a morte como soluo. E tacitamente a considerava apenas uma
meretriz... Talvez fosse esse o seu crime, pelo qual estava pagando.
      -- No sei... Eu no posso continuar vivendo assim, um dia terei
de escolher: aceitar tudo, ou fechar os olhos e me precipitar de cabea
no desconhecido...
      -- Aceitar o qu? O pecado?
      -- No sei... Prefiro dizer o erro. O que me desagrada nessa
histria de pecado  o aspecto de imposio, de ordem, porque a
sociedade exige...
      -- No  nada disso:  outra espcie de ordem...  precioso no
pecar, mas docemente, suavemente, no por imposio: por amor. Se
for preciso, contra a sociedade. Por que voc no vem passar uns dias
aqui conosco, para conversarmos mais longamente? Temos um quarto
de hspedes...
      Andando pelas ruas, sem ter aonde ir. Depois do jantar no
restaurante, no conseguira ir para casa. Aquilo no podia ficar assim.
Difcil de engolir, o conselho do monge. Amorim havia de pagar pelo que
fizera. Pelo menos pregar-lhe um susto, dar-lhe uns tapas para que ele
aprendesse sua lio. Resolveu procur-lo, passando pelo bar de
costume.
      No encontrou Amorim e deixou-se ficar, sozinho, tomando
usque. Vontade de esquecer tudo e se distrair, conversar com algum...
Mas algum que o aceitasse sem condies, que no fizesse perguntas,
que no soubesse de nada. Procurava afugentar a lembrana do monge:
pense nessa pobre mulher desgraada, reze por ela. Outra espcie de
ordem. Aceitar o pecado. Se de sbito a porta se abrisse e Gerlane
entrasse...
      -- Tenho mais o que fazer. Eduardo.
      Todas tinham mais o que fazer. Maria Elisa com seus filhos, no
me leve a mal, vou lhe pedir que no venha mais aqui. Antonieta na
Europa: temperamento, Eduardo. Se voc no fosse to torturado...
Sim, era torturado! E da? Ele tambm tinha mais o que fazer, no
precisava de ningum. De vez em quando levo uma mulher l em casa...
Triunfo do demnio! Lembrou-se de Neusa: uma mulher como as outras
-- dezoito anos,  o que interessa, dizia Trsio. No era o primeiro e
nem seria o ltimo. Que lhe importava? Dirigiu-se resolutamente ao
telefone, discou para ela. A vida era assim mesmo.
      -- Estou esperando um filho seu -- disse ela.




TUDO lhe parecia no passar de um equvoco j desfeito. Logo com
Neusa, a quem mal conhecia! Nem bonita nem atraente. Como as
outras -- no parecia to criana. Relembrara o encontro que tiveram:
      -- Quanto tempo, hein?
      -- Voc se lembra?
      -- Ns ramos loucos...
      Ela perguntara se era verdade que ele havia se separado de
Antonieta.
      --  o que dizem. Mas, e voc, Neusa? Est to diferente...
      -- Tanta coisa...
      Depois ele a convidara para ir  sua casa:
      -- Conversar um pouco. Um instantinho s.
      Ela contara a histria do namorado, um oficial de marinha:
      -- Prometeu casar mas no acreditei. No me arrependo...
      O resto se passara no sof, j nos braos um do outro, ela nem ao
menos tirara o vestido.
      -- Como foi acontecer uma coisa dessas.
      Mas    era     o   que   todas   diziam,   no   acontecera   nada   de
extraordinrio. Agora estava grvida.
      -- Voc tem certeza?
      -- Absoluta. Fiz os exames todos. O problema  minha me, se ela
descobrir estou perdida.
      Morava sozinha com a me, a velha lhe vigiava os passos.
      -- O que  que ela pode fazer.
      -- Ora, Eduardo.
      Estavam numa confeitaria -- naquele lugar ele se encontrara uma
vez com Antonieta, sculos atrs, tomara um vermute. Depois tinham
ido ao cinema, beijaram-se pela primeira vez,
      -- Espera, vamos conversar com calma. Voc tem mesmo
certeza...
      -- J disse.
      -- Eu digo se voc... se foi mesmo naquele dia? Ela se ergueu
vivamente:
      -- Eu sabia que voc ia dizer isso. J tinha resolvido a no lhe
contar nada, voc jamais ficaria sabendo. Foi voc quem me telefonou,
quem insistiu em se encontrar comigo. Voc pense o que quiser, eu me
arranjo sozinha.
      -- Se for questo de dinheiro...
      -- No  questo de dinheiro. Adeus, Eduardo.
      Ele a reteve pelo brao, quando ela j se dispunha a sair:
      -- Calma, menina! Me desculpe, estou meio confuso, mas
tambm no precisa se ofender! Sente-se a.  que eu... Uma vez s!
No contava com essa.
      -- Muito menos eu.
      Ele a olhou com curiosidade. Estava plida e agora mais do que
nunca parecia uma mulher: os cabelos, o vestido, a bolsa, os sapatos de
salto alto. Nada da menina de short que o excitava tanto, nas ausncias
de Antonieta. Meu Deus, pensou ele, essa mulher  uma perfeita
desconhecida para mim.
      -- O que eu queria saber...
      Ela tornou a sentar-se. Ele no sabia o que queria saber. Chamou
o garom.
      -- O que  que voc quer tomar?
      Esperando um filho seu. Mas um filho no constitua problema
hoje em dia, o essencial era no perder a cabea.
      -- Vamos pensar com calma -- repetiu. -- Quanto tempo j tem?
      -- Isso que voc est pensando eu no fao.
      -- No estou pensando nada. H de haver um jeito.
      -- Prefiro morrer.
      -- No diga bobagem. Voc no  a primeira.
      Nem o primeiro nem o ltimo. Por onde diabo andaria o tal oficial
de marinha?
      -- Voc no pode fazer nada, pode?
      -- O qu?
      -- Voc no pode fazer nada -- ela repetiu, e se concentrou no
menu que o garom trouxera, escolhendo um refresco. Ele a observava:
quem est esperando filho no pensa em refresco.
      -- O que voc est pretendendo, Neusa?
      -- Nada.
      -- Eu sou casado, voc sabe disso.
      -- Desquitado.
      -- D na mesma. Se voc...
      Lembrou-se de Gerlane: j me disseram que voc  um puritano.
      --   No   quero   parecer   puritano,   mas   para   assumir   essa
responsabilidade...
      Ela estourou, afinal:
      -- No quero que voc assuma coisa nenhuma! No sei que
estupidez a minha, vir a esse encontro. Chame o garom, por favor, eu
quero ir embora.
      Ela nem chegara a tocar no refresco. Como eu posso ser to
mesquinho, pensou ele, enquanto conferia o troco. No lhe ocorria dizer
nada, fazer nada. Despediu-se dela prometendo telefonar  noite.
      -- No se aflija, tudo h de dar certo, de um jeito ou de outro.
Naturalmente voc antes de tudo vai ter de consultar um mdico... Voc
j consultou um mdico?
      Passou o resto do dia vazio e distrado, incapaz de qualquer idia
consistente: o cu  azul, pensava; estou sem fome; hoje  tera,
amanh  quarta.
       noite, porm, ela  que lhe telefonou:
      -- Olha, Eduardo, estive pensando no que voc disse, cheguei 
concluso de que voc tem razo, no h outra coisa a fazer.
      -- Mas eu no disse nada! O que voc est pensando em fazer?
      -- Pensando, no: j fiz. Fui ao mdico hoje, marquei para
amanh de manh.
      -- Marcou o qu?
      De sbito ele caiu em si:
      -- Voc est louca? Que mdico  esse? Marcou o qu?
      -- Voc mesmo disse...
      -- Eu no disse coisa nenhuma! Voc no pode fazer uma coisa
dessas!
      A conscincia do que estava acontecendo lhe veio como um
claro: aquela mulher estava grvida, um filho seu. O seu filho, seu
verdadeiro filho, morrera j, arrancado ao ventre da sua mulher como
semente mal nascida. Pior do que morrer  no ter nascido, ele dissera
um dia, quando ainda acreditava na vida e tinha uma misso a cumprir
-- a de dar seu testemunho. Testemunho de qu? Do pecado. Outra
espcie de ordem, dizia frei Domingos -- que ordem era essa, cuja
transgresso se fazia necessria para que o homem se redimisse? Essa
vida  mesmo srdida, se repetia, aflito, sem saber onde buscar foras
para resistir. Se era preciso errai primeiro, escorregar, cair, para depois
entregar-se s mos de Deus, matria de salvao, aproveitasse! a
estava a ocasio de queda: esse era o problema a enfrentar. Estarrecido
como se no s a sua sorte, mas a do mundo inteiro dependesse
daquele passo. A salvao do mundo s poderia vir do Cristo... Era
como se o objetivo de sua vida fosse esse: tudo o que fizera at ento,
desde o nascimento, o trouxera por caminhos confusos at a ltima
prova, o teste definitivo da sua natureza de homem.
      -- A que mdico voc foi? -- perguntou, para ganhar tempo.
      -- Uma amiga minha me indicou.
      -- Vocs so muito experientes hoje em dia, conhecem a vida, tm
soluo para tudo... Sabe que isso  considerado um crime? Sabe que
isso  um...
      -- No seja ridculo, Eduardo -- cortou ela.
      --  uma coisa perigosa -- ele evitava a palavra abjeta: -- Voc
no podia esperar um pouco?
      -- Esperar o qu? Quanto mais tarde, mais perigoso.
      -- Esperar que ele nasa. D-se um jeito -- insistiu.
      -- Voc  casado.
      -- No tem importncia. Eu reconheceria. Afinal de contas o filho
 meu, no ?
      -- E depois? Voc se esquece de uma coisa, Eduardo: o filho 
seu, mas eu no sou.
      -- No importa, Neusa: o filho seja de quem for...
      Afastou-se do telefone em estado de pnico: sua sorte estava
lanada. No dependia de mais ningum seno dele: foras poderosas
se juntavam, um mecanismo gigantesco se punha em movimento para
tritur-lo, submet-lo  grande tentao, at que se cumprisse o que
estava escrito. Esses eram os desgnios de Deus, reconhecia-os afinal: o
sacrifcio exigido. Mas o que pretendiam dele? se resistir era a sua
deciso, ltimo rasgo de fidelidade a tudo em que um dia acreditara?
Onde a tentao, onde o sacrifcio? J no entendia mais nada, de novo
indeciso, andando da sala para o quarto, do quarto para a sala. Bastava
ir buscar Neusa em sua casa, sacudi-la pelos ombros, enfrentar sua
me, contar-lhe tudo, impedir aquela loucura. E depois? O filho esprio
largado no mundo para crescer, viver, enfrentar os mesmos problemas,
cometer os mesmos erros, desperdiar sua chance de salvao. Essa a
nossa chance, a que todos tm direito -- ele afirmara quando jovem.
Chance, mas de nascer para uma vida de misrias e ir morrendo
diariamente pelas ruas. Desgraado o dia em que eu nasci, ele pensava,
e a noite em que se disse: foi concebido um homem.
       Pouco depois voltava ao telefone, chorando:
       -- Voc tem razo, Neusa, no h outra coisa a fazer. Mas eu
quero ir com voc...
       Da sala ao quarto, do quarto ao banheiro, j pedindo a Deus um
milagre. A promessa de Vtor, tambm feita num banheiro, a escadaria
da Penha de joelhos, a radiografia trocada, e se no houvesse filho
algum? e se os exames se negassem, o mdico se enganara, os sintomas
se desfariam, e Deus perdoava, e no mais precisava imolar o filho,
como no sacrifcio de Abrao. O que era preciso para haver um milagre?
E eis que o anjo do Senhor gritou do cu, dizendo: Abrao, Abrao. E
ele respondeu: aqui estou.
       -- Meus Deus, eu no posso pagar esse preo,  demais para
mim.
       (E o anjo disse-lhe: no estendas a mo sobre o menino e no lhe
faas mal algum.)
       Debruado  janela do quarto, via a noite envelhecer sobre a
cidade imensa onde homens e mulheres se esqueciam, e copulavam, e
dormiam. Nada mais existia sobre a terra -- Deus, entediado do mundo,
havia adormecido tambm. E o mundo no conheceria outros anjos,
seno os que germinavam no ventre e no chegavam a nascer. Em
verdade te digo: antes que o galo cante, eu te negarei trs, dez, vinte
vezes! Esse  o desgnio do homem, sozinho dentro da noite. E dentro
da noite um galo cantou.
     s duas horas da manh ele ainda estava  janela, como um
sonmbulo,  espera de que alguma coisa acontecesse.
     s trs horas ele disse: eu no posso fazer nada.
     s quatro horas sentiu sede, foi  cozinha e bebeu um copo
dgua.
     s cinco horas adormeceu, sentado na poltrona.




-- MARQUEI um encontro aqui com uma moa chamada Neusa...
     -- Ela est sendo atendida pelo mdico.
     Olhou com estranheza o homem de avental branco que o
recebera. Tinha um bigode fino, bem aparado, e era ainda um rapaz.
     -- Desculpe, pensei que o senhor fosse o mdico.
     -- Ela  sua mulher?
     -- Bem... Eu...
     -- Vamos passar  outra sala?
     Eram nove horas da manh. Depois de esper-la meia hora 
porta do edifcio, como combinara, subira ao consultrio, aflito,
temendo que ela j tivesse entrado. Passaram  outra sala e ele mal
podia andar: as pernas se recusavam. O homem lhe ps a mo no
ombro:
     -- O mdico sou eu mesmo. O senhor no precisa ficar nervoso.
Correu tudo bem. Ela est repousando agora.
     -- Correu tudo bem? Mas eu vim aqui para...
     -- No precisa gritar! Tem gente ali fora.
     -- Eu no queria que isso acontecesse -- e ele se deixou cair
numa cadeira. -- Eu no queria...
     -- No h perigo nenhum -- o mdico procurava acalm-lo. --
Correu tudo bem. Foi uma interveno muito simples.
      Interveno? Eduardo o olhou com raiva: fora uma interveno
muito simples e aquele homem de mos delicadas como as de um
menino, jovem ainda, provavelmente recm-formado, assim ganhava a
vida, no tinha nada do carniceiro que se acostumara a imaginar, o
aborto era uma interveno muito simples.
      --  preciso coragem -- disse apenas, num sussurro.
      -- No tenho iluses, meu amigo. Encaro a vida com realismo.
Isso acontece.
      O avental lhe envolvia todo o corpo, branco, imaculado, sem
nenhuma mancha de sangue e ele, sentado de pernas cruzadas, deixava
entrever parte da meia, com alguma coisa enfiada nela, era dinheiro!
guardava dinheiro dentro da meia. O mdico seguiu a direo de seu
olhar e sorriu, desconcertado, descruzando a perna:
      -- O senhor v, essa roupa no tem bolsos, e  tanta coisa a fazer,
mal tenho tempo...
      -- O movimento deve ser grande. A sala ali fora est cheia...
      -- Sou um obstetra -- defendeu-se o homem: -- Minha profisso
 essa. A moa precisava de uma interveno.
      Dinheiro -- a nica prova do crime.
      -- Ela j lhe pagou?
      O homem se ergueu:
      -- J est tudo acertado. Ela est descansando com a enfermeira
a dentro, vou ter de sair, mas se o senhor quiser esperar, daqui a
pouco pode lev-la. J disse a ela o que ter de fazer. Com dois dias de
repouso estar inteiramente boa.
      -- Eu vou lhe pedir um favor -- Eduardo disse ento.
      Ergueu-se tambm e os dois se olharam nos olhos. O mdico
ficou calado, na defensiva.
      -- Quero que o senhor invente para ela uma histria qualquer.
Dizer que no foi um aborto, compreende? que era um tumor, um...
qualquer coisa...
      -- O que o senhor pretende com isso?
      -- Quero que a responsabilidade seja toda minha.
      -- No estou entendendo. Que responsabilidade? No vai
acontecer   mais    nada,    j   lhe   disse.   Se   ela   seguir   minhas
recomendaes...
      -- A responsabilidade diante de Deus. Entende agora?
      O mdico o olhava, intrigado:
      -- No entendo nada. J lhe disse que a interveno era
necessria. O embrio se descolara, estava morto, e se essa moa...
      -- Estava morto? Quer dizer que...
      O mdico esperou um pouco, mas como Eduardo no dissesse
mais nada, se despediu:
      -- Fique  vontade. Vocs podem sair por essa outra porta. Com
licena.
      Plantado no meio da sala, Eduardo no fez o menor movimento.
Muito depois que o mdico se foi, continuava na mesma posio, olhos
fixos, braos cados -- esttua de dvida, surpresa, aniquilamento.
Estava morto. Intil seu sofrimento, como no desastre de Rodrigo, o
afogado, ele tambm estava morto, antes de sair do avio. Caminhou
at a janela e olhou a rua. Um sol violento batia de chapa no mosaico
da praa, faiscando nos automveis que passavam, envolvendo a cidade
numa festa de luz matinal. Ento seu pedido fora atendido, como o de
Vtor! restava a promessa de ambos, subir de joelhos a escadaria, e
eram trezentos e sessenta a cinco degraus.
      Voltou-se: uma porta se abrira e Neusa acabava de surgir,
amparada na enfermeira. Estava plida e caminhava com dificuldade.
Precipitou-se para ela:
      -- Neusa, eu estava to aflito, mas correu tudo bem, e eu soube
que era preciso, se voc no fizesse isso...
      Ela no dizia palavra. Amparou-se em seu brao, olhando duro
para a frente, saiu com ele do consultrio, pisando com cuidado.
      Na sala ao fundo mdico e enfermeira conversavam:
      -- J saram? -- perguntou ele.
      --  uma boa menina.
      -- Acaba voltando. Essa gente no toma jeito. Ele  o pai?
      -- . Sujeito esquisito, no parece muito bom da cabea. Estava
to aflito que eu disse que tinha de sair, deixei ele l. Pensei at que
fosse me agredir...
      E o mdico sorriu:
      -- No sei o que me deu, que para tranqiliz-lo inventei uma
histria de descolamento do embrio, no sei se ele acreditou. J estava
at falando em Deus...
      Calou-se, pensativo, depois consultou o relgio, despiu o avental:
      -- Olha, eu vou mesmo sair um pouco, dar uma volta para
espairecer. No sei por qu, esse sujeito me estragou o dia...




RECOSTADA no canto, Neusa seguia em silncio no txi ao lado de
Eduardo.
      -- Voc devia ter me esperado -- queixou-se ele. -- Eu tinha
resolvido...
      Ela comeou a chorar em silncio.
      -- No fique assim, Neusa. J passou, esquece, agora. Era
preciso, o filho estava morto.
      -- Voc diz isso s para me consolar -- e ela voltou-se para ele,
nervosa, ansiada: -- Foi horrvel, Eduardo. Por que voc deixou?
      -- Eu no deixei nada, eu... Eu no queria, fui l para impedir.
      Ela no o ouvia:
      -- At o ltimo instante esperei que voc no deixasse, e fizesse
alguma coisa, ficasse comigo, me levasse embora com voc...
      -- No fique assim -- ele repetiu, descontrolado, e seu corao se
oprimia: -- Por favor, esquece, tudo j passou. Eu juro que tinha
resolvido...
      No havia mais o que dizer e ambos ficaram calados no txi em
movimento.  porta da casa ele se despediu dela:
      -- Ento adeus, Neusa. Qualquer dia desses...
      -- No quero te ver nunca mais -- ela disse, com firmeza, e se foi.
      Depois de comer qualquer coisa num restaurante do centro,
Eduardo foi para a repartio e mergulhou no servio. Procurava no
pensar em nada, esquecer o que lhe sucedera. Em vo Misael tentou
puxar conversa. Teve uma altercao com o contnuo por causa do
sumio de um processo.
      -- Deixem-no -- recomendou o chefe. -- Est nervoso com a tal
histria no jornal. Seria at melhor que esses dias ele no viesse aqui.
       tarde pensou em procurar algum, um amigo, um conhecido.
No vou procurar ningum, decidiu. No tenho amigos, sou um homem
sozinho, ningum me reconheceria. Mas  noite, quando deu por si,
estava entrando no bar de sempre. O que vim fazer aqui? se
perguntava, depois de pedir um usque. Jantara, fora a um cinema,
estava sem sono, no tinha onde ir. Depois sinto vontade de conversar,
no aparece ningum que eu conhea, vou ao telefone, ligo para quem
quer que seja, e me apanham na engrenagem maldita, comea tudo
novamente... A sua solido lhe pesava, espessa, impenetrvel como um
enigma prestes a ser decifrado -- sentia-se devorado de uma nostalgia,
pungente como uma recordao da infncia -- e era essa a outra
espcie de nostalgia, de que lhe falava o Toledo, finalmente a reconhecia
-- o homem que ele finalmente era -- sozinho, nu e indefeso diante de
si mesmo -- e seus ombros se curvavam junto ao balco, como sob o
peso de uma cruz. "Que eu devia mesmo  ir para casa, ler ou escrever",
pensava. "No sou um escritor? Escrever, alguma coisa. O meu
romance".
      Desta vez, o homem no estava vestido de smoking, mas num
terno cinza, camisa azul de riscas, gravata de seda prateada e um cravo
branco na lapela. O rosto era o mesmo do ltimo encontro -- plido,
fino, escanhoado. Eduardo tomava um usque a seu lado, arrependido
j de o haver reconhecido. Era intil, sempre que bebia, alguma coisa
de imprevisvel lhe acabava acontecendo. Olhou-o, intrigado. Quem
diabo seria aquele homem.
      -- Sobre o que, o seu romance?
      -- No sei ainda. S vou saber depois de escrito.
      -- Conheo um sujeito que est escrevendo um romance.
         -- Sobre o qu?
         -- Sobre voc.
         Eduardo se voltou, surpreendido:
         -- Sobre mim? Que histria  essa?
         -- Um romance -- repetiu o homem.
         -- E o que  que eu tenho a ver com isso? Ele me conhece?
         -- Voc  o personagem dele -- o homem insistiu, lacnico.
         Eduardo calou-se e continuou a beber, pensativo, e continuou
sozinho. Logo, porm, o homem se voltava para ele:
         -- Imagine voc apenas personagem de um romance que est
sendo escrito, s existindo na imaginao do romancista.
         -- Pirandello -- limitou-se Eduardo.
         --   Um   personagem    --   prosseguiu   o   homem,   pensativo,
inclinando-se e pondo-lhe a mo no ombro: -- Vivendo apenas o que o
romancista quer que voc viva.
         -- , mas neste caso no estaramos conversando sobre isso.
Teramos de obedecer ao nosso papel. Voc seria personagem tambm.
         -- No: eu seria a nica pessoa do lado de fora com quem voc
pode conversar. Uma espcie de janela aberta para a realidade. Sua
chance de se rebelar contra o seu criador, se libertar. Longe de mim
voc ser apenas escravo.
         -- Escravo, como? -- perguntou Eduardo, j meio confuso.
         -- Escravo do romancista. Quando o romance  seu, o verdadeiro
romancista  voc.
         Onde o escritor obstinado que dizia hei de vencer? Que se
trancava em casa para escrever e dizia hoje eu no saio de jeito
nenhum? Para quem todas as portas se abriam? A morte era uma
porta.
         -- Vtor morreu -- pensou, quase em voz alta.
         O homem a seu lado no disse palavra.
         -- Eu te conheo de alguma parte -- disse Eduardo.
         -- Daqui mesmo, deste bar -- no se lembra?
         -- No: antes...
     --  possvel.
     De repente: o que estou fazendo neste lugar, bebendo com este
sujeito que mal conheo?
     -- Sabe de uma coisa? Vou tomar um ltimo e vou-me embora.
H muito tempo no bebia, estou ficando tonto.
     Os olhos do homem o retiveram:
     -- Espere, ainda  cedo.
     Eduardo olhou o relgio: como da outra vez, estava parado.
     -- Neste bar sempre acontecem coisas.
     A porta se abriu para dar entrada a um casal.
     -- Olha a, por exemplo: esses dois vm sempre aqui, voc deve
conhecer. Esto vivendo juntos.
     Assustado como diante afinal do inimigo: encolheu-se para no
ser visto por Amorim e Gerlane que se acomodavam ao fundo.
     -- Tudo isso j aconteceu -- disse, e chamou o garom. Pagou a
sua conta, o homem no fez um gesto. Ergueu-se, firmando-se nas
pernas:
     -- Diga ao tal sujeito que o romance dele acabou.
     Saiu, e respirou com volpia o ar fresco da madrugada. Ergueu a
cabea e foi andando. Sentia-se estranhamente eufrico, feliz: agora
morra tudo! eu vou comear -- repetia, mentalmente. E ps-se a
conversar consigo mesmo, mos nos bolsos, cadenciando os passos:
     -- Antes de mais nada: para onde voc vai agora?
     -- Voc no pode estar to bbado assim.
     -- O que pretende fazer?
     -- Voc, personagem de romance.
     -- Ento era o caso de telefonar para o romancista e perguntar: e
agora, o que  que eu fao?
     -- Pela ltima vez: voc acredita em Deus?
     Deteve-se no meio da rua, pernas abertas, olhos fixos no ar:
     -- Acredito -- respondeu com firmeza, e prosseguiu a caminhada.
     -- Cuidado com o automvel. Com qu voc conta?
     -- Eu me conheo, mas  s.
       -- Quem voc est pensando que ? Scott Fitzgerald? Ele tem um
romance que termina assim.
       -- Ele termina onde eu comeo.
       --  pouco.
       -- Conto com a minha experincia. No sou inocente.
       -- Experincia... E o mundo ao seu redor? Olhe s quanta
injustia, quanta misria, tanta gente sofrendo.
       -- Demagogia.
       -- Seu catlico de merda. Sorriu e apressou o passo.
       -- Voc  muito inteligente, mas vai preso assim mesmo.
       Dobrou a esquina, relanceou os olhos em torno, ps-se a recitar:
       -- Creio em Deus Padre, todo-poderoso, criador do cu e da terra,
e em Jesus Cristo, um s seu filho...
       No sabia terminar. Inundado de alegria, comeou a danar no
meio da rua:
       -- Acabou, acabou,     ACABOU.

       Depois se deteve, dedo em riste:
       -- Dizer o indizvel? O silncio  a linguagem de Deus. A
linguagem do homem  difcil, retorcida, suja, atormentada. Tudo que
se escreve  apenas uma pardia do que j est escrito e ningum 
capaz de escrever. Tudo que se v  apenas uma projeo do que no se
v, sua verdadeira natureza e substncia. Basta olhar para as minhas
mos para sentir que elas ocupam o lugar das mos de Deus...




No   DIA   seguinte contou a Misael, na repartio:
       -- Ontem tomei o porre mais estranho da minha vida.
       O outro o olhou, penalizado:
       -- Voc tambm levou muito a srio aquela histria no jornal.
Daqui a uns dias ningum vai falar mais nisso, voc vai ver.
       -- A srio levou minha senhoria: me comunicou hoje que no vai
renovar o contrato. Aluguei o apartamento para morar com minha
mulher e no sozinho. Ontem ela me viu chegando bbado. Mas acabou
confessando que leu a reportagem, disse que no quer complicaes
com a polcia.
        -- Ela no consegue nada -- o outro procurou tranqiliz-lo: --
Uma ao de despejo  a coisa mais difcil de se ganhar na justia, hoje
em dia. Ainda mais um absurdo desses.
        -- Nada disso. No fim do ms eu me mudo.
        -- Vem jantar na minha casa hoje. Aniversrio de meu filho, vai
haver um leitozinho. Ele tambm  literato, voc vai gostar.
        Esteve a ponto de dar uma desculpa qualquer, mas decidiu ir. A
casa de Misael -- num subrbio distante, com um jardinzinho em
frente, a filharada em torno  mesa, a mulher com uma criana de
meses ao colo, a importncia do chefe da famlia de sbito revelada:
        -- Lus, tira a mo da! Maria, tenha modos. Hoje na repartio eu
tive um caso complicadssimo... Joana, serve mais arroz aqui para o
Eduardo.
        Findo o jantar, confessou-lhe que um dia ainda seriam colegas,
tinha promessa firme de ser promovido assim que se desse a primeira
vaga:
        -- Voc compreende o que isso significa para mim: a vida com
essa gente toda dentro de casa no  brincadeira, tudo to caro, voc
nem faz idia.  verdade que cortaram a participao nas multas, mas,
enfim, eu nunca pretendia mesmo multar ningum!
        Misael e seu pequeno mundo: cadeiras de palinha, toalha xadrez,
cortina na janela, horta, trs galinhas, samambaias. Eduardo se
esquecera de como era uma planta, desde a infncia no via uma
galinha.
        Vendeu seus mveis, depositou o dinheiro na conta de Antonieta.
Encaixotou os livros, mudou-se para um hotel.
        -- O diabo so os caixotes -- dizia, contrariado. -- Quem sabe se
seu filho...
        -- Voc est maluco?
        O filho de Misael o olhava deslumbrado como ele, aos dezesseis
ou dezessete anos, olhara o Toledo pela primeira vez. Crivava-o de
perguntas, quando ia jantar com seu novo amigo:
      -- Acha que a poesia hermtica  mais importante do que a
outra?
      -- Conhece Slvio Garcia?
      -- Que pensa do concretismo?
      Eduardo se voltava, surpreendido:
      -- Onde  que voc aprendeu essas coisas, menino?
      -- Ele vive lendo -- explicava o pai.
      De sbito percebeu que devia ter agora a idade do Toledo,
naquela poca! Pensou em dizer ao menino a mesma coisa que ouvira
ento: eu sou um caso perdido, espero que voc no cometa o erro que
eu cometi. Mas qual fora mesmo o erro que o Toledo cometera? Qual o
seu prprio erro? No sabia: em alguma parte de sua vida ele se deixara
ficar, esquecido, abandonado, largado para trs -- e agora teria de se
buscar como aquela agulha do sonho, perdida no fundo do mar.
      -- Voc  muito precoce -- limitou-se a dizer.
      Mas este sabia o que queria dizer precoce. Trabalhava de dia
como empregado de escritrio, pagava ele prprio seus estudos num
curso noturno.
      -- No chega para comprar livros.
      -- Se lhe posso dar um conselho,  este: no tente apanhar o
fruto verde para que ele no apodrea na sua mo.
      Mandou-lhe, afinal, todos os seus livros:
      -- No sei se estou lhe fazendo um bem ou um mal...
      -- Por que voc fez isso? -- dizia Misael, desvanecido e nervoso,
torcendo as mos: -- Acho s vezes que voc no regula bem,
Eduardo... Todos os seus livros! Quer matar o meu filho de tanto ler?
      -- Isso no tem a menor importncia, pode ficar certo, no tem a
menor importncia...
      Segurou o amigo pelo brao:
      -- Voc no entende disso, Misael, mas acredite: o menino  bom,
deixe ele ir para a frente, no se assuste nunca com ele! O filho prdigo
teve vitelo, o outro no.
      -- Por falar em vitelo: a patroa mandou avisar que sbado vai ter
aquele pastel de que voc gostou. E est contando com voc para
padrinho do guri, j est grandinho, ainda no foi batizado.
      Em alguma parte de sua vida ele se deixara ficar.
      -- Se eu conheo Slvio Garcia?
      Este, j no sabe por onde anda, nunca mais teve dele a menor
notcia. Vtor morto. Mauro mdico. Hugo professor. E ele? e ele?
Gerlane com Amorim. Joubert com uma casa de decoraes, ganhando
dinheiro. De Trsio leu afinal a prometida entrevista, de completa
adeso, anunciando a volta do homem ao poder. E finalmente, de
Antonieta, sabia por meias notcias de seu compromisso com um
diplomata na Europa, pretendiam casar-se em breve. De maneira que
todos se arranjavam, se acomodavam s exigncias da vida, abriam com
o corpo sua passagem, iam vivendo. O tempo j no tinha importncia:
no se contava seno em anos, para que se pudesse ver a curva dos
dias com mais perspectiva, j convertidos em experincia... Eis afinal o
que Toledo lhe quisera dizer e no conseguira. Numa idade em que os
outros mal comeam a existir, sem perceber atingia vorazmente a parte
mais definitiva de si mesmo.
      -- Sou quase feliz -- reconheceu, espantado, na sua nova frmula
de viver. Resolveu escrever uma carta para sua me, dando e pedindo
notcias.
      Em alguma parte de sua vida.
      -- Como  que ele vai se chamar?
      Ficou inesperadamente comovido no batizado do filho de Misael.
      -- Voc  o meu melhor amigo, Misael.
      -- Ora, deixe disso, compadre. Agora vamos at l em casa que
vai haver uns docinhos.
      Em alguma parte.
      -- Eu vou fazer uma viagem -- comunicou de sbito. O outro se
espantou:
      -- Viagem? Para onde?
      -- Tentar a vida noutro lugar. Antes tenho que cumprir uma
promessa.
        -- O que voc est dizendo?
        -- Nada. Olhe, sua promoo vai sair, h uma vaga. Pedi
demisso hoje.
        -- No! Voc no fez isso! -- e os olhos do amigo se encheram de
lgrimas.
        Naquele mesmo dia arrumou suas coisas na mala, pagou a conta
e deixou o hotel. Sentia-se mesmo como na iminncia de uma longa
viagem -- tomou um txi para o centro. Diante da ladeira de pedras j
familiares se deteve, respirou fundo: eu podia subir de joelhos esta aqui
mesmo, pensou, e sorriu. Avistou,  porta do convento, a figura do
monge que, j avisado, o esperava, acenando para ele. De sbito uma
lembrana perdida lhe veio da infncia e comeou a rir, enquanto se
aproximava do amigo.
        -- Mas que milagre foi esse... De que voc est rindo?
        -- Tnhamos um encontro -- explicou. -- Mauro, voc e eu. No
ginsio, se lembra? Voc era o terceiro. Exatamente voc.
        O monge no se lembrava.
        -- S eu fui... Mas no tem importncia.
        -- No acreditei que voc viesse.
        -- Vim por um ou dois dias. Depois...
        Calou-se. No tinha importncia tambm o que lhe aconteceria
depois.


                                                          Rio, maro de 54 -- julho de 56


                                                                                                    2




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  Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes
Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer
receb-lo em nosso grupo.
                    NDICE




              PRIMEIRA PARTE
              A    PROCURA

       I -- O Ponto de Partida
   II -- A Gerao Espontnea
            III -- O Escolhido


               SEGUNDA PARTE

               O ENCONTRO

I -- Os Movimentos Simulados
              II -- O Afogado
              III -- A Viagem
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                   SEDEGRA -- RIO
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